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O Silêncio das Lápides e o Rugido do Trovão

A manhã em São Paulo havia despertado com aquele mormaço pesado, prenunciando uma tempestade que se recusava a cair. No apartamento de luxo de Emanuel, o clima era igualmente denso. Sara circulava pela cozinha apenas de camisola de seda e saltos, falando incessantemente ao celular sobre um erro de faturamento em uma das unidades do estúdio em Miami, enquanto Emanuel, sentado à mesa, encarava o visor do seu relógio com uma expressão que beirava a fúria pura.

— Ela não atende, Sara — disse Emanuel, interrompendo o monólogo da loira. Sua voz era um rosnado baixo, o tipo de tom que fazia seus funcionários tremerem.

Sara desligou o telefone e olhou para ele, ajeitando o busto siliconado que parecia querer pular para fora do decote.

— Calma, Manu. A Duda deve estar em alguma biblioteca mofada ou olhando algum quadro de gente morta. Você sabe como ela é... lenta.

— Ela saiu de casa às sete da manhã. Os pais dela ligaram dizendo que ela não avisou para onde ia, apenas que tinha uma etapa importante da pesquisa — Emanuel levantou-se, a tensão visível nos músculos dos braços cobertos por tatuagens. — E hoje é o dia daquela maldita lenda da Noiva de novo. Se ela tiver ido para algum lugar isolado sem me avisar...

— Ai, credo! — Sara estremeceu, abraçando o próprio corpo. — Depois daquele susto em Paranapiacaba, eu não quero nem ouvir a palavra "noiva". Aquela menina tem um gosto por defunto que me dá arrepios. Se ela sumir no meio de um matagal desses, eu não vou procurar!

Emanuel não deu ouvidos. Ele pegou a chave do carro e o celular. Ele conhecia Eduarda. Sabia que, por trás daquela fachada manhosa e frágil, existia uma teimosia silenciosa que era quase impossível de dobrar. Ela se sentira sufocada pela interrupção dele no cemitério ferroviário e, em sua mente romântica e infantil, provavelmente achava que "precisava de espaço" para se conectar com o além.

Enquanto isso, a quilômetros dali, o cenário era de uma paz absoluta para Eduarda. Ela estava sentada em um banco de pedra no Cemitério da Consolação, um dos mais antigos e artísticos da cidade. Para ela, aquilo não era um lugar de morte, mas um museu a céu aberto. O silêncio era interrompido apenas pelo canto dos pássaros e pelo farfalhar das árvores centenárias.

Ela passara a manhã conversando com um senhor idoso, um dos zeladores que conhecia cada fresta daquele lugar. Ele lhe contara detalhes sobre os mausoléus das famílias aristocráticas e, claro, sobre as lendas de moças que morreram de coração partido.

— É tão poético — murmurou Eduarda para si mesma, acariciando a capa de seu caderno de anotações. — Eles não entendem. O Manu só quer me proteger do que ele não vê, e a Sara... bem, a Sara só vê o que brilha.

Eduarda sentia-se vitoriosa. Pela primeira vez, ela não havia pedido permissão. Não havia aguentado as reclamações de Sara sobre a lama ou a impaciência de Emanuel com o tempo. Ela passara o dia visitando três locais diferentes: uma igreja com criptas abertas à visitação, um antiquário especializado em joias de luto e, agora, o cemitério. Ela se sentia preenchida, uma pesquisadora de verdade, mergulhada na estética gótica que tanto amava.

Ela olhou para o celular na bolsa. Havia quarenta chamadas perdidas de Emanuel e dez mensagens histéricas de Sara. Eduarda fez um biquinho manhoso, sentindo uma pontinha de culpa, mas logo a afastou. "Só mais dez minutos", pensou ela. "A luz sobre aquele anjo de mármore está perfeita para uma foto".

A tempestade finalmente desabou no início da tarde. Raios cortavam o céu escurecido quando Emanuel estacionou o SUV de forma brusca na entrada do cemitério que ele, por puro instinto e conhecimento dos hábitos de Eduarda, decidiu checar por último. Sara estava no banco do carona, quase encolhida no assoalho do carro.

— Eu não vou descer, Emanuel! — gritou ela, enquanto o trovão ribombava. — Está chovendo canivete e esse lugar é mal-assombrado! Eu vou ter um treco!

— Fique aí e tranque as portas — ordenou Emanuel, saindo do carro sem nem se preocupar com a chuva que instantaneamente encharcou sua camiseta preta, colando-a ao corpo forte.

Ele entrou no cemitério como um predador. Seus olhos varriam as alamedas entre as estátuas de bronze e pedra. Quando ele a viu, sentada sob o beiral de um mausoléu imponente, protegendo seus livros da chuva com a própria saída de praia, o alívio e a raiva colidiram em seu peito.

— Eduarda! — O grito dele cortou o som da chuva.

Ela deu um pulo, deixando o caderno cair. Ao ver Emanuel caminhando em sua direção, parecendo uma força da natureza enfurecida, Eduarda sentiu o coração disparar. Ela tentou fazer sua melhor expressão de desamparo, os olhos grandes e úmidos.

— Manu... você me achou... — disse ela, com a voz mais doce e trêmula que conseguiu produzir.

Emanuel parou na frente dela, a água escorrendo pelo rosto, os olhos faiscando.

— "Você me achou"? É isso o que você tem a dizer? — Ele se inclinou, apoiando as mãos nos joelhos para ficar na altura dela, a voz carregada de uma autoridade perigosa. — Você tem noção do que eu passei? Do que eu pensei que pudesse ter acontecido com você sozinha, sem avisar ninguém, em um lugar desses?

— Eu estava trabalhando, Manu... — ela começou, esticando a mão para tocar o braço dele, tentando acalmá-lo com sua manha habitual. — Foi um dia tão lindo. Eu aprendi tanto... as pessoas aqui são tão gentis...

— Pessoas mortas, Eduarda! — ele explodiu, levantando-se e puxando-a pelo braço, não com força para machucar, mas com uma firmeza que não aceitava protestos. — Chega dessa palhaçada. Você vai para o carro agora.

— Mas meus livros! — ela choramingou, abraçando o material contra o peito. — Não seja bruto, Manu, você está me assustando...

Emanuel respirou fundo, fechando os olhos por um segundo para não perder o controle total. Ele a pegou pela cintura e a carregou, quase como se ela fosse uma criança, enquanto ela reclamava baixinho e se aninhava em seu pescoço, tentando usar o calor do corpo dele contra o frio da chuva.

Quando chegaram ao carro, Sara abriu a porta traseira com os olhos arregalados.

— Você está viva! — exclamou a loira, mas logo mudou o tom ao ver o estado de Eduarda. — E está cheia de terra de cemitério! Emanuel, não deixa ela encostar no couro do banco! Essa menina trouxe encosto com ela, eu estou sentindo!

— Cala a boca, Sara! — Emanuel rugiu, colocando Eduarda no banco de trás e batendo a porta.

O caminho de volta para o apartamento foi um inferno de silêncio e soluços baixos. Eduarda chorava de forma contida, aquela lágrima silenciosa que ela sabia que desarmava Emanuel. Mas, desta vez, ele estava rígido. Suas mãos apertavam o volante com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos.

Ao entrarem no apartamento, Sara correu para o bar, servindo-se de uma dose generosa de gim.

— Eu nunca mais passo por isso! — disse Sara, a voz subindo de tom. — Emanuel, essa menina é louca! Ela gosta de lixo, de morte, de coisa velha! Eu passei o dia achando que ia ter que ir em um velório de verdade! Olha para ela, nem parece que está arrependida!

Eduarda estava parada no meio da sala, encharcada, o vestido branco de linho agora transparente e grudado ao corpo esguio. Ela olhou para Sara com um desdém suave.

— Você não entende nada de arte, Sara. Você só entende de números e de silicone. O dia hoje foi o mais importante da minha pesquisa. Eu não preciso da sua aprovação.

Sara engasgou com a bebida, chocada com a petulância da "santinha".

— O quê? Emanuel, você ouviu isso? A pirralha está me enfrentando!

— Chega! As duas! — Emanuel deu um soco na mesa de jantar, o som ecoando pelo apartamento moderno. — Sara, vá para o quarto. Agora.

— Mas Emanuel...

— Agora, Sara! — Ele não gritou, mas o tom foi tão gélido que ela não ousou retrucar. Ela pegou sua taça e saiu pisando duro, resmungando sobre como a casa estava "carregada de energias negativas".

Emanuel voltou sua atenção para Eduarda. Ela continuava ali, pequena, trêmula, com aquele olhar de quem esperava um castigo ou um abraço.

— Por que você fez isso? — perguntou ele, a voz agora baixa e exausta.

— Porque você me trata como uma boneca, Manu — disse ela, aproximando-se dele com passos lentos, deixando um rastro de água no chão. Ela tocou o peito dele, sentindo o batimento cardíaco acelerado sob a pele tatuada. — Você e a Sara... vocês são tão barulhentos. Eu precisava de silêncio. Eu precisava sentir que sou capaz de fazer algo sozinha.

— Você não está pronta para fazer nada sozinha se não tem a responsabilidade de avisar quem te ama — ele rebateu, mas sua mão subiu automaticamente para acariciar o rosto dela. — Eu quase morri de preocupação, Eduarda. Eu imaginei você caída em algum lugar, ou algum maníaco te abordando...

— Ninguém me abordou — ela sussurrou, fazendo um carinho na nuca dele, ficando na ponta dos pés. — Eu conversei com um senhorzinho tão fofo. Ele me contou sobre uma noiva que foi enterrada com o vestido de casamento porque o noivo morreu no altar. Você não acha isso romântico?

— Eu acho isso mórbido — disse ele, embora estivesse começando a ceder ao toque dela. — E acho que você é a mulher mais teimosa que eu já conheci.

— Você me perdoa? — Ela colou o corpo ao dele, indiferente ao fato de ambos estarem molhados. — Eu trouxe flores para você. Estão na minha bolsa. Eu colhi de uma árvore que fica perto de um mausoléu lindo.

Emanuel soltou uma risada amarga, balançando a cabeça.

— Você me traz flores de cemitério e espera que eu fique feliz?

— São flores de vida, Manu. Elas cresceram no meio da saudade.

Ele a puxou para um beijo urgente, uma mistura de alívio e punição. Eduarda correspondeu com toda a sua doçura manhosa, sentindo que, apesar da bronca, ela havia conseguido o que queria: sua pesquisa estava avançando e ela ainda tinha Emanuel na palma de sua mão.

No quarto ao lado, Sara ouvia o silêncio que se seguira à discussão e estremecia. Ela pegou um frasco de perfume caro e começou a borrifar pelo quarto, tentando apagar qualquer "cheiro de morte" que Eduarda pudesse ter trazido.

— Aquela garota ainda vai acabar com a gente — resmungou Sara, olhando-se no espelho e ajeitando o cabelo. — Mas se ela acha que vai me vencer no cansaço, ela não conhece a administração de Sara Albuquerque.

Enquanto a chuva continuava a açoitar as janelas do apartamento, o equilíbrio instável entre os três se restabelecia. Eduarda, em sua mente, já planejava a próxima escapada. Emanuel, em sua mente, já planejava como colocar um rastreador no celular dela. E Sara, em sua mente, planejava como transformar aquele interesse mórbido de Eduarda em algo lucrativo, talvez uma linha de tatuagens góticas exclusivas para o estúdio.

Eram três mundos que não deveriam se tocar, mas que, sob o comando de Emanuel, colidiam e se fundiam em uma rotina que era tudo, menos monótona. Eduarda sorriu contra os lábios de Emanuel. Ela adorava quando ele ficava bravo; isso significava que ele ainda estava sob o seu feitiço. E para ela, isso era mais valioso do que qualquer lenda de noiva fantasma.