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O Pálido Beijo de Ophelia
O som de uma tosse seca e persistente ecoava pelo corredor do apartamento de Emanuel, quebrando o silêncio da madrugada. Não era uma tosse comum, de quem engasgara com o café ou de quem sofria com a poluição de São Paulo; era um som profundo, que parecia vir de algum lugar antigo e melancólico dentro do peito de Eduarda.
Emanuel sentou-se na beira da cama, o rosto marcado pelo cansaço e pela preocupação. Ele olhou para a pequena figura encolhida sob os lençóis de linho branco. Eduarda estava mais pálida do que o habitual, se é que isso era possível. Suas bochechas ostentavam duas manchas rosadas febris, e seus olhos, grandes e úmidos, brilhavam com uma intensidade que o assustava.
— Duda, você precisa ir ao médico agora. Já faz três dias que essa febre não baixa — disse Emanuel, sua voz carregada de uma autoridade que tentava esconder o pânico.
Eduarda soltou um suspiro longo, quase teatral, e estendeu uma mão trêmula para tocar o braço tatuado dele. Suas pontas dos dedos queimavam.
— Não seja tão pragmático, Manu... — ela sussurrou, a voz rouca e melodiosa. — Você não sente o ar aqui? Está pesado, carregado de história. Eu sinto como se estivesse vivendo um capítulo de *A Dama das Camélias*. É uma fraqueza tão... pura.
Emanuel fechou os olhos por um segundo, contando até dez. A tendência de Eduarda de romantizar a própria dor estava atingindo níveis perigosos.
— Eduarda, isso não é um livro de Alexandre Dumas. É a vida real. Você está doente, está perdendo peso e essa tosse está piorando.
A porta do quarto se abriu bruscamente, revelando Sara. Ela usava um robe de seda preta com plumas nos punhos, segurando um termômetro digital como se fosse uma arma. Ela não batia na porta; ela simplesmente entrava, dominando o espaço com seu perfume caro e sua impaciência.
— Emanuel, eu liguei para o Dr. Arnaldo. Ele está esperando a gente no pronto-socorro do Sírio — anunciou Sara, cruzando os braços sobre o busto. — Eu não vou passar mais uma noite ouvindo esse som de pulmão estourando. Isso está acabando com o meu sono de beleza e, honestamente, esse cheiro de chá de camomila e doença está impregnando as minhas cortinas.
Eduarda olhou para Sara com um desdém suave, quase piedoso.
— Você não entende, Sara. Há uma beleza na tísica. É a doença dos poetas, dos amantes incompreendidos. Chopin, Álvares de Azevedo... eles consumiram a própria vida em prol da arte. Eu me sinto... etérea.
Sara soltou uma gargalhada alta e vulgar, que pareceu vibrar nas paredes do quarto.
— Etérea? Duda, querida, você está parecendo um rascunho de cadáver que esqueceu de deitar. "Tísica"? Isso se chama bactéria, meu amor. E se você acha que tossir sangue em um lenço de renda é chique, espere até ver o tamanho da agulha que eles vão usar para tirar o líquido do seu pulmão.
— Sara, chega! — Emanuel levantou-se, ficando entre as duas. — Eduarda, levanta. Eu vou te carregar se for preciso. Nós vamos ao hospital agora.
— Eu não quero ir — choramingou Eduarda, escondendo o rosto no travesseiro com sua manha habitual. — Eu quero ficar aqui, na penumbra. Quero que você leia Lord Byron para mim até eu adormecer.
Emanuel não discutiu. Ele afastou os lençóis, pegou Eduarda no colo — percebendo, com um aperto no coração, como ela estava assustadoramente leve — e caminhou em direção à saída. Sara ia à frente, pegando a bolsa de grife e as chaves do carro, agindo como a administradora eficiente que era, mesmo em meio ao caos emocional.
No hospital, o diagnóstico preliminar trouxe o nome que Eduarda tanto ansiava e que Emanuel tanto temia: suspeita de tuberculose. O médico solicitou exames urgentes e isolamento imediato até que os resultados das culturas fossem concluídos.
Enquanto esperavam em um quarto privativo, Eduarda parecia radiante em sua melancolia. Ela insistiu que Emanuel comprasse um caderno de capa de couro e uma caneta-tinteiro.
— Eu preciso registrar o declínio da minha vitalidade — disse ela, recostada nos travesseiros brancos do hospital, que pareciam fundir-se com sua pele. — Manu, veja como as minhas mãos estão translúcidas. Eu consigo ver o azul das veias, como se fossem rios de tinta correndo para o fim.
Emanuel estava sentado na poltrona ao lado, com a cabeça apoiada nas mãos. O estresse de gerenciar seus estúdios ao redor do mundo não era nada comparado ao peso de lidar com a fragilidade de Eduarda.
— Você está me enlouquecendo, Duda. Eu estou aqui morrendo de medo de te perder, e você está preocupada com a cor das suas veias?
— É o meu jeito de lidar, Manu — ela disse, voltando a tossir, um som que rasgava o peito e fazia Emanuel pular da cadeira. — A morte não é o fim, é apenas a moldura mais bonita para a vida.
Sara entrou no quarto trazendo uma sacola de compras de uma loja de departamentos de luxo. Ela parecia ignorar completamente a atmosfera de "velório poético" que Eduarda tentava criar.
— Se você vai ser a "Noiva do Cemitério", que seja com estilo — disse Sara, jogando uma camisola de seda italiana, com rendas feitas à mão, sobre os pés da cama. — Eu não suporto ver você nesse avental de hospital horroroso. Se o Dr. Arnaldo vier te examinar, pelo menos ele vai ver que você tem uma namorada com bom gosto.
Eduarda tocou a seda com as pontas dos dedos, um sorriso pequeno surgindo em seus lábios.
— É linda, Sara. Parece um sudário real.
— É uma camisola de dois mil reais, Eduarda! — Sara exclamou, sentando-se na ponta da cama e começando a lixar as unhas. — Pare de falar de sudários e fantasmas. Eu já falei com o pessoal da administração do estúdio. Emanuel vai tirar uns dias de folga para ficar aqui com você, e eu vou cuidar da papelada de Miami. Mas eu juro, se você começar a recitar poemas sobre túmulos para os enfermeiros, eu vou pedir para te sedarem.
— Você é tão bruta, Sara — murmurou Eduarda, mas havia um brilho de afeto em seus olhos. — Você usa sua vulgaridade como um escudo contra o que não pode controlar.
— E você usa esse seu teatrinho de "vítima do destino" para fazer o Emanuel de gato e sapato — rebateu Sara, sem tirar os olhos da unha. — Mas a verdade é que, se você morrer, eu vou ficar com um armário cheio de sapatos que você nunca usou e um namorado insuportável de luto. Então, trate de tomar esses antibióticos.
Emanuel observava a interação entre as duas. Era bizarro, mas naquele momento de crise, a agressividade prática de Sara e o misticismo doentio de Eduarda formavam um equilíbrio que impedia que ele desmoronasse. Sara resolvia os problemas logísticos, enquanto Eduarda, à sua maneira estranha, tentava dar um sentido transcendental ao sofrimento.
Os dias no hospital foram um teste de resistência. Eduarda passava horas escrevendo em seu caderno, desenhando anjos caídos e escrevendo versos sobre "o beijo pálido da tísica". Ela recusava-se a ver televisão ou usar o celular, preferindo observar a chuva pela janela do hospital, comparando as gotas de água a lágrimas de almas esquecidas.
Emanuel, por outro lado, tornara-se uma sombra de si mesmo. Ele raramente saía do lado dela, dormindo na poltrona desconfortável, acordando a cada tosse, a cada gemido febril.
— Manu, você precisa ir para casa tomar um banho — disse Eduarda em uma tarde cinzenta, enquanto ele segurava sua mão. — Você está com olheiras profundas. Parece um personagem de Edgar Allan Poe. Está ficando atraente de um jeito sombrio.
— Eu não vou a lugar nenhum, Duda.
— Vá — insistiu ela, manhosa, fazendo um carinho na nuca dele. — Sara está vindo para cá. Ela disse que vai trazer "comida de verdade" escondida na bolsa, porque a dieta do hospital é um insulto à estética dela. Vá descansar. Eu estarei aqui, flutuando entre os mundos.
Emanuel cedeu. Ele precisava de ar. Ao sair do quarto, encontrou Sara no corredor, discutindo fervorosamente ao telefone sobre um carregamento de tintas retido na alfândega. Quando ela o viu, desligou o aparelho imediatamente.
— Você está um lixo, Emanuel — disse ela, aproximando-se e ajeitando a gola da camiseta dele. — Vá para casa. Eu fico com a "Ophelia" por algumas horas.
— Sara... cuida dela. Não deixa ela se perder nessas ideias.
— Eu vou cuidar, Manu. Eu trouxe um gloss novo para ela. Se ela vai tossir, que os lábios estejam brilhantes. E eu trouxe o meu iPad com uma série de fofocas de Hollywood. Vamos ver se o drama dos vivos anima essa gótica de boutique.
Emanuel sorriu, sentindo um peso sair de seus ombros. Ele sabia que Sara, com seu jeito impaciente e vulgar, era a única pessoa capaz de trazer Eduarda de volta da beira do abismo poético onde ela adorava se equilibrar.
Dentro do quarto, o encontro das duas foi, como sempre, um choque de realidades.
— Olhe só para você — disse Sara, entrando e jogando a bolsa de grife na poltrona. — O hospital está cheirando a desinfetante e você está aqui com essa cara de quem está esperando o Romeu tomar o veneno.
— O veneno já está nos meus pulmões, Sara — disse Eduarda, com um sorriso fraco. — Eu sinto que estou me tornando parte da névoa.
— A única coisa que você vai se tornar é uma pessoa saudável e muito endividada comigo pelas camisolas que eu comprei — Sara sentou-se na beira da cama e abriu uma marmita de um restaurante italiano caríssimo. — Coma isso. É ravióli de abóbora. Nada de névoa, apenas carboidratos.
Eduarda aceitou uma garfada, mastigando lentamente.
— Sabe, Sara... eu tive um sonho. Sonhei que nós três estávamos em um jardim de estátuas quebradas. Você estava tentando pintar as estátuas de dourado, e o Manu estava tentando colá-las. E eu... eu era apenas a hera que crescia sobre elas, unindo tudo.
Sara parou de comer e olhou para Eduarda por um longo tempo. Seus olhos azuis, geralmente tão duros e focais, suavizaram-se por um breve instante.
— Você não é a hera, Duda. Você é a dor de cabeça que nos mantém unidos. Sem você, o Emanuel seria apenas um tatuador rico e mal-humorado, e eu seria apenas uma administradora ambiciosa e solitária. Você é o que dá cor a esse cinza todo, mesmo que seja uma cor pálida de cemitério.
Eduarda sentiu os olhos encherem-se de lágrimas. Ela estendeu a mão e apertou a mão de Sara, cujas unhas estavam pintadas de um vermelho sangue vibrante.
— Você me ama, não ama, Sara? Do seu jeito torto e barulhento.
— Eu amo o Emanuel — Sara desconversou, voltando à sua postura defensiva. — E como ele te ama, eu sou obrigada a tolerar suas esquisitices para que ele não fique um viúvo insuportável. Agora coma o ravióli antes que eu mude de ideia e coma tudo sozinha.
A noite caiu sobre o hospital, e a tempestade lá fora parecia validar toda a melancolia gótica de Eduarda. Mas, dentro do quarto, sob a luz estéril da lâmpada fluorescente, o cenário era diferente. Sara estava deitada na beira da cama, com os pés para fora, mostrando a Eduarda vídeos de desfiles de moda em Paris, comentando sobre como as modelos eram "tão magras quanto você, mas com roupas muito melhores".
Eduarda ria baixinho, uma risada que ainda terminava em tosse, mas que tinha um brilho de vida que não vinha dos livros de poesia.
Quando os resultados dos exames finalmente chegaram, dois dias depois, o diagnóstico de tuberculose foi confirmado, mas em um estágio inicial e perfeitamente tratável. O Dr. Arnaldo prescreveu um coquetel de antibióticos e repouso absoluto.
— Você vai ter que ficar em casa, Eduarda. Nada de cemitérios, nada de porões mofados e, pelo amor de Deus, nada de ficar na chuva esperando a "névoa" — disse o médico, olhando severamente para ela.
— Eu vou cuidar dela, doutor — garantiu Emanuel, sentindo um alívio tão grande que suas pernas pareciam de gelatina. — Ela vai morar comigo agora. Definitivamente. Não vou deixá-la sair da minha vista.
— E eu vou fiscalizar os remédios — acrescentou Sara. — Se ela esquecer uma dose, eu enfio a pílula na goela dela com um sapato de salto.
Eduarda olhou para os dois, sentindo-se protegida, amada e, de certa forma, vitoriosa. Sua "doença poética" havia finalmente forçado a união definitiva que Emanuel tanto queria. Ela voltaria para o apartamento dele, para a biblioteca que ele construíra para ela, e teria Sara como sua guardiã barulhenta e Emanuel como seu porto seguro.
Ao sair do hospital, carregada por Emanuel, Eduarda olhou para o céu cinzento de São Paulo. Ela ainda se sentia fraca, sua respiração ainda era um sussurro, mas o desejo de viver — de ver o próximo desfile que Sara comentara, de ver a próxima tatuagem que Emanuel desenharia — era mais forte do que qualquer apelo do além.
— Manu? — ela chamou, enquanto ele a colocava no banco de trás do carro.
— Oi, pequena.
— Você pode comprar aquele livro de poemas do Castro Alves para mim? Só para eu ler enquanto recupero as forças.
Emanuel olhou para Sara, que revirou os olhos e deu de ombros.
— Compro, Duda. Compro o livro que você quiser. Mas prometa que vai comer todo o jantar que a Sara encomendar.
— Prometo — disse ela, aninhando-se no banco. — Afinal, uma musa precisa de sustento para continuar inspirando.
O carro se afastou do hospital, mergulhando no trânsito frenético da cidade. Eduarda fechou os olhos, ouvindo a discussão de Sara ao telefone e sentindo a mão firme de Emanuel sobre a sua. A tuberculose não era mais um mito gótico ou uma sentença romântica; era apenas um obstáculo que eles enfrentariam juntos, entre o brilho do silicone e a sombra da alma, no equilíbrio imperfeito que era a vida deles três.