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O Jantar das Sombras e das Luzes
O convite de Beatriz Vane chegou em um papel de gramatura pesada, com bordas douradas e um selo de cera negra. Emanuel encarou o envelope sobre a mesa de centro como se fosse um artefato explosivo. Ao seu lado, Eduarda vibrava de uma forma contida, seus olhos castanhos brilhando com uma expectativa que beirava a adoração.
— Ela foi tão gentil, Manu. Os meus pais adoraram a ideia. Eles acham a Beatriz fascinante, e ela quer muito conhecer você e a Sara formalmente — disse Eduarda, aproximando-se dele e passando os braços por sua cintura, apoiando o queixo em seu peito. — Por favor, vamos? Ela prometeu que não haverá rituais, apenas um jantar de verdade.
Sara, que retocava o batom diante do espelho da sala, soltou uma risada anasalada.
— "Um jantar de verdade"? O que ela vai servir? Sopa de morcego e vinho de cemitério? Emanuel, eu não aguento mais essas excentricidades. Eu ainda tenho pesadelos com aquele casarão mofado.
— Ela não é doida, Sara! — Eduarda protestou, fazendo um biquinho manhoso. — Ela só é... artística. E ela é uma das maiores colecionadoras de arte sacra do país. Os meus pais disseram que seria uma ofensa recusar o convite de uma Vane.
Emanuel suspirou, sentindo o peso da responsabilidade. Ele olhou para Eduarda, tão frágil e entusiasmada, e depois para Sara, que apesar das reclamações, já estava escolhendo um vestido que provavelmente custava o preço de um carro popular para não ser ofuscada pela anfitriã.
— Tudo bem — cedeu Emanuel. — Nós vamos. Mas se eu vir qualquer coisa que pareça um sacrifício humano ou uma sessão espírita, nós saímos na hora.
***
O casarão em Santa Cecília parecia menos ameaçador sob a luz do início da noite, embora a arquitetura eclética ainda impusesse um respeito sombrio. Quando o trio chegou, os pais de Eduarda, Roberto e Helena, já estavam lá. Eles eram jovens, modernos e pareciam estar se divertindo imensamente com a decoração do lugar.
— Emanuel! Sara! — Helena, a mãe de Eduarda, veio ao encontro deles, elegante em um conjunto de seda verde. — Que bom que vieram. Beatriz é uma mulher extraordinária. Vocês precisam ver a biblioteca dela.
Beatriz surgiu no topo da escada de carvalho. Desta vez, ela não parecia a figura espectral do porão da galeria. Usava um vestido longo de veludo azul-profundo e o cabelo ruivo estava preso em um penteado sofisticado. Ela sorriu, e Emanuel notou que, longe da penumbra mística, ela era apenas uma mulher excêntrica com um gosto refinado e uma presença magnética.
— Sejam bem-vindos ao meu santuário — disse Beatriz, descendo os degraus com uma graça felina. — Emanuel, é um prazer recebê-lo em condições mais... civilizadas. E Sara, você está deslumbrante. O rosa choque realmente desafia a monotonia desta casa.
Sara arqueou uma sobrancelha, surpresa com o elogio direto e a falta de qualquer "vibe" assustadora.
— Obrigada. Eu tento trazer um pouco de vida para onde quer que eu vá — respondeu Sara, com sua confiança habitual, embora ainda mantivesse uma distância segura das estátuas de bronze que adornavam o hall.
O jantar foi servido em uma sala de jantar imensa, onde uma mesa de mogno acomodava todos com folga. Para a surpresa de Emanuel e o alívio de Sara, a comida era excelente: um *boeuf bourguignon* impecável acompanhado de vinhos que Emanuel reconheceu como sendo de safras raríssimas.
— Eu peço desculpas pelo susto no outro dia — Beatriz começou, servindo-se de um pouco de vinho. — Eu me empolgo com a estética da melancolia. Mas Eduarda me contou o quanto você é protetor, Emanuel. É uma qualidade rara hoje em dia.
— Eu apenas tento manter os pés dela no chão — Emanuel respondeu, observando Eduarda, que parecia estar em um transe de felicidade entre seus pais e sua nova mentora. — Às vezes ela flutua demais para lugares onde a realidade não chega.
— E a realidade é tão sem graça, não é? — Roberto, o pai de Eduarda, interveio com um sorriso brincalhão. — Nós sempre incentivamos a Duda a explorar o mundo interno dela. Mas admito, Emanuel, que ter você por perto nos deixa mais tranquilos. Você é a âncora que ela precisa.
— Âncora? — Sara interveio, soltando uma risadinha. — O Manu é o rebocador inteiro! Se não fosse por ele, a Duda já teria virado fumaça. E se não fosse por mim, o Manu estaria tatuando em uma caverna.
Beatriz riu, um som cristalino que não combinava com a aura sombria que Eduarda descrevia.
— Gosto de você, Sara. Você é honesta. O mundo precisa de mais pessoas que não se desculpam por serem brilhantes e barulhentas.
— Finalmente alguém que entende! — exclamou Sara, levantando sua taça. — Emanuel vive reclamando que eu sou "demais".
— Você é o "demais" que mantém o motor funcionando, Sara — disse Emanuel, dando um sorriso raro e sincero para a loira. — Mas às vezes o motor precisa de um pouco de óleo de silêncio.
Eduarda, sentindo que o clima estava mais leve do que nunca, inclinou-se para Beatriz.
— Beatriz, você prometeu mostrar para o Manu os esboços originais daquela série sobre as bailarinas de Degas... a parte que ninguém vê.
— Ah, sim. A face oculta do esforço — Beatriz levantou-se. — Por que não tomamos o café na biblioteca? Tenho algo que vai interessar até mesmo a você, Sara. Uma coleção de joias vitorianas feitas de cabelo humano, mas cravejadas com diamantes de sangue.
Sara hesitou por um segundo, o asco lutando contra a curiosidade por diamantes.
— Diamantes, você disse? — Sara levantou-se também. — Bom, se há pedras preciosas envolvidas, eu posso suportar um pouco de cabelo de gente morta.
A biblioteca de Beatriz era um labirinto de estantes que chegavam ao teto, com escadas de correr e o cheiro reconfortante de papel antigo e couro. Emanuel sentiu uma paz inesperada ali. Era um lugar de conhecimento, não de superstição.
Enquanto Beatriz mostrava as joias para uma Sara fascinada e os pais de Eduarda folheavam atlas antigos, Eduarda puxou Emanuel para um canto, entre duas estantes de História da Arte.
— Viu, Manu? — sussurrou ela, abraçando o braço dele e encostando a cabeça em seu ombro. — Ela é uma pessoa boa. Ela só gosta de coisas que os outros têm medo de olhar.
— Eu admito, ela é uma anfitriã impecável — Emanuel confessou, beijando o topo da cabeça de Eduarda. — E os seus pais parecem adorar o ambiente.
— Eles são modernos, Manu. Eles entendem que a vida tem muitas cores, mesmo as mais escuras — Eduarda olhou para ele com aqueles olhos que sempre pareciam pedir algo. — Você ainda está bravo por eu ter vindo aqui sem avisar?
— Eu nunca consigo ficar bravo com você por muito tempo, Duda. Mas eu fico aterrorizado. O mundo não é um lugar gentil para pessoas tão sensíveis como você.
— Por isso eu tenho você — ela disse, manhosa, subindo na ponta dos pés para selar os lábios nos dele.
O momento foi interrompido por um grito de surpresa de Sara.
— Emanuel! Olha isso! — Sara vinha em direção a eles, segurando um colar que brilhava intensamente sob a luz dos lustres. — Beatriz disse que este diamante pertenceu a uma baronesa que... bom, a história é triste, mas a pedra é incrível! Duda, você ficaria linda com isso, combina com essa sua vibe de "fantasma chique".
Eduarda riu, aproximando-se de Sara. Pela primeira vez em semanas, a tensão entre as duas parecia ter se dissipado, substituída por uma curiosidade compartilhada e pelo prazer de estarem em um lugar que, de formas diferentes, falava com ambas.
Beatriz observava a cena de longe, ao lado dos pais de Eduarda.
— Eles formam um ecossistema curioso, não acham? — comentou Beatriz para Roberto e Helena.
— Emanuel é a força, Sara é a energia e a nossa Eduarda é a alma — Helena respondeu, observando as duas filhas simbólicas e o homem que as mantinha unidas. — É um equilíbrio instável, mas parece funcionar para eles.
— Funciona porque ele as ama sem tentar mudá-las — completou Roberto. — Ele só tenta protegê-las de si mesmas.
O jantar se estendeu por horas, em uma conversa que fluiu entre negócios, arte e histórias de família. Sara acabou dando dicas de administração para Beatriz, que admitiu ter um caos financeiro em suas fundações, enquanto Emanuel conversava com Roberto sobre a expansão dos estúdios de tatuagem para a Europa.
Quando finalmente se despediram, o clima era de uma camaradagem inesperada.
— Obrigada por tudo, Beatriz — disse Eduarda, dando um abraço apertado na anfitriã.
— Venha quando quiser, pequena Wilis — Beatriz sussurrou. — E Emanuel, cuide bem dessas duas. Elas são joias de tipos diferentes, mas ambas precisam de um bom lapidador.
— Eu sei — respondeu Emanuel, apertando a mão de Beatriz com respeito.
No carro, a caminho de casa, o silêncio era confortável. Sara estava recostada no banco de trás, olhando as fotos das joias que tirara em seu celular, enquanto Eduarda dormitava no ombro de Emanuel na frente.
— Sabe, Manu... — Sara começou, a voz mais suave do que o normal. — A Beatriz não é tão ruim. Ela é só... solitária. Acho que ela gosta da Duda porque a Duda não tenta ser normal perto dela.
— E você, Sara? Por que gostou dela? — perguntou Emanuel, olhando-a pelo retrovisor.
— Porque ela me tratou como se eu fosse inteligente, e não apenas um par de pernas — Sara deu de ombros, mas Emanuel viu o brilho de satisfação em seus olhos. — E porque ela tem um gosto impecável para diamantes.
Emanuel sorriu. Ele olhou para a cidade passando pela janela, as luzes de São Paulo piscando como estrelas terrestres. Ele pensou na proposta que faria em breve.
— Duda? — chamou ele baixinho.
— Hum? — ela murmurou, sem abrir os olhos.
— Eu estava pensando... a biblioteca lá em casa. Eu quero que você comece a levar seus livros de verdade. Não só os de pesquisa. Quero que você tenha o seu espaço lá, do seu jeito. Sem pressa, mas eu quero que você se sinta em casa.
Eduarda abriu os olhos, um sorriso doce iluminando seu rosto.
— Você diz isso mesmo com a Sara morando lá?
— Especialmente com a Sara lá — Emanuel disse, olhando para a loira no banco de trás. — Nós precisamos de você, Duda. Para equilibrar o barulho.
— E eu preciso de alguém para criticar o meu gosto musical — Sara brincou, embora seu tom fosse carinhoso. — Pode vir, Duda. Eu prometo que não vou jogar seus livros de fantasma no lixo. Pelo menos não todos.
Eduarda riu, uma risada leve e cristalina que pareceu preencher todo o carro.
— Eu vou, Manu. Eu estou pronta.
Emanuel sentiu um nó de alívio se desfazendo em seu peito. O jantar na casa de Beatriz, que ele temia ser um desastre, havia se tornado a ponte que faltava. Ele tinha suas duas mulheres, cada uma com suas loucuras e belezas, prontas para compartilharem o mesmo teto.
O caminho para casa nunca pareceu tão curto. Emanuel sabia que os desafios não terminariam ali — a convivência entre Sara e Eduarda seria uma batalha diária de temperamentos —, mas por aquela noite, sob o céu nublado da metrópole, ele sentia que tinha finalmente alcançado o controle que tanto buscava. Ou talvez, ele tivesse apenas aceitado que o verdadeiro controle era saber quando deixar a vida fluir entre a sombra e a luz.
Ao estacionar na garagem do prédio, ele olhou para as duas. Sara já estava saindo do carro com sua energia renovada, e Eduarda o esperava com aquele olhar manhoso de quem queria ser carregada. Emanuel sorriu, pegou a mão de Eduarda e, por um momento, sentiu que o mundo era exatamente como deveria ser: complexo, imperfeito e intensamente vivo.