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Cerejas, Saltos e Conflitos
O sol mal havia começado a iluminar as janelas do loft e a atmosfera já estava carregada. O evento no cemitério seria em poucos dias, mas um novo problema havia se instalado no centro da sala de estar, ou melhor, no colo de Eduarda. Maya, geralmente uma criança doce e tranquila, estava com o rosto corado pela febre e os olhos castanhos marejados, recusando qualquer tentativa de alimentação que não fosse o que sua mente infantil havia decidido ser o único remédio aceitável.
— Maya, meu anjo, só uma colher de sopa. A mamãe fez com todo carinho — Eduarda pedia, a voz carregada de uma doçura exausta. Ela estava sentada no sofá, com o cabelo castanho um pouco desarrumado e a expressão de quem não dormia bem há quarenta e oito horas.
— Não quero, mamãe! — Maya choramingou, escondendo o rosto no pescoço de Eduarda. — Quero cereja. E quero o "tetê".
Eduarda suspirou, sentindo o peso da culpa e do cansaço. Maya já tinha quatro anos; o desmame deveria ter sido definitivo há meses, mas a menina era tão manhosa, tão ligada emocionalmente àquele contato, que Eduarda sempre acabava cedendo nos momentos de crise. E agora, com a garganta inflamada e a febre indo e vindo, a resistência da mãe era inexistente.
— Eduarda, você não vai fazer isso de novo — a voz de Emanuel veio da cozinha, firme e cortante. Ele caminhou até a sala com uma caneca de café na mão, observando a cena com uma irritação crescente. — Ela tem quatro anos, Duda. Ela precisa comer comida de verdade para melhorar, não ficar usando você de chupeta humana. E cerejas? Onde eu vou achar cerejas frescas de qualidade a essa hora da manhã?
— Ela está doente, Manu! — Eduarda rebateu, os olhos se enchendo de lágrimas, reagindo à rispidez dele. — Ela não consegue engolir a sopa, diz que dói. A cereja é geladinha, ajuda. E o peito... é o único jeito dela se acalmar e dormir.
— É o único jeito porque você acostumou ela assim — Emanuel retrucou, passando a mão pelos cabelos curtos, visivelmente estressado. — O Arthur tem dois anos e é um furacão, mas pelo menos ele come. A Maya está ficando fraca porque você é mole demais com ela.
Eduarda se encolheu, abraçando Maya com mais força. O conflito direto sempre a machucava, fazendo-a se fechar. Ela não queria brigar, ela só queria que a filha ficasse bem.
Nesse momento, o som rítmico e seco de algo batendo no chão de madeira anunciou a chegada de Sara e Ágata. Sara atravessou o corredor com seu habitual ar de superioridade, mas hoje havia algo diferente. Ágata, a pequena "mini diva" de quatro anos, caminhava ao lado da mãe com uma postura exagerada, tentando manter o equilíbrio sobre um par de sapatinhos de salto alto, brilhantes e barulhentos, que Sara havia comprado em sua última incursão às lojas de grife.
— Bom dia, família! — Sara exclamou, ignorando o clima pesado. Ela usava um conjunto de academia de marca que deixava seu corpo escultural em evidência. — Vejam só que coisa mais linda a minha pequena. Ela insistiu que queria ser alta como a mamãe, então resolvemos o problema.
Ágata deu um giro desajeitado, o salto batendo forte no chão.
— Olha, papai! Eu sou uma princesa grande — a menina disse, com o olhar esnobe que era a marca registrada de Sara.
Emanuel, que já estava no limite com a situação de Maya, sentiu o sangue subir à cabeça ao ver a filha de quatro anos equilibrada em saltos que poderiam torcer seu tornozelo a qualquer momento.
— Sara, o que é isso? — Emanuel perguntou, a voz perigosamente baixa.
— São sapatos novos, Emanuel. Estão na moda em Paris para crianças da idade dela — Sara respondeu, dando de ombros e indo em direção à geladeira. — Não comece com o seu moralismo de classe média.
— Não é moralismo, é bom senso! — Emanuel se aproximou de Ágata e, com um movimento rápido mas cuidadoso, pegou a menina no colo. — Ágata, tire isso agora. Você vai se machucar.
— Não! É meu! A mamãe deu! — Ágata começou a protestar, a voz subindo de tom, pronta para uma das suas famosas crises de estrelismo.
— Sara, você perdeu o juízo? — Emanuel se virou para a loira, que agora examinava as unhas. — Ela tem quatro anos. Esses saltos vão acabar com a postura dela, sem contar o risco de cair e quebrar um braço. Ela não vai usar isso.
— Ah, por favor, Emanuel. É só para fotos e para circular aqui dentro — Sara revirou os olhos, mas o brilho desafiador estava lá. — Você é tão controlador. Deixa a menina se divertir. Enquanto a Eduarda transforma a Maya em um bebê eterno, eu estou criando uma mulher que sabe o que quer.
— Você está criando uma criança fútil que não consegue andar sem o risco de se lesionar — Emanuel rebateu, colocando Ágata no sofá e começando a desamarrar os sapatos, ignorando os chutes e gritos da menina. — Acabou. Esses sapatos vão para o lixo.
— Se você jogar fora, eu compro dez pares iguais — Sara disse, cruzando os braços sobre os seios siliconados, o rosto assumindo uma expressão de fúria contida. — Você não manda no que eu compro para a minha filha.
O caos estava completo. Ágata chorava pelo sapato, Maya choramingava pela febre e pelo desejo de cerejas, e Emanuel estava no centro de um furacão emocional que ele não conseguia mais administrar com lógica.
— Chega! — Emanuel gritou, fazendo o silêncio cair por um breve segundo. — Sara, os saltos ficam guardados até ela ter idade para isso. Ponto final. E Eduarda... — Ele olhou para a morena, que estava com o rosto escondido nos cabelos de Maya. — Eu vou buscar as malditas cerejas. Mas quando eu voltar, a Maya vai tomar pelo menos metade dessa sopa, ou eu vou ligar para o pediatra e pedir para internar ela com soro. Entendido?
Eduarda apenas assentiu, trêmula. Ela odiava quando ele usava aquele tom de voz de "dono do estúdio" dentro de casa.
Emanuel pegou as chaves e saiu, batendo a porta com força. O silêncio que ficou era desconfortável. Sara bufou, sentando-se em uma poltrona e pegando o celular.
— Ele está uma pilha por causa desse evento no cemitério — Sara comentou, o tom agora mais calmo, embora ainda ácido. — Ele morre de medo que algo aconteça com você, Duda. E desconta em todo o resto.
Eduarda levantou os olhos, surpresa pela tentativa de conversa de Sara.
— Eu só queria que ele entendesse que eu preciso trabalhar — Eduarda murmurou, limpando as lágrimas. — E a Maya... ela realmente não está bem, Sara. Ela queima de febre toda vez que o remédio passa o efeito.
Sara olhou para a pequena Maya, que parecia tão frágil no colo da mãe. Por mais que Sara achasse a maternidade de Eduarda "excessiva" e às vezes um desperdício de tempo, ela não era uma pessoa sem coração. Ela se levantou e caminhou até as duas.
— Deixa eu ver — Sara colocou a mão na testa de Maya. — É, ela está quente. Mas o Emanuel tem razão em uma coisa, Duda. Se ela só mamar, não vai ter forças para combater a infecção.
— Eu sei... mas ela é tão teimosa — Eduarda suspirou, sentindo Maya puxar sua blusa novamente. — Mamãe... tetê... por favor... dói muito.
Eduarda olhou para Sara, um pedido mudo de socorro nos olhos. Sara deu um sorriso de canto, uma mistura de deboche e compreensão.
— Vai lá, Eduarda. Dá o que ela quer logo para ela dormir um pouco. Eu fico de olho no Arthur quando ele acordar. E quanto às cerejas... eu conheço um fornecedor que entrega frutas exóticas em domicílio em vinte minutos. Vou ligar para ele. O Emanuel vai chegar aqui com cerejas de supermercado e vai encontrar a menina já comendo as melhores do mundo.
Eduarda deu um sorriso fraco, sentindo uma pontada de gratidão.
— Obrigada, Sara.
— Não se acostume — Sara piscou, já discando no celular. — Eu só não aguento mais ouvir choro nesta casa. E Ágata, pare de bico! Se você se comportar, eu deixo você usar as minhas joias de verdade para o evento, em vez desses saltos cafonas.
Ágata parou o choro instantaneamente, os olhos brilhando. A manipulação de Sara era uma arte que a menina aprendia rápido.
Eduarda se retirou para o quarto, buscando a penumbra e o silêncio. Ela se deitou com Maya, permitindo que a filha se aninhasse nela. O contato físico era o refúgio de ambas. Enquanto Maya mamava e gradualmente relaxava, Eduarda sentia a tensão deixar seu próprio corpo. Ela sabia que Emanuel ficaria furioso se visse a cena, mas o que ele não entendia era que, para ela, aquele momento não era sobre nutrição, era sobre cura emocional.
Cerca de meia hora depois, a porta do quarto se abriu suavemente. Não era Sara, mas Emanuel. Ele havia voltado mais rápido do que o esperado. Ele levava uma sacola de papel kraft na mão. Ao ver a cena na cama — Eduarda amamentando Maya, ambas quase cochilando — ele parou na soleira.
Sua primeira reação foi a irritação. Ele abriu a boca para dizer algo, mas o silêncio do quarto e a expressão de paz absoluta no rosto da filha o detiveram. Ele caminhou até a beira da cama e sentou-se devagar.
— Eu trouxe as cerejas — ele sussurrou, a voz perdendo a rigidez. — Eram as últimas do empório.
Eduarda abriu os olhos e sorriu para ele, um sorriso cansado e doce.
— A Sara conseguiu umas também. Estão na cozinha.
Emanuel soltou uma risada curta e sem som.
— Claro que ela conseguiu. Aquela mulher tem contatos até no inferno, eu acho.
Ele estendeu a mão e acariciou o rosto de Eduarda, descendo o polegar pela bochecha dela.
— Desculpe por ter gritado — ele murmurou. — Eu só... eu me preocupo demais. Com a Maya, com você indo para aquele lugar à noite, com o Arthur sendo um doido... Parece que o controle está sempre escapando das minhas mãos.
— Você não precisa controlar tudo, Manu — Eduarda disse, pegando a mão dele e levando-os aos lábios. — Às vezes, você só precisa estar aqui.
Emanuel suspirou, inclinando-se para beijar a testa de Eduarda e depois o topo da cabeça de Maya.
— Eu vou preparar as cerejas para ela. Geladas, como você disse.
Ele se levantou, mas antes de sair, olhou para o canto do quarto, onde os saltos de Ágata estavam jogados.
— E eu vou esconder aqueles sapatos da Sara em um lugar onde ela nunca vai achar. Se ela quiser brigar, que brigue comigo.
Eduarda riu baixinho.
— Ela vai te matar, você sabe.
— Eu sobrevivo — Emanuel piscou para ela, a confiança de volta ao olhar. — Já sobrevi aos estúdios de tatuagem mais perigosos de Moscou, acho que aguento a Sara irritada.
Quando ele saiu, Eduarda sentiu que a tempestade havia passado, pelo menos por enquanto. No andar de baixo, o som de Arthur acordando e gritando "Papai! Tatuagem!" ecoou, seguido pelas reclamações de Sara sobre o barulho.
Era uma vida caótica. Duas mulheres que mal se bicavam, três crianças com personalidades fortes e um homem tentando equilibrar o papel de protetor, amante e pai. Mas ali, no calor do quarto, com o cheiro de Maya e a promessa de cerejas geladas, Eduarda sabia que não trocaria aquele caos por nenhuma galeria de arte silenciosa do mundo.
O evento no cemitério ainda seria um desafio. Sara certamente tentaria ofuscar a todos, Emanuel ficaria vigiando cada sombra como um falcão, e ela teria que lidar com sua timidez diante de centenas de pessoas. Mas, olhando para a filha que agora dormia profundamente, Eduarda sentiu que, se eles estivessem juntos, até mesmo uma noite entre os mortos seria cheia de vida.
Lá embaixo, Emanuel encontrou Arthur tentando desenhar com canetinha na perna de Sara, que gritava horrorizada enquanto Ágata filmava a cena com o tablet, rindo da desgraça da mãe. Emanuel apenas suspirou, pegou o filho no colo e começou a lavar as frutas.
— Sara, se você deixar ele desenhar uma fênix no seu silicone, eu prometo não esconder os saltos da Ágata — Emanuel brincou, sentindo a tensão finalmente se dissipar.
— Nem morta, Emanuel! — Sara gritou, limpando a perna com um lenço umedecido. — Mas se você não fizer essa menina comer essas cerejas agora, eu mesma vou comer todas e dizer que foi um fantasma.
A risada de Emanuel preencheu a cozinha, unindo-se aos gritos de Arthur. Era o som da sua família. Imperfeita, barulhenta e complicada, mas inteiramente sua.