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Cartas, Ciúmes e Fraldas de Pano

A manhã na residência de Emanuel começou com o som metálico de fivelas sendo fechadas e o aroma de café forte, mas a calmaria durou pouco. Eduarda estava na área de serviço, lutando com um varal cheio de tecidos coloridos e macios. Desde que Arthur nascera, ela desenvolvera uma obsessão gentil por fraldas ecológicas. Emanuel achava aquilo uma perda de tempo monumental, considerando que ele poderia comprar estoques infinitos de fraldas descartáveis de última geração, mas Eduarda insistia que o toque do algodão orgânico era melhor para a pele sensível do "furacão" da casa.

— Duda, o Arthur escapou de novo! — O grito de Emanuel veio do corredor, seguido pelo som de pés gordinhos batendo no chão.

Arthur, de apenas dois anos, surgiu na lavanderia usando apenas uma dessas fraldas de pano, estampada com pequenos dinossauros, e nada mais. Ele carregava uma das máquinas de tatuagem (desligada e sem agulha) que Emanuel deixara sobre a bancada do escritório caseiro. O menino corria como se tivesse roubado um tesouro sagrado.

— Arthur! Devolve isso para o papai! — Eduarda exclamou, largando o prendedor de roupas e correndo atrás do menino.

Emanuel apareceu logo atrás, com o rosto contraído em uma mistura de desespero e adoração. Quando finalmente cercaram o pequeno no canto da sala, Emanuel o pegou no colo, resgatando seu equipamento de trabalho.

— Ele tem uma fixação perigosa com essas máquinas, Duda. E essa fralda... parece um balão na bunda dele. Como você espera que ele corra direito com esse volume todo? — Emanuel resmungou, embora estivesse beijando o topo da cabeça do filho.

— É melhor para o meio ambiente, Manu, e ele gosta — Eduarda defendeu-se, aproximando-se para ajeitar o pano no quadril do bebê. — Além disso, ele fica adorável.

— Ele fica parecendo um lutador de sumô mirim — Sara comentou, surgindo na sala com Ágata pela mão.

Sara estava impecável, como sempre. Usava um conjunto de alfaiataria branco que realçava seu bronzeado e o loiro platinado dos cabelos. Ágata, por sua vez, vestia um conjunto de tweed rosa, uma réplica infantil de um clássico da Chanel, e segurava uma bolsinha de verniz.

— Bom dia para quem usa descartáveis e não precisa lidar com cheiro de pano sujo — Sara provocou, sentando-se à mesa e abrindo o notebook. — Emanuel, os relatórios de Londres chegaram. A unidade de Camden Town está com um lucro 15% acima do esperado. Mas precisamos discutir a expansão para Berlim.

Emanuel assentiu, ainda com Arthur no colo, mas seus olhos se desviaram para Maya, que entrava na sala em silêncio, arrastando a mochila da escola. A menina parecia mais pálida que o normal, com aquele jeito tímido que sempre despertava o instinto protetor de Emanuel.

— Minha princesa, como foi a escola ontem? — Emanuel perguntou, colocando Arthur no chão e indo até a filha. — Você não me contou nada quando chegou.

Maya olhou para a mãe, buscando apoio. Eduarda, que estava descarregando a mochila da menina, sentiu o coração falhar uma batida. Ela já tinha visto o que havia lá dentro.

— Foi... foi legal, papai — Maya sussurrou, agarrando-se à perna de Eduarda.

Eduarda tentou, discretamente, empurrar uns papéis coloridos para o fundo do compartimento da mochila, mas Emanuel, com seus reflexos treinados e olhar de águia, percebeu o movimento.

— O que é isso, Duda? — Ele se inclinou, esticando a mão.

— Nada, Manu! Só desenhos... atividades de classe — Eduarda disse, a voz subindo uma oitava, denunciando seu nervosismo.

— Desenhos não deixam você com essa cara de quem está escondendo um crime — Emanuel disse, pegando a mochila com firmeza.

Ele abriu o zíper e retirou quatro envelopes pequenos. Eram coloridos, alguns com adesivos de coração, outros com desenhos de dinossauros e carros. Emanuel abriu o primeiro com as mãos levemente trêmulas.

"Para a Maya. Você é a mais bonita da sala. Quer brincar de casinha no recreio? Assinado: Enzo."

O rosto de Emanuel passou do pálido ao vermelho em três segundos. Ele abriu a segunda carta. E a terceira. E a quarta. Todas tinham o mesmo teor acadêmico: declarações de amor de meninos de quatro e cinco anos.

— Quatro? — Emanuel rugiu, a voz ecoando pelo loft. — Quatro cartinhas? Quem são esses moleques? Enzo? Léo? Gabriel? E quem diabos é esse 'Thiago' que diz que vai casar com ela no parquinho?

— Emanuel, calma! São crianças! — Eduarda interveio, tentando pegar as cartas de volta. — É normal nessa idade, eles estão descobrindo a amizade, expressando carinho...

— Carinho o caramba! Isso é assédio! — Emanuel estava possesso, os olhos cinzentos faiscando. — Maya tem quatro anos! Ela não vai casar com ninguém, muito menos com um tal de Thiago que nem sabe escrever o próprio nome direito! Olha isso, o 'T' está ao contrário!

Sara, que até então observava a cena com um sorriso de canto, soltou uma gargalhada alta e debochada.

— Ah, Emanuel, deixe de ser patético. A menina é bonita, puxou a doçura da mãe. É óbvio que os meninos iam cair matando. A Ágata também recebe cartinhas, não é, meu amor?

Ágata, que estava sentada com as pernas cruzadas, olhou para o pai com um desdém que faria uma rainha se sentir pequena.

— Eu não recebo cartinhas, mamãe. Eu recebo presentes. O Pietro me deu um gloss ontem — a menina disse, com uma naturalidade assustadora.

Emanuel virou-se para a filha loira, chocado.

— Um gloss? Ágata, você não tem idade para usar maquiagem e muito menos para aceitar presentes de meninos!

— É orgânico, papai. Não estraga a pele — Ágata respondeu, voltando a mexer no seu tablet de luxo.

Emanuel voltou sua fúria para as cartas de Maya. Ele fez menção de rasgá-las, mas Eduarda foi mais rápida. Ela avançou sobre ele, usando toda a sua "manhosidade" e agilidade silenciosa para arrancar os papéis das mãos dele.

— Não, Manu! Você não vai rasgar as memórias da nossa filha! — Eduarda se encolheu, protegendo as cartas contra o peito. — Você está assustando ela! Olha para a Maya!

Emanuel olhou para baixo. Maya estava com os olhos cheios de lágrimas, o lábio inferior tremendo. O coração do tatuador durão derreteu-se e quebrou-se ao mesmo tempo. Ele se ajoelhou na frente da menina.

— Meu anjo, o papai só... o papai só quer te proteger. Esses meninos não são bons o suficiente para você. Ninguém é.

— Mas o Thiago divide o lanche comigo, papai — Maya soluçou. — Ele me deu o biscoito de chocolate dele.

— Suborno! — Emanuel exclamou, olhando para Eduarda como se tivesse provado uma conspiração internacional. — Viu? Ele está tentando comprar o afeto dela com açúcar!

— Emanuel, chega — Sara interveio, levantando-se e caminhando até eles. Seus saltos estalavam no mármore. — Você está sendo ridículo. Em vez de se preocupar com biscoitos, deveria se preocupar com a reunião na galeria da Duda. E você, Eduarda, pare de esconder essas cartas como se fossem o Santo Graal. Se quer que ela seja independente, ensine-a a escolher o melhor pretendente, não a esconder as coisas do pai maluco.

Emanuel bufou, levantando-se. Ele se sentia cercado por mulheres que ele não conseguia controlar. De um lado, a doçura manipuladora de Eduarda; do outro, a praticidade agressiva de Sara; e agora, suas duas filhas começando a trilhar caminhos que o deixavam aterrorizado.

— Eu vou para o estúdio — Emanuel anunciou, pegando sua jaqueta de couro. — Mas eu quero os nomes completos desses meninos. Vou descobrir quem são os pais. Se forem clientes meus, eles vão ouvir umas verdades.

— Você não vai fazer nada disso — Eduarda disse, ganhando uma coragem súbita enquanto guardava as cartas dentro de um livro de história da arte. — Você vai trabalhar, e à noite vamos todos para o ensaio do evento no cemitério. Sem brigas, Manu. Por favor.

Emanuel olhou para Eduarda. Ela estava ali, pequena, sensível, mas com uma determinação silenciosa que sempre o dobrava. Ele suspirou, derrotado.

— Tudo bem. Mas se eu vir esse Thiago perto dela, eu não respondo por mim.

Ele caminhou até Ágata para lhe dar um beijo de despedida.

— Tchau, minha pequena diva. Comporte-se. E nada de gloss de meninos.

Ágata não respondeu de imediato. Ela esperou o pai se virar para a porta e, em um gesto de rebeldia pura que deixou até Sara de queixo caído, a menina esticou a língua para as costas de Emanuel, fazendo uma careta perfeitamente calculada.

Sara arregalou os olhos, mas não conseguiu conter um risinho abafado.

— Ágata! — Sara repreendeu, embora sem nenhuma autoridade real. — Que coisa feia! Onde você aprendeu isso?

— Na televisão, mamãe. A vilã fez isso para o rei — Ágata respondeu, voltando à sua postura de princesa.

Emanuel, que sentira um calafrio mas não vira o gesto, parou na porta e olhou para trás uma última vez. Ele viu Eduarda consolando Maya, Sara tentando esconder o riso e Arthur correndo pela sala novamente, desta vez tendo conseguido se livrar da fralda de pano e estando completamente pelado.

— Eduarda! O furacão está solto e sem proteção ambiental! — Emanuel gritou, apontando para o filho que agora tentava escalar o sofá de veludo.

— Ai meu Deus, Arthur! — Eduarda correu atrás do menino.

Emanuel saiu do loft sentindo que sua cabeça ia explodir. Ele amava aquela vida, amava aquelas mulheres e aquelas crianças com uma intensidade que chegava a doer, mas às vezes sentia que um estúdio de tatuagem cheio de motoqueiros embriagados era um lugar muito mais calmo e previsível do que sua própria casa.

Enquanto entrava no elevador, ele pegou o celular e digitou uma mensagem para seu braço direito no estúdio principal: "Descubra quem é o dono da escola 'Pequenos Passos'. Quero marcar um horário para uma tatuagem... ou para uma conversa séria sobre segurança escolar."

Lá dentro, Eduarda terminava de colocar uma fralda descartável em Arthur — cedendo à praticidade para conseguir terminar de se arrumar — enquanto Maya, já mais calma, desenhava um coração em um papel escondido. Sara, observando tudo, serviu-se de mais uma xícara de café.

— Você sabe que ele vai descobrir o sobrenome do Thiago, não sabe? — Sara perguntou para Eduarda.

— Eu sei — Eduarda suspirou, ajeitando o cabelo. — Mas até lá, eu já terei escondido as cartinhas em um lugar que nem o melhor detetive dele encontraria.

— Você é mais esperta do que parece, Dudinha — Sara sorriu, um elogio raro e quase sincero.

— Aprendi com a melhor — Eduarda respondeu, piscando para a loira.

A convivência era civilizada, mas as táticas de guerra eram compartilhadas. E Emanuel, o grande mestre das agulhas e do império de tinta, nem suspeitava que, em sua casa, ele era apenas um espectador no teatro cuidadosamente orquestrado pelas mulheres de sua vida.