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O Tribunal do Amor e o Caos no Loft

A manhã de sábado no loft de Emanuel não cheirava a café, mas a uma tempestade iminente. O sol entrava pelas grandes janelas de vidro, iluminando as tatuagens nos braços de Emanuel enquanto ele tentava, sem sucesso, manter a calma diante de uma revelação que parecia ter saído de um pesadelo.

No centro da sala, Ágata, de apenas quatro anos, estava parada com as mãos nos quadris, usando um vestido de tule dourado e óculos escuros de grife que Sara havia comprado na última viagem a Paris. Ao lado dela, segurando sua mão com uma timidez que contrastava com a audácia da menina, estava um garotinho loiro, vestido com uma camisa polo impecável.

— Papai, este é o Enzo — anunciou Ágata, com a voz carregada de uma superioridade que faria qualquer rainha se sentir pequena. — Ele é meu namorado. Ele me deu um anel de diamante de plástico e agora nós vamos morar em uma casa de bonecas gigante.

Emanuel sentiu o mundo girar. Ele olhou para o garotinho, que parecia estar prestes a desmaiar sob o olhar gélido do "Rei da Tinta".

— Namorado? — Emanuel repetiu a palavra como se fosse um xingamento em uma língua proibida. — Ágata, você tem quatro anos! Você não tem namorado. Você tem... colegas de recreio. No máximo, súditos. Mas namorado? Nem pensar!

Sara, que estava sentada no sofá de veludo lixando as unhas e observando a cena com um divertimento cruel, soltou uma gargalhada sonora.

— Ah, Emanuel, deixe de ser tão dramático! — Sara disse, cruzando as pernas e exibindo seus saltos caros. — É uma gracinha. O Enzo é filho da minha esteticista, a família é ótima. E olhe para eles, são o casal mais bem vestido da pré-escola. A Ágata tem bom gosto, puxou a mãe. Ela não se contenta com pouco.

— Eu não me importo se ele é o príncipe da Inglaterra! — Emanuel rugiu, embora tenha tentado baixar o tom ao ver Arthur correndo pela sala com uma fralda de pano pendurada no ombro como se fosse uma capa de super-herói. — Ela é um bebê!

— Eu não sou bebê, papai! — Ágata rebateu, tirando os óculos escuros para encará-lo com seus olhos azuis determinados. — Eu sou uma diva. E divas precisam de acompanhantes. O Enzo prometeu que vai me dar todos os seus adesivos de estrela.

Enquanto Emanuel tentava processar o "suborno" por adesivos, uma vozinha doce e hesitante veio do canto da sala. Maya, que estava sentada no colo de Eduarda, observava tudo com os olhos arregalados. Ela puxou a gola da blusa da mãe e olhou para o pai com uma expressão de pura esperança.

— Papai? — sussurrou Maya, o tom manhoso e sensível que sempre derretia as defesas de Emanuel.

— Sim, meu anjo? — Emanuel respondeu, suavizando a voz instantaneamente, esperando que a filha mais doce o confortasse naquele momento de crise.

— Se a Ágata pode namorar o Enzo... eu também posso namorar o Thiago? — Maya perguntou, os olhos brilhando. — Ele disse que eu sou a princesa dele e que quer me dar um beijo na bochecha atrás do escorregador.

O silêncio que se seguiu no loft foi absoluto, interrompido apenas pelo som de Arthur batendo um carrinho de metal contra o pé da mesa de jantar.

Emanuel ficou pálido. Depois, ficou vermelho. Depois, uma veia começou a saltar em sua têmpora.

Eduarda, que até então tentava manter uma expressão neutra para não irritar ainda mais o parceiro, não aguentou. Ela enterrou o rosto no pescoço de Maya e começou a rir. Não era uma risada discreta; era uma gargalhada genuína, descontrolada, que fazia seus ombros tremerem.

— Eduarda! — Emanuel exclamou, chocado com a traição. — Isso não tem graça! Estão tentando roubar as nossas filhas bem debaixo do nosso nariz!

— Manu... — Eduarda tentou falar, recuperando o fôlego enquanto limpava uma lágrima de riso do canto do olho. — Elas são crianças! É uma brincadeira inocente. Você está agindo como se elas estivessem pedindo permissão para casar em Las Vegas.

— É assim que começa! — Emanuel gesticulou freneticamente para as meninas. — Hoje é um beijo na bochecha atrás do escorregador, amanhã é um pedido de namoro no ensino médio e depois... depois eu vou ter que passar o resto da minha vida limpando minha coleção de armas na frente desses moleques!

Sara levantou-se e caminhou até Emanuel, dando um tapinha condescendente em seu ombro.

— Querido, você é um tatuador rico e perigoso. Você tem estúdios no mundo todo. Mas, nesta sala, você é apenas um pai desesperado sendo dominado por duas miniaturas de mulheres que sabem exatamente como te dobrar. Aceite a derrota. É mais digno.

— Eu não aceito nada! — Emanuel virou-se para Maya. — Maya, meu amor, o Thiago é um menino legal para brincar de pega-pega, mas namorar? Não. Você é a princesa do papai e de mais ninguém.

Maya fez um biquinho, os olhos começando a lacrimejar.

— Mas papai... a Ágata tem o Enzo! Não é justo!

— A Ágata é... a Ágata é um caso à parte! — Emanuel exclamou, olhando para Sara em busca de ajuda, mas encontrando apenas um sorriso sarcástico.

— Não me use como desculpa para o seu machismo protetor, Emanuel — Sara disse, pegando Ágata no colo. — Se a minha filha quer um namorado de mentirinha para carregar a mochila dela, ela vai ter. É assim que se treina os homens desde cedo.

Eduarda levantou-se com Maya, caminhando até Emanuel e abraçando-o pela cintura, tentando acalmar o "furacão" que ele havia se tornado.

— Manu, olhe para elas — Eduarda disse suavemente, a voz cheia de ternura. — Elas estão apenas imitando o que veem. Elas veem o quanto você nos ama, o quanto você cuida de nós. Elas querem esse tipo de carinho também. É um elogio à forma como você nos trata.

Emanuel olhou para Eduarda, sentindo a raiva se esvair diante da lógica sensível dela. Ele olhou para Maya, que ainda esperava uma resposta, e para Ágata, que já estava instruindo o pequeno Enzo sobre como organizar seus brinquedos.

— Eu só não quero que elas cresçam — ele confessou, a voz baixa, revelando a vulnerabilidade que só Eduarda e Sara conseguiam acessar. — O mundo lá fora é cruel. Eu sei o que os homens pensam. Eu sou um homem.

— Você é um homem que as ama — Eduarda o lembrou, dando-lhe um beijo no queixo. — E elas vão saber escolher bem porque têm você como exemplo. Mas, por enquanto, deixe-as serem crianças. O Thiago só quer dividir o lanche, Manu.

Emanuel suspirou, derrotado pelas três mulheres de sua vida. Ele olhou para o pequeno Enzo.

— Escuta aqui, garoto — Emanuel disse, tentando parecer o mais intimidador possível. — Se você fizer a Ágata chorar, eu vou tatuar uma caveira na sua testa. Entendeu?

O menino, arregalando os olhos, apenas assentiu vigorosamente, sem dizer uma palavra.

— E quanto ao Thiago... — Emanuel virou-se para Maya. — Eu vou ter uma conversa séria com o pai dele na próxima reunião de pais. Mas... você pode brincar com ele. Só brincar. Nada de casinha, nada de beijos na bochecha.

Maya sorriu, dando um pulo de alegria e abraçando as pernas do pai.

— Obrigada, papai! Você é o melhor!

Sara e Eduarda se entreolharam. Por um breve momento, a rivalidade e as diferenças de personalidade desapareceram, substituídas pela cumplicidade de quem compartilhava a tarefa exaustiva de gerenciar o ego e o coração de Emanuel.

— Ele é tão fácil de manipular quando o assunto são elas — Sara comentou, servindo-se de uma taça de espumante, mesmo sendo apenas dez da manhã.

— Ele é um protetor nato — Eduarda defendeu, sorrindo. — Mas ele precisa aprender que não pode controlar o tempo.

— Controle é uma ilusão que eu vendo para ele todos os dias nos escritórios — Sara deu de ombros, rindo. — Mas na vida real, quem manda aqui somos nós.

A manhã continuou com as crianças brincando sob o olhar atento e levemente paranoico de Emanuel. Arthur, alheio a todo o drama romântico, finalmente conseguiu escalar o sofá e pulou nos ombros do pai, exigindo atenção.

— Papai! Tatuagem! — gritou o menino, puxando a camisa de Emanuel.

Emanuel pegou o filho no colo, sentindo o peso reconfortante do pequeno furacão. Ele olhou para a sala cheia — Sara discutindo moda com Ágata, Eduarda ajudando Maya a desenhar um coração para o Thiago, e o pobre Enzo tentando não quebrar nada.

— É, Arthur — Emanuel murmurou para o filho. — Acho que eu vou precisar de muito mais tinta para aguentar essa família.

Eduarda aproximou-se e encostou a cabeça no ombro dele, observando a cena com paz no coração.

— Você não trocaria isso por nada, Manu.

— Por nada no mundo — ele admitiu, beijando o topo da cabeça de Eduarda enquanto observava, com um olho fechado e outro aberto, o pequeno Enzo se aproximar demais de Ágata. — Mas se aquele moleque tentar dar as mãos para ela de novo, eu juro que chamo a segurança.

As risadas de Sara e Eduarda ecoaram pelo loft, preenchendo o espaço com uma harmonia caótica que era, no final das contas, a definição perfeita da vida de Emanuel. Entre a timidez de uma, a vulgaridade da outra e a inocência das crianças, ele era o centro de um universo que ele não controlava, mas que amava com cada fibra do seu ser tatuado.