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O Preço do Ciúme e a Promessa do Silêncio
O quarto de Arthur estava mergulhado em uma penumbra suave, iluminada apenas por uma luminária em formato de foguete que projetava estrelas estáticas no teto. O cheiro de talco e de bebê ainda pairava no ar, um contraste absoluto com a aura densa e carregada que Emanuel costumava trazer consigo dos estúdios. Eduarda estava sentada na poltrona de amamentação, o corpo esguio relaxado enquanto Arthur, o pequeno furacão de dois anos, finalmente sucumbia ao sono. O menino tinha uma das mãos gordinhas agarrada à gola da camisola de Eduarda, enquanto a outra repousava sobre o próprio peito, subindo e descendo em um ritmo tranquilo.
Emanuel observava da soleira da porta, com os braços cruzados sobre o peito largo, as tatuagens nos antebraços parecendo ganhar vida sob a luz fraca. Ele adorava aquele momento. Ver Eduarda naquela faceta maternal, tão doce e vulnerável, era o que mantinha sua sanidade após dias lidando com orçamentos, brigas de ego entre tatuadores e a personalidade vulcânica de Sara.
Maya, que estava sentada no tapete de pelúcia aos pés da mãe, terminou de folhear seu livro de ilustrações e olhou para Eduarda com aqueles olhos castanhos que eram espelhos dos dela. A menina de quatro anos era o "grudinho", a sombra silenciosa e sensível que parecia ler os pensamentos da mãe.
— Mamãe? — sussurrou Maya, a voz tão baixa que quase se perdia no silêncio do quarto.
— Oi, meu anjo — respondeu Eduarda, inclinando a cabeça e sorrindo para a filha.
— O Thiago me chamou para brincar na casa dele amanhã — disse a menina, com uma naturalidade que desmentia o impacto que aquelas palavras teriam. — Ele disse que tem um pula-pula no quintal e que a mãe dele vai fazer bolo de cenoura. Eu posso ir?
Eduarda sentiu um calafrio, não pela pergunta em si, mas porque sabia que Emanuel estava a menos de dois metros de distância. Ela tentou fazer um sinal visual para a filha se calar, mas era tarde demais.
O som do ar sendo puxado com força pelos pulmões de Emanuel foi audível. Ele descruzou os braços e deu um passo para dentro do quarto, a expressão mudando de "pai amoroso" para "segurança de boate em alerta máximo" em uma fração de segundo.
— Casa de quem? — A voz de Emanuel saiu rouca, carregada de uma incredulidade que beirava a indignação.
Maya se encolheu levemente contra a poltrona da mãe, buscando proteção. Eduarda suspirou, fechando os olhos por um momento.
— Emanuel, não comece — pediu ela, a voz baixa para não acordar Arthur.
— Não comece? — Emanuel agora estava parado no centro do quarto, gesticulando de forma contida, mas frenética. — Ela acabou de dizer que um... um "Thiago" a convidou para ir à casa dele. Quem é Thiago? Quantos anos ele tem? Quem são os pais? Eles têm antecedentes criminais? Eles têm piscina? Pula-pula é perigoso, Maya pode cair e quebrar o pescoço!
— Manu, o Thiago tem quatro anos! — Eduarda se levantou com cuidado, colocando o Arthur adormecido no berço com movimentos de cirurgiã. Ela se virou para o marido, os olhos brilhando de irritação. — Ele é o colega de classe dela. A mãe dele, a Letícia, é arquiteta. Nós conversamos na saída da escola, lembra? Eu te falei sobre o convite na semana passada, mas você estava ocupado demais reclamando que a Sara queria comprar um novo lote de tintas importadas.
— Eu não lembro de arquiteta nenhuma! — Emanuel rebateu, passando as mãos pelo cabelo curto, visivelmente perturbado. — E eu não gosto disso. Maya é muito pequena para frequentar casas de estranhos. Se ela quer brincar, o tal do Thiago que venha aqui. Eu instalo um pula-pula profissional no meio da sala, eu compro uma fábrica de bolos, mas ela não vai para a casa de um moleque que eu nem conheço.
Maya começou a lacrimejar, o lábio inferior tremendo.
— Mas eu queria ver o pula-pula dele, papai...
— Viu o que você fez? — Eduarda sibilou, pegando Maya pela mão e conduzindo-a para fora do quarto do irmão, para que a discussão não acordasse o pequeno.
Emanuel as seguiu até o corredor, como um predador que não queria perder a presa de vista.
— Eu estou protegendo ela, Duda! O mundo é um lugar perigoso. Como eu vou saber se esse tal de Thiago não é um pequeno sociopata em treinamento? Ou se o pai dele não deixa armas espalhadas pela casa?
Eduarda parou no corredor e se virou para ele, cruzando os braços sob os seios médios, uma postura que ela raramente adotava, mas que indicava que ela estava chegando ao seu limite.
— Emanuel, você está sendo paranoico. É um "playdate". É normal. A Maya é tímida, ela quase não se abre com ninguém, e finalmente ela fez um amigo. Você vai destruir isso por causa do seu complexo de controle?
— Eu vou com ela — sentenciou Emanuel, batendo o pé. — Se ela for, eu vou junto. Vou ficar sentado na sala dessa Letícia, observando cada movimento. Vou levar meu tablet, finjo que estou trabalhando, mas não tiro o olho da Maya por um segundo.
Eduarda soltou uma risada seca, sem humor.
— Você só pode estar brincando. Você vai assustar a mulher! Você é um homem de quase um metro e noventa, coberto de tatuagens, com essa cara de quem vai bater em alguém a qualquer momento. Você quer que a mãe do menino ache que somos uma família de mafiosos?
— Eu uso uma camisa de manga longa! — ele exclamou, genuinamente ofendido. — Eu posso ser muito sociável quando quero.
— Não, você não vai — disse Eduarda, aproximando-se dele. Ela era muito mais baixa, mas naquele momento, sua energia sensível e intuitiva parecia dominar o espaço. — A Maya vai, e eu vou com ela. Nós vamos passar a tarde lá, eu vou tomar café com a Letícia, e a Maya vai brincar. Você vai ficar aqui, ou no estúdio, ou com a Sara, ou fazendo qualquer coisa que não envolva intimidar crianças de quatro anos.
Emanuel bufou, o rosto ficando vermelho de frustração.
— Eu não aceito isso. Eu sou o pai. Eu tenho direito de supervisionar a segurança da minha filha.
Eduarda deu um passo a mais, entrando no espaço pessoal dele. Ela colocou as mãos nos ombros de Emanuel, mas não era um gesto de carinho. Era um gesto de ancoragem. Ela baixou a voz, tornando-a doce, mas com um fio de aço que Emanuel raramente ouvia.
— Escuta aqui, Emanuel. Você me ama, não ama?
— Você sabe que sim, Duda. Mais que tudo.
— Então me escuta bem — continuou ela, os olhos fixos nos dele. — Se você aparecer naquela casa, se você mandar um segurança ficar vigiando o portão, ou se você fizer qualquer cena que me envergonhe ou que assuste a minha filha... eu juro por tudo que é mais sagrado, Emanuel: você não vai tocar na minha buceta por um bom tempo. E eu não estou falando de dias. Estou falando de semanas. Talvez meses.
O silêncio que se seguiu foi tão súbito que Emanuel pareceu ter esquecido como respirar. Ele abriu a boca, fechou, e abriu de novo. A ameaça era direta, visceral e, vindo de Eduarda — que era geralmente tão manhosa e entregue nos momentos de intimidade —, tinha o peso de uma sentença de morte.
— Duda... você não faria isso — ele balbuciou, os olhos arregalados. — Isso é... isso é golpe baixo. É chantagem emocional!
— Chame do que quiser — ela respondeu, mantendo a expressão serena, mas firme. — Você sabe o quanto eu sou teimosa quando decido algo. Eu estou tentando criar nossos filhos para serem pessoas normais, não prisioneiros da sua ansiedade. Então, escolha: o seu orgulho de pai controlador ou as noites que passamos juntos. O que vale mais para você?
Emanuel olhou para ela, depois para Maya, que observava a cena com curiosidade infantil, e por fim para a porta do quarto onde Arthur dormia. Ele sabia que Eduarda não estava blefando. Quando ela perdia a paciência, ela se fechava como uma ostra, e não havia charme ou dinheiro no mundo que a fizesse abrir a guarda.
— Duas horas — ele murmurou, a voz derrotada. — Ela fica lá no máximo duas horas. E você me manda uma foto a cada quinze minutos. Se eu não receber uma foto da Maya sorrindo e com todos os membros intactos, eu invado aquela casa com a polícia e os bombeiros.
Eduarda relaxou os ombros, um pequeno sorriso vitorioso surgindo no canto dos lábios. Ela se inclinou e deu um beijo rápido e casto nos lábios dele.
— Três horas. E eu mando fotos a cada meia hora. É pegar ou largar.
Emanuel soltou um suspiro pesado, os ombros caindo.
— Três horas. Mas eu vou deixar o GPS do celular dela ligado.
— Emanuel!
— É o meu limite, Duda! — ele exclamou, voltando a ficar irritado. — É o GPS ou eu me escondo nos arbustos da casa do tal Thiago!
Eduarda revirou os olhos, mas sabia que aquela era a melhor rendição que conseguiria obter.
— Tudo bem, o GPS pode ficar ligado. Mas você vai ficar em casa.
— Eu vou estar com a Sara — ele resmungou, virando-se para ir em direção à sala. — Vou descarregar minha raiva nos relatórios de faturamento. Aquela loira vai sofrer na minha mão hoje com tanto detalhismo que eu vou exigir.
— Pobre Sara — ironizou Eduarda, sentindo-se leve novamente.
Ela pegou Maya no colo e a levou para o quarto da menina.
— Viu, meu amor? O papai deixou. Amanhã você vai brincar com o Thiago.
— O papai é meio bobo, né mamãe? — perguntou Maya, bocejando enquanto era colocada na cama.
— Ele só ama muito você, querida. Às vezes, o amor dele é um pouco barulhento.
Depois de colocar Maya para dormir, Eduarda voltou para a sala. Emanuel estava sentado no sofá de couro, com um notebook no colo, mas seus olhos estavam fixos na parede, a expressão ainda carregada de uma irritação latente.
— Ainda bravo? — perguntou ela, sentando-se ao lado dele e apoiando a cabeça em seu ombro.
— Eu odeio quando você faz isso — disse ele, sem desviar o olhar. — Você sabe que eu não consigo resistir a você. Usar o sexo como arma é jogo sujo, Eduarda.
— Só usei porque você não me deu escolha, Manu — ela disse, começando a traçar os contornos de uma tatuagem no braço dele com a ponta dos dedos. — Você precisa aprender a confiar. Na nossa filha, em mim... e no fato de que nem todo mundo é um perigo em potencial.
Emanuel finalmente olhou para ela. A raiva ainda estava lá, mas estava sendo rapidamente substituída por aquele desejo familiar que ela sempre despertava. Ele fechou o notebook e o colocou na mesa de centro, puxando-a para o seu colo com uma possessividade que a fez rir baixinho.
— Se eu ficar em casa amanhã, comportado, eu ganho um bônus por bom comportamento hoje à noite? — perguntou ele, a voz descendo uma oitava, as mãos grandes apertando a cintura dela.
Eduarda sorriu, enlaçando o pescoço dele. Ela adorava como ele era previsível em sua intensidade.
— Depende. Você promete que não vai ligar para a Letícia fingindo ser um inspetor de segurança da prefeitura?
Emanuel hesitou por um segundo longo demais.
— Prometo.
— Então — sussurrou ela, aproximando os lábios dos dele —, acho que podemos negociar esse bônus.
A noite seguiu-se com a calma que só o loft de Emanuel conseguia ter quando as crianças dormiam e as disputas de poder eram resolvidas entre lençóis. No entanto, Eduarda sabia que a batalha de amanhã seria apenas a primeira de muitas. Criar Maya e Arthur sob o olhar vigilante de um homem como Emanuel era como caminhar em um campo minado de proteção excessiva.
No dia seguinte, o clima na casa estava estranhamente silencioso. Sara havia chegado cedo, usando um conjunto de seda chamativo e saltos que estalavam no chão, pronta para uma maratona de reuniões com Emanuel. Ela percebeu imediatamente o estado de espírito do parceiro.
— O que aconteceu com o "Rei da Tinta"? — perguntou Sara, servindo-se de café enquanto observava Emanuel olhar obsessivamente para o celular. — Parece que você engoliu um limão e ele não desceu bem.
— A Maya vai para a casa de um garoto — respondeu Emanuel, seco. — E a Eduarda me proibiu de ir junto sob pena de exílio sexual.
Sara soltou uma gargalhada tão alta que Ágata, que estava lendo uma revista de moda infantil no sofá, olhou para cima com desdém.
— Bem feito! — exclamou Sara. — Finalmente a Dudinha mostrou que tem garras. Você é um sufoco, Emanuel. Deixe a menina ter uma vida. A Ágata já foi em três festas do pijama este mês e eu nem sei o sobrenome dos pais das crianças.
— Por isso mesmo a Ágata é uma mini diva arrogante — rebateu Emanuel, sem paciência.
— Ela é independente, querido. Coisa que você não deixa a Maya ser.
Eduarda apareceu na sala, pronta para sair. Ela usava um vestido leve e carregava uma bolsa com mudas de roupa para Maya. A menina estava radiante, segurando uma lancheira colorida.
— Estamos indo — anunciou Eduarda. — Manu, lembre-se do nosso trato. Nada de ligações estranhas.
Emanuel levantou-se e foi até a filha, ajoelhando-se para ficar na altura dela. Ele a abraçou com uma força que quase a fez perder o fôlego.
— Qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, você pede para a mamãe me ligar, entendeu? Se o Thiago for chato, se o bolo for ruim, se você sentir saudade... o papai vem te buscar em cinco minutos.
— Tá bom, papai. Tchau! — Maya deu um beijo rápido no rosto dele e correu para a porta, ansiosa pela liberdade.
Quando a porta se fechou, Emanuel ficou parado no meio da sala, sentindo um vazio desproporcional. Ele pegou o celular e abriu o aplicativo de rastreamento.
— Você é doente, Emanuel — comentou Sara, voltando para o notebook. — Agora senta aqui. Temos que discutir a renovação do contrato do estúdio de Berlim. E pare de tremer a perna, está me irritando.
As horas que se seguiram foram uma tortura para o tatuador. A cada trinta minutos exatos, Eduarda enviava uma foto. Maya no pula-pula. Maya comendo bolo. Maya rindo com um garotinho loiro de cabelos cacheados que Emanuel imediatamente classificou como "com cara de quem vai dar trabalho no futuro".
— Olha só para ele — resmungou Emanuel, mostrando a foto para Sara. — Olha como ele está perto dela. Isso é falta de espaço pessoal.
— É uma criança, Emanuel! Eles estão brincando de pega-pega! — Sara exclamou, perdendo a paciência. — Se você não se calar, eu vou ligar para a Eduarda e dizer que você está tendo um colapso, e aí o seu "exílio" vai ser permanente!
Emanuel calou-se, mas o desassossego não passou. Ele passou o resto da tarde sendo o terror dos seus funcionários por telefone, descontando a ansiedade em cobranças de produtividade absurdas.
Quando Eduarda e Maya finalmente voltaram, já no fim da tarde, Emanuel correu para a porta antes mesmo que elas girassem a maçaneta.
— Como foi? Ela está bem? Alguém se machucou? — perguntou ele, pegando Maya no colo e examinando-a como se procurasse por ferimentos de guerra.
— Foi ótimo, papai! — exclamou Maya, animada. — O Thiago tem um cachorro muito grande e ele me deixou dar biscoito para ele. E a mãe dele disse que eu sou muito educada. Posso ir de novo amanhã?
Emanuel olhou para Eduarda, que apenas arqueou uma sobrancelha, com um olhar de "nem pense em dizer não".
— Amanhã não, meu anjo — disse Emanuel, forçando um sorriso. — Amanhã é dia de ficar com o papai. Vamos fazer algo só nós dois, o que acha?
— Pode ser — concordou a menina, bocejando.
Eduarda aproximou-se de Emanuel e tocou seu rosto, percebendo a tensão que ainda habitava seus músculos.
— Viu só? O mundo não acabou. Ela se divertiu e está inteira.
— Eu ainda não gosto disso — admitiu ele, enterrando o rosto no pescoço da filha. — Mas eu cumpri minha parte. Eu não saí de casa.
— Eu sei. E eu estou orgulhosa de você — disse Eduarda, dando-lhe um selinho. — Por isso, eu decidi que o bônus de ontem pode ser renovado hoje.
Os olhos de Emanuel brilharam instantaneamente, a irritação desaparecendo como fumaça ao vento.
— Sara! — gritou ele para a sala. — A reunião acabou. Leve a Ágata para jantar fora, compre um shopping inteiro, faça o que quiser, mas suma daqui nas próximas horas.
Sara apareceu na porta da sala, segurando sua bolsa de grife e rindo da cara de Emanuel.
— Não precisa pedir duas vezes. Vamos, Ágata. Seu pai finalmente conseguiu o que queria e agora vai ser o "cachorrinho" da Eduarda pelo resto da noite.
— Eu não sou cachorrinho de ninguém — resmungou Emanuel, mas ele já estava guiando Eduarda em direção ao quarto, com um sorriso que indicava que, no final das contas, o preço do ciúme valia a pena ser pago, desde que o prêmio fosse o perdão e o amor da mulher que o dominava sem precisar de força, apenas com a manha e a firmeza de quem conhecia seu coração melhor do que ele mesmo.
Eduarda riu, deixando-se levar. Ela sabia que Emanuel nunca mudaria completamente, que sua natureza protetora e controladora era parte de quem ele era. Mas ela também sabia que, entre uma crise de ciúme e outra, ela tinha o poder de guiá-lo, transformando o "furacão" em um homem que, apesar de tudo, estava aprendendo a deixar seus passarinhos voarem, mesmo que ele ficasse no chão, vigiando o céu com o coração na mão.