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O Labirinto de Segredos e a Tia Berenice

O silêncio na cobertura de Emanuel era raramente absoluto. Geralmente, era preenchido pelo som de teclados frenéticos vindos do escritório de Sara, pelo choro agudo de Maya ou pelas batidas rítmicas das máquinas de tatuagem que Emanuel ocasionalmente trazia para casa para testar novos pigmentos. Mas naquela manhã, o silêncio era tenso, carregado por uma notícia que Eduarda tentava verbalizar há pelo menos dez minutos.

Emanuel estava sentado à mesa de mármore da cozinha, um tablet à sua frente mostrando gráficos de rendimento dos estúdios da Europa. Ele tomava café preto, forte e sem açúcar, enquanto Sara, vestindo um robe de seda preta com detalhes em renda e saltos agulha — seu "uniforme" matinal de trabalho em casa —, conferia alguns e-mails no celular.

— Emanuel... — Eduarda começou, sua voz quase um sussurro. Ela estava sentada na ponta da cadeira, as mãos entrelaçadas sobre o colo, vestindo um cárdigan rosa pálido que a fazia parecer ainda mais jovem e delicada.

— Diga, Duda. — Ele nem levantou os olhos do tablet, mas sua mão livre buscou a dela mecanicamente, um gesto de conforto que já era instintivo.

— Minha mãe ligou. A tia Berenice chegou de surpresa de Minas Gerais. Ela vai ficar hospedada lá em casa pelas próximas duas semanas.

Emanuel finalmente levantou o olhar. Suas sobrancelhas se franziram levemente.

— E quem é tia Berenice? — perguntou ele, embora o nome soasse vagamente familiar de alguma história de Natal.

Sara soltou uma risada anasalada, sem desviar os olhos da tela do celular.

— É a tia rica, Emanuel. Aquela que financia metade das igrejas do interior e que acha que qualquer coisa que não seja um casamento católico tradicional é obra do demônio. Acertei, Duda?

Eduarda baixou a cabeça, sentindo as bochechas queimarem.

— Sim... ela é muito religiosa. E muito conservadora. Meus pais são modernos, você sabe, eles aceitam a gente, mas a Berenice... ela é a matriarca. Se ela desconfiar que eu estou vivendo um relacionamento com um homem que já tem outra mulher e duas filhas, ela deserdaria minha mãe e causaria um escândalo que destruiria a família.

Emanuel largou o tablet, a expressão endurecendo.

— E o que isso significa na prática?

— Significa que... eu não vou poder vir para cá nos próximos dias. Pelo menos não para dormir. E vou ter que passar as noites em casa, jantando com ela, indo à missa... — Eduarda olhou para ele com olhos suplicantes. — Eu preciso manter as aparências, Emanuel. Por favor, não fique bravo.

Emanuel sentiu uma irritação familiar subir pelo peito. Ele odiava não ter o controle total sobre a presença de Eduarda. Para ele, a logística era simples: ele tinha dinheiro, tinha espaço e as amava. Por que o mundo exterior precisava ditar como eles viviam?

— Duas semanas, Eduarda? Você está brincando? — A voz dele subiu um tom, ficando mais grave e autoritária. — Eu já te pedi mil vezes para morar aqui de vez. Se você já estivesse instalada, não teria que dar satisfação para tia nenhuma.

— Mas eu não moro aqui ainda! — Eduarda rebateu, com uma pontada de coragem nascida do desespero. — E meus pais precisam que eu ajude a entretê-la. Se eu sumir, ela vai fazer perguntas.

Sara bloqueou o celular e se inclinou para frente, apoiando os cotovelos na mesa. O decote generoso e as unhas perfeitamente esculpidas em um tom de vermelho fatal contrastavam com a simplicidade quase infantil de Eduarda.

— Querida, deixe-me ver se entendi — Sara disse, com aquele tom irônico que sempre fazia Eduarda se sentir pequena. — Você vai nos abandonar por quinze dias para brincar de "sobrinha perfeita" para uma velha carola? E quem vai acalmar a Maya? Você viu o estado daquela menina ontem. Ela quase teve um colapso porque você demorou dez minutos para chegar no ensaio.

— Eu sei, Sara! Eu me sinto mal por isso — disse Eduarda, os olhos já começando a marejar. — Mas o que você quer que eu faça? Que eu conte a verdade e veja minha mãe perder o apoio da família?

— Eu quero que você tenha pulso firme — Emanuel interveio, levantando-se e caminhando até Eduarda. Ele parou atrás dela, colocando as mãos em seus ombros e apertando-os levemente. — Eu não gosto disso, Duda. Maya está em uma fase difícil. Ela só dorme se você estiver por perto ou se sentir o seu cheiro. Ágata é tranquila, mas a Maya... ela é sua sombra.

— Eu posso vir durante o dia, por algumas horas — sugeriu Eduarda, tentando encontrar um meio-termo.

— Não é o suficiente — Emanuel decretou. — Eu quero você aqui à noite. Quero as duas na minha cama, ou pelo menos sob o meu teto. Esse segredo com a sua família está começando a me cansar.

— Para você é fácil falar, Emanuel! — Eduarda se levantou, desvencilhando-se das mãos dele. — Você é o dono do mundo. Você faz suas próprias regras. Eu ainda dependo da paz na minha família para conseguir estudar, para ter o meu canto.

Sara deu um sorriso de lado, observando a cena como se fosse um entretenimento matinal de qualidade.

— Emanuel, deixe a menina. Se ela quer ser a mártir da moral e dos bons costumes para a tia rica, deixe-a ir. Só não reclame depois quando a Maya passar a noite inteira gritando no meu ouvido. Eu tenho uma conferência com o pessoal de Miami às oito da manhã e não pretendo aparecer com olheiras porque a "mãe postiça" resolveu ir para a igreja.

— Eu não sou mãe postiça! — Eduarda exclamou, sentindo a ferroada. — Eu amo a Maya como se fosse minha.

— Então aja como tal e fique onde você é necessária — Sara retrucou, levantando-se e ajeitando o robe. — Mas enfim, eu tenho trabalho. Emanuel, não se esqueça de assinar os contratos de renovação do estúdio de Berlim. Estão na sua mesa.

Sara saiu da cozinha com seu andar confiante, o som de seus saltos ecoando como batidas de um relógio de luxo. Emanuel e Eduarda ficaram sozinhos. O silêncio que se seguiu era pesado, pontuado apenas pelo murmúrio vindo do quarto das gêmeas, onde a babá estava começando a arrumá-las.

Emanuel suspirou e puxou Eduarda para um abraço. Ela se encaixou no peito dele, escondendo o rosto.

— Eu odeio quando você vai embora — ele sussurrou contra o cabelo dela. — Me sinto incompleto. E a Maya... ela sente, Duda. Ela é muito igual a você. Sensível demais para esse caos.

— Eu prometo que vou tentar escapar sempre que puder — ela disse, a voz abafada pela camisa dele. — É só um tempo. Por favor, tente entender.

— Vou tentar. Mas não garanto que não vou aparecer na porta da casa dos seus pais se eu perder a paciência.

Eduarda empalideceu só de imaginar a cena: Emanuel, com seus braços tatuados e sua presença intimidadora, confrontando a tia Berenice.

— Não ouse, Emanuel! Por favor!

— Veremos — ele disse, com um brilho possessivo nos olhos que sempre a assustava e a excitava ao mesmo tempo.

***

As primeiras quarenta e oito horas sem Eduarda foram um desastre logístico e emocional na cobertura.

Maya parecia ter um sensor interno. Assim que o sol se punha e o horário em que Eduarda costumava chegar passava, a bebê começava a choramingar. Não era um choro de fome ou de fralda suja; era um lamento baixo, manhoso, uma busca constante pelo colo que cheirava a baunilha e que tinha a paciência de ninar por horas.

Sara, por outro lado, estava perdendo a pouca paciência que tinha com a maternidade "sentimental".

— Pelo amor de Deus, Maya! — Sara exclamou, entrando no quarto das gêmeas à meia-noite. Ela usava um pijama de seda, mas seu cabelo estava levemente bagunçado. — Ágata está dormindo como um anjo, veja só! Por que você não pode ser como sua irmã?

Ágata, a mini versão de Sara, estava deitada de lado, abraçada a um ursinho de pelúcia de grife, com uma expressão de absoluta paz. Ela raramente dava trabalho. Era uma bebê autossuficiente, quase esnobe em sua tranquilidade.

Emanuel estava com Maya no colo, andando de um lado para o outro. A bebê soluçava, o rosto inchado.

— Ela quer a Duda, Sara. Não adianta gritar com ela.

— Eu não estou gritando, estou constatando um fato! — Sara cruzou os braços, bufando. — Essa criança é um drama ambulante. É irritante como ela herdou todas as inseguranças daquela garota. Emanuel, ligue para a Eduarda. Mande ela vir agora.

— São duas da manhã, Sara. Ela está na casa dos pais, com a tia. Se ela sair agora, o disfarce cai.

— Que caia! Eu pago a pensão da tia, se for o caso. Eu só quero dormir! — Sara se aproximou de Maya e tentou pegar a bebê. — Vem cá, sua pestinha manhosa. Deixa eu ver se o meu colo serve.

Assim que os braços de Sara, mais firmes e menos pacientes, envolveram Maya, a bebê abriu o berreiro com ainda mais força. Ela se contorcia, procurando o espaço vazio onde Eduarda costumava estar.

— Viu só? — Emanuel pegou a filha de volta, sentindo o estresse atingir o ápice. — Ela sente a sua energia, Sara. Você está irritada, e ela fica pior.

— Ah, agora a culpa é minha? — Sara riu, uma risada amarga. — Eu sustento a administração desses estúdios, eu cuido da imagem da família, eu pari essas duas crianças e agora sou a vilã porque não tenho a "doçura" de uma universitária de vinte anos? Me poupe, Emanuel.

Ela saiu do quarto batendo a porta, deixando Emanuel sozinho com o choro de Maya e o silêncio de Ágata.

***

No dia seguinte, Eduarda conseguiu escapar por duas horas durante a tarde, sob o pretexto de ir à biblioteca da faculdade. Quando ela entrou na cobertura, parecia que um bálsamo de calma havia sido derramado sobre o lugar.

Maya, que estava no cercadinho com uma expressão de profunda tristeza, iluminou-se instantaneamente ao ver Eduarda. Ela esticou os bracinhos e soltou um grito de alegria que fez o coração de Eduarda apertar.

— Oh, minha pequena... a Duda está aqui — ela murmurou, pegando a bebê e cobrindo seu rosto de beijos.

Emanuel apareceu na porta da sala, observando a cena. Ele estava com olheiras e parecia ter envelhecido dois anos em duas noites.

— Você não tem ideia do inferno que foram essas noites — ele disse, caminhando até elas e abraçando as duas.

— Eu sinto muito, Emanuel. Eu recebi suas mensagens, eu queria vir, mas a tia Berenice resolveu que deveríamos rezar o terço juntas às nove da noite.

— Rezar o terço? — Emanuel soltou uma risada incrédula. — Enquanto a sua filha chorava até vomitar?

Eduarda estremeceu.

— Ela vomitou?

— De tanto soluçar. Sara quase teve um surto nervoso. Ela disse que se você não voltar logo, ela vai contratar uma equipe de babás inglesas para fazer um treinamento de choque na Maya.

— Ela não faria isso... — Eduarda disse, preocupada.

— Você conhece a Sara. Ela resolve problemas com eficiência, não com carinho.

Nesse momento, Sara entrou na sala, segurando uma pasta de documentos. Ela parou e olhou para Eduarda com um olhar crítico.

— Ora, se não é a fugitiva da sacristia. Como vai a vida de pecados ocultos, Duda?

— Sara, por favor... — Eduarda pediu.

— "Por favor" digo eu. Olhe para o estado do Emanuel. Olhe para a Maya. Você está criando um monstro de dependência nessa criança e depois some. Isso é irresponsabilidade emocional.

— Eu não tive escolha! — Eduarda rebateu, sentindo as lágrimas virem. — Vocês acham que é fácil para mim? Estar em uma casa onde eu tenho que fingir ser alguém que não sou, ouvindo minha tia falar mal de relacionamentos como o nosso?

— Então por que você se importa com o que ela pensa? — Sara deu um passo à frente, sua presença dominando o espaço. — Você tem vinte anos. Mora com os pais. Por que você ainda se deixa controlar por uma velha que vive no século passado? O Emanuel te dá tudo. Eu tolero a sua presença aqui porque você faz bem para ele e, aparentemente, para essa bebê dramática. O que falta para você ser mulher de verdade e assumir a sua vida?

Eduarda ficou em silêncio, as lágrimas agora rolando livremente. As palavras de Sara eram brutais, mas carregavam uma verdade que ela temia enfrentar. Sua timidez e sua necessidade de aprovação a mantinham presa a uma vida dupla que estava começando a sufocá-la.

— Ela não está pronta, Sara — Emanuel disse, embora sua voz não tivesse a mesma convicção de antes. Ele também estava começando a se cansar das idas e vindas.

— Ela nunca vai estar pronta se você continuar tratando-a como uma boneca de porcelana, Emanuel — Sara retrucou, voltando sua atenção para Eduarda. — Escute bem, bonitinha. A tia Berenice vai embora em doze dias. Se depois disso você não trouxer suas malas para cá, eu mesma vou até a casa dos seus pais e conto para a sua tia que você é a segunda mulher de um tatuador rico e que cuida de uma filha que nem é sua.

Eduarda arregalou os olhos, chocada.

— Você não faria isso...

— Tente me pagar para ver — Sara sorriu, um sorriso predatório e profissional. — Eu odeio ineficiência. E esse seu "vai e vem" está atrapalhando a produtividade desta casa. Agora, se me dão licença, eu tenho uma empresa para gerir.

Sara saiu, deixando um rastro de perfume caro e uma ameaça real no ar.

Emanuel olhou para Eduarda. Ele não a defendeu desta vez. No fundo, ele concordava com Sara, embora não usasse os mesmos métodos cruéis.

— Ela tem um ponto, Duda. Eu não vou aguentar mais quatorze dias disso. E a Maya também não.

Eduarda olhou para Maya, que agora dormia tranquilamente em seus braços, alheia à tempestade que se formava. Ela se sentia encurralada entre dois mundos. De um lado, a segurança e a tradição de sua família; do outro, o amor intenso, complexo e exigente de Emanuel, a presença esmagadora de Sara e a conexão visceral com uma bebê que precisava dela.

— Eu vou pensar, Emanuel — ela sussurrou.

— Não pense muito — ele avisou, beijando-a de forma possessiva. — O tempo está acabando para todo mundo.

Eduarda saiu da cobertura uma hora depois, o coração pesado. Ela voltou para a casa dos pais, onde o cheiro de incenso e o som da voz monótona da tia Berenice a esperavam. Durante o jantar, enquanto a tia falava sobre a importância da castidade e dos valores morais, Eduarda sentia o celular vibrar no bolso com mensagens de Sara enviando relatórios de produtividade e fotos de Maya começando a chorar novamente.

O equilíbrio frágil que Emanuel tanto tentava manter estava prestes a quebrar. E Eduarda sabia que, quando isso acontecesse, ela teria que escolher entre a paz do seu passado e o caos delicioso e doloroso do seu presente.

Enquanto isso, na cobertura, Emanuel olhava para as fotos do ensaio de mesversário na tela do computador. Ele observava a imagem de Eduarda e Maya, a suavidade de ambas, e depois para Sara e Ágata, a força e o brilho. Ele as queria todas. Mas pela primeira vez, ele percebeu que nem todo o seu dinheiro e poder poderiam forçar Eduarda a ser a mulher que Sara exigia que ela fosse.

A guerra fria entre a tradição e a modernidade estava apenas começando, e a pequena Maya era o campo de batalha onde todas as emoções convergiam.