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O Sapato de Cristal e a Realidade de Cimento
A partida da tia Berenice foi como o fim de um longo e exaustivo período de quarentena moral. O cheiro de incenso foi substituído pelo perfume caro de Sara, e os terços noturnos deram lugar aos gemidos contidos de Eduarda no quarto de Emanuel ou aos gritos de ordem de Sara pelo corredor. No entanto, o retorno ao "normal" não significava que a tensão havia desaparecido; ela apenas havia se acomodado nas frestas do piso de mármore da cobertura.
Emanuel estava mais impaciente do que nunca. O mês que passou lidando com as crises de choro de Maya e a irritação constante de Sara o deixou no limite. Ele queria Eduarda ali, de corpo e alma, 24 horas por dia. Mas Duda continuava firme em sua resistência silenciosa, alegando que precisava terminar o semestre da faculdade de História da Arte antes de tomar uma decisão tão drástica quanto mudar-se para a casa do namorado que já dividia o teto com outra mulher.
Era uma tarde de sábado quando Emanuel decidiu que precisava de novos ternos e que as gêmeas precisavam de roupas de inverno. Sara, é claro, não perdeu a oportunidade.
— Se vamos ao shopping, Emanuel, vamos à seção de luxo. Ágata precisa de um vestido novo para o evento da semana que vem e eu vi uma bolsa que grita o meu nome — disse Sara, ajeitando os óculos escuros de grife enquanto o elevador descia.
Eles formavam um casal imponente. Emanuel, com sua postura firme e os braços tatuados que apareciam sob a camisa polo bem cortada; Sara, com um vestido justo que acentuava o silicone e o corpo escultural, atraindo olhares de todos por onde passava. As gêmeas estavam no carrinho duplo, empurrado por uma babá que os seguia a uma distância discreta.
O shopping estava movimentado. Emanuel caminhava com passos decididos, mas sua mente estava em Eduarda. Ela havia dito que passaria a tarde estudando na biblioteca, e ele planejava passar na casa dela mais tarde para tentar, pela milésima vez, convencê-la a trazer pelo menos uma mala de roupas.
— Olhe para isso, Emanuel — Sara apontou para uma vitrine de joias. — Não ficaria perfeito no meu pescoço?
— Depois, Sara. Vamos primeiro ver o que as meninas precisam — ele respondeu, a voz grave e um tanto ausente.
Eles passaram pela praça central e seguiram em direção à ala das boutiques mais exclusivas. Foi quando, ao passar em frente a uma loja de sapatos de design renomado, algo — ou melhor, alguém — capturou o olhar de Emanuel.
Através do vidro transparente da loja, sentada em um pufe de veludo champanhe, estava Eduarda.
Ela não estava na biblioteca. Ela usava um vestido floral leve e tinha os cabelos castanhos presos em um meio-preso romântico. Em suas mãos, ela segurava um sapato de salto fino, delicado, em um tom de azul-celeste que parecia saído de um conto de fadas.
Emanuel parou abruptamente. Sara, que vinha logo atrás distraída com o celular, quase colidiu com ele.
— O que foi, Emanuel? Viu um fantasma? — Ela seguiu o olhar dele e soltou um riso seco, carregado de deboche. — Ora, ora... parece que a nossa santinha da biblioteca resolveu fazer uma peregrinação ao templo do consumo. E que bom gosto, hein? Esse sapato custa o meu aluguel de um mês.
Emanuel não respondeu. Ele sentiu uma mistura estranha de admiração e irritação. Ela estava linda, parecia uma pintura de Degas naquele ambiente sofisticado, mas a mentira sobre a biblioteca ardia em seu peito.
— Vamos entrar — ordenou Emanuel, sua voz soando como um comando que não admitia réplicas.
Eles entraram na loja. O som dos saltos de Sara no chão polido anunciou a chegada deles antes mesmo de Emanuel abrir a boca. Eduarda, que estava admirando o sapato no próprio pé, levantou a cabeça. Seu rosto passou do encanto para o pavor em frações de segundo.
— Emanuel? Sara? — A voz dela falhou, e ela instintivamente tentou esconder o pé calçado com o sapato luxuoso sob a saia do vestido.
— Oi, Duda! Que coincidência maravilhosa — Sara disse, caminhando até ela com um sorriso predatório. — Não sabia que a bibliografia de História da Arte agora incluía catálogos da Jimmy Choo.
Eduarda ficou vermelha, um tom de escarlate que subiu do pescoço até as orelhas. Ela olhou para Emanuel, buscando algum sinal de clemência, mas encontrou apenas um olhar sombrio e observador.
— Eu... eu terminei mais cedo — gaguejou Eduarda, levantando-se com dificuldade, ainda equilibrada em apenas um salto. — Minha mãe me deu um dinheiro de presente pela ajuda com a tia Berenice e eu... eu queria algo bonito.
Emanuel deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. Ele se inclinou e pegou o outro pé do par de sapatos que estava sobre o pufe.
— É um sapato de festa, Eduarda — ele comentou, analisando a peça com olhos de quem entende de estética e qualidade. — Para onde você planejava ir com isso? Porque, até onde eu sei, você recusa todos os meus convites para eventos sociais alegando timidez.
— Eu só achei bonito, Emanuel — ela murmurou, os olhos começando a brilhar com as lágrimas que ela sempre lutava para conter. — Eu queria me sentir... diferente.
Sara soltou uma gargalhada, atraindo a atenção das vendedoras que observavam a cena de longe.
— Diferente? Querida, você quer se sentir como eu. Admita. Você passa o dia de sapatilhas e vestidos de camponesa, mas no fundo, quer o glamour que o Emanuel me dá — Sara se aproximou de Eduarda, tocando o tecido do vestido dela com desdém. — Só que tem um problema: esse sapato exige uma postura que você não tem. Você vai tropeçar na primeira calçada de cimento.
— Deixe ela, Sara — Emanuel interveio, mas seu tom não era de proteção total. — Então é isso, Duda? Você mente para mim sobre onde está para vir comprar sapatos que não tem coragem de usar na minha frente?
— Eu não menti! — Eduarda exclamou, recuperando um pouco de voz. — Eu só não queria que você achasse que eu estava gastando dinheiro com futilidade enquanto você me pressiona para decidir minha vida.
Emanuel suspirou, sentindo a tensão latejar em suas têmporas. Ele se virou para a vendedora, que aguardava ansiosa.
— Eu vou levar o par. E veja se há uma bolsa que combine.
— Não! — Eduarda disse prontamente. — Eu quero pagar. É o meu presente.
— Eduarda, não comece — Emanuel disse, firme. — Se você quer o sapato, você vai ter o sapato. Mas você vai usá-lo amanhã, no jantar que eu organizei com os investidores do estúdio de Milão.
Eduarda empalideceu.
— Emanuel, eu não posso... eu não conheço ninguém, eu vou ficar nervosa...
— Você vai — ele reafirmou, aproximando-se do ouvido dela e sussurrando: — Se você tem coragem de mentir para mim e vir aqui comprar sapatos de luxo escondida, tem coragem de ostentá-los ao meu lado. Chega de se esconder atrás dos seus pais ou da sua timidez.
Sara, que observava a interação com os braços cruzados, revirou os olhos.
— Ótimo. Mais uma noite em que eu vou ter que fazer o papel de babá da namorada tímida enquanto tento fechar contratos milionários. Emanuel, você é um masoquista.
— Sara, leve as meninas para o carro. Eu encontro vocês lá em dez minutos — ele ordenou, sem tirar os olhos de Eduarda.
Sara bufou, deu meia-volta e saiu da loja, fazendo questão de esbarrar levemente no ombro de Eduarda ao passar.
— Vejo você no jantar, Cinderela — provocou Sara. — Tente não perder o sapato... ou a dignidade.
Quando ficaram a sós, o silêncio na loja tornou-se pesado. Emanuel entregou o cartão para a vendedora e voltou-se para Eduarda, que agora estava sentada, descalçando o salto com mãos trêmulas.
— Por que você faz isso, Duda? — perguntou ele, a voz agora mais suave, mas ainda carregada de decepção. — Por que se esconde de mim? Eu te daria uma loja inteira se você pedisse.
— É exatamente por isso, Emanuel — ela disse, olhando para ele com seus olhos expressivos e úmidos. — Eu não quero ser mais uma coisa que você compra. A Sara... ela adora isso. Ela vive para o seu sucesso, para o seu dinheiro, para a administração dos seus estúdios. Eu só quero você. Mas quando eu venho aqui e compro algo com o meu próprio esforço, eu sinto que ainda tenho um pouco de mim. Se eu morar com você, eu sinto que vou desaparecer na sombra da Sara e na sua vontade.
Emanuel sentiu um aperto no peito. Ele a puxou pela cintura, forçando-a a se levantar e a ficar colada ao seu corpo.
— Você nunca vai desaparecer. Você é o que me mantém são, Eduarda. A Sara é meu braço direito, ela é a mãe das minhas filhas, eu a amo pela força dela. Mas você é o meu coração. Só que o meu coração precisa estar perto de mim. Maya sente sua falta. Eu sinto sua falta.
Eduarda encostou a testa no peito dele, sentindo o aroma familiar de tabaco e perfume caro.
— Eu amo a Maya, Emanuel. Você sabe que sim. Ela é o meu grudinho. Mas eu tenho medo. Medo de não ser o suficiente para essa vida que você leva.
— Você é mais do que suficiente. Amanhã, você vai colocar esse sapato, vai erguer a cabeça e vai mostrar para todos aqueles investidores — e para a Sara — que você é a mulher que eu escolhi para estar ao meu lado tanto quanto ela.
Ele a beijou com uma intensidade que a deixou sem fôlego, um beijo que era ao mesmo tempo uma promessa e uma reivindicação. A vendedora retornou com a sacola elegante, tossindo discretamente para chamar a atenção.
Emanuel pegou a sacola e a entregou para Eduarda.
— Amanhã, às oito. Eu mando o motorista te buscar. E não aceite um "não" de si mesma, Eduarda.
Ela pegou a sacola, sentindo o peso do couro e da expectativa.
***
No dia seguinte, a cobertura estava em polvorosa. Sara estava em seu elemento, vestindo um macacão de alfaiataria branco, decotadíssimo, que gritava poder e competência. Ela estava ao telefone com Tóquio enquanto retocava o batom.
— Sim, os números de Berlim estão ótimos. Emanuel está animado com a nova filial. Falamos depois.
Ela desligou e olhou para Emanuel, que terminava de abotoar os punhos de sua camisa social preta.
— Você acha mesmo que ela vem? — perguntou Sara, com uma sobrancelha arqueada.
— Ela vem — respondeu Emanuel, embora houvesse uma ponta de dúvida em seu íntimo.
Nesse momento, a campainha tocou. O motorista anunciou a chegada de Eduarda.
Quando a porta do elevador se abriu, o silêncio caiu sobre a sala. Até mesmo Ágata, que estava no colo da babá, pareceu observar com atenção.
Eduarda estava deslumbrante. Ela usava um vestido de seda azul-marinho, simples porém sofisticado, que realçava sua pele clara e seus cabelos castanhos, que estavam soltos em ondas perfeitas. E nos pés, os sapatos azul-celeste brilhavam sob a luz dos lustres de cristal.
Ela caminhava com cuidado, a timidez ainda presente em seus ombros levemente encolhidos, mas havia uma determinação nova em seu olhar.
Emanuel caminhou até ela e pegou sua mão, beijando-a.
— Você está maravilhosa, Duda.
— Obrigada — ela sussurrou, olhando para Sara.
Sara caminhou até eles, circulando Eduarda como um tubarão avaliando uma presa. Ela parou na frente da jovem e olhou para os sapatos.
— Nada mal, pequena. Pelo menos você não caiu até agora.
— Eu estou tentando, Sara — Eduarda respondeu, mantendo o contato visual de uma forma que surpreendeu a loira.
— Ótimo. Porque o mundo lá fora não tem tapetes fofos como esses para te segurar se você tropeçar — Sara sorriu, um sorriso que desta vez tinha uma pitada de respeito relutante. — Vamos. Os italianos odeiam atrasos.
O jantar foi um sucesso, mas não sem seus desafios. Eduarda passou a primeira hora quase muda, sentindo o olhar crítico de Sara sobre ela a cada vez que pegava o talher errado ou hesitava em uma conversa sobre economia artística. Mas, conforme o vinho fazia efeito e Emanuel mantinha sua mão possessivamente sobre a dela por baixo da mesa, ela começou a se soltar.
Ela falou sobre a Renascença, sobre a importância da estética na tatuagem moderna e como a arte clássica influenciava os desenhos que Emanuel criava. Os investidores ficaram encantados com sua doçura e conhecimento profundo.
Sara, por sua vez, dominava as conversas sobre expansão e lucros, garantindo que todos soubessem quem era a mente administrativa por trás do império.
Eram duas faces de uma mesma moeda, e Emanuel as observava com um orgulho indisfarçável.
No final da noite, de volta à cobertura, a adrenalina começou a baixar. As gêmeas já dormiam. Sara foi direto para o escritório para enviar alguns e-mails de acompanhamento do jantar, enquanto Emanuel e Eduarda ficaram na varanda, observando as luzes da cidade.
Eduarda tirou os sapatos, suspirando de alívio ao sentir o chão frio.
— Meus pés estão me matando — ela confessou, rindo baixinho.
— Mas valeu a pena — Emanuel a abraçou por trás, descansando o queixo em seu ombro. — Você viu como eles te olharam? Você é brilhante, Duda.
— Eu me senti... capaz. Pela primeira vez, eu não me senti apenas a "outra namorada".
— Você nunca foi isso.
Eles ficaram em silêncio por um tempo, até que Sara apareceu na porta da varanda, descalça e com o cabelo um pouco bagunçado, segurando uma taça de vinho.
— Ok, eu admito — disse Sara, encostando-se no batente. — Você não passou vergonha, Eduarda. Na verdade, aquele comentário sobre o contraste de sombras foi bem inteligente. Os italianos adoraram.
Eduarda sorriu, um sorriso genuíno.
— Obrigada, Sara. Isso vindo de você significa muito.
— Não se acostume — Sara deu um gole no vinho. — Mas escute... Maya acordou três vezes enquanto estávamos fora. A babá disse que ela não queria a mamadeira, ela queria "Duda".
O coração de Eduarda apertou.
— Ela está acordada agora?
— Não, finalmente dormiu. Mas o ponto é... — Sara olhou para Emanuel e depois para Eduarda. — Eu não gosto de admitir quando estou sobrecarregada, mas administrar esses estúdios e lidar com uma bebê que me rejeita emocionalmente é... cansativo. Se você vai insistir em ser a favorita da minha filha, o mínimo que pode fazer é estar aqui para lidar com as crises dela.
Emanuel sentiu a abertura que Sara estava criando. Era o mais próximo de um "pedido de paz" que Sara conseguiria chegar.
— O que você está dizendo, Sara? — perguntou Emanuel.
— Estou dizendo que a Cinderela já provou que pode usar o sapato e não quebrar o pescoço. Então, por que não traz logo esse resto de malas para cá? Pelo menos assim eu posso trabalhar em paz sem ouvir o choro da Maya ecoando pelas paredes.
Eduarda olhou para os sapatos azul-celeste jogados no canto da varanda. Eles representavam o luxo, a pressão e a nova vida que a esperava. Mas depois olhou para Emanuel, cujo olhar queimava de desejo e expectativa, e para Sara, que apesar da arrogância, estava lhe estendendo uma mão (mesmo que de forma torta).
Pela primeira vez, o medo de desaparecer não era maior do que o desejo de pertencer.
— Eu trago as malas amanhã — disse Eduarda, a voz firme.
Emanuel a girou nos braços, beijando-a com uma alegria selvagem. Sara apenas deu de ombros e tomou mais um gole de vinho, escondendo um pequeno sorriso de satisfação. O equilíbrio ainda era frágil, as personalidades ainda colidiriam e o caos era inevitável, mas finalmente, o império de Emanuel estava completo. Sob o mesmo teto, entre o luxo de Sara e a doçura de Eduarda, ele tinha tudo o que sempre quis.
E, no quarto ao lado, como se soubesse que sua "mãe de alma" finalmente tinha voltado para ficar, a pequena Maya soltou um suspiro profundo em seu sono, finalmente em paz.