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O Aroma das Flores Brancas
A biblioteca da faculdade de História da Arte era um reduto de silêncio e cheiro de papel antigo, um contraste absoluto com o caos vibrante dos estúdios de tatuagem de Emanuel. O Alfa caminhava pelos corredores de prateleiras altas com uma presença que parecia deslocada; seus ombros largos e a aura de poder que emanava de seus poros faziam as mesas de madeira parecerem brinquedos. Ele não vestia nada chamativo, apenas uma camiseta preta que marcava seus músculos e uma calça jeans escura, mas o modo como seus olhos âmbar escaneavam o ambiente denunciava o predador em busca de sua presa mais delicada.
Ele a encontrou em uma mesa isolada, perto de uma janela por onde a luz da tarde entrava de forma filtrada, iluminando as partículas de poeira no ar. Eduarda estava debruçada sobre um livro pesado de iluminuras medievais. Ela parecia ainda menor cercada por toda aquela literatura. O cabelo castanho caía em ondas naturais sobre os ombros, e ela usava um cardigã de tricô bege que parecia abraçá-la.
Emanuel parou a poucos metros, apenas observando. Ele sentiu o cheiro dela — baunilha, frio e aquela doçura metálica sutil. Seu lobo interno se agitou, não com fome, mas com um instinto territorial avassalador. Ele queria pegá-la no colo e levá-la para um lugar onde ninguém mais pudesse olhar para aquela expressão de concentração tão pura.
Ele se aproximou lentamente, seus passos silenciosos apesar do porte físico. Quando ele parou ao lado da mesa, a sombra dele caiu sobre as páginas do livro. Eduarda deu um pequeno sobressalto, os olhos arregalados se erguendo para encontrar os dele.
— Você veio — ela murmurou, a voz falhando levemente. Um rubor suave, quase milagroso para uma vampira, coloriu suas bochechas pálidas.
— Eu disse que viria — Emanuel respondeu, puxando a cadeira ao lado dela e sentando-se. Ele estava perto demais para os padrões de um estranho, mas Eduarda não se afastou. Em vez disso, ela inclinou o corpo sutilmente na direção dele, como uma planta buscando o sol.
— Eu não achei que um homem tão ocupado lembraria de uma estudante de arte — disse ela, fechando o livro devagar, os dedos finos acariciando a capa de couro.
— Eu não esqueço o que me interessa, Eduarda — ele disse o nome dela com uma reverência rouca, fazendo-a estremecer. — E você me interessa muito.
Eduarda baixou o olhar, brincando com a ponta da manga do cardigã. O jeito manhoso dela, a forma como ela se encolhia e buscava aprovação em cada gesto, despertava em Emanuel uma paciência que ele raramente exercia com Sara. Com Sara, tudo era faísca, desafio e explosão. Com Eduarda, ele sentia que precisava baixar o tom de voz, suavizar os movimentos, ser o porto seguro que ela parecia desesperadamente precisar.
— Onde está... a sua namorada? — Eduarda perguntou, a curiosidade vencendo a timidez. — A loira bonita. Ela é tão... intensa.
— Sara está cuidando da administração de um dos estúdios — Emanuel explicou, observando a reação de Eduarda. — Ela é a minha força, a minha companheira de alcateia. Mas você... você é algo que eu nunca vi antes.
Ele estendeu a mão e, com uma delicadeza surpreendente, tocou uma mecha do cabelo de Eduarda, colocando-a atrás da orelha dela. A pele dela era fria, mas o contato fez o coração de Emanuel bater mais forte.
— Eu sou apenas uma vampira que não gosta de sangue quente — ela disse, dando um sorriso pequeno e triste. — Minha família me acha frágil. Eu não consigo caçar, Emanuel. Eu sinto pena até dos ratos.
— Você não precisa caçar — ele afirmou, a voz carregada de uma promessa possessiva. — Eu posso prover tudo o que você precisar. Proteção, sustento... carinho.
Eduarda olhou para ele, os olhos castanhos brilhando com uma vulnerabilidade que desarmou o Alfa.
— Por que eu? — ela sussurrou. — Você tem aquela mulher incrível ao seu lado. Eu sou só... eu.
— Sara é o meu fogo, Eduarda — ele disse, aproximando o rosto do dela até que pudessem sentir a respiração um do outro. — Mas eu descobri que também preciso da paz. Eu quero cuidar de você. Quero que você seja o meu refúgio quando o mundo lá fora ficar pesado demais.
— Eu não sei se sei ser um refúgio — ela disse, o tom de voz ficando mais manhoso, quase um dengo enquanto ela se apoiava levemente no braço dele. — Eu sou um pouco dependente. Gosto de atenção.
Emanuel sorriu, um sorriso raro que não chegava aos negócios ou às reuniões da alcateia.
— Isso é exatamente o que eu quero te dar.
Ele se levantou e estendeu a mão para ela.
— Venha. Quero te levar para jantar. E não se preocupe, eu sei de um lugar que serve o tipo de... bebida que você prefere, de forma discreta e elegante.
Eduarda aceitou a mão dele, sentindo a força e o calor que emanavam de Emanuel. Enquanto caminhavam para fora da biblioteca, ela se sentia pequena ao lado dele, mas, pela primeira vez em muito tempo, sentia-se segura.
***
Enquanto isso, no loft luxuoso de Emanuel, o clima era diferente. Sara estava sentada no balcão da cozinha, usando apenas uma lingerie preta de renda e um roupão de seda aberto. Ela revisava alguns contratos no iPad enquanto bebia uma taça de vinho tinto, os lábios pintados de um carmesim vibrante.
Quando a porta se abriu e Emanuel entrou, o cheiro dele o precedeu. Mas não era apenas o cheiro dele. Havia um rastro sutil, doce e frio, impregnado em suas roupas.
Sara não era boba. Ela era uma Beta, treinada para ler sinais e defender seu território. Ela se levantou, caminhando até ele com um requebrado provocante, e envolveu o pescoço do Alfa com os braços, puxando-o para um beijo profundo e exigente. Emanuel retribuiu com a intensidade de sempre, as mãos grandes apertando a cintura dela, sentindo o silicone firme de seus seios contra seu peito.
Quando se separaram, Sara inclinou a cabeça, um sorriso irônico brincando em seus lábios.
— Você cheira a flores velhas e geladeira, Manu — ela disse, a voz carregada de sarcasmo, mas sem raiva real. — Esteve com a bonequinha de porcelana, não foi?
Emanuel não desviou o olhar. Ele não mentia para Sara; não precisava.
— Estive — ele admitiu, a voz firme. — Eu disse que iria visitá-la.
Sara soltou uma risadinha, voltando para sua taça de vinho.
— Ela é fofa, eu admito. Dá vontade de guardar em uma caixa de veludo para não quebrar. Mas você sabe que ela não aguenta o nosso ritmo, não sabe? Ela vai se assustar com a primeira rosnada que você der no quarto.
— Ela não precisa aguentar o nosso ritmo, Sara — Emanuel disse, aproximando-se dela e tirando a taça de sua mão para deixá-la de lado. — Ela ocupa um espaço diferente. Com você, eu tenho a guerra e a paixão. Com ela, eu tenho o silêncio.
Sara arqueou uma sobrancelha loira, a confiança inabalável brilhando em seus olhos.
— E você acha que consegue manter as duas? Eu sou a sua Alfa fêmea, Manu. Eu administro sua vida, eu luto suas batalhas. Eu não vou ser deixada de lado por uma vampira que estuda quadros.
Emanuel a puxou para perto, colando seus corpos.
— Você nunca será deixada de lado. Você é a rainha deste império. Mas eu sou o Alfa, Sara. E eu decidi que ela também pertence a mim.
Sara o avaliou por um momento. Ela viu a determinação nos olhos dele, a mesma que ele usava para esmagar concorrentes e expandir seus estúdios pelo mundo. Ela também sentiu uma pontada de curiosidade. Eduarda era tão inofensiva, tão doce, que Sara não conseguia vê-la como uma rival à altura. Era como comparar um tanque de guerra com uma flor de lótus.
— Se ela souber o lugar dela... — Sara murmurou, passando as unhas longas pela nuca de Emanuel — ...eu não me importo de compartilhar um pouco do seu tempo. Vai ser divertido ver quanto tempo ela aguenta o cheiro de lobo antes de sair correndo para o caixão dela.
— Ela não vai a lugar nenhum — Emanuel afirmou, beijando o pescoço de Sara com possessividade.
***
Nos dias que se seguiram, Emanuel mergulhou em uma rotina dupla que o exauria e o fascinava.
Às tardes, ele era o protetor gentil de Eduarda. Ele a buscava na faculdade, levava-a para passear em jardins botânicos ou galerias de arte onde a luz era suave. Eduarda era uma criatura de afetos físicos pequenos e constantes. Ela segurava o braço dele o tempo todo, encostava a cabeça em seu ombro enquanto ele falava sobre os planos para o futuro, e pedia, com um jeitinho manhoso, para que ele comprasse doces que ela mal conseguia comer, apenas pelo prazer de ser mimada.
— Emanuel, você acha que eu sou muito boba? — ela perguntou uma tarde, enquanto estavam sentados em um banco de parque isolado. — Meu pai diz que eu vivo em um mundo de sonhos.
— O seu mundo de sonhos é o que me faz querer ser um homem melhor, Eduarda — ele respondeu, acariciando o rosto dela. — Não mude nada. Eu cuido da realidade para você.
Eduarda fechou os olhos, apreciando o toque.
— Às vezes eu tenho medo de que você se canse de mim. Eu não sou forte como a Sara. Eu não sei administrar empresas ou liderar lobos.
— Eu não quero outra administradora — Emanuel disse, a voz ficando mais profunda. — Eu quero você. Quero sua doçura, quero o modo como você me olha como se eu fosse o centro do seu universo.
Ele a beijou então, um beijo lento, cuidadoso, como se estivesse provando um cristal valioso. Eduarda suspirou contra os lábios dele, entregando-se totalmente, sua fragilidade agindo como um ímã para o instinto protetor de Emanuel.
À noite, porém, Emanuel voltava para a realidade bruta e excitante de Sara.
Eles discutiam estratégias de marketing para o novo estúdio em Londres entre beijos vorazes e risadas cínicas. Sara o provocava, testava sua paciência, exigia dele o máximo de sua força física e mental. Ela era o espelho de sua própria ambição.
— Aquela garota vai acabar te deixando mole, Manu — Sara brincou uma noite, enquanto eles treinavam combate na sala de ginástica do loft. Ela desferiu um golpe que ele bloqueou com facilidade, mas a agilidade dela o fez sorrir.
— Ela não me deixa mole, Sara. Ela me dá equilíbrio — ele respondeu, derrubando-a no tatame e prendendo-a sob seu corpo.
Sara riu, ofegante, os olhos brilhando de desejo e competitividade.
— Equilíbrio é para os fracos. Eu prefiro o caos.
Emanuel a beijou com força, sentindo a mordida dela em seu lábio inferior, o gosto de sangue despertando o lobo.
— Você terá o caos, Sara. Sempre. Mas eu terei a paz dela também.
A dinâmica estava se estabelecendo. Emanuel sentia-se como um arquiteto construindo um monumento complexo. Ele começou a preparar o terreno para o encontro inevitável das duas em um ambiente mais íntimo. Ele queria que Eduarda se sentisse confortável no loft, e queria que Sara entendesse que a presença da vampira não diminuía o poder da loba.
Em uma sexta-feira, Emanuel decidiu que era hora. Ele comprou um conjunto de joias delicadas para Eduarda — um colar de ouro branco com uma pequena pérola — e um bracelete de ouro maciço e diamantes para Sara, algo que combinava com a ostentação que ela amava.
Ele convidou Eduarda para ir ao loft para um "jantar tranquilo".
Quando Eduarda chegou, ela parecia uma fada perdida em um castelo de gigantes. O loft era moderno, com concreto exposto, grandes janelas e obras de arte contemporâneas e agressivas. Ela usava um vestido de renda azul-claro e segurava a alça da bolsa com as duas mãos, visivelmente nervosa.
— É... é muito grande — ela sussurrou, aproximando-se de Emanuel assim que ele abriu a porta.
— É a sua casa agora também, se você quiser — ele disse, beijando a testa dela.
Sara apareceu no topo da escada de metal, usando um vestido preto tão justo que parecia uma segunda pele, os cabelos loiros impecavelmente ondulados. Ela desceu os degraus com a confiança de uma predadora em seu território.
— Ora, se não é a nossa pequena obra de arte — Sara disse, a voz melodiosa e cheia de uma ironia que fez Eduarda se encolher levemente contra o braço de Emanuel.
— Olá, Sara — Eduarda disse, baixinho, tentando ser corajosa. — Você está muito bonita.
Sara parou diante dela, avaliando-a. O contraste era quase cômico: a loba exuberante, siliconada e vibrante, e a vampira pálida, esguia e delicada.
— Você é fofa, boneca. Realmente fofa — Sara estendeu a mão e tocou a pérola no pescoço de Eduarda. — O Manu tem bom gosto para joias. E para mulheres também, embora tenhamos estilos bem diferentes.
Emanuel colocou a mão no ombro de cada uma, unindo-as em seu espaço pessoal.
— Vamos jantar. Temos muito o que conversar sobre como as coisas vão funcionar daqui para frente.
O jantar foi uma experiência de tensão e descoberta. Sara, fiel ao seu estilo, não poupou comentários ácidos sobre a dieta de Eduarda ou sua falta de instinto de sobrevivência. Eduarda, por sua vez, ouvia tudo com uma paciência doce, às vezes fazendo perguntas ingênuas que desarmavam o sarcasmo de Sara.
— Então você realmente não ataca nem se estiver com muita fome? — Sara perguntou, devorando um pedaço de carne malpassada. — Que tédio.
— Eu não gosto de causar dor — Eduarda explicou, segurando sua taça de sangue sintético resfriado com delicadeza. — O mundo já é tão violento, não acha?
Sara deu de ombros, mas seus olhos mostraram um lampejo de respeito pela honestidade da garota.
— É, talvez. Mas a violência é o que nos mantém no topo, docinho.
Emanuel observava as duas, sentindo uma satisfação profunda. Ele via que Sara não odiava Eduarda; ela a via como um animal de estimação exótico e precioso. E Eduarda via em Sara a força que ela mesma não possuía, uma âncora de realidade.
Ao final da noite, enquanto estavam sentados no grande sofá de couro, Eduarda, já mais relaxada pela presença constante de Emanuel ao seu lado, acabou pegando no sono com a cabeça no colo dele. O Alfa acariciava os cabelos castanhos dela com uma mão, enquanto a outra estava entrelaçada na de Sara.
— Você é um maníaco, sabia? — Sara sussurrou, olhando para a garota adormecida. — Quer o mundo inteiro aos seus pés.
— Eu só quero o que é meu, Sara — Emanuel respondeu, a voz baixa e carregada de autoridade. — E agora, eu tenho tudo.
Sara sorriu, aproximando-se para beijar o canto da boca de Emanuel.
— É, você tem. Mas não ache que eu vou facilitar para ela. Se ela quer fazer parte da nossa vida, vai ter que aprender a lidar com o barulho.
Emanuel olhou para Eduarda, tão frágil e doce em seu sono, e depois para Sara, tão forte e leal em sua audácia. Ele era o Alfa, o tatuador que marcava a pele e a alma das pessoas. E ele tinha acabado de desenhar o rascunho de sua obra-prima: uma vida onde ele não precisava escolher.
Ele teria a loba para caçar ao seu lado e a vampira para amar em seu refúgio. E ai de quem tentasse tirar qualquer uma delas de seu domínio. Naquela noite, sob o teto de seu império, Emanuel finalmente sentiu que o estresse constante de sua vida encontrou, nas mãos de duas mulheres tão opostas, o seu descanso.