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D

O Sangue do Alfa

O silêncio no loft de Emanuel nunca pareceu tão pesado. Geralmente, o ambiente era preenchido pelo som rítmico do teclado de Sara organizando planilhas ou pela música clássica suave que Eduarda gostava de ouvir enquanto estudava seus livros de arte. Mas, naquela manhã, o ar estava carregado de uma tensão fria e metálica.

Emanuel estava de pé diante da imensa janela de vidro que dava para a cidade, o celular pressionado contra a orelha. Seus nós dos dedos estavam brancos de tanto apertar o aparelho.

— Como assim, "problemas logísticos"? — a voz de Emanuel saiu como um rosnado baixo, o som de um lobo prestes a atacar. — Eu pago três vezes o valor de mercado para garantir que o suprimento da família dela nunca atrase. Eu não quero saber de desculpas sobre a vigilância sanitária ou greve de transportes. Eu quero o sangue em minha porta em duas horas.

— Senhor... sinto muito — a voz do outro lado da linha tremia. — O lote foi confiscado para averiguação legal. Não há nada que possamos fazer até a próxima semana. Todos os bancos de sangue legalizados para consumo não-humano estão sob auditoria.

Emanuel desligou o celular sem dizer mais nada. Ele sentiu uma vontade súbita de socar a parede de concreto, mas se conteve. Ele era um Alfa; precisava de controle.

— Eles não vêm, não é? — Sara apareceu na porta da cozinha. Ela usava um short jeans curto e uma regata branca que deixava à mostra as tatuagens em seus braços. Seus olhos loiros estavam sérios, desprovidos da ironia habitual.

— Não — Emanuel respondeu, virando-se para ela. — O suprimento está bloqueado. Eduarda não come nada desde ontem à noite.

— Ela está ficando pálida, Manu. Mais do que o normal — Sara cruzou os braços, preocupada. — Eu fui levar o café dela no quarto e ela nem conseguiu se sentar direito. Aquela menina é uma boneca de porcelana, você sabe. Se ela ficar sem combustível, ela vai apagar.

Emanuel passou a mão pelo rosto, sentindo o estresse acumulado latejar em suas têmporas.

— Eu vou falar com ela.

Ele caminhou até o quarto de hóspedes, que agora era permanentemente de Eduarda. O quarto tinha sido redecorado com tons pastéis, cortinas pesadas para bloquear o sol e muitas almofadas macias. Eduarda estava deitada, encolhida sob um edredom de plumas. Seus cabelos castanhos estavam espalhados pelo travesseiro e sua pele parecia quase azulada sob a luz fraca.

— Duda? — Emanuel chamou suavemente, sentando-se na beira da cama.

Ela abriu os olhos devagar. Eles pareciam maiores do que o normal, as pupilas dilatadas pela fome que começava a consumir suas forças.

— Emanuel... — ela sussurrou, a voz tão frágil que partiu o coração do lobo. — Eu me sinto um pouco tonta. O moço da entrega já chegou?

Emanuel engoliu em seco. Ele odiava dar más notícias a ela. Eduarda era manhosa, sensível; ela não tinha a casca grossa de Sara para lidar com crises.

— Houve um problema com o banco de sangue, querida. Vai demorar alguns dias para normalizar.

Eduarda piscou, processando a informação. Um tremor percorreu seu corpo esguio.

— Dias? Mas... eu não consigo esperar dias. Minha garganta... ela queima.

— Eu sei. Por isso, precisamos dar um jeito — Emanuel acariciou a bochecha dela, sentindo a temperatura cair. — Sara e eu podemos sair. Podemos encontrar... algo. Um animal, talvez? Um cervo na floresta da reserva? Eu caço para você, Eduarda. Eu trago para você.

Eduarda arregalou os olhos, uma expressão de puro horror cruzando seu rosto doce.

— Não! — ela tentou se sentar, mas fraquejou, sendo amparada pelos braços fortes de Emanuel. — Não, por favor. Eu não quero que nada morra por minha causa. O sangue das bolsas é... é impessoal. Eu não vejo o rosto, eu não sinto o coração parar. Eu não conseguiria beber de algo que estava vivo e respirando um minuto antes. Eu prefiro definhar.

— Não diga bobagens! — Emanuel exclamou, a autoridade de Alfa escapando por um momento. — Você não vai definhar. Eu não vou deixar.

Sara entrou no quarto, observando a cena. Ela encostou-se no batente da porta, o rosto suavizado por uma rara expressão de compaixão.

— Duda, escuta — disse Sara, aproximando-se. — Eu sou uma loba. Eu mato para comer se for preciso. É a natureza. Não é pecado, é sobrevivência. Se o Manu trouxer um coelho, você só precisa fechar os olhos.

— Eu não posso, Sara — Eduarda começou a chorar, lágrimas silenciosas e pesadas. — Eu veria os olhos do bichinho. Eu não sou como vocês. Eu sou fraca, eu sei. Me desculpem por ser um fardo.

Emanuel sentiu uma pontada de desespero. Ele era o Alfa, o homem que resolvia tudo, o dono de um império. Ele tinha dinheiro, tinha poder, mas não conseguia comprar o que sua pequena vampira precisava para sobreviver àquela tarde. Ele olhou para Eduarda, tão dependente, tão manhosa em sua dor, buscando o calor do corpo dele como se fosse sua única âncora.

Uma ideia começou a se formar na mente de Emanuel. Era perigosa, era instintiva e ia contra todas as leis da natureza entre espécies. Lobos e vampiros não misturavam sangue. O sangue de um Alfa era potente, carregado de magia e vitalidade lupina. Para um vampiro, poderia ser um tônico incrível ou um veneno avassalador.

Mas ele não via outra saída.

— Sara — Emanuel disse, sem tirar os olhos de Eduarda. — Saia um pouco. Vá para a sala.

Sara arqueou a sobrancelha, percebendo a mudança na postura dele.

— O que você vai fazer, Manu?

— O que for necessário — ele respondeu de forma curta.

Sara suspirou, mas assentiu. Ela sabia quando não devia questionar o Alfa. Antes de sair, ela tocou o pé de Eduarda por cima do cobertor.

— Aguenta firme, boneca. O Manu vai dar um jeito.

Quando a porta se fechou, Emanuel voltou sua atenção total para a jovem em seus braços. Ele a trouxe para mais perto, sentindo o cheiro de baunilha dela misturado ao aroma metálico da fome.

— Eduarda, olhe para mim — ele ordenou gentilmente.

Ela levantou o rosto, os lábios entreabertos e ressecados.

— Você confia em mim? — perguntou ele.

— Com a minha vida — ela respondeu sem hesitar, o tom manhoso e entregue que sempre o desarmava.

Emanuel respirou fundo e puxou a gola da própria camiseta, expondo a curva do pescoço e do ombro, onde a veia pulsação era forte e rítmica.

— Beba de mim.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Eduarda recuou, os olhos castanhos transbordando choque.

— O quê? Não! Emanuel, você é um lobo... seu sangue... eu não posso te machucar!

— Você não vai me machucar — ele disse, a voz num tom de comando que não admitia réplicas. — Meu corpo se regenera rápido. Eu tenho sangue de sobra e ele é puro. É melhor do que qualquer bolsa de plástico que você já tomou.

— Mas é você — ela soluçou, escondendo o rosto no peito dele. — Eu não quero te morder como se você fosse uma presa.

— Eu não sou sua presa, Eduarda. Eu sou seu companheiro. Eu estou oferecendo isso porque eu quero que você viva. Eu quero que você seja forte — ele segurou o queixo dela, forçando-a a olhar para ele. — Não é um ataque. É um presente.

Eduarda tremia violentamente. A fome em sua garganta era agora um incêndio incontrolável, atiçado pela proximidade do pulso vibrante de Emanuel. Ela podia ouvir o sangue dele correndo, um som rico, quente e cheio de vida. Era o cheiro de floresta, de terra molhada e de poder.

— Por favor... — ela implorou, mas nem ela sabia se estava pedindo para ele parar ou para continuar.

— Beba, Duda. Agora. É uma ordem do seu Alfa.

Aquelas palavras quebraram a última barreira de resistência dela. Movida por um instinto milenar que ela tentava suprimir todos os dias, Eduarda se inclinou. Seus lábios tocaram a pele quente de Emanuel. Ela hesitou por um segundo, sentindo o calor irradiar dele, tão diferente do frio que a habitava.

Emanuel sentiu quando as presas dela, finas como agulhas, perfuraram sua pele.

Ele soltou um suspiro profundo, não de dor, mas de uma conexão visceral. O sangue de um lobo Alfa era como fogo líquido. Quando Eduarda começou a sugar, ele sentiu uma tontura momentânea, uma sensação de esvaziamento que foi rapidamente substituída por uma onda de possessividade. Ela estava se alimentando dele. Ele a estava mantendo viva com sua própria essência.

Eduarda, por outro lado, sentiu o mundo explodir em cores. O sangue de Emanuel não era como o sangue frio e insípido das bolsas legalizadas. Era denso, vibrante, carregado de uma energia que a fez gemer contra a pele dele. Ela se agarrou aos ombros dele, as unhas cravando-se levemente em seus músculos, enquanto bebia com uma sede que nunca soube que possuía.

— Isso... assim... — Emanuel murmurou, passando a mão pelas costas dela, mantendo-a pressionada contra si.

Ele podia sentir a força voltando para o corpo de Eduarda. O frio dela estava diminuindo, o calor dele sendo transferido através do vínculo de sangue. Era um ato de intimidade que superava qualquer coisa que ele já tivesse experimentado. Nem mesmo com Sara, em seus momentos mais selvagens, ele sentira tamanha entrega.

Depois de alguns minutos, Eduarda se afastou. Seus lábios estavam manchados de vermelho e seus olhos agora brilhavam com uma intensidade nova, um brilho de vitalidade que a tornava ainda mais bonita. Ela parecia atordoada, como se tivesse acabado de acordar de um sonho profundo.

— Emanuel... — ela sussurrou, passando a língua pelos lábios, o gosto dele ainda presente. — Eu sinto... eu sinto o seu lobo.

Emanuel sorriu, sentindo-se um pouco fraco, mas imensamente satisfeito. Ele limpou o canto da boca dela com o polegar.

— Ele agora faz parte de você também.

Eduarda se aninhou no peito dele, escondendo o rosto. Ela se sentia culpada, mas também imensamente amada. O fato de Emanuel ter oferecido seu próprio sangue, algo tão sagrado para um Alfa, provava que ela não era apenas um passatempo ou uma criatura para ser protegida em uma redoma. Ela era dele, em todos os sentidos possíveis.

— Você me salvou — ela murmurou, a voz voltando ao tom manhoso e doce. — Obrigada, meu lobo.

— Eu sempre vou te salvar, pequena — ele respondeu, beijando o topo da cabeça dela.

A porta se abriu silenciosamente e Sara entrou. Ela olhou para a cena — Emanuel um pouco pálido, Eduarda com os olhos brilhantes e o cheiro de sangue fresco no ar. Ela não ficou com ciúmes; ela entendeu a magnitude do sacrifício e do vínculo que acabara de ser selado.

— Bem — disse Sara, caminhando até a cama e sentando-se do outro lado de Eduarda. — Parece que a bonequinha agora tem um pouco de ferocidade nas veias. Como se sente, Duda?

Eduarda olhou para Sara e, pela primeira vez, não desviou o olhar com timidez. Ela deu um sorriso pequeno e confiante.

— Sinto que posso enfrentar o mundo.

Sara riu, uma risada aberta e vibrante.

— Ótimo. Porque se você vai morar com um Alfa e uma Beta, vai precisar de cada gota dessa energia.

Emanuel olhou para as duas mulheres em sua vida. Sara, a loba que era seu braço direito, sua força administrativa e sua paixão carnal. Eduarda, a vampira que era seu coração, sua doçura e agora, literalmente, parte de seu sangue.

O conflito que ele temia — a dificuldade de manter as duas — parecia estar se transformando em algo novo. Elas estavam começando a se entender, a criar um ecossistema próprio em torno dele.

— Agora — disse Emanuel, levantando-se com um pouco de esforço — eu preciso de um bife enorme e talvez algumas horas de sono. Sara, cuide dela.

— Com prazer — Sara respondeu, puxando Eduarda para um abraço de lado. — Vou ensinar a ela como o sangue de lobo pode ser viciante.

Eduarda corou, voltando à sua timidez habitual, mas não se afastou de Sara. Ela se sentia protegida por ambos, cada um à sua maneira.

Emanuel saiu do quarto, sentindo o pescoço latejar onde as presas de Eduarda o tocaram. Ele sabia que aquele ato mudaria tudo. O cheiro dele em Eduarda seria permanente agora; qualquer outro predador saberia que ela pertencia ao Alfa de forma irrevogável.

Ele caminhou até o escritório, sentando-se em sua cadeira de couro. Ele pegou o telefone e discou para o fornecedor de sangue novamente.

— Não precisa mais se apressar com a entrega — Emanuel disse, sua voz agora fria e perigosa como gelo. — Mas saiba disso: se houver outro erro, eu não vou apenas cancelar o contrato. Eu vou pessoalmente até aí e garanto que você nunca mais sinta fome. Entendido?

Ele desligou sem esperar resposta.

Emanuel olhou para as próprias mãos. Ele era um homem de posses, um artista da pele, um líder de alcateia. Ele queria o mundo e ele o tinha, em toda a sua complexidade loira e morena, forte e frágil.

Ele sabia que haveria desafios. A alcateia poderia questionar sua ligação sanguínea com uma vampira. Outros clãs de vampiros poderiam ver Eduarda como uma traidora. Mas, enquanto ele sentisse o calor de Sara e a doçura de Eduarda sob seu teto, Emanuel estava disposto a queimar o mundo para manter as duas exatamente onde pertenciam: ao seu lado.

Ele fechou os olhos por um momento, deixando o cansaço ser substituído pela satisfação. O Alfa tinha provido. O Alfa tinha protegido. E, no processo, ele tinha criado um laço que nem o tempo, nem a fome, nem a morte poderiam quebrar.