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Herança de Sangue e Sombras

O escritório de Emanuel, antes um santuário de ordem e autoridade, agora parecia pequeno demais para a magnitude das mudanças que ocorriam em sua vida. O cheiro de tinta de tatuagem e couro ainda estava lá, mas agora era sobreposto por algo mais doce, mais orgânico: o cheiro de vida nova que crescia em dobro sob seu teto.

Sara estava em pé junto à janela, a silhueta loira marcada pela luz do sol. Sua barriga de seis meses era uma curva orgulhosa e firme sob o vestido de seda justo. Ela não havia perdido nem um pouco de sua postura agressiva; se algo mudara, era que seus instintos de loba Beta estavam agora em alerta máximo, protegendo a pequena Ágata que chutava com força dentro dela.

No sofá de veludo, Eduarda parecia uma pintura renascentista. A gravidez de uma vampira era um fenômeno raro e delicado, e ela parecia ainda mais frágil, se é que isso era possível. Seus olhos castanhos estavam fixos nas imagens granuladas do último ultrassom que repousavam sobre a mesa de centro.

— Olhe para eles, Manu — sussurrou Eduarda, passando os dedos pálidos sobre o papel térmico. — Maya mal se mexeu durante o exame, ela estava tão encolhida, tão quietinha... mas o Arthur...

— O Arthur quase quebrou o transdutor da médica — interrompeu Sara, com uma risada curta e sem fôlego, sentando-se ao lado da vampira. Ela colocou a mão sobre a barriga de Eduarda com uma familiaridade que teria sido impensável meses atrás. — Esse menino vai ser um problema, Emanuel. Ele tem o seu gênio. Já a Maya... ela tem a paz da mãe.

Emanuel aproximou-se, ajoelhando-se entre as duas. Ele colocou uma mão no ventre de Sara e a outra no de Eduarda. O contraste era fascinante: o calor vibrante da loba e o frescor suave da vampira. Ágata, Maya e Arthur. Seus herdeiros. O ápice de seu desejo de possuir tudo.

— Eu vou dar o mundo a eles — prometeu Emanuel, a voz rouca de uma determinação sombria. — Ninguém vai tocar neles.

— Você diz isso, Manu — disse Sara, sua expressão tornando-se séria, perdendo a diversão de segundos antes —, mas o Conselho da Alcateia não para de enviar emissários. E os Anciãos do clã da Duda estão enviando cartas que cheiram a ameaça e mofo.

— Eles chamam meus filhos de abominações — Eduarda murmurou, os olhos enchendo-se de lágrimas. Ela se inclinou para o peito de Emanuel, buscando o refúgio que só ele provia. — Eles dizem que o sangue de lobo e vampiro não deveria se misturar, que Maya e Arthur são uma afronta às leis naturais.

Emanuel sentiu o rosnado vibrar em seu peito antes mesmo de sair por seus lábios.

— As leis naturais não se aplicam a mim. Eu sou o Alfa. Eu dito o que é lei nesta cidade.

A porta do escritório se abriu abruptamente. Não houve batida, apenas o som pesado de madeira batendo contra a parede. O secretário de Emanuel tentou intervir, mas foi empurrado para o lado por três homens vestidos em ternos cinzas impecáveis, cujos rostos eram máscaras de indiferença ancestral. Eram membros do Conselho Superior, uma coalizão rara de lobos anciãos e vampiros de linhagem pura que zelavam pela "estabilidade" das espécies.

Emanuel se levantou em um movimento fluido, colocando-se como um escudo vivo à frente de Sara e Eduarda.

— Eu não agendei nenhuma reunião com o Conselho hoje — disse Emanuel, seus olhos âmbar brilhando com uma luz perigosa.

O homem no centro, um vampiro cujo rosto parecia esculpido em mármore frio, deu um passo à frente.

— Emanuel. Sua insolência sempre foi tolerada devido ao seu sucesso e à ordem que mantém na alcateia. Mas o que você carrega sob este teto não é uma questão de administração. É uma infecção.

— Meça suas palavras, Silas — rosnou Sara, levantando-se com dificuldade, mas com as presas já começando a despontar. — Você está falando dos filhos do seu Alfa.

— Filhos? — Silas soltou um riso seco e desprovido de humor. — O que a loba carrega é uma herdeira legítima. Mas o que a vampira carrega... aquilo não tem nome. É um híbrido, uma quebra de tratado que remonta a séculos. Maya e Arthur não podem nascer.

Eduarda soltou um soluço sufocado, agarrando-se à mão de Emanuel.

— Eles são apenas bebês — ela choramingou, sua voz manhosa e trêmula ecoando na sala. — Eles não fizeram nada a ninguém.

— Eles existem, Eduarda. Isso é o suficiente — disse o lobo ancião à direita de Silas, sua voz como o som de pedras sendo esmagadas. — Emanuel, o Conselho decidiu. Você tem uma escolha. Você pode "resolver" a situação de Eduarda e seus... frutos, e manter seu status e a vida de sua companheira loira. Ou vocês três sumirão com essas crianças antes que elas respirem pela primeira vez.

Emanuel sentiu a pressão do estresse acumulado atingir o ponto de ruptura. Ele era um homem de lógica, mas ali, diante da ameaça direta à sua prole, o animal assumiu o controle total.

— Sumir? — Emanuel deu um passo à frente, sua presença física parecendo dobrar de tamanho, a aura de Alfa inundando o escritório como uma onda de choque. — Vocês entram na minha casa e me dizem para descartar minha família como se fossem rascunhos de tatuagens falhas?

— É a única forma de evitar uma guerra, Emanuel — avisou Silas. — Se essas crianças nascerem, cada clã e cada alcateia no continente verá isso como um sinal de que as leis não existem mais. Eles virão caçá-los. E nós não os impediremos. Na verdade, nós daremos o primeiro golpe se você não se desfizer deles.

Sara caminhou até o lado de Emanuel, sua mão pousando no ombro dele. Ela olhou para os conselheiros com um desprezo visceral.

— Vocês falam de guerra? — Sara perguntou, a voz carregada de ironia cortante. — Vocês não têm ideia do que é uma guerra até tentarem tirar algo de um lobo que não tem nada a perder. Eu sou a Beta desta alcateia. Eu administro cada centavo e cada recurso que mantém vocês gordos e seguros em seus tronos. Se tocarem na Eduarda ou nos bebês dela, eu desmantelo este império e uso as cinzas para enterrar cada um de vocês.

Eduarda, embora trêmula, levantou-se também. Ela se apoiou em Emanuel, sua fragilidade contrastando com a fúria dos outros dois, mas seus olhos mostravam uma intuição emocional profunda.

— Vocês têm medo — disse Eduarda, olhando diretamente para Silas. — Vocês não odeiam meus filhos porque são "abominações". Vocês têm medo porque eles representam algo que vocês não podem controlar. Eles são a união de tudo o que vocês tentam manter separado.

— Chega de sentimentalismo! — gritou o lobo ancião. — Emanuel, você tem 48 horas para nos entregar uma garantia de que os híbridos não serão uma ameaça. Ou nós mesmos daremos um jeito.

Os homens do Conselho se retiraram, deixando para trás um rastro de frio e promessas de morte.

O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pela respiração pesada de Emanuel. Ele se virou para as duas mulheres. Sara estava com os punhos cerrados, pronta para lutar. Eduarda estava pálida, as mãos protegendo a barriga de forma instintiva.

— Manu... o que vamos fazer? — perguntou Eduarda, a voz minúscula, buscando o conforto que sempre recebia dele.

Emanuel a puxou para um abraço apertado, enquanto trazia Sara para o círculo com o outro braço. Ele beijou o topo da cabeça de cada uma.

— Eles acham que podem me dar ordens porque eu construí um império de tinta e papel — disse Emanuel, a voz baixa e letal. — Eles esqueceram que eu construí esse império com dentes e garras.

— Nós não vamos fugir, vamos? — perguntou Sara, um sorriso feroz começando a surgir em seus lábios.

— Fugir é para quem tem medo — respondeu Emanuel. — Nós vamos nos preparar. Sara, eu quero que você use todos os nossos contatos. Quero mercenários, quero lobos renegados, quero qualquer um que nos deva um favor. E quero que você comece a transferir nossos ativos para contas que o Conselho não possa rastrear.

— Considere feito — disse Sara, já pegando o celular. — Vou mostrar a eles como uma "loira vulgar" pode ser eficiente quando mexem com a cria dela.

Emanuel voltou sua atenção para Eduarda. Ele a pegou no colo, sentindo o peso leve e precioso dela.

— Duda, eu preciso que você seja forte. Não por mim, mas pela Maya e pelo Arthur. Você vai ficar no subsolo do estúdio central. É um bunker, o lugar mais seguro que eu tenho. Ninguém entra lá sem a minha permissão.

— Eu não quero ficar longe de você — ela protestou, manhosa, escondendo o rosto no pescoço dele.

— Você nunca estará longe de mim — prometeu ele, caminhando em direção à saída do escritório. — Eu estarei na porta, matando qualquer um que tente chegar perto de você.

Nas horas que se seguiram, o estúdio de tatuagem de Emanuel transformou-se em uma fortaleza. Sara trabalhava com uma eficiência assustadora, coordenando a segurança e garantindo que a logística de guerra estivesse pronta. Ela não via Eduarda como uma rival, mas como uma extensão de sua própria família. Na mente de Sara, se ela era a rainha, Eduarda era a princesa que precisava de proteção, e os bebês eram o futuro de tudo o que haviam construído.

Emanuel passou a noite em claro, observando o monitor de segurança que mostrava o quarto de Eduarda no bunker. Ele a via dormindo um sono inquieto, a mão sempre sobre a barriga. Depois, ele olhava para Sara, que estava na mesa ao lado, cercada de mapas e relatórios, bebendo café puro e revisando os perímetros.

O conflito interno de Emanuel, de ser puxado entre duas naturezas tão diferentes, havia se resolvido na forja da crise. Ele não precisava escolher. Ele tinha a força de Sara para sustentar sua estratégia e a doçura de Eduarda para lembrar-lhe por que valia a pena lutar.

No dia seguinte, o primeiro ataque veio. Não foi um exército, mas um grupo de elite enviado pelo clã dos vampiros. Eles tentaram entrar pelos dutos de ventilação do estúdio.

Emanuel os interceptou pessoalmente.

A luta foi rápida e brutal. Emanuel não lutava mais como um homem de negócios; ele lutava como o Alfa que havia conquistado seu território anos atrás. Quando o último invasor caiu, Emanuel estava coberto de sangue que não era seu. Ele sentiu o lobo dentro de si uivar de satisfação.

Ele subiu para o escritório principal, onde Sara o esperava com uma toalha e uma nova estratégia.

— Foram apenas batedores, Manu — disse ela, limpando uma mancha de sangue no rosto dele com uma delicadeza que só mostrava a ele. — O Conselho virá com tudo ao anoitecer.

— Deixe que venham — disse Emanuel. — Como está a Duda?

— Ela está assustada, mas estável. A Maya está calma, mas o Arthur... aquele garoto sente a adrenalina do pai. Ele não para de chutar.

Emanuel sorriu, um gesto sombrio.

— Ele sabe que a diversão está começando.

Eles desceram até o bunker para ver Eduarda antes do confronto final. Quando entraram, ela correu para os braços de Emanuel, chorando baixinho.

— Eu ouvi os barulhos... eu tive tanto medo por você.

— Shhh... eu estou aqui — Emanuel a embalou, sentindo a maciez de seu corpo contra sua pele ainda quente da batalha. — Nada vai acontecer com vocês.

Sara se aproximou e sentou-se ao lado deles, pegando a mão de Eduarda.

— Escuta aqui, boneca. Nós somos a alcateia do Emanuel. Ninguém mexe com a nossa família e sai inteiro. Você só precisa se concentrar em manter esses gêmeos calmos. O resto, o Manu e eu resolvemos com um pouco de sangue e muita grosseria.

Eduarda olhou para Sara e depois para Emanuel. Ela viu a união improvável que haviam formado. Uma loba Beta, um Alfa dominante e uma vampira frágil. Juntos, eles eram uma anomalia, um erro no sistema do mundo sobrenatural. Mas para ela, eles eram tudo.

— Eu amo vocês — sussurrou Eduarda.

Emanuel olhou para as duas mulheres que preenchiam sua alma de formas tão distintas e necessárias.

— Eu amo vocês duas. E por esse amor, eu vou quebrar o Conselho. Vou mostrar a eles que o sangue de um Alfa não aceita ordens, ele apenas cria o novo mundo.

Ao anoitecer, as luzes da cidade brilhavam lá fora, mas dentro do império de Emanuel, o silêncio era absoluto. O Alfa estava na entrada do estúdio, Sara ao seu lado, ambos prontos para defender o que era deles.

Os herdeiros de Emanuel — Ágata, Maya e Arthur — ainda não haviam nascido, mas já haviam mudado o destino de duas espécies. E Emanuel, com o peso de seu amor e sua fúria, estava pronto para garantir que o primeiro choro de seus filhos fosse o som da vitória sobre aqueles que ousaram desafiar o que o Alfa decidiu possuir.

A guerra estava à porta, e Emanuel nunca se sentira tão vivo. Ele tinha a loba, tinha a vampira e, em breve, teria o futuro em seus braços. Que o Conselho viesse; eles aprenderiam da maneira mais sangrenta que o coração de um Alfa é um território que ninguém pode invadir.