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Entre o Fogo e a Calmaria

O silêncio na suíte máster da mansão de Emanuel era apenas aparente. Por trás das paredes decoradas com arte contemporânea e do isolamento acústico que o dinheiro podia comprar, a tensão pulsava em três ritmos diferentes. Fazia exatamente um ano que o "acordo" se tornara realidade sob as leis dos homens e da igreja. Emanuel agora carregava uma aliança de ouro no dedo, um símbolo que para muitos significava exclusividade, mas que para ele era apenas uma das âncoras de sua vida complexa.

Emanuel estava sentado na beira da cama, terminando de abotoar sua camisa de linho preto. Seus olhos, sempre observadores e agora carregados de um cansaço crônico, acompanhavam o movimento no quarto. De um lado, Sara, usando um robe de seda transparente que deixava pouco para a imaginação, retocava as unhas sentada na poltrona. Do outro, Eduarda, parada perto da janela, apertava as mãos pequenas contra o tecido do seu vestido de algodão claro, com os olhos úmidos e o lábio inferior levemente trêmulo.

— Eu já disse que não, Eduarda. Por que você insiste em tornar as coisas difíceis? — A voz de Emanuel era baixa, mas carregada daquela autoridade rígida que ele usava para gerenciar seus estúdios ao redor do mundo.

— Mas Emanuel... é o aniversário da minha prima. Eu quase nunca saio, você sabe disso — murmurou Eduarda, a voz saindo manhosa, quase um sussurro. Ela deu dois passos em direção a ele, buscando a proximidade física que sempre a fazia se sentir segura. — São só dois dias no interior. A casa é de família, é um lugar calmo.

Emanuel levantou-se, sua estatura imponente dominando o espaço. Ele caminhou até ela e segurou seu rosto com as duas mãos, os polegares acariciando as bochechas macias. O contraste era gritante: as mãos dele, marcadas por tatuagens e calos do trabalho, contra a pele de porcelana dela.

— Eu não posso ir com você esta semana. Tenho a inauguração da nova unidade e três reuniões de diretoria. E você não vai sozinha, nem com motorista, para uma casa cheia de estranhos e primos que eu mal conheço.

— Eles não são estranhos, são minha família — ela insistiu, encostando a cabeça no peito dele, fechando os olhos para sentir o calor do marido. — Por favor, Manu... eu me sinto tão presa às vezes.

Sara, que até então parecia imersa em sua manicure, soltou uma risada anasalada e irônica, jogando o cabelo loiro platinado para trás.

— Ah, deixa a menina ir, Emanuel! — Sara se levantou, caminhando com seu gingado provante até o casal. Ela parou ao lado deles, o cheiro de seu perfume caro e doce invadindo o espaço. — Deixa ela ver como é o mundo lá fora. Quem sabe ela não encontra um estudante de artes bonitinho para explicar para ela o que é perspectiva?

Eduarda se encolheu contra Emanuel, sentindo a alfinetada. Sara não a odiava, mas adorava testar os limites da sanidade de Emanuel e a fragilidade de Eduarda. Para a loira, Eduarda era como uma boneca de estimação que Emanuel havia trazido para casa: fofa, mas sem utilidade prática no mundo real.

— Sara, não ajude — rosnou Emanuel, lançando um olhar de aviso para a namorada.

— Eu estou ajudando! — Sara sorriu, passando a mão pelo braço tatuado de Emanuel, disputando o espaço físico com Eduarda. — Você está sendo um ogro possessivo. Se bem que... eu entendo. Olhe para ela, Emanuel. Tão indefesa. Se um sopro de vento bater mais forte, ela quebra. Como você espera que ela sobreviva a um final de semana sem o seu "papai" por perto?

— Eu não sou uma criança — Eduarda disse, tentando soar firme, embora seus olhos estivessem cheios de lágrimas. — Eu só queria um pouco de liberdade para ver as pessoas que eu amo.

Emanuel sentiu o peito apertar. Ele amava o jeito dependente de Eduarda, a forma como ela se apoiava nele para tudo. Isso alimentava seu instinto protetor, o fazia sentir que tinha um porto seguro de pureza em meio ao caos de sua vida profissional. Mas Sara... Sara era o desafio. Sara era a mulher que o peitava, que administrava sua fortuna e que o incendiava à noite. Ele não conseguia abrir mão de nenhuma das duas. Ter Eduarda era ter paz; ter Sara era ter poder.

— Você não vai, Eduarda. Assunto encerrado — decretou Emanuel, afastando-se levemente para olhar nos olhos dela. — Se você quiser, eu mando buscar sua prima e ela passa o final de semana aqui na mansão. Você terá toda a segurança, terá a piscina, terá tudo o que quiser. Mas você não sai desta casa sem mim.

Eduarda baixou a cabeça, as lágrimas finalmente rolando. Ela não gritava, não batia portas. Ela apenas murchava.

— Você sempre faz isso — sussurrou ela. — Você decide tudo.

— Eu decido o que é melhor para você — ele retrucou, o tom de "macho alfa" assumindo o controle total. — O mundo não é um museu de arte, Duda. É perigoso, é sujo. E você não tem malícia nenhuma.

Sara deu a volta por trás de Emanuel, abraçando-o pela cintura e apoiando o queixo em seu ombro, observando a cena como se assistisse a um filme interessante.

— Viu só, bonequinha? O mestre falou, está falado. Mas sabe, Emanuel... — Sara provocou, deslizando a mão por baixo da camisa dele — ...se ela ficar aqui trancada e triste, vai acabar perdendo aquele brilho que você tanto gosta. Talvez você devesse compensar ela de outra forma. Ou talvez... você devesse me levar para essa viagem de negócios e deixar ela aqui com os livros dela.

— Você vem comigo para a inauguração, Sara. Você sabe que eu preciso de você para os contratos — disse Emanuel, tentando manter a voz firme enquanto a mão de Sara subia pelo seu peito.

Eduarda olhou para os dois. O triângulo que viviam era uma dança constante de exclusão e inclusão. Ela aceitava Sara porque Emanuel a amava, e porque Sara, de certa forma, tirava das costas de Eduarda a pressão de ser a mulher forte que ela nunca conseguiria ser. Mas ver a cumplicidade deles em momentos como esse a fazia se sentir minúscula.

— Eu vou para o meu ateliê — disse Eduarda, a voz embargada. — Já que vou ficar presa, pelo menos quero ficar sozinha.

Ela se virou para sair, mas Emanuel a segurou pelo pulso. Não com força, mas com uma possessividade que não admitia réplicas.

— Não saia daqui chateada comigo. Venha cá.

Ele a puxou para um abraço, ignorando o sorriso debochado de Sara. Eduarda resistiu por um segundo, mas logo cedeu, escondendo o rosto no pescoço dele. Emanuel beijou o topo de sua cabeça, sentindo o cheiro de flores do seu shampoo.

— Eu cuido de você, Duda. Entenda isso. Tudo o que eu faço é para te manter segura.

— Você me sufoca, Emanuel — ela murmurou contra a pele dele, embora suas mãos estivessem agarradas à camisa dele, provando sua dependência.

— Eu sei. Mas é porque você é preciosa demais para eu arriscar.

Sara caminhou até o frigobar do quarto, pegando uma garrafa de água mineral. Ela se divertia com a dinâmica. Para ela, a insegurança de Eduarda era um tempero para o relacionamento. Sara sabia que Emanuel nunca a deixaria, pois ela era a única que realmente entendia o império que ele construíra. Eduarda era o luxo da alma; Sara era a necessidade do corpo e da mente.

— Que cena linda — comentou Sara, bebendo um gole de água e deixando uma marca de batom vermelho no gargalo. — Quase me sinto em um drama de época. Mas Emanuel, querido, se você não soltar a sua "princesa" agora, vamos chegar atrasados na galeria. E você sabe como eu odeio atrasos.

Emanuel suspirou, sentindo o peso de dois mundos em seus ombros. Ele soltou Eduarda, mas segurou seu queixo, forçando-a a olhar para ele.

— Prometa que não vai tentar sair escondida. Prometa que vai ficar aqui, onde eu sei que nada vai te acontecer.

Eduarda olhou para as tatuagens no pescoço dele, para os olhos que transbordavam um amor controlador, e depois para Sara, que a observava com uma mistura de pena e divertimento.

— Eu prometo — disse Eduarda, a voz sumindo. — Eu sempre faço o que você quer, não é?

— Boa menina — Emanuel beijou sua testa e depois seus lábios, um beijo rápido, mas carregado de uma promessa de retorno.

Ele se virou para Sara, que já estava pegando sua bolsa de grife.

— Vamos, Sara. Temos trabalho.

— Finalmente! Tchauzinho, Duda. Tente não morrer de tédio entre um quadro renascentista e outro — disse Sara, piscando para a jovem antes de sair do quarto desfilando em seus saltos agulha.

Emanuel lançou um último olhar para Eduarda antes de fechar a porta. Ele a viu sentada na beira da cama, a figura esguia e frágil parecendo ainda menor na vastidão do quarto. Uma parte dele sentia um remorso profundo por podar as asas dela, mas a parte predominante, o homem que havia construído tudo do nada, sentia um alívio egoísta. Ela estava ali. Ela era dele. E enquanto ele tivesse Sara ao seu lado para conquistar o mundo, e Eduarda em casa para ser o seu refúgio, ele sentia que era o dono do universo.

No corredor, Sara entrelaçou seu braço no dele.

— Você foi bem duro com ela, Manu. Gostei de ver. Aquele tom de voz... — ela sussurrou, mordendo o lóbulo da orelha dele. — Me deixou com vontade de ver até onde vai esse seu controle todo.

— Sara, agora não — ele disse, mas sua mão apertou a cintura dela com força, revelando que a provocação havia surtido efeito.

— Ah, agora sim. Vamos terminar logo essas reuniões. Quero você inteiro para mim hoje à noite, sem distrações "manhosas".

Emanuel sorriu de lado, a tensão começando a se transformar em outra coisa sob o toque da loira. Ele sabia que, ao voltar para casa, teria que lidar com o silêncio magoado de Eduarda, com seus olhares tristes e sua necessidade de colo. Ele teria que passar horas a mimando, pedindo desculpas com presentes caros e carinhos infinitos até que ela sorrisse de novo. E ele faria isso com prazer.

Para Emanuel, a vida era um equilíbrio perfeito entre o caos e a ordem. Sara era o caos que o impulsionava; Eduarda era a ordem que o mantinha no chão. Ele não era um homem de escolhas simples. Ele queria o fogo que queimava e a água que acalmava. E, enquanto pudesse manter as duas sob seu domínio, ele pagaria qualquer preço, enfrentaria qualquer briga com os pais ou com a sociedade.

Lá dentro, no quarto, Eduarda caminhou até a janela e viu o carro de Emanuel desaparecer pelo portão principal. Ela limpou as lágrimas e suspirou. Ela sabia que Sara jogava com ele, que Sara o instigava a ser ainda mais possessivo apenas para ver a reação de Eduarda. Ela não era boba; sua intuição era aguçada. Mas ela também sabia que, toda vez que Emanuel voltava para casa sentindo-se culpado, ele era apenas dela por horas a fio.

— Ele acha que me controla — murmurou Eduarda para si mesma, observando o jardim impecável da mansão. — Mas ele não percebe que é ele quem está preso entre nós duas.

Ela caminhou até sua estante de livros, pegando um volume sobre a arte barroca. Se Emanuel não a deixava sair para o mundo, ela traria o mundo para dentro de si. E esperaria. Porque, no final do dia, o "macho alfa" sempre voltava para os braços da sua menina manhosa, buscando a paz que só ela sabia dar, enquanto ainda carregava o perfume vulgar e excitante de Sara na pele.

A engrenagem daquela casa era estranha, mas funcionava com a precisão de um relógio suíço. E Emanuel Albuquerque, o tatuador que marcava a pele dos outros, continuava sendo marcado, dia após dia, pelas duas mulheres que haviam se tornado o seu vício irremediável. O final de semana seria longo, mas para Emanuel, o jogo de poder e sedução estava apenas começando.