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D

O Silêncio que Grita

A mansão Albuquerque nunca pareceu tão vasta e, ao mesmo tempo, tão claustrofóbica. O relógio de carvalho no corredor batia as três da manhã quando Emanuel cruzou a porta de entrada, os ombros pesados e o nó da gravata frouxo. Sara vinha logo atrás, os saltos fazendo um barulho seco contra o mármore, rindo de alguma piada interna sobre o investidor que haviam acabado de convencer em um jantar de negócios que se estendeu por horas.

— Eu te disse, Manu! Aquele homem estava mais interessado no meu decote do que no seu plano de expansão, mas no fim, o contrato está assinado. — Sara jogou a bolsa sobre o sofá de couro, esticando os braços e exibindo as curvas acentuadas pelo vestido justo. — Agora, que tal uma recompensa? Eu estou exausta, mas não tanto assim.

Emanuel não respondeu de imediato. Seus olhos foram automaticamente para a escadaria que levava ao andar superior. Ele sentia aquela pontada familiar de culpa, misturada com uma necessidade possessiva de ver Eduarda. Ele sabia que ela estaria acordada, ou talvez fingindo dormir, esperando pelo seu toque, pelo seu pedido de desculpas por tê-la deixado sozinha novamente sob a vigilância dos seguranças e das câmeras.

— Vou ver como a Duda está — murmurou Emanuel, já se afastando.

Sara revirou os olhos, soltando um suspiro teatral enquanto se servia de uma dose de uísque no bar da sala.

— Ela deve estar bufando, Emanuel. Você sabe como ela é. Um pouquinho de solidão e ela já age como se estivesse em um convento. Vai lá, faz um carinho na sua bonequinha de porcelana e volta para quem realmente sabe como te relaxar.

Emanuel ignorou a provocação e subiu os degraus de dois em dois. Ele abriu a porta do quarto principal com cuidado, esperando encontrar a penumbra suave do abajur de leitura e o corpo pequeno de Eduarda encolhido sob os lençóis de seda. Mas o que encontrou foi o vazio.

A cama estava perfeitamente arrumada. O cheiro de lavanda que ela sempre usava ainda pairava no ar, mas o quarto estava frio.

— Duda? — ele chamou, a voz rouca.

Nenhuma resposta. Ele caminhou até o banheiro, depois até o closet. Nada. O pânico começou a serpentear por sua espinha, uma sensação fria que ele raramente experimentava. Emanuel era um homem de controle, de lógica. Pessoas não sumiam de sua casa, não com a segurança que ele pagava caro para manter.

Ele correu até o ateliê dela, o lugar onde ela passava horas pintando ou estudando seus livros de História da Arte. A porta estava entreaberta. Quando ele entrou, viu um bilhete sobre a mesa de carvalho, ao lado de um pincel seco.

"Eu não sou um quadro para ficar pendurada na sua parede, Emanuel. Eu preciso respirar."

A caligrafia era trêmula, delicada, exatamente como ela. Emanuel sentiu como se o chão tivesse desaparecido. Ele amassou o papel com força, as veias de seu pescoço saltando.

— SARA! — O grito dele ecoou pela mansão, carregado de uma fúria primitiva.

Segundos depois, Sara apareceu na porta, segurando o copo de uísque, a expressão de deboche desaparecendo ao ver o rosto transtornado de Emanuel.

— O que foi? Ela teve um ataque de pelanca?

— Ela fugiu, Sara! A Eduarda foi embora! — Ele passou as mãos pelos cabelos, andando de um lado para o outro como um animal enjaulado. — Como ninguém viu? Como ela saiu daqui?

Sara arqueou uma sobrancelha, a surpresa genuína brilhando por um instante antes de ser substituída pela sua habitual ironia defensiva.

— Fugiu? A princesinha teve coragem? — Ela deu um gole na bebida, observando o caos nos olhos dele. — Calma, Emanuel. Para onde uma menina que não sabe nem pegar um táxi sozinha iria? Ela deve estar escondida no jardim ou na casa de alguma tia.

— Você não entende! — Emanuel avançou sobre ela, não para agredi-la, mas para segurá-la pelos ombros, buscando algum tipo de âncora em meio à sua própria loucura. — Ela é sensível, Sara. Ela é frágil. O mundo lá fora vai engolir ela viva! Eu jurei que ia proteger ela!

— Você jura muita coisa, Emanuel — rebateu Sara, soltando-se com um movimento brusco, os olhos brilhando com uma ponta de ciúme que ela raramente deixava transparecer. — Você protege ela tanto que a transformou em um passarinho de gaiola. O que você esperava? Que ela cantasse para você a vida toda enquanto eu faço o trabalho sujo?

Emanuel não ficou para ouvir. Ele pegou o celular, discando freneticamente para o chefe da segurança.

— Se vocês não encontrarem a minha esposa nas próximas duas horas, considerem-se todos desempregados e processados! — ele rugiu ao telefone. — Quero as imagens das câmeras agora!

***

As horas que se seguiram foram um inferno de incertezas. Emanuel revisou as imagens das câmeras pessoalmente. Viu Eduarda saindo pelos fundos, aproveitando o momento em que os guardas trocavam de turno — um erro de protocolo que ele mesmo havia negligenciado. Ela usava um casaco simples, uma mochila pequena e parecia olhar para trás com uma expressão de pavor e determinação.

Ela parecia tão pequena na tela granulada. Tão vulnerável.

Enquanto Emanuel mobilizava seus contatos, Sara permanecia no escritório com ele. Ela não estava ajudando nas buscas, mas também não ia embora. Ela observava o homem que amava desmoronar por causa de "outra".

— Você está agindo como um louco, Emanuel — disse Sara, sentada na mesa dele, cruzando as pernas e deixando o vestido subir perigosamente. — Beba um pouco de água. Você está tremendo.

— Eu não quero água, Sara! — Ele bateu com o punho na mesa. — Eu quero a Eduarda de volta nesta casa. Agora!

— E se ela não quiser voltar? — Sara perguntou, a voz subitamente suave, quase perigosa. — E se ela tiver percebido que esse seu "amor" é uma prisão? Você tem a mim, Emanuel. Eu sou quem você escolheu. Ela foi um contrato. Um erro dos seus pais que você se convenceu que precisava proteger.

Emanuel parou. Ele olhou para Sara — a mulher que era sua parceira, sua amante, sua força. E então pensou em Eduarda — a doçura, o cheiro de flores, a forma como ela se aninhava no peito dele buscando abrigo contra o mundo.

— Ela não é um erro — disse ele, a voz baixa e perigosa. — Ela é a minha paz. E se eu a perder, Sara, não vai sobrar nada do homem que você diz que ama. Só vai sobrar o que eu sou de verdade: um monstro que destrói tudo o que toca.

Sara sentiu um calafrio. Ela percebeu, naquele momento, que o lugar de Eduarda no coração de Emanuel não era apenas um capricho. Era uma necessidade vital. E isso a enfurecia tanto quanto a fascinava.

***

Dois dias depois. Uma pequena pousada no interior, a quatro horas de distância.

Eduarda estava sentada em uma poltrona de vime, olhando para a chuva que caía lá fora. Ela estava exausta. O dinheiro que havia guardado estava acabando, e o medo constante de ser encontrada a impedia de dormir. Ela sentia falta da cama macia, do café da manhã servido na mesa... mas, acima de tudo, ela sentia uma falta dilacerante de Emanuel.

Ela odiava o controle dele, mas sentia falta da segurança de seus braços. Ela era manhosa, era dependente, e a liberdade que tanto almejava parecia um deserto frio e vasto demais para seus pés pequenos.

O som de um carro freando bruscamente no cascalho do lado de fora a fez pular. O coração de Eduarda disparou. Ela correu para a janela e viu o carro preto, imponente e sinistro sob a chuva.

Emanuel saiu do veículo. Ele não usava guarda-chuva. Estava de preto, a expressão no rosto era algo que ela nunca tinha visto antes — uma mistura de alívio puro e uma fúria controlada que prometia tempestades.

Eduarda recuou, mas não havia para onde ir. Segundos depois, a porta do quarto foi aberta com uma força que quase a arrancou das dobradiças.

Emanuel parou na soleira. Ele estava encharcado, o cabelo grudado na testa, os olhos fixos nela como se temesse que ela desaparecesse se ele piscasse.

— Emanuel... — ela sussurrou, a voz falhando, as mãos subindo para o rosto em um gesto instintivo de defesa e busca por carinho.

Ele atravessou o quarto em três passos largos. Eduarda esperava um grito, uma reprimenda severa, mas Emanuel simplesmente a envolveu em um abraço tão apertado que ela perdeu o fôlego. Ele a enterrou em seu peito, tremendo.

— Nunca mais — ele disse, a voz quebrada, contra o cabelo dela. — Nunca mais faça isso comigo, Eduarda. Eu quase morri. Eu quase destruí o mundo atrás de você.

Eduarda começou a chorar, o choro manhoso e sofrido de quem finalmente se sente protegida de novo. Ela agarrou a camisa molhada dele, escondendo o rosto em seu pescoço.

— Você me trancou, Manu... você não me deixava ver ninguém... — ela soluçava, o corpo pequeno sacudindo nos braços dele.

— Eu sei, eu sei — ele murmurava, beijando o rosto dela, as lágrimas dela se misturando à chuva que escorria dele. — Eu sou um idiota. Eu sou um possessivo desgraçado. Mas eu não consigo viver sabendo que você está por aí, sem mim.

Ele a afastou apenas o suficiente para olhar em seus olhos. A doçura de Eduarda estava ali, mas havia uma nova sombra de cansaço.

— Vamos para casa — ele ordenou, mas o tom era de súplica, não de comando.

— A Sara está lá? — Eduarda perguntou, fazendo um biquinho involuntário, a insegurança voltando a tona.

Emanuel suspirou, encostando a testa na dela.

— A Sara faz parte da minha vida, Duda. Você sabe disso. Mas ela não é você. Ninguém é você. Eu vou te dar mais espaço, eu juro... mas você tem que estar comigo. Eu preciso das duas. Eu sou um homem egoísta, mas eu não posso abrir mão da minha paz e nem da minha guerra.

Eduarda olhou para ele, o poder que ela exercia sobre aquele homem gigante e poderoso tornando-se claro para ela pela primeira vez. Ela era frágil, sim, mas era a única que o desarmava.

— Você vai me deixar ir ao museu? Sem cinco seguranças atrás de mim? — ela perguntou, a voz ficando mais mansa, o corpo relaxando contra o dele.

Emanuel fechou os olhos, lutando contra o instinto de dizer "não".

— Três seguranças — ele barganhou. — E eu vou com você sempre que puder.

Eduarda deu um sorriso triste, mas aceitou. Ela se apoiou nele, permitindo que ele a guiasse para fora. Ela estava voltando para a gaiola, mas agora sabia que a chave também estava em suas mãos pequenas.

***

Quando chegaram à mansão, Sara estava esperando no topo da escada. Ela usava um conjunto de lingerie de renda preta sob um robe aberto, uma provocação clara. Ela observou Emanuel entrar carregando Eduarda nos braços, como se ela fosse um tesouro resgatado de um naufrágio.

Emanuel colocou Eduarda no chão, mas manteve o braço firmemente ao redor de sua cintura.

— Ela voltou — disse Sara, a voz carregada de um sarcasmo que escondia o alívio por não ter que lidar mais com o humor sombrio de Emanuel. — Que emocionante. O bom filho a casa torna.

Eduarda olhou para Sara. Ela não sentia ódio. Sentia apenas que Sara era o preço que ela tinha que pagar para ter Emanuel. E Sara olhava para Eduarda sabendo que a menina era o preço que ela tinha que pagar para manter o império e o homem.

— Vá tomar um banho quente, Duda. Eu vou pedir para prepararem algo para você comer — disse Emanuel, dando um beijo demorado em sua têmpora.

Eduarda subiu, mas parou ao lado de Sara por um segundo.

— Eu senti falta do meu ateliê — disse a jovem, com uma doçura que parecia uma farpa.

Sara sorriu, mostrando os dentes perfeitamente brancos.

— E o Emanuel sentiu falta de ter alguém para mandar. Bem-vinda de volta ao hospício, querida.

Emanuel ficou no pé da escada, observando as duas. Ele sentia o estresse acumulado começando a se dissipar, substituído por uma satisfação sombria. O controle estava sendo restaurado. Ele tinha Sara ao seu lado, pronta para o fogo daquela noite, e tinha Eduarda sob seu teto, pronta para ser cuidada e protegida no dia seguinte.

Ele caminhou até o bar e se serviu de um uísque puro. Suas mãos finalmente tinham parado de tremer.

— Emanuel? — Sara chamou lá de cima, sua voz provocante ecoando pelo corredor.

— Já vou, Sara — ele respondeu, mas seus olhos ainda estavam fixos na porta do quarto onde Eduarda havia entrado.

Ele era um homem rico, influente e talentoso. Mas ali, naquele silêncio tenso da mansão, ele percebeu que sua maior obra de arte não estava tatuada na pele de ninguém. Estava naquela dinâmica perversa e deliciosa que ele havia criado. Ele era o mestre de duas vidas, o dono de dois corações opostos. E, enquanto o mundo lá fora continuava a girar, Emanuel Albuquerque sorria para o próprio reflexo, sabendo que, embora tivesse quase perdido tudo, agora ele possuía o dobro.

O caos estava em ordem. E a possessão era, afinal, o seu único e verdadeiro amor.