D
Sombra e Zelo
A luz da manhã na fazenda era de uma suavidade quase cruel, contrastando com a brutalidade dos eventos da noite anterior. O cheiro de ferro e suor havia sido substituído pelo aroma de alfazema e caldos quentes, mas a tensão no ar ainda era espessa o suficiente para ser cortada com uma faca. No quarto principal, o silêncio era apenas interrompido pelo som rítmico da respiração dos gêmeos, Arthur e Maya, que dormiam em berços de vime ao lado da cama.
Eduarda tentou se mexer. O lençol de linho parecia pesar toneladas sobre suas pernas. Ela sentia a cabeça leve, como se estivesse flutuando a alguns centímetros do colchão, um efeito residual da perda maciça de sangue que quase a levara para o outro lado. Com um esforço que fez seus músculos protestarem, ela apoiou os cotovelos na cama, pretendendo apenas sentar-se para observar os filhos mais de perto.
— Nem pense nisso.
A voz de Emanuel veio do canto escuro do quarto, perto da poltrona de couro onde ele passara as últimas horas em claro. Ele se levantou em um movimento fluido, a postura rígida e os olhos injetados de quem não conhecia o descanso. Em dois passos, ele estava ao lado da cama, as mãos grandes e tatuadas pressionando suavemente os ombros de Eduarda para que ela deitasse novamente.
— Manu, eu só ia me sentar — murmurou ela, a voz saindo mais fraca do que pretendia. — Eu me sinto bem, de verdade. Só um pouco cansada.
— Você não se sente bem, Eduarda. Você está branca como um papel e quase morreu nos meus braços há menos de doze horas — a voz dele era um sussurro ríspido, carregado de uma proteção que beirava a possessividade agressiva. — O médico da cidade chega em uma hora, e até lá, você não move um músculo sem a minha permissão.
— Você está exagerando — disse ela, tentando sorrir para acalmá-lo, mas o esforço fez sua visão escurecer por um breve segundo.
Emanuel percebeu a leve oscilação em seu olhar. Ele se sentou na borda da cama, segurando a mão dela com uma firmeza que não admitia réplicas.
— Eu não estou exagerando. Eu vi o que aconteceu lá dentro. Eu vi o sangue, Eduarda. Eu vi você sumindo.
A porta do quarto se abriu e Sara entrou, trazendo uma bandeja com caldo de carne e suco de beterraba. Ela usava um robe de seda escura, o rosto impecável apesar da noite conturbada, mas seus olhos, sempre afiados, suavizaram-se minimamente ao ver Eduarda acordada.
— O carcereiro já começou o turno dele? — Sara perguntou, colocando a bandeja na mesa de cabeceira com um ruído seco. — Emanuel, você precisa respirar. Se continuar assim, vai ter um infarto antes do meio-dia.
— Ela tentou levantar, Sara — disse Emanuel, sem tirar os olhos de Eduarda.
— É claro que tentou. Ela é mãe, não uma inválida — Sara retrucou, embora tenha se aproximado para tocar a testa de Eduarda. — Mas ele tem razão em uma coisa, bonequinha: você está anêmica. Sente essa tontura? É o seu corpo dizendo que você está operando com o tanque vazio. Beba isso. Tudo.
Sara ajudou Eduarda a se inclinar levemente, enquanto Emanuel sustentava as costas da esposa com o braço, como se ela fosse um cristal que pudesse estilhaçar ao menor toque. Eduarda bebeu o caldo sob o olhar vigilante de ambos. Era uma dinâmica estranha, mas que se tornara o seu normal: a força prática e irônica de Sara de um lado, e a proteção sufocante e sombria de Emanuel do outro.
— Onde está a Ágata? — perguntou Eduarda após alguns goles.
— Dormindo com a minha mãe na outra ala — Sara respondeu, ajeitando uma mecha do cabelo loiro. — Ela sentiu o cheiro de tensão no ar e resolveu colaborar por uma vez na vida. E esses dois? — Ela apontou para os gêmeos. — Ainda estão em modo de hibernação?
— Arthur chorou às seis — Emanuel informou, preciso. — Maya nem se mexeu.
Eduarda olhou para os berços. O desejo de tocá-los era uma dor física, maior do que a anemia.
— Eu quero segurar a Maya. Por favor, Manu.
Emanuel hesitou. Ele olhou para os bebês e depois para a fragilidade de Eduarda.
— Você não tem força nos braços agora, Duda. Se você tiver uma síncope enquanto segura ela...
— Eu trago a menina — interrompeu Sara, revirando os olhos para a paranoia de Emanuel. — Pelo amor de Deus, Emanuel, deixe ela ser mãe por cinco minutos. Eu fico do lado caso ela fraqueje.
Sara pegou Maya com uma habilidade que surpreendeu Eduarda. A loira, sempre tão focada em si mesma e nos negócios, parecia ter desenvolvido um instinto prático para a maternidade. Ela colocou a pequena Maya nos braços de Eduarda, que suspirou ao sentir o peso leve e o calor da filha.
Emanuel não se afastou. Ele permaneceu com as mãos prontas para intervir, os olhos fixos em cada movimento de Eduarda, como se estivesse monitorando seus batimentos cardíacos apenas pela observação.
— Ela é tão calma — sussurrou Eduarda, beijando a testa da bebê.
— É a sua cara — disse Emanuel, o tom de voz suavizando pela primeira vez na manhã. — Já o Arthur... aquele ali vai nos dar cabelos brancos.
— Ele é um Albuquerque — Sara comentou, encostada no batente da porta. — O que você esperava? Calmaria? Para isso você já tem a Eduarda. E falando em calmaria, Emanuel, você precisa descer. O administrador da fazenda está com os papéis da exportação de gado e o pessoal do estúdio de Miami está ligando sem parar.
— Mande esperarem — Emanuel disse, ríspido.
— Eles podem esperar, mas o dinheiro não — Sara rebateu, cruzando os braços. — Eu cuido da parte burocrática aqui embaixo, mas eles precisam da sua assinatura digital e de uma decisão sobre o novo tatuador chefe. Vá. Eu fico aqui com ela.
Emanuel olhou para Sara, uma disputa silenciosa de vontades ocorrendo no ar. Ele confiava em Sara para gerir seu império, mas odiava a ideia de deixar o quarto.
— Dez minutos — Emanuel cedeu, levantando-se. Ele se inclinou e beijou a testa de Eduarda, e depois a de Maya. — Se ela fechar os olhos por mais de dez segundos, você me chama, Sara. Se ela ficar pálida, você me chama.
— Vá logo, antes que eu mude de ideia e te chute daqui — Sara respondeu com um sorriso sarcástico.
Quando Emanuel saiu, o quarto pareceu ficar maior. Eduarda relaxou os ombros, sentindo a ausência daquela energia pesada e protetora.
— Ele vai te sufocar, você sabe disso, não é? — Sara disse, caminhando até a janela e observando o pátio da fazenda. — Emanuel sempre foi um controlador, mas depois do que aconteceu ontem... ele vai querer ser a sua sombra.
— Ele está com medo, Sara — Eduarda defendeu, a voz suave. — Ele quase nos perdeu.
— Todos nós tivemos medo, bonequinha — Sara se virou, e por um breve momento, a máscara de confiança caiu, revelando o cansaço da noite anterior. — Mas se você deixar ele te carregar no colo para todo lado, você nunca vai recuperar suas forças. Você precisa reagir.
— Eu estou tentando. Mas cada vez que eu tento me mexer, ele age como se eu estivesse cometendo um crime.
— Use a manha que você tem — Sara aconselhou, voltando ao seu tom pragmático. — Você sabe como dobrar ele. Se ele quer ser o protetor, deixe que seja, mas não deixe que ele tire a sua autonomia. Agora, termine esse suco. Você precisa de ferro, e eu não quero ver o Emanuel chorando pelos cantos de novo porque você desmaiou no corredor.
Meia hora depois, Emanuel estava de volta. Ele não apenas assinou os documentos, como despachou todos os problemas para que pudesse retornar ao seu posto de vigia. Ele encontrou Eduarda tentando se levantar novamente, desta vez para ir ao banheiro.
— O que eu disse sobre ficar na cama? — A voz dele ecoou, vindo da porta.
— Manu, eu preciso ir ao banheiro. É uma necessidade humana básica — Eduarda disse, tentando manter a paciência.
— Eu te levo.
— Emanuel, não! — Ela protestou, o rosto ganhando um leve tom de rosa. — Eu consigo andar esses cinco passos.
— Você não consegue nem ficar em pé sem tremer, Eduarda.
Sem dar chance para discussão, ele caminhou até ela e a levantou nos braços como se ela não pesasse nada. Eduarda suspirou, enterrando o rosto no pescoço dele. O cheiro de Emanuel — uma mistura de tinta, tabaco e o perfume amadeirado que ele sempre usava — a envolveu, trazendo uma sensação de segurança que ela odiava admitir que precisava.
Ele a levou até o banheiro, mas não a deixou sozinha. Permaneceu parado à porta, observando-a enquanto ela se apoiava na pia.
— Saia, Manu. Por favor.
— Estou aqui se você cair — ele respondeu, irredutível.
— Eu não vou cair!
No momento em que ela tentou dar um passo sem se apoiar, o mundo girou. Seus joelhos fraquejaram e a escuridão começou a fechar as bordas de sua visão. Antes que ela pudesse atingir o chão, os braços de Emanuel já estavam ao redor dela, prendendo-a contra seu peito sólido.
— Viu? — Ele disse, a voz num tom baixo que misturava triunfo e angústia. — Você não está bem.
— É só uma tontura boba... — ela tentou dizer, mas a exaustão venceu.
Ele a carregou de volta para a cama, mas desta vez não a soltou imediatamente. Sentou-se com ela em seu colo, segurando-a contra si, sentindo a fragilidade de seu corpo anêmico.
— Você quase me deixou, Duda — ele sussurrou contra o cabelo dela, a voz quebrada de uma forma que ela nunca ouvira. — Eu vi a vida saindo de você. Eu não vou deixar isso acontecer de novo. Nunca. Se eu tiver que te carregar pelo resto da vida, eu vou. Se eu tiver que te trancar aqui para garantir que você descanse, eu vou.
Eduarda sentiu uma lágrima dele cair em seu ombro. O grande Emanuel Albuquerque, o homem que comandava estúdios pelo mundo todo, estava chorando.
— Você não pode me trancar, Manu — ela disse, afastando-se um pouco para olhar nos olhos dele. — Eu tenho três filhos para cuidar agora. Eu preciso ser forte por eles.
— E eu vou ser forte por você — ele rebateu, segurando o rosto dela com as duas mãos. — Você cuida deles, e eu cuido de você. Essa é a nova regra.
A porta se abriu novamente e o médico da família entrou, seguido por Sara, que trazia Ágata agora acordada e resmungando.
— Como está a nossa paciente? — perguntou o Dr. Arnaldo, um homem idoso que conhecia Eduarda desde o nascimento.
— Teimosa — respondeu Emanuel, sem soltá-la.
— E o marido? — o médico brincou, abrindo sua maleta. — Continua agindo como um guarda-costas de filme de ação?
— Ele não sai de cima dela, doutor — Sara comentou, sentando-se na poltrona e começando a amamentar Ágata. — É um milagre que ele tenha deixado você entrar no quarto.
O médico examinou Eduarda, verificando a pressão e a coloração das mucosas.
— Bem, a anemia é real e severa, mas não é nada que repouso absoluto, alimentação rica em ferro e algumas vitaminas não resolvam em algumas semanas. Mas o principal aqui, Eduarda, é o descanso. Nada de esforços. Nada de escadas. Nada de carregar peso, nem mesmo os bebês por muito tempo.
Emanuel lançou um olhar vitorioso para Eduarda.
— Ouviu, não é? Repouso absoluto — ele enfatizou.
— Mas doutor, e os gêmeos? — perguntou Eduarda, aflita.
— Você vai amamentar, e o seu marido ou as enfermeiras vão trazer os bebês até você. Você é a fonte de alimento, não a transportadora — o médico sorriu. — E Emanuel, tente não sufocar a moça. O estresse também não ajuda na recuperação.
— Eu não estou sufocando — Emanuel disse, embora suas mãos ainda estivessem possessivamente ao redor da cintura de Eduarda.
Após o médico sair, Emanuel ajeitou os travesseiros para que Eduarda ficasse confortável. Ele parecia ter ganhado uma nova missão de vida.
— Vou pedir para a cozinheira preparar o fígado e o espinafre que o doutor recomendou — Emanuel disse, levantando-se.
— Eu odeio fígado — Eduarda fez um biquinho manhoso.
— Você vai comer cada pedaço — ele disse, beijando a ponta do nariz dela. — E se você tentar sair dessa cama enquanto eu estiver na cozinha, eu vou colocar um segurança na porta.
— Você não faria isso — ela o desafiou.
Emanuel parou na porta e olhou para ela com uma seriedade mortal.
— Tente e descubra.
Quando ele saiu, Sara soltou uma risada abafada enquanto Ágata terminava de mamar.
— Ele faria. Ele colocaria uma tropa de choque no corredor se achasse que isso te manteria segura.
— Ele está sendo impossível, Sara — Eduarda suspirou, embora houvesse um brilho de afeto em seus olhos.
— Ele te ama, do jeito torto e controlador dele. E você adora ser cuidada assim, admita — Sara se levantou, ajeitando a roupa. — Mas aproveite. Logo ele volta com aquele prato de fígado horrível e você vai ter que usar toda a sua manha para não comer tudo.
— Eu vou fazer ele comer metade — Eduarda sorriu, uma centelha de sua personalidade voltando.
— Isso eu quero ver — Sara disse, saindo do quarto. — Vou ver como o Arthur está. Ele acordou e parece que herdou o pulmão do pai.
Eduarda ficou sozinha por alguns instantes, ouvindo os sons da fazenda. Ela se sentia fraca, sim, e a anemia a deixava lenta, mas havia uma estranha plenitude em seu peito. Ela tinha seus filhos, tinha sua casa e tinha Emanuel.
Minutos depois, Emanuel voltou, não com um prato, mas com uma bandeja completa. Ele se sentou ao lado dela e começou a cortar a carne em pedaços minúsculos, levando o garfo à boca dela como se ela fosse uma criança.
— Eu posso comer sozinha, Manu.
— Eu sei que pode. Mas eu quero fazer isso.
Eduarda aceitou, rendendo-se ao zelo dele. Ela percebeu que, por enquanto, a luta por autonomia seria perdida para o amor protetor de Emanuel. E enquanto ele a alimentava, vigiando cada respiração sua, ela soube que aquela sombra constante dele não era uma prisão, mas o escudo que ele erguera entre ela e o mundo que quase a levara.
— Manu? — ela chamou entre uma garfada e outra.
— Hum?
— Obrigada por não me deixar ir.
Emanuel parou o garfo no ar. Seus olhos encontraram os dela, e por um momento, toda a rigidez desapareceu, revelando a alma vulnerável do homem que faria qualquer coisa para manter sua calmaria viva.
— Eu nunca deixaria, Duda. Você é o meu centro. Sem você, eu sou apenas tinta e fúria.
Ele a beijou, um beijo calmo e carregado de promessas. A anemia passaria, os gêmeos cresceriam, e a vida na fazenda voltaria ao normal, mas a marca daquela proteção absoluta ficaria para sempre. Emanuel Albuquerque era um homem de muitas tatuagens, mas a marca mais profunda era aquela que Eduarda deixara em seu coração — uma marca que ele protegeria com a própria vida, um passo de cada vez, sem nunca deixá-la caminhar sozinha.