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O Grito da Terra e o Sangue da Linhagem
O ar pesado do interior de Minas Gerais carregava o cheiro de terra molhada e ervas secas. Na varanda da sede da fazenda, Emanuel caminhava de um lado para o outro, seus passos pesados fazendo as tábuas de madeira rangerem sob suas botas. Ele parecia um animal enjaulado. O luxo de seus estúdios em Londres e o asfalto de São Paulo pareciam memórias de uma vida passada. Ali, o que imperava era o silêncio opressor das montanhas, quebrado apenas pelo choro intermitente de Ágata, sua filha de apenas um mês, que estava nos braços de Sara.
— Emanuel, pelo amor de Deus, pare de andar! Você está me deixando tonta e irritando a bebê — Sara exclamou, ajustando Ágata no colo.
Sara, mesmo em uma fazenda isolada, não perdia sua essência. Usava um conjunto de seda justo que realçava seu corpo, que já havia voltado às curvas pecaminosas pouco tempo após o parto. Seus cabelos loiros estavam presos em um rabo de cavalo alto e impecável. Ágata, a pequena herdeira de traços marcantes, parecia ter herdado a impaciência da mãe, resmungando toda vez que o pai passava por perto com sua energia caótica.
— Eu não devia ter aceitado isso, Sara! — Emanuel parou bruscamente, os olhos injetados de sono e preocupação. — Parto humanizado na fazenda? Tradição de família? Isso é loucura! Eduarda está lá dentro há dez horas com aquelas mulheres e ervas, enquanto os melhores hospitais do país estão a quilômetros daqui. Se algo acontecer com ela... se algo acontecer com os gêmeos...
— Ela é teimosa, Emanuel. Você sabe que, por trás daquele jeito manhoso, a Eduarda tem uma vontade de ferro quando se trata dessas coisas místicas de família — Sara disse, embora seu tom carregasse uma ponta incomum de apreensão. — E as parteiras da família dela fazem isso há gerações. Relaxe.
— Relaxe? — Emanuel soltou uma risada amarga. — Ela está carregando o Arthur e a Maya. O Arthur não parou de chutar um segundo na última ultrassom, e a Maya está lá, quietinha, provavelmente esperando o caos passar. Eu não posso perder eles, Sara. Eu não posso perder ela.
Um grito abafado, agudo e carregado de dor, atravessou as paredes grossas de pedra da casa colonial. Emanuel congelou. O som não era o de um parto normal; era um grito de agonia que fez cada pelo de seu corpo se arrepiar. Sem pensar, ele avançou em direção à porta do quarto principal, mas foi barrado por dois homens corpulentos: o pai de Eduarda e seu tio mais velho.
— Saia da frente! — Emanuel rosnou, a autoridade que exercia em seu império de tatuagens voltando com força total. — Eu vou entrar lá agora!
— Você não vai a lugar nenhum, Emanuel — disse o sogro, com a voz calma e severa de quem conhecia a terra melhor do que os homens. — O quarto de parto é território sagrado das mulheres agora. Sua energia só vai atrapalhar.
— Sagrado o cacete! Ela está morrendo de dor! — Emanuel tentou empurrar o homem, mas os irmãos de Eduarda apareceram no corredor, formando uma barreira humana.
Lá dentro, o cenário era de uma batalha ancestral. Eduarda estava pálida, o suor colando os cabelos castanhos ao rosto delicado. Sua fragilidade habitual parecia ter sido substituída por uma palidez cadavérica. O sangue começou a aparecer em uma quantidade que assustou até as assistentes mais jovens.
— A hemorragia não para! — sussurrou uma das primas, os olhos arregalados.
A parteira-chefe, uma mulher de mãos calejadas e olhar profundo chamada Dona Benvinda, manteve a calma. Ela pressionava o ventre de Eduarda com firmeza, murmurando orações e instruções para que as outras mulheres trouxessem as infusões de ervas preparadas.
— Força, minha filha. O Arthur está vindo, ele é um guerreiro, mas você precisa ser o caminho dele — Benvinda dizia, a voz firme como uma rocha.
Emanuel, no corredor, ouviu a correria lá dentro e o som de bacias de metal batendo. O pânico o dominou completamente. Ele não era mais o empresário frio; era um homem prestes a perder sua paz, sua calmaria, a mulher que o fazia sentir humano.
— EDUARDA! — ele gritou, tentando romper a barreira. — ME DEIXEM PASSAR, SEUS MALDITOS!
A confusão se instalou. Emanuel desferiu um soco que atingiu o ombro de um dos cunhados, mas foi imediatamente agarrado por quatro homens. A força bruta de Emanuel, alimentada pelo desespero, era imensa, mas os homens da fazenda eram rudes e decididos.
— Tirem ele daqui! Agora! — ordenou o pai de Eduarda.
Emanuel lutava, chutava e rugia como um animal ferido enquanto era arrastado pelo corredor. Sara, na varanda, assistia a tudo com os olhos arregalados, apertando Ágata contra o peito. Ela nunca vira Emanuel perder o controle daquela forma. Ele, que sempre fora a rocha, estava desmoronando.
— Me soltem! Ela está morrendo, eu sinto! Eduarda! — a voz de Emanuel quebrou em um soluço desesperado enquanto ele era jogado para dentro de um quarto de hóspedes no final do corredor.
A porta foi trancada por fora. Emanuel bateu nela com os punhos até que seus nós dos dedos sangrassem. Ele se encostou na madeira, escorregando até o chão, enterrando o rosto nas mãos. O silêncio que se seguiu foi o pior sofrimento de sua vida. Cada minuto parecia uma eternidade de tortura.
Dentro do quarto de parto, o tempo havia parado. O primeiro choro rompeu o ar — um som vigoroso, raivoso, cheio de vida. Arthur havia chegado, chutando o ar com a mesma energia que demonstrava no útero. Mas não houve tempo para comemorações.
— Ela está desfalecendo! — gritou a parteira. — Tragam o chá de casca de barbatimão, agora! Eduarda, olhe para mim! A Maya ainda precisa de você! Não feche os olhos!
Eduarda sentia a vida esvair-se. O rosto de Emanuel flutuava em sua mente — o jeito protetor, o olhar sério, até mesmo a presença sufocante de Sara. Ela sentia que estava flutuando para longe da dor, para um lugar onde não havia contratos, nem ciúmes, nem a pressão de ser a "esposa perfeita".
— Emanuel... — ela balbuciou, quase sem som.
— Ele está aqui, minha filha. Ele está esperando por vocês — mentiu Benvinda, enquanto trabalhava freneticamente para estancar o sangue e posicionar o segundo bebê. — Vamos, mais uma vez. Pela sua menina. Pela calma que você sempre foi.
Eduarda buscou uma reserva de força que nem sabia que possuía. Foi um esforço sobre-humano, um grito que não saiu da garganta, mas da própria alma. E então, um choro mais baixo, mais melódico e suave, preencheu o quarto. Maya nascera.
No quarto trancado, Emanuel ouviu os dois choros. Ele parou de bater na porta. Seu coração batia tão forte que ele achava que teria um infarto. Mas o silêncio que se seguiu aos choros o apavorou novamente. Por que ninguém vinha avisá-lo? Por que não ouvia a voz dela?
— Por favor... — ele sussurrou para o vazio. — Leve tudo o que eu tenho. Meus estúdios, meu dinheiro, minha saúde. Mas deixe ela ficar.
Quase meia hora depois, a chave girou na fechadura. O pai de Eduarda estava parado ali. Seu rosto estava exausto, a camisa manchada de suor e um pouco de sangue, mas seus olhos estavam úmidos.
— Você pode entrar, Emanuel. Mas seja breve e silencioso. Ela perdeu muito sangue.
Emanuel não esperou uma segunda palavra. Ele voou pelo corredor, entrando no quarto que agora cheirava a ferro e vida. O ambiente estava quente, iluminado por velas e pela luz suave do fim de tarde.
Eduarda estava deitada, envolta em lençóis brancos. Ela parecia uma aparição, de tão pálida, mas seus olhos estavam abertos. Ao lado dela, dois pequenos embrulhos se moviam levemente.
Emanuel caiu de joelhos ao lado da cama, segurando a mão dela com uma delicadeza que contrastava com a violência de minutos atrás. Ele beijou os dedos dela, soluçando sem conseguir evitar.
— Você está aqui... você está viva... — ele repetia, a voz quebrada.
— Eu disse que conseguiria, Manu — ela sussurrou, com um sorriso fraco, quase imperceptível. — Conheça o Arthur... e a nossa Maya.
Emanuel olhou para os filhos. Arthur tinha o rosto avermelhado e os punhos cerrados, já demonstrando a agitação que o pai esperava. Maya, por outro lado, tinha uma expressão serena, os olhos entreabertos observando o mundo com uma calma profunda. Eram o equilíbrio perfeito. O caos e a paz, materializados em carne e osso.
A porta se abriu suavemente e Sara entrou. Ela carregava Ágata, que agora dormia. Sara parou ao pé da cama, observando Eduarda. Não havia sarcasmo em seu rosto, nem ironia. Pela primeira vez, havia um respeito silencioso. Ela sabia que, naquela noite, Eduarda havia feito algo que ela mesma, com toda sua força e arrogância, temeria fazer.
— Eles são lindos, Eduarda — disse Sara, a voz baixa. — Arthur parece que vai dar trabalho para o Emanuel. Já a Maya... ela tem o seu olhar.
Eduarda olhou para Sara e assentiu levemente. Naquele momento de quase morte, as disputas por controle e atenção pareciam triviais. Elas eram as mães dos filhos de Emanuel Albuquerque. Eram as duas faces da moeda que mantinha aquele homem de pé.
Emanuel levantou-se e abraçou Sara de lado, enquanto mantinha a outra mão sobre a de Eduarda. Ele estava no centro de seu universo. Um universo que agora contava com três crianças e duas mulheres que, de formas completamente opostas, possuíam sua alma.
— Eu vou cuidar de todos vocês — Emanuel prometeu, olhando de uma para a outra. — Nada vai chegar perto de vocês.
Dona Benvinda entrou no quarto com uma bacia de água morna e ervas.
— Agora, saiam todos. A mãe precisa descansar e os pequenos precisam mamar. O perigo passou, mas a terra exige repouso.
Emanuel relutou, mas Eduarda apertou sua mão, sinalizando que estava tudo bem. Ele saiu do quarto com Sara, caminhando para a varanda. A noite havia caído sobre a fazenda, e o céu estava coalhado de estrelas.
— Você quase destruiu a porta daquele quarto, sabia? — Sara comentou, encostando a cabeça no ombro dele.
— Eu achei que tinha perdido ela, Sara. E se eu perdesse ela, eu perderia a parte de mim que ainda consegue sentir paz.
— Eu sei — Sara suspirou, olhando para a pequena Ágata em seus braços. — E agora você tem o dobro de paz com a Maya e o dobro de caos com o Arthur. Prepare-se, Emanuel. Sua vida nunca mais será silenciosa.
Emanuel sorriu, um sorriso cansado, mas genuíno. Ele olhou para as montanhas escuras, sentindo a força daquela terra que quase lhe tirara tudo, mas que acabara de lhe entregar o seu maior legado. Ele era um homem marcado, não por tatuagens, mas pela vida. E enquanto ouvia o choro distante de um dos gêmeos lá dentro, ele soube que, não importava o quão difícil fosse equilibrar aqueles dois mundos, ele lutaria por cada segundo daquele caos bendito.
A linhagem dos Albuquerque estava garantida, e o coração de Emanuel, dividido e multiplicado, finalmente encontrara seu lugar entre o fogo de Sara e a terra sagrada de Eduarda.