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Marcas na Pele e Saltos Altos
O shopping JK Iguatemi fervilhava com o movimento típico de uma tarde de sábado, um desfile de marcas de luxo, perfumes caros e o som constante de passos apressados sobre o mármore polido. Emanuel caminhava com sua postura habitual: ombros largos, passos firmes e uma expressão que alternava entre o tédio e a vigilância. Ele detestava multidões, mas Sara tinha uma necessidade quase biológica de ser vista e de consumir.
Sara estava em seu elemento. Usava um conjunto de alfaiataria branco tão justo que parecia uma segunda pele, realçando o busto volumoso e a silvatura que ela exibia com orgulho. Seus cabelos loiros, impecavelmente escovados, balançavam conforme ela apontava para as vitrines, comentando sobre as novas coleções com a autoridade de quem administrava não apenas os estúdios de Emanuel, mas também a imagem pública do casal.
— Emanuel, olhe aquela bolsa na vitrine da Prada — comentou Sara, a voz projetada para que as pessoas ao redor notassem sua presença. — Seria perfeita para o coquetel de abertura da nova unidade em Madrid. O que acha?
— Acho que você já tem três parecidas, Sara — ele respondeu, a voz rouca e cansada. — Podemos focar no almoço? Minha paciência com vitrines está chegando ao limite.
— Você é tão ranzinza às vezes — ela riu, passando o braço pelo dele, o toque possessivo e marcado pelo perfume doce que o embriagava. — Mas eu te perdoo, porque sei que está estressado com a logística da Espanha.
Eles se dirigiram à praça de alimentação de luxo, mas, antes que pudessem escolher um restaurante, os olhos de Emanuel, sempre atentos, captaram um movimento familiar perto de uma loja de sapatos de grife. O coração dele deu um solavanco que a razão não conseguia explicar.
Ali, sentada em um pufe de veludo dentro da loja, estava Eduarda. Ela parecia pequena e deslocada entre as caixas de sapatos empilhadas. Ao lado dela, duas mulheres falavam ao mesmo tempo, gesticulando com uma energia que contrastava com a aura mansa da garota.
— Não é a bonequinha? — Sara perguntou, estreitando os olhos. Ela também a vira. — Com a família "moderna" dela.
Emanuel não respondeu. Ele já estava caminhando em direção à loja, sendo puxado por uma gravidade invisível. Eduarda usava um vestido curto de algodão floral, com as pernas claras à mostra, e o cabelo castanho estava preso em uma trança lateral um pouco desfeita.
Ao se aproximarem, a voz de uma das mulheres se tornou nítida. Era Heloísa, a tia de Eduarda, uma mulher de quarenta e poucos anos que parecia ter saído de um festival de rock dos anos 70, com óculos de lentes coloridas e colares de contas.
— Duda, meu amor, esse salto é um crime contra a sua coluna, mas um milagre para a sua autoestima! — exclamava Heloísa, rindo alto. — Você precisa de algo que diga "eu sou uma historiadora da arte, mas posso te derrubar com um olhar".
— Tia, eu não sei nem se consigo andar com isso sem cair de novo — Eduarda murmurou, a voz baixinha e manhosa, o rosto levemente corado de vergonha pela atenção que a tia atraía.
— Eduarda? — A voz de Emanuel cortou o ambiente.
A garota deu um pulo, os olhos grandes e castanhos se arregalando ao encontrá-lo. Imediatamente, um sorriso doce e tímido iluminou seu rosto, mas a insegurança logo se seguiu ao ver Sara logo atrás dele.
— Manu! — Ela se levantou um pouco desajeitada, tentando equilibrar-se em um dos pés enquanto o outro ainda calçava um sapato de teste.
— Olá, queridinha — disse Sara, com um sorriso que não chegava aos olhos, cruzando os braços sobre o peito. — Compras em família? Que... fofo.
A mãe de Eduarda, uma mulher jovem e elegante de traços suaves, aproximou-se com um sorriso amigável.
— Emanuel, que bom te ver. A Duda estava justamente reclamando que você tem trabalhado demais ultimamente.
— É o preço do sucesso, querida — Sara interveio, antes que Emanuel pudesse falar. — Administrar um império exige tempo. Coisa que, infelizmente, quem só estuda arte às vezes não entende.
Emanuel sentiu a tensão subir pelo pescoço. Ele ignorou o comentário de Sara e focou em Eduarda. Ao se aproximar para beijar a testa dela, seus olhos desceram pelas pernas da namorada e ele travou. Na coxa direita de Eduarda, contrastando com a pele muito clara e macia, havia um hematoma extenso, de um roxo escuro e azulado.
— O que é isso na sua perna? — A voz dele saiu em um tom de comando, carregada de uma preocupação que beirava a irritação.
Eduarda tentou puxar a barra do vestido para baixo, o rosto ficando vermelho como um pimentão.
— Não foi nada, Manu... Eu só tropecei ontem na faculdade.
— Tropeçou? — Emanuel se abaixou, sem se importar com quem estava olhando, e tocou a borda do hematoma com os dedos calejados. — Isso está horrível, Eduarda. Por que você não me contou?
— Ai, Emanuel, deixe de ser dramático — Heloísa, a tia, interveio, dando um tapinha no ombro dele. — A menina é um desastre ambulante, você sabe. Ela caiu tentando carregar três livros de capa dura e um café. Foi uma cena digna de cinema mudo!
— Ela deveria ter me ligado — Emanuel disse, levantando-se e encarando a mãe de Eduarda. — Ela está cuidando disso? Passou alguma pomada?
— Ela é teimosa, Emanuel — a mãe respondeu, suspirando. — Disse que não queria te incomodar porque você estava em reunião com os investidores.
Emanuel voltou seu olhar para Eduarda. A raiva por ela ter escondido algo dele — por menor que fosse — lutava contra o desejo de pegá-la no colo e tirá-la dali.
— Eu já disse que você nunca me incomoda — ele disse, a voz baixando para um tom que apenas ela pudesse sentir a intensidade. — Eu quero você segura. Se você cai e se machuca assim, eu preciso saber.
— Que cena mais dramática por causa de um roxo — Sara bufou, revirando os olhos e balançando o pé impacientemente. — Emanuel, o restaurante vai perder a nossa mesa. Ela está com a mãe e a tia "maluca", ela está bem. Vamos.
— Sara, espere um minuto — Emanuel rebateu, o tom de aviso fazendo a loira morder o lábio de raiva.
Eduarda olhou para Sara e depois para Emanuel. Ela se sentia pequena, como sempre acontecia quando os dois mundos colidiam. Sara era tão impecável, tão dura, enquanto ela se sentia apenas uma bagunça com uma perna machucada e uma tia que falava alto demais.
— Pode ir almoçar, Manu — Eduarda pediu, fazendo um carinho tímido no braço dele. — Eu estou bem, de verdade. A gente se fala mais tarde?
— Não — Emanuel decidiu, o instinto de controle assumindo o comando. — Vocês já terminaram aqui?
— Estávamos quase — a mãe de Eduarda respondeu, observando a dinâmica com curiosidade.
— Então vocês vêm almoçar conosco — Emanuel declarou. Não era um convite, era uma ordem.
— O quê? — Sara e Eduarda perguntaram em uníssono.
— Emanuel, o almoço era para discutirmos o cronograma da viagem! — Sara exclamou, as unhas cravando na própria bolsa.
— O cronograma pode esperar uma hora — ele respondeu, firme. — Eu quero almoçar com as minhas namoradas. E quero garantir que a Eduarda coma algo decente e descanse essa perna.
O almoço foi, no mínimo, memorável. Sentados em uma mesa redonda no terraço do restaurante, o contraste era quase cômico. De um lado, Sara, exalando luxo e impaciência, bebendo um vinho branco caro e ignorando solenemente a presença das outras mulheres. Do outro, Eduarda, encolhida na cadeira, e sua tia Heloísa, que decidiu que Emanuel precisava de conselhos astrológicos.
— O problema, Emanuel, é que você é muito terreno — dizia Heloísa, gesticulando com um talher. — Você quer controlar tudo, quer que as flores cresçam no seu ritmo. Mas a Duda é água. Se você apertar demais, ela escorre. E essa loira oxigenada aí do seu lado... ela é fogo puro. Você vai acabar queimado ou afogado se não equilibrar esses elementos.
Sara engasgou com o vinho, os olhos faiscando.
— Como é que é? "Loira oxigenada"? — Sara se inclinou para frente, a voz perigosamente baixa. — Escuta aqui, minha senhora, eu sou formada em administração e sou eu quem garante que os estúdios desse homem não virem um caos. Eu sou o elemento que mantém tudo funcionando, enquanto vocês parecem viver em um conto de fadas hippie.
— Sara! — Emanuel repreendeu, mas havia um cansaço profundo em seu rosto.
— Tudo bem, Sara — Eduarda disse, a voz trêmula, mas tentando manter a paz. — A tia Heloísa só tem um jeito... diferente de falar. Ela não quis ofender.
— Ela me ofendeu desde o momento em que abriu a boca — Sara retrucou, voltando-se para Emanuel. — É isso que você quer, Emanuel? Esse circo? Eu me esforço para ser civilizada, mas tem um limite para o quanto eu aguento essa gente.
Emanuel bateu com a mão na mesa, não com força suficiente para quebrar nada, mas o som foi seco e autoritário o bastante para silenciar a mesa.
— Chega. Todos vocês.
Ele olhou para Sara, cujas narinas inflavam de indignação, e depois para Eduarda, que parecia querer enfiar a cabeça embaixo da mesa.
— Sara, você vai se acalmar e terminar seu almoço em silêncio se não conseguir ser educada. Heloísa, agradeço a análise astral, mas vamos mudar de assunto.
Ele se voltou para Eduarda e, por baixo da mesa, colocou a mão sobre o joelho dela, logo acima do hematoma. O toque era quente e protetor.
— Duda, eu quero que você passe na minha casa amanhã. Vou pedir para o meu massoterapeuta dar uma olhada nesse hematoma e garantir que não houve nada muscular.
— Manu, não precisa de tanto... — ela começou.
— Precisa sim — ele a cortou. — E eu não quero ouvir "não".
Eduarda suspirou, cedendo como sempre fazia diante da firmeza dele. Ela se inclinou levemente para o lado, apoiando o ombro no dele, buscando aquele porto seguro. Sara, vendo a cena, sentiu uma pontada de irritação, mas também uma satisfação amarga. Ela sabia que, no fim do dia, Emanuel voltaria para casa com ela. Ele precisava da competência dela, do corpo dela, da realidade nua e crua que ela representava.
Mas, ao olhar para o modo como Emanuel olhava para o roxo na perna de Eduarda, Sara sentiu, pela primeira vez em muito tempo, uma pequena rachadura em sua confiança. Ele não a olhava com aquela fragilidade. Ele a olhava como uma sócia, uma amante, uma guerreira. Mas para Eduarda... para aquela menina manhosa e cheia de hematomas, ele olhava como se ela fosse a única coisa no mundo que ele não poderia deixar quebrar.
— Então — Heloísa quebrou o silêncio, sem se abalar nem um pouco com a tensão —, quem vai pedir a sobremesa? Ouvi dizer que o petit gâteau daqui é de chorar de alegria.
Emanuel soltou uma risada curta, a primeira do dia. O estresse ainda estava lá, latejando em suas têmporas, mas ter as duas ali, com todas as suas imperfeições e conflitos, era a sua realidade. Uma realidade caótica, cara e emocionalmente exaustiva, mas que ele não trocaria por nada.
— Peça o que quiser, Heloísa — Emanuel disse, relaxando um pouco o aperto no joelho de Eduarda. — Hoje a conta é por minha causa. Mas, por favor, sem mais previsões astrológicas até o café.
O almoço prosseguiu sob uma trégua armada. Sara manteve-se em um silêncio altivo, Eduarda relaxou o suficiente para comer, e Emanuel permaneceu no centro, o pivô de dois mundos que se recusavam a se fundir, mas que ele estava determinado a manter orbitando ao seu redor, custasse o que custasse. No fundo, ele sabia que a viagem para Miami seria apenas o começo de desafios muito maiores, mas, por ora, garantir que Eduarda estivesse alimentada e que Sara estivesse (relativamente) calma era a única vitória que ele podia buscar.