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O Peso do Sangue e do Afeto
O sol da manhã entrava pelas janelas do apartamento de luxo de Emanuel, iluminando as partículas de poeira que dançavam sobre os móveis de design minimalista. O silêncio, no entanto, era pesado. Emanuel estava sentado à mesa de jantar, um tablet aberto com os relatórios financeiros dos estúdios de Londres, mas seus olhos não processavam os números. Ele observava Sara, que, com seis meses de gestação, parecia ter ganhado uma aura ainda mais imponente e, simultaneamente, mais afiada.
Sara usava um robe de seda preta que se abria levemente sobre a barriga já bem proeminente. Ela não era o tipo de grávida que usava roupas largas; ela exibia a gravidez como um troféu, uma extensão de sua própria vaidade e poder. Ágata, o nome escolhido após semanas de discussões intensas, já era uma presença constante nas conversas, nos planos e no orçamento da casa.
— Ela chutou a noite toda — comentou Sara, servindo-se de um suco verde, o rosto levemente inchado, mas ainda impecavelmente maquiado. — Acho que herdou seu temperamento, Emanuel. Não para um segundo.
— Ela vai ser forte — Emanuel respondeu, levantando-se para beijar o topo da cabeça de Sara, um gesto de proteção que se tornara instintivo. — Como a mãe.
A campainha tocou, quebrando o momento. Era Eduarda. Ela entrou timidamente, trazendo um pequeno buquê de flores silvestres e uma sacola de uma livraria. Usava um vestido de linho azul claro e parecia, como sempre, uma criatura de um mundo muito mais suave e menos barulhento do que aquele em que Sara e Emanuel viviam.
— Oi... — Eduarda murmurou, sorrindo para Emanuel e dando um aceno contido para Sara. — Eu trouxe isso para alegrar a sala. E um livro de gravuras para a Ágata... eu sei que ela ainda não nasceu, mas achei que seria bom ela já ter uma biblioteca.
— Flores do campo? — Sara arqueou uma sobrancelha, pegando o buquê com as pontas dos dedos. — Obrigada, Eduarda. Vou pedir para a governanta colocar em algum vaso no corredor. E o livro... bom, espero que ela goste de arte tanto quanto você, porque, se depender de mim, ela vai preferir planilhas.
Emanuel sentiu a pontada de sarcasmo no tom de Sara e interveio antes que o clima pesasse.
— É um gesto carinhoso, Duda. Vem aqui.
Ele a puxou para um abraço, sentindo o corpo pequeno e macio dela se moldar ao seu. Eduarda era seu refúgio, mas ultimamente, ele sentia que esse refúgio estava se tornando distante demais da nova realidade que ele estava construindo.
— Senta com a gente, Duda — Emanuel pediu, apontando para a cadeira ao lado da de Sara. — Estávamos falando sobre o quarto da Ágata. Quero que você dê sua opinião sobre as cores. Quero que você participe disso.
Eduarda sentou-se na ponta da cadeira, as mãos entrelaçadas sobre o colo. Ela olhou para a barriga de Sara, sentindo aquela mistura familiar de fascínio e exclusão.
— Eu não sei se sou a melhor pessoa para opinar sobre decoração de quarto de bebê, Manu. A Sara tem um gosto muito específico... e é a filha de vocês.
Emanuel travou o maxilar. Aquela frase — "a filha de vocês" — soava como um alarme em seus ouvidos.
— É a nossa vida, Eduarda. Eu já te disse isso mil vezes. Eu quero que você seja uma presença constante na vida da Ágata. Não quero que você se sinta uma visita. Quero que ela cresça vendo você como parte da família.
— Emanuel tem razão — Sara acrescentou, embora o tom fosse mais prático do que afetuoso. — Se vamos morar todos juntos um dia, como ele tanto insiste, você vai ter que aprender a trocar uma fralda ou, pelo menos, a segurar a criança sem parecer que está segurando uma bomba relógio.
Eduarda baixou o olhar, o rosto começando a corar.
— Não é que eu não queira participar, Manu... eu só... eu tenho medo de invadir.
— Invadir o quê? — Emanuel perguntou, a voz subindo um tom, o estresse acumulado das últimas semanas transbordando. — Você é minha namorada. Ela é minha filha. Não existe invasão quando se trata de afeto. Às vezes parece que você não dá importância para a Ágata. Parece que você trata a gravidez da Sara como um projeto de trabalho meu que não te diz respeito.
O silêncio que se seguiu foi doloroso. Eduarda sentiu os olhos arderem. Ela olhou para Emanuel, vendo a tensão em seus ombros e o olhar de cobrança que ele raramente direcionava a ela com tanta dureza.
— Isso não é verdade — ela sussurrou, a voz trêmula. — Eu dou importância. Eu penso nela todos os dias. Eu rezo para que ela venha com saúde.
— Então por que você recuou quando eu te chamei para o ultrassom na semana passada? — Emanuel questionou, cruzando os braços. — Por que você sempre tem uma desculpa quando o assunto é o enxoval?
Eduarda respirou fundo, tentando encontrar coragem em meio à sua timidez crônica. Ela olhou de relance para Sara, que observava a cena com uma neutralidade quase cruel, bebendo seu suco como se assistisse a uma peça de teatro.
— Porque existem momentos, Manu, que só cabem ao pai e à mãe — Eduarda disse, ganhando uma firmeza inesperada na voz. — Eu amo você. E eu sei que vou amar a Ágata, porque ela é parte de você. Mas eu não sou a mãe dela. Eu não posso, e não devo, tentar ocupar um espaço que não é meu por direito biológico ou emocional.
— E quem decide qual é esse espaço? — Emanuel rebateu. — Eu decido. Eu sou o pai.
— Não, Manu. O bom senso decide — Eduarda continuou, as mãos agora gesticulando levemente. — Eu quero estar lá para brincar com ela, para ler histórias, para dar carinho quando você estiver cansado. Mas quando a Sara está sentindo ela chutar, ou quando vocês estão decidindo o futuro dela, eu sou um apoio, não uma protagonista. Você precisa entender que eu tenho o meu tempo para me conectar com ela. Eu não posso ser forçada a ter uma intimidade que ainda está sendo construída.
Sara soltou uma risada curta, irônica.
— Ora, veja só... a bonequinha de porcelana tem garras.
— Não são garras, Sara — Eduarda disse, voltando-se para a loira. — É respeito. Eu respeito a sua posição. Eu respeito o fato de que você está carregando a filha dele. Eu só queria que o Emanuel respeitasse o fato de que eu preciso encontrar o meu lugar nessa dinâmica sem ser empurrada para dentro dela como se eu fosse um acessório.
Emanuel passou a mão pelo rosto, sentindo-se exausto. Ele queria que tudo fosse simples. Queria as duas mulheres que amava em perfeita harmonia, cuidando da criança que ele tanto desejava. Mas a realidade era um emaranhado de egos, inseguranças e limites que ele não conseguia controlar com a mesma facilidade com que controlava seus negócios.
— Eu só não quero que ela cresça sentindo que você é uma estranha, Duda — ele disse, a voz agora mais baixa, quase um apelo.
— Eu nunca serei uma estranha — Eduarda levantou-se e caminhou até ele, colocando a mão em seu peito, sentindo o coração acelerado dele sob a camiseta. — Mas você tem que parar de me cobrar uma maternidade que não me pertence. Deixe que o meu amor pela Ágata cresça de forma natural. Se você me pressionar, eu vou acabar me sentindo culpada por algo que deveria ser puramente alegria.
Emanuel fechou os olhos, absorvendo as palavras dela. Ele sentiu a doçura de Eduarda, mas também a barreira que ela estava impondo para proteger a própria sanidade. Ele a puxou para perto, encostando a testa na dela.
— Desculpe — ele murmurou. — Eu ando... pilhado. Quero que tudo seja perfeito.
— Nada é perfeito, querido — Sara interveio, levantando-se com certa dificuldade e caminhando até eles. Ela parou ao lado de Emanuel, a mão pousada sobre a barriga. — A Ágata vai ter uma mãe que vai ensinar ela a dominar o mundo e uma... bom, uma madrasta, eu suponho, que vai ensinar ela a pintar flores. Se ela não sair esquizofrênica, vai ser um lucro.
Emanuel soltou um riso seco, sentindo a tensão aliviar-se minimamente. Ele estendeu o braço e puxou Sara para o círculo, ficando entre as duas. De um lado, o perfume forte e a presença dominante de Sara; do outro, a suavidade e o calor de Eduarda.
— Ela vai ser a criança mais amada do mundo — Emanuel afirmou, embora soubesse que os conflitos estavam longe de terminar.
— Ela vai ser — Eduarda concordou, olhando para a barriga de Sara com um olhar mais genuíno dessa vez. — Mas agora, Manu, eu realmente preciso ir para a faculdade. Tenho uma aula sobre o Renascimento que não posso perder.
— Eu te levo — Emanuel se ofereceu prontamente.
— Não precisa. Eu chamo um carro. Fique aqui com a Sara e com a Ágata. Elas precisam de você mais do que eu agora.
Eduarda deu um beijo rápido em Emanuel e, para surpresa de todos, aproximou-se de Sara e tocou levemente o seu ombro.
— Se cuida, Sara. Tenta descansar um pouco.
Assim que Eduarda saiu, o apartamento pareceu ficar maior e mais frio. Sara olhou para a porta e depois para Emanuel.
— Ela tem razão em uma coisa, sabia? — Sara disse, caminhando em direção ao sofá.
— No quê?
— Você é um controlador maníaco, Emanuel. Quer que todos dancem conforme a sua música. Mas bebês não seguem partituras. E a Eduarda... bom, ela é lenta, mas não é burra. Ela sabe que, no momento em que essa menina nascer, a dinâmica vai explodir.
Emanuel não respondeu. Ele caminhou até a janela, observando o carro que levava Eduarda se afastar. Ele queria as duas. Precisava das duas. Mas, enquanto Ágata crescia dentro de Sara, ele percebia que o maior desafio de sua vida não seria gerir seus estúdios ao redor do mundo, mas sim garantir que o amor que ele sentia por aquelas duas mulheres tão diferentes não acabasse por sufocar a harmonia que ele tanto tentava forçar.
— Ela vai participar, Sara — Emanuel disse, mais para si mesmo do que para ela. — Eu vou garantir isso.
— Veremos, Emanuel — Sara bocejou, ajeitando-se no sofá. — Veremos se você consegue lidar com o fato de que, às vezes, o controle é apenas uma ilusão que a gente cria para não enlouquecer.
Emanuel permaneceu em silêncio, sentindo o peso da responsabilidade e a incerteza do futuro. Ele era um tatuador de renome, um homem que marcava a pele das pessoas para sempre. Mas as marcas que ele estava tentando criar na vida de Sara e Eduarda eram muito mais profundas, e ele temia que, se não tivesse cuidado, a tinta pudesse borrar e destruir o desenho que ele passara anos tentando aperfeiçoar.