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O Sangue no Tapete e o Peso do Ferro

O apartamento de Emanuel, que antes parecia um monumento à ordem e ao sucesso, transformara-se em uma zona de guerra silenciosa onde o ar era denso demais para respirar. A mudança de Eduarda fora feita sob protestos mudos e lágrimas que ela tentava esconder, mas o destino tinha planos mais urgentes do que a adaptação emocional daquela família disfuncional.

Emanuel estava no escritório, os olhos fixos em três projetos diferentes de expansão para a Ásia, quando um grito agudo, seguido de um som de algo quebrando, cortou o silêncio da tarde. Ele reconheceria aquela voz em qualquer lugar. Era Sara.

Ele correu para a sala e estancou na porta. Sara estava caída perto do sofá de couro branco, as mãos pressionando o ventre de seis meses, o rosto de uma palidez cadavérica. No chão, uma taça de cristal estilhaçada e uma mancha vermelha que começava a se expandir pelo tapete de seda.

— Emanuel! — ela arquejou, a voz falhando. — Está doendo... está doendo muito!

Emanuel sentiu o mundo girar por um segundo, mas seu instinto prático assumiu o controle. Ele se ajoelhou ao lado dela, ignorando o sangue que sujava seus joelhos.

— Calma, Sara. Respira comigo. Eu vou te tirar daqui agora.

Eduarda apareceu no topo da escada, o rosto inchado de sono e a mão sobre a barriga de quatro meses que, apesar de recém-descoberta, já começava a despontar. Ao ver a cena, ela soltou um ganido de horror, as pernas vacilando.

— Meu Deus... Sara! Manu, o que aconteceu?

— Eduarda, pegue a bolsa da Sara no quarto e as chaves do carro! Agora! — Emanuel rugiu, a voz carregada de uma autoridade desesperada. — Não fique aí parada!

Eduarda, trêmula e sentindo uma pontada aguda em seu próprio ventre pelo susto, obedeceu. Ela desceu as escadas o mais rápido que seu corpo pesado permitia, entregando os pertences a Emanuel enquanto ele pegava Sara no colo. A loira, sempre tão altiva e inabalável, agora parecia pequena e vulnerável, agarrando-se ao pescoço de Emanuel como se ele fosse sua única âncora no mundo.

— Se algo acontecer com a Ágata... — Sara sussurrou contra o peito dele, as lágrimas borrando sua maquiagem impecável.

— Não vai acontecer nada. Eu não vou deixar — Emanuel prometeu, embora sentisse o próprio coração martelando contra as costelas.

No hospital, as horas se arrastaram como séculos. Emanuel andava de um lado para o outro na sala de espera VIP, o estresse acumulado dos últimos meses atingindo o ápice. Eduarda estava sentada em uma das poltronas, pálida, observando o namorado com uma mistura de culpa e medo. Ela sentia que sua presença ali, com sua gravidez gemelar e seus próprios problemas, era apenas mais um fardo para o homem que ela amava.

Finalmente, o médico surgiu. Ele parecia exausto.

— Emanuel? A Sara teve um descolamento parcial de placenta provocado por um pico de estresse extremo. O corpo dela atingiu o limite. Conseguimos estabilizar o sangramento e a Ágata está bem, mas Sara precisará de repouso absoluto até o dia do parto. Sem reuniões, sem planilhas, sem discussões. Se ela se exaltar novamente, podemos perder a bebê.

Emanuel soltou um suspiro que pareceu esvaziar todo o seu corpo. Ele se sentou ao lado de Eduarda, enterrando o rosto nas mãos.

— Estresse... — ele murmurou. — Eu fiz isso. Eu forcei essa situação.

— Não foi só você, Manu — Eduarda disse baixinho, colocando a mão pequena sobre o ombro dele. — Todos nós estamos vivendo no limite.

Emanuel levantou a cabeça e olhou para ela. Foi então que ele notou as olheiras profundas sob os olhos castanhos de Eduarda e o modo como ela segurava a própria barriga com uma expressão de desconforto constante.

— E você? Como está se sentindo? — Ele perguntou, a voz suavizando por um instante.

— Estou bem... só um pouco cansada.

— Não minta para mim, Eduarda. Você está pálida desde que acordou.

Nesse momento, uma enfermeira se aproximou com um prontuário.

— Com licença, o senhor é o responsável por Eduarda também? Os resultados dos exames de sangue dela chegaram. O médico da família solicitou que verificássemos assim que ela chegasse.

Emanuel pegou os papéis, seus olhos treinados para identificar crises antes mesmo que elas explodissem.

— Anemia severa — ele leu em voz alta, o maxilar travando. — Níveis de ferro perigosamente baixos.

— É comum em gravidez de gêmeos, senhor — explicou a enfermeira —, especialmente quando a paciente é pequena e os fetos estão se desenvolvendo rápido. O menino, Arthur, está consumindo quase todas as reservas de nutrientes da mãe. Ele é um bebê muito grande para o tempo de gestação. Se não agirmos, a Eduarda vai começar a ter desmaios e complicações cardíacas.

Emanuel olhou para Eduarda, que desviou o olhar, envergonhada.

— Eu não queria falar... você já tinha tantos problemas com a Sara e os estúdios...

— Eduarda, olhe para mim — Emanuel disse, segurando o queixo dela com firmeza. — Você está carregando dois filhos meus. Um deles é grande demais para você suportar sozinha. Você vai começar o tratamento com injeções de ferro intravenoso hoje mesmo.

— Injeções? — Ela estremeceu. Eduarda odiava agulhas, um contraste irônico para a namorada de um dos maiores tatuadores do mundo. — Não pode ser só vitamina em comprimido?

— Não — Emanuel foi implacável. — O Arthur está sugando a sua vida, Duda. Ele é grande, é forte, e ele precisa que você esteja de pé. Eu não vou perder nenhum de vocês. Nem a Ágata, nem o Arthur, nem a Maya. E certamente não você.

As semanas seguintes transformaram o apartamento em uma espécie de clínica de luxo. Sara estava confinada ao quarto principal, cercada por travesseiros, proibida de usar o celular para fins de trabalho. A frustração dela era palpável, manifestando-se em sarcasmo ácido sempre que Emanuel entrava no quarto.

— Então, como está a "fábrica de gêmeos"? — Sara perguntou em uma manhã, enquanto Emanuel ajeitava o suporte do soro ao lado da cama dela. — Ela já parou de choramingar por causa das picadas no braço?

— Ela está anêmica, Sara. O Arthur é enorme, está pressionando os órgãos dela — Emanuel respondeu sem olhar para ela, focado em medir a pressão arterial da loira. — E você não tem direito de reclamar. Se você tivesse seguido minhas ordens de descanso antes, não estaríamos nessa situação.

— Eu sou uma mulher de negócios, Emanuel! Não sou uma incubadora passiva como ela — Sara rebateu, embora sua voz não tivesse a força de antes. — Eu odeio me sentir inútil.

— Você não é inútil. Você está gerando a minha filha. Isso é o trabalho mais importante que você já teve.

Ele saiu do quarto e foi para o quarto de hóspedes, que agora era o refúgio de Eduarda. O ambiente era diferente; cheirava a lavanda e óleo de amêndoas. Eduarda estava deitada de lado, com um enorme travesseiro entre as pernas para aliviar o peso da barriga que parecia crescer a olhos vistos a cada dia.

— Manu... — ela sorriu fracamente ao vê-lo.

— Hora da medicação, Duda.

Ele preparou o material com a precisão de quem já fizera aquilo dezenas de vezes. Eduarda estendeu o braço, fechando os olhos com força e escondendo o rosto no travesseiro.

— Dói tanto quando o líquido entra — ela sussurrou, a voz manhosa.

— Eu sei, meu amor. Eu sei. Mas olha só para essa barriga — ele colocou a mão sobre o ventre dela, sentindo um chute vigoroso que fez a pele se ondular. — O Arthur está chutando o seu estômago de novo?

— Ele não para — ela riu entre as lágrimas de dor da picada. — Ele é muito forte, Manu. Às vezes eu acho que ele vai sair correndo antes da hora. A Maya é mais calma, ela fica lá no cantinho dela, mas o Arthur... ele quer espaço.

Emanuel sentou-se na beira da cama após terminar a aplicação, puxando Eduarda para o seu colo, tomando cuidado com a barriga volumosa. Ele se sentia como o pilar de uma estrutura que ameaçava desabar a qualquer momento. De um lado, Sara, a mulher que o ajudara a construir seu império, agora reduzida à imobilidade e lutando contra o próprio estresse. Do outro, Eduarda, a doçura que ele precisava para não enlouquecer, sendo consumida fisicamente pela força dos filhos que ele colocara nela.

— Eu sinto que estou falhando com as duas — ele confessou, a voz baixa, o rosto enterrado no pescoço de Eduarda.

— Você não está falhando — ela disse, fazendo carinho nos cabelos curtos dele. — Você está cuidando de tudo. Só... é muita coisa para um homem só.

— Eu queria que vocês se dessem bem — ele murmurou. — Eu queria que, nesse momento, vocês pudessem se apoiar.

— Manu, a Sara me vê como uma intrusa e eu a vejo como uma gigante que eu nunca vou conseguir alcançar. Como vamos nos apoiar?

— Talvez — Emanuel sugeriu, levantando o rosto — se vocês percebessem que estão no mesmo barco. Ambas estão sofrendo pelo mesmo motivo: o amor que sentem por mim e por essas crianças.

Naquela tarde, Emanuel fez algo arriscado. Ele ajudou Sara a se sentar em uma cadeira de rodas e a levou até o quarto de Eduarda. O encontro foi tenso. Sara olhou para o braço de Eduarda, cheio de hematomas roxos das injeções de ferro, e Eduarda olhou para o rosto pálido e cansado de Sara.

— Parece que o seu "menino gigante" está acabando com você — Sara disse, mas, pela primeira vez, não havia maldade na voz, apenas uma observação clínica.

— Ele é muito grande, Sara — Eduarda respondeu timidamente. — Às vezes eu sinto que não vou ter fôlego para chegar aos nove meses.

— Você vai chegar — Sara afirmou, surpreendendo a todos. — Se eu tenho que ficar presa nesta cama por causa da Ágata, você vai aguentar essas agulhas pelos gêmeos. Não vou ser a única a sofrer aqui.

Eduarda deu um pequeno sorriso, percebendo que aquele era o jeito de Sara de oferecer solidariedade.

— Obrigada, Sara.

— Não me agradeça. Só garanta que o Arthur não chute a minha filha quando eles estiverem brincando no berçário. Pelo que o Emanuel diz, ele vai ser um bruto.

Emanuel observou as duas, sentindo uma pequena fresta de luz em meio à tempestade. Ele sabia que o caminho ainda seria longo. Sara ainda teria crises de ansiedade por estar longe do trabalho, e Eduarda ainda precisaria de muitas injeções para manter o sangue forte o suficiente para alimentar os gêmeos. O estresse não desapareceria, mas agora, pelo menos, o inimigo era comum.

Ele se aproximou das duas, uma mão no ombro de Sara e a outra na mão de Eduarda.

— Nós vamos conseguir — ele disse, a voz cheia de uma determinação renovada. — Miami ficou para trás. O que importa agora é aqui. Minha família, sob o meu teto.

A noite caiu sobre o apartamento, e Emanuel finalmente permitiu-se fechar os olhos por alguns minutos. Ele sabia que Arthur, Maya e Ágata eram o futuro do seu império, mas as duas mulheres à sua frente eram o seu presente. E, entre o ferro das injeções de Eduarda e o repouso forçado de Sara, ele descobriu que o verdadeiro controle não vinha de ditar ordens, mas de ser a força que mantinha todos unidos quando a vida se tornava pesada demais para carregar.

O silêncio agora não era mais de guerra, mas de uma trégua necessária. Emanuel, o homem rico e poderoso, percebeu que sua maior fortuna não estava nos estúdios espalhados pelo mundo, mas naquelas vidas frágeis e complexas que ele jurara proteger com cada gota de seu próprio suor e sangue.