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O Eco do Silêncio e o Peso do Segredo

O corredor da clínica de obstetrícia de alto padrão exalava um cheiro estéril de lavanda e produtos de limpeza caros. Emanuel caminhava ao lado de Sara, que exibia sua barriga de seis meses com a confiança de uma rainha. Eles haviam acabado de sair de uma consulta de rotina para Ágata, e Sara estava radiante, comentando sobre o peso e a saúde da bebê com uma precisão técnica que faria inveja a qualquer enfermeira.

— O Dr. Arnaldo disse que ela está perfeita, Emanuel — Sara dizia, ajeitando a bolsa de grife no ombro. — Mas ele insistiu que eu preciso de mais repouso. Como se eu tivesse tempo para ficar deitada enquanto a administração do estúdio de Berlim está de cabeça para baixo.

— Você vai descansar, Sara — Emanuel respondeu, o tom de voz firme, mas com o olhar perdido no celular, checando mensagens de trabalho. — Eu já disse que a equipe de administração dá conta. Você precisa focar na Ágata agora.

Emanuel parou abruptamente quando a porta do elevador se abriu no andar térreo. Seus olhos escuros, sempre vigilantes, captaram uma silhueta familiar sentada em uma das poltronas de espera da recepção. Seu coração, que ele orgulhosamente acreditava estar sob total controle racional, deu um solavanco violento.

Eduarda estava lá. Ao lado de sua mãe, que segurava sua mão com uma força protetora. A garota parecia mais pálida do que o habitual, os olhos castanhos fixos no vazio, uma expressão de choque absoluto paralisando seus traços delicados. Ela segurava um envelope pardo contra o peito, apertando-o como se fosse um escudo.

— Duda? — A voz de Emanuel saiu rouca, carregada de uma confusão imediata.

Eduarda deu um pulo na poltrona. Quando seus olhos encontraram os dele, o pânico substituiu o choque. Ela tentou, instintivamente, esconder o envelope atrás das costas, mas o movimento foi desajeitado e óbvio demais.

— Manu... — ela sussurrou, a voz falhando. — O que... o que você está fazendo aqui?

— Eu que te pergunto — Emanuel se aproximou, ignorando o suspiro de irritação que Sara soltou logo atrás dele. — Você não me disse que vinha ao médico hoje. O que aconteceu? Você está doente?

A mãe de Eduarda interveio, tentando sorrir, mas seus olhos revelavam uma preocupação profunda.

— Emanuel, querido. Foi só um mal-estar súbito. Viemos fazer uns exames de rotina.

— Exames de rotina em uma clínica de obstetrícia e medicina fetal? — Sara perguntou, aproximando-se com um sorriso sarcástico, cruzando os braços sobre a barriga. — Que coincidência interessante, não acham?

Emanuel não tirava os olhos de Eduarda. Ele conhecia cada microexpressão daquela garota. Ele viu o modo como ela tremia, o modo como ela evitava olhar para a própria barriga, que estava escondida sob um casaco largo de tricô, apesar do clima ameno.

— Duda, me dá esse envelope — Emanuel ordenou, estendendo a mão.

— Não é nada, Manu... por favor, vamos conversar depois — ela pediu, a voz manhosa e embargada, os olhos começando a brilhar com lágrimas de puro pavor. — Eu só quero ir para casa.

— Me dá o envelope, Eduarda. Agora.

A autoridade na voz de Emanuel não admitia réplicas. Relutante, Eduarda entregou o papel. Suas mãos roçaram as dele, e ele sentiu que ela estava gélida. Ele abriu o envelope com movimentos bruscos, seus olhos correndo rapidamente pelos termos técnicos até pararem no resultado da ultrassonografia morfológica.

O mundo ao redor de Emanuel pareceu perder o som.

"Gestação gemelar tópica. Feto A: Masculino. Feto B: Feminino. Idade gestacional estimada: 18 semanas e 4 dias."

Quatro meses. Gêmeos. Um menino e uma menina.

Emanuel sentiu uma onda de calor subir por seu pescoço, mas não era de alegria. Era uma fúria fria, alimentada pela percepção de que ele fora mantido no escuro sobre algo tão monumental. Ele olhou para Eduarda, que agora chorava silenciosamente, escondendo o rosto no ombro da mãe.

— Quatro meses? — Emanuel perguntou, a voz baixa, vibrando com uma intensidade perigosa. — Você está grávida de quatro meses, de gêmeos, e eu estou descobrindo isso em um corredor de hospital, por acaso?

— Emanuel, acalme-se — a mãe de Eduarda tentou dizer —, ela estava em choque, não sabia como contar...

— Ela teve dezesseis semanas para saber como contar! — ele explodiu, fazendo algumas pessoas na recepção olharem. — Dezesseis semanas em que eu estive com ela, em que eu dormi com ela, em que eu perguntei se estava tudo bem!

Sara, por sua vez, estava estática. O sarcasmo desaparecera, substituído por uma expressão de puro cálculo. Gêmeos. Eduarda teria dois filhos de uma vez. A "namorada secundária" acabara de dobrar a aposta na disputa por espaço na vida de Emanuel.

— Gêmeos? — Sara murmurou, a voz estranhamente neutra. — Bem, parece que a bonequinha de porcelana é mais fértil do que parecia.

— Manu, por favor... — Eduarda se levantou, aproximando-se dele com passos vacilantes. Ela tentou tocar o braço dele, mas ele recuou, o que a fez soluçar mais forte. — Eu ia te contar... eu juro. Eu só precisava de tempo para processar. São dois, Manu. Dois! Eu tive tanto medo.

— Medo de quê, Eduarda? De que eu cuidasse de você? De que eu fizesse exatamente o que eu venho implorando para fazer há meses, que é te trazer para morar comigo? — Ele balançou o papel na frente dela. — Você escondeu isso porque sabia que, se eu descobrisse, o seu joguinho de "ainda não estou pronta para morar com você" acabaria.

— Não é um jogo! — ela exclamou, a timidez dando lugar a um desespero emocional. — Eu só queria que as coisas fossem no meu tempo. Eu já escolhi até os nomes... Arthur e Maya. Eu queria que fosse especial quando eu te contasse.

— Arthur e Maya — Emanuel repetiu, a amargura pesando em cada sílaba. — Você já deu nomes aos meus filhos, já planejou a vida deles por quatro meses, e eu fui o último a saber. Eu sou o pai, Eduarda! Não sou um investidor que você avisa quando o projeto está pronto!

— Você é um controlador, Emanuel! — Eduarda gritou de volta, surpreendendo a todos, inclusive a si mesma. — Eu sabia que, no momento em que você soubesse, minha vida na casa dos meus pais acabaria. Você ia me trancar naquele apartamento com a Sara, ia decidir que médico eu veria, que roupa eu usaria... Eu queria ser dona da minha gravidez por um tempinho!

Emanuel sentiu um golpe no peito. O estresse acumulado das viagens, da administração dos estúdios e da gravidez de Sara culminou em uma rigidez absoluta. Ele deu um passo à frente, cercando o espaço de Eduarda, sua presença tornando-se sufocante.

— Pois bem. Você teve o seu tempo. Agora o tempo é meu — ele disse, cada palavra caindo como uma pedra. — Você vai para casa, vai arrumar suas malas. Eu vou mandar uma equipe de mudança para a casa dos seus pais amanhã às oito da manhã.

— Emanuel, não faça isso — a mãe de Eduarda interveio. — Ela está sensível.

— Ela está grávida de gêmeos do meu sangue! — ele rugiu, voltando-se para a sogra. — E ela tentou me excluir disso. Não haverá mais discussões. Eduarda, você vai morar comigo. Agora.

Eduarda começou a tremer violentamente, um choro convulso que a deixava sem fôlego. Ela se sentia pequena, esmagada pela fúria de Emanuel e pelo olhar julgador de Sara.

— Eu não quero ir assim... — ela soluçou, tentando se apoiar no balcão da recepção. — Manu, por favor, não seja tão duro comigo. Eu estou com medo... os bebês... eu sinto tanta cólica quando eu fico nervosa...

A menção às cólicas fez Emanuel hesitar por um milésimo de segundo. Sua natureza protetora lutou contra a raiva, mas a irritação por ter sido enganado ainda vencia. Ele se aproximou e, apesar da fúria, segurou o rosto de Eduarda com as duas mãos. Seu toque era firme, quase possessivo.

— Você vai morar comigo porque eu não confio mais que você vá me contar a verdade se ficar longe de mim — ele disse, olhando fixamente nos olhos dela. — Você me traiu, Eduarda. Não com outro homem, mas com o silêncio. Você roubou de mim quatro meses da vida dos meus filhos.

— Eu não roubei... — ela choramingou, fechando os olhos e se inclinando para o toque dele, mesmo em meio à briga. — Eu só queria calma.

— A calma acabou — Emanuel sentenciou.

Sara, que assistia a tudo com uma mistura de fascínio e desprezo, finalmente se manifestou.

— Bom, se a decisão está tomada, sugiro que saiamos daqui. As pessoas estão começando a filmar com os celulares e eu não quero o nome da administração dos estúdios envolvido em um barraco de família em site de fofoca.

Emanuel respirou fundo, tentando recuperar um pouco do controle que o definia. Ele olhou para a mãe de Eduarda.

— Leve-a para casa. Eu vou passar lá à noite para conversarmos com o seu marido. E Eduarda... não tente esconder mais nada. Se eu descobrir que há mais algum segredo, eu juro que a nossa convivência vai ser muito mais difícil do que você imagina.

Eduarda apenas assentiu, as lágrimas lavando seu rosto. Ela se sentia derrotada, mas, no fundo de sua mente confusa, havia um pequeno alívio por não ter mais que carregar o peso do segredo sozinha. No entanto, o preço daquela liberdade seria o fim de sua independência e o início de uma vida sob o teto de Emanuel, dividindo o ar com uma Sara que agora a via como uma rival de peso dobrado.

Emanuel observou Eduarda ser conduzida para fora da clínica pela mãe. Ele ainda segurava o exame, amassando levemente as bordas do papel.

— Três filhos, Emanuel — Sara disse, caminhando em direção à saída, o som de seus saltos soando como batidas de um tambor de guerra. — Dois quartos de bebê, duas namoradas sob o mesmo teto, e uma montanha de estresse. Você tem certeza de que seu coração aguenta, ou você vai acabar infartando antes de trocar a primeira fralda?

— Eu dou conta, Sara — ele respondeu, embora sua voz não soasse tão convincente quanto ele gostaria. — Eu sempre dou conta.

— Dar conta de negócios é uma coisa — Sara parou na porta giratória e olhou para ele por cima dos óculos escuros. — Dar conta de três vidas que dependem de você, enquanto duas mulheres tentam não se matar na sua sala de estar... isso é outra história. Bem-vindo ao caos que você mesmo criou.

Emanuel não respondeu. Ele caminhou até o seu carro em silêncio, o peso do papel em seu bolso parecendo pesar toneladas. Arthur e Maya. Ele já amava aqueles nomes, e odiava o fato de não ter sido ele a escolhê-los. A imagem de Eduarda, pequena e frágil, escondendo a vida dentro de si, queimava em sua mente. Ele a queria sob suas asas, queria protegê-la de tudo, inclusive dela mesma. Mas ele sabia que, ao forçar aquela mudança, ele estava quebrando algo na doçura de Eduarda que talvez nunca mais pudesse ser consertado.

A noite em São Paulo prometia ser longa. Emanuel ligou para o seu arquiteto enquanto dirigia.

— Preciso que você venha ao meu apartamento hoje à noite. Sim, agora. Vamos precisar transformar a ala leste em dois quartos de bebê. Não, não apenas um. Três berços ao todo. E mude a fechadura da suíte de hóspedes. Teremos uma nova moradora amanhã cedo.

Ele desligou o telefone e acelerou. O controle, que ele tanto prezava, estava escorrendo por seus dedos, transformando-se em algo possessivo e sombrio. Ele amava Eduarda. Ele amava Sara. Mas, acima de tudo, ele amava a ideia de que todos eram dele, e apenas dele. E, a partir de amanhã, o seu império não seria mais feito apenas de tinta e negócios, mas de gritos de bebês, silêncios magoados e a eterna tensão entre o veludo e o fogo.