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O Tabuleiro de Emanuel e o Doce Cansaço de Eduarda

O trigésimo dia amanheceu com uma luz dourada e preguiçosa, filtrando-se pelas cortinas de linho da mansão. Eduarda sentia cada músculo de seu corpo como se tivesse corrido uma maratona através de um campo de veludo e espinhos. Estava exausta. O acordo de trinta dias, selado naquela noite em que Maya resgatou o pequeno Cinza, havia exigido dela uma entrega que ultrapassava o físico; fora uma jornada emocional onde ela se permitiu ser a tela, o brinquedo e a rainha de Emanuel, tudo ao mesmo tempo.

Ela se espreguiçou com cuidado, sentindo o atrito do lençol de fios egípcios contra a pele ainda sensível. Ao seu lado, o lugar na cama estava vazio, mas o cheiro de Emanuel — uma mistura de sândalo, tabaco caro e o frescor do banho matinal — ainda pairava no travesseiro. Eduarda sorriu sozinha. Apesar do esgotamento, havia uma plenitude nova em seu peito. Ela havia provado a si mesma, e a ele, que sua doçura não era sinônimo de fraqueza.

— Trinta dias... — sussurrou ela para o quarto vazio. — Eu sobrevivi a você, Emanuel.

Ela se levantou e vestiu um robe de seda branca, caminhando até a varanda. Lá embaixo, no jardim, a cena que encontrou era quase bucólica, se não fosse pela presença imponente e levemente intimidadora de Emanuel. Ele estava sentado em um banco de ferro fundido, com Arthur em seu colo e Maya sentada ao seu lado, enquanto o gatinho Cinza perseguia uma borboleta entre as flores de lavanda. Valentina, sempre um passo à frente em sua maturidade precoce, observava tudo de uma espreguiçadeira, folheando uma revista de arte.

Eduarda desceu as escadas, o coração aquecido. No entanto, conforme se aproximava, percebeu que o tom de voz de Emanuel não era apenas de carinho paternal. Havia um brilho astuto em seus olhos, o mesmo brilho que ele tinha quando estava prestes a fechar um negócio milionário ou quando estava prestes a convencê-la de um de seus caprichos.

— Mas pensem bem, crianças — dizia Emanuel, passando a mão pelos cabelos de Arthur. — O jardim é grande, mas não acham que falta algo mais emocionante? Algo que vocês pudessem montar, talvez... um pônei? Ou quem sabe um playground de dois andares com uma ponte de cordas?

— Um pônei de verdade, papai? — Maya perguntou, os olhos brilhando como duas safiras. — Como os das histórias?

— De verdade, Maya. Com crina longa e uma sela de couro — Emanuel respondeu, lançando um olhar de soslaio para a escada, onde viu Eduarda parada. — Mas, para isso, precisaríamos de um novo "projeto" com a mamãe. Vocês sabem como ela gosta que tudo seja muito bem planejado.

Eduarda sentiu um calafrio que não era de frio. Ele já estava começando. O acordo mal havia expirado e o lobo já estava rondando o cercado, usando os filhotes como isca.

— Emanuel! — exclamou ela, aproximando-se com um sorriso que tentava ser severo, mas que transbordava afeto. — Deixe as crianças em paz. Eles não precisam de pôneis ou castelos de corda. Eles têm tudo o que precisam.

— Bom dia, pequena — disse Emanuel, levantando-se com Arthur ainda nos braços. Ele caminhou até ela e depositou um beijo possessivo em sua testa. — Você dormiu até tarde. O cansaço finalmente te pegou?

— Você sabe muito bem o que me pegou, Emanuel — ela respondeu em um sussurro, sentindo o rosto esquentar sob o olhar atento de Valentina.

— Mamãe, o papai disse que se você concordar com o novo "jogo" dele, eu posso ter um ateliê de pintura só meu no jardim! — Valentina interveio, fechando a revista. — Com tintas importadas e telas de linho. Eu realmente sinto que minha expressão artística está sendo limitada pelo espaço atual.

Eduarda olhou para a enteada, impressionada com a capacidade da menina de seis anos de soar como uma crítica de arte de cinquenta.

— Valentina, querida, seu espaço é maravilhoso. Não dê ouvidos ao seu pai, ele está apenas... sendo o seu pai.

Sara apareceu na varanda superior, usando um biquíni chamativo e uma saída de praia de renda dourada. Ela segurava um copo de suco verde e observava a cena com seu habitual sarcasmo refinado.

— Deixe de ser estraga-prazeres, Eduarda — gritou Sara lá de cima. — Se o Emanuel quer gastar uma fortuna em brinquedos novos só para ter você trancada no quarto por mais um mês, quem somos nós para reclamar? Eu mesma já fiz uma lista de reformas para a ala administrativa. Se você for assinar um novo contrato, avise, porque eu quero comissão pela mediação.

— Não haverá novo contrato, Sara! — Eduarda respondeu, rindo apesar de si mesma.

Emanuel colocou Arthur no chão e fez um sinal para que as crianças fossem brincar mais longe. Ele se aproximou de Eduarda, cercando-a contra o tronco de uma árvore antiga. O cheiro dele a envolveu, e a pressão de seu corpo contra o dela trouxe de volta as memórias das últimas trinta noites.

— Eles querem coisas, Duda — murmurou ele, a voz baixa e sedutora. — E eu quero você. É uma troca justa, não acha?

— Você é impossível — disse ela, encostando as mãos no peito dele. — Eu mal consigo andar sem sentir que vou desmoronar, e você já está planejando a próxima maratona?

— Eu vi como você floresceu nesses trinta dias — Emanuel continuou, ignorando o protesto dela. — Você está mais confiante, mais vibrante. A submissão te fez bem, pequena. E a mim também. Eu nunca estive tão focado, tão... pleno.

— Emanuel, eu amo você, e amei cada segundo do que vivemos. Mas eu preciso de uma trégua. Preciso ser apenas a Eduarda estudante de História da Arte, a Eduarda que toma chá sem ter que se preocupar com o que está usando — ou não usando — por baixo do vestido.

Emanuel suspirou, um som de falsa derrota, mas seus olhos não recuaram.

— Tudo bem. Uma trégua. Mas e o pônei da Maya? E o ateliê da Valentina? Você vai ser a responsável por partir o coração delas?

— Você é um manipulador terrível — ela disse, dando um tapinha de leve no ombro dele. — Use o seu dinheiro para comprar as coisas para eles porque você é o pai deles e os ama, não porque quer me usar como moeda de troca.

— Onde estaria a graça nisso? — ele brincou, puxando-a para um abraço apertado. — O prazer está na conquista, Duda. No tabuleiro. Mas eu aceito a trégua. Por enquanto.

Eles caminharam de volta para a mesa de café da manhã, onde Sara já havia descido e se juntado às crianças. A convivência, embora ainda pontuada pelas farpas de Sara e pela timidez de Eduarda, havia se tornado algo sólido. Sara respeitava o espaço de Eduarda, e Eduarda aprendera a filtrar a vulgaridade de Sara, focando na competência e na lealdade que a loira demonstrava para com Emanuel e a empresa.

— Então, o acordo acabou? — perguntou Sara, servindo-se de uma fatia de mamão. — Posso finalmente ter meu sócio de volta em tempo integral? Porque nesses últimos dez dias, Emanuel, você parecia um adolescente no cio. Suas decisões na administração estavam... digamos, muito focadas em terminar as reuniões cedo para correr para casa.

— Meus negócios nunca estiveram melhor, Sara — Emanuel rebateu, sentando-se e servindo café para Eduarda. — O equilíbrio entre o desejo e o dever é a chave do sucesso.

— O equilíbrio dele é uma balança com o peso todo de um lado — murmurou Eduarda, sentindo o pé de Emanuel roçar sua perna por baixo da mesa.

— Mamãe, olha! — Maya correu até a mesa, segurando o gatinho Cinza, que usava uma pequena coleira de cristais que Sara certamente havia comprado. — O Cinza quer um pônei também. Ele me disse!

Todos na mesa riram, até mesmo Valentina, que tentou esconder o sorriso atrás da revista. Emanuel olhou para Eduarda com um olhar de triunfo.

— Viu? Até o gato está do meu lado.

— O gato é um interesseiro — disse Eduarda, pegando Maya no colo. — Mas eu admito que a casa está feliz.

— Está feliz porque você finalmente cedeu e veio morar aqui — disse Emanuel, o tom tornando-se subitamente sério e carregado de um carinho profundo. — Eu sei que foi difícil para você deixar a casa dos seus pais, Duda. Mas veja o que construímos.

Eduarda olhou ao redor. A mansão, que antes lhe parecia fria e intimidadora, agora tinha as marcas de sua presença. Havia flores frescas em todos os vasos, o cheiro de lavanda e baunilha substituíra o cheiro de couro e metal, e as crianças pareciam mais radiantes do que nunca. Até Valentina, com sua pose de esnobe, agora buscava o colo de Eduarda para ouvir histórias sobre pintores renascentistas.

— Eu estou feliz aqui, Emanuel — confessou ela, colocando a mão sobre a dele. — Só não deixe que a sua necessidade de controle atropele a nossa paz.

— Eu vou tentar — ele prometeu, embora ambos soubessem que a natureza de Emanuel era a de um conquistador. — Mas não espere que eu pare de tentar novos acordos. A negociação é a alma do amor, pequena.

— E a rendição é o tempero — Sara acrescentou, piscando para Eduarda. — Aprenda a cobrar caro, Duda. Se ele quer trinta dias, peça uma viagem para as Maldivas ou um diamante maior. Não se venda por pôneis para as crianças.

— Ela tem razão, mamãe! — Valentina concordou. — Se o papai quer o seu tempo, ele deve investir na sua felicidade também. Eu aceito o ateliê como parte do pagamento, mas você deveria pedir algo para você.

Eduarda riu, sentindo-se cercada por aquela família peculiar e intensa.

— Eu já tenho o que quero — disse ela, olhando para Emanuel. — Tenho paz, tenho meus filhos e tenho um homem que, apesar de ser um lobo, sabe como cuidar da sua caçadora de sonhos.

Emanuel sorriu, satisfeito. Ele sabia que a trégua não duraria para sempre. Ele já estava imaginando o próximo cenário, talvez uma viagem para a neve, onde o frio os obrigaria a ficar colados sob peles e lareiras. Mas, por hoje, ele se contentaria em ver Eduarda relaxada, comendo seu café da manhã em paz.

— Tudo bem — disse Emanuel, levantando-se. — Sem novos acordos por uma semana. Mas amanhã, Maya, nós vamos ver aquele pônei. E Valentina, o arquiteto vem às duas para medir o espaço do ateliê.

As crianças gritaram de alegria. Sara revirou os olhos, mas sorriu. Eduarda sentiu uma onda de gratidão. Emanuel podia ser controlador, podia ser obsessivo e, às vezes, um pouco sombrio em seus desejos, mas seu coração era vasto e sua proteção era o escudo que permitia que ela fosse exatamente quem era.

— Uma semana, Emanuel? — perguntou ela, arqueando uma sobrancelha.

— Sete dias, Duda. Cento e sessenta e oito horas de paz absoluta — ele disse, inclinando-se para sussurrar no ouvido dela. — Mas no centésimo sexagésimo nono hora... eu vou querer o meu pagamento pela paciência.

Eduarda sentiu o arrepio familiar percorrer sua espinha. Ela sabia que a exaustão passaria, que o cansaço se transformaria em saudade e que, em breve, ela estaria pronta para jogar novamente. Porque no jogo de Emanuel, ela nunca perdia; ela apenas se descobria em camadas que nunca imaginara possuir.

— Estarei esperando — ela sussurrou de volta, selando a promessa com um olhar que prometia muito mais do que palavras poderiam dizer.

O sol continuou a subir, iluminando o império de Emanuel — um império feito de tinta, ouro, paixão e a doçura inabalável de uma mulher que aprendera a domar o lobo sem precisar de nada além de sua própria alma. A vida seguia seu curso, caótica, vibrante e infinitamente bela, entre as agulhas do destino e as incertezas do amanhã. Mas ali, naquele jardim, o silêncio era de plena satisfação.