Voltar ao resumo

D

Seda, Algodão e o Império em Expansão

O sol da tarde atravessava as imensas janelas de vidro da mansão de Emanuel, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar. Eduarda estava sentada em uma poltrona de balanço feita de palha natural e madeira clara, um contraste suave com a decoração industrial e luxuosa que dominava o restante da casa. Aos oito meses de gestação, sua barriga era uma curva proeminente e perfeita, que ela acariciava com movimentos lentos e circulares.

Dentro dela, Arthur e Maya travavam sua própria batalha por espaço. Arthur era agitado, um pequeno furacão que parecia herdar a energia inquieta de Emanuel, enquanto Maya era a calma em pessoa, manifestando-se apenas com chutes discretos e elegantes. Eduarda estava maravilhosa; a gravidez lhe trouxera um brilho que suavizava ainda mais seus traços delicados, deixando sua pele com um aspecto aveludado e seus cabelos castanhos mais brilhantes do que nunca.

— Eles estão chutando de novo? — perguntou Emanuel, surgindo na porta do quarto com uma bandeja de frutas cortadas.

Ele havia mudado muito desde que Eduarda se mudara definitivamente para a mansão. O homem rígido e focado apenas nos negócios agora carregava uma expressão de eterna vigilância e ternura. Ele se aproximou e ajoelhou-se aos pés de Eduarda, colocando a mão sobre o ventre dela. Quase instantaneamente, Arthur deu um solavanco que fez a mão de Emanuel se mover.

— Esse garoto vai ser um problema para os meus estúdios — Emanuel riu baixo, a voz vibrando de orgulho. — Já quer comandar tudo antes mesmo de nascer.

— Ele só está animado, Emanuel — Eduarda respondeu com sua voz mansa, sorrindo para o namorado. — Maya, por outro lado, está dormindo. Ela é a minha aliada nessa bagunça.

A convivência na casa havia atingido um equilíbrio frágil, mas funcional. Eduarda ocupava uma ala que ela mesma decorou, transformando o ambiente em um refúgio de cores pastéis, tecidos orgânicos e cheiro de lavanda. Ela fora firme, pela primeira vez na vida, quando o assunto foi o enxoval.

— Emanuel, olhe isso! — A voz de Sara ecoou pelo corredor antes que ela entrasse no quarto, trazendo consigo o perfume forte e caro que sempre a precedia.

Sara entrou segurando dois cabides com roupas minúsculas, mas carregadas de brilho. Eram conjuntos de grife, cheios de correntes douradas de plástico, estampas de oncinha e tecidos sintéticos que pareciam desconfortáveis só de olhar. Valentina, agora com quase um ano e meio, caminhava ao lado da mãe, segurando uma boneca de porcelana como se fosse um cetro.

— Encontrei os looks perfeitos para a saída da maternidade — anunciou Sara, exibindo as peças como se fossem troféus. — Arthur vai parecer um pequeno rockstar e Maya vai ser uma mini diva. O que acham?

Eduarda olhou para as roupas e sentiu um calafrio. Ela já havia passado semanas escolhendo cada peça do enxoval, priorizando o algodão egípcio, o linho e as cores neutras que remetiam à pureza que ela enxergava nos filhos.

— São... interessantes, Sara — disse Eduarda, medindo as palavras com cuidado para não quebrar a paz. — Mas eu já separei as roupas deles. Estão ali na cômoda, se quiser ver.

Sara caminhou até a cômoda de madeira clara e abriu a gaveta superior. Seu rosto se contorceu em uma careta de desdém ao ver os bodies brancos, beges e verde-água, todos sem marcas aparentes ou adornos chamativos.

— Duda, querida, isso aqui parece roupa de hospital público — Sara disparou, pegando um sapatinho de tricô manual com a ponta dos dedos longos e bem feitos. — Onde está o glamour? Onde está o impacto? Eles são filhos do Emanuel, o maior tatuador do mundo, não de um bibliotecário.

— Eu prefiro que eles sejam bebês, Sara — Eduarda respondeu com uma firmeza educada que surpreendeu até Emanuel. — Não quero vestir meus filhos como se fossem mini adultos bregas. Eles precisam de conforto, de tecidos que não agridam a pele. O luxo deles será a simplicidade.

— Brega? — Sara arqueou uma sobrancelha, visivelmente ofendida pela escolha da palavra. — Eu gasto milhares de dólares em moda e você chama isso de brega?

— Para um bebê de um dia de vida? Sim, é um pouco demais — Eduarda continuou, mantendo o sorriso doce. — Mas agradeço a intenção. Se quiser, pode guardar essas peças para quando eles tiverem cinco ou seis anos. Talvez até lá eles desenvolvam o gosto por... correntes.

Emanuel tossiu, tentando disfarçar o riso. Ele adorava ver esse novo lado de Eduarda. Ela não gritava, não perdia a postura, mas não cedia um milímetro em suas convicções maternas.

— Ela tem razão, Sara — interveio Emanuel, levantando-se e colocando a mão no ombro da loira. — Deixe a Eduarda cuidar do estilo dos gêmeos. Você já tem a Valentina para transformar em uma vitrine de grife.

Sara olhou para Valentina, que no momento tentava arrancar a cabeça da boneca de porcelana com um olhar de superioridade fria.

— Bom, pelo menos a Valentina tem presença — murmurou Sara, jogando os cabides sobre a cama de Eduarda. — Mas não venha chorar para mim quando os fotógrafos disserem que seus filhos parecem estar de pijama nas fotos oficiais.

— Eu não me importo com os fotógrafos — disse Eduarda, voltando a balançar sua poltrona. — Eu me importo com o sono deles.

Sara soltou um suspiro dramático e sentou-se na beirada da cama, observando o quarto. Apesar de suas críticas constantes, ela respeitava a organização de Eduarda. A casa, antes um monumento ao ego de Emanuel e à ostentação de Sara, agora tinha cantos que emanavam paz.

— Você está enorme, garota — disse Sara, mudando de assunto com sua agressividade habitual. — Suas costas não doem?

— Doem bastante — confessou Eduarda, grata pela mudança de tom. — Mas o Emanuel tem sido maravilhoso. Ele faz massagens todas as noites.

— É o mínimo que ele pode fazer depois de te colocar nessa situação dupla — Sara debochou, mas olhou para o ventre de Eduarda com uma curiosidade quase terna. — Posso?

Eduarda assentiu. Sara estendeu a mão, as unhas impecáveis tocando a barriga de Eduarda. No mesmo instante, Arthur deu um chute vigoroso, bem onde a mão de Sara estava.

— Ai! — Sara exclamou, recolhendo a mão por reflexo antes de sorrir. — Esse menino é um selvagem. Ele vai dar um trabalho infernal para você, Duda. Já a menina... ela nem se mexeu.

— Maya sabe que não precisa de escândalo para ser notada — comentou Eduarda, olhando para a bebê Valentina, que agora observava a barriga da madrasta com desconfiança.

— Valentina, venha cá — chamou Emanuel, pegando a filha no colo. — Você sabe que aqui dentro tem um irmãozinho e uma irmãzinha, não sabe?

A bebê olhou para a barriga de Eduarda, depois para o pai, e soltou um som que parecia um "não" muito bem articulado, antes de esconder o rosto no pescoço de Emanuel.

— Ela é ciumenta — disse Sara, levantando-se. — Puxou ao pai. Mas não se preocupe, quando esses dois nascerem, eu vou ensinar a Valentina a colocar ordem na casa. Alguém precisa manter o status da família.

— Por enquanto, a única ordem que eu quero é o silêncio para a sesta da tarde — Emanuel declarou, fazendo sinal para que Sara e Valentina saíssem.

Sara revirou os olhos, mas obedeceu. Antes de sair, ela parou na porta e olhou para Eduarda.

— O chá que eu te mandei, de folhas naturais... tome. Ajuda no inchaço das pernas. E não conte para ninguém que eu estou sendo legal, ou eu acabo com a sua reputação de santa.

— Obrigada, Sara — Eduarda riu baixinho. — Eu vou tomar.

Quando o quarto ficou em silêncio novamente, Emanuel sentou-se na beirada da poltrona de Eduarda, puxando-a para um beijo calmo.

— Você foi muito bem com ela — ele sussurrou contra seus lábios. — Eu achei que vocês fossem sair no tapa por causa daqueles bodies de oncinha.

— Eu nunca faria isso, Emanuel. Mas eu não vou deixar que a vulgaridade da Sara defina a infância dos meus filhos. Eu quero que eles cresçam com leveza.

— Eu sei. E é por isso que eu te amo — ele disse, a voz carregada de uma sinceridade que raramente demonstrava no mundo lá fora. — Você trouxe cor para essa casa, mas de um jeito que eu não sabia que existia.

— Eu só trouxe o básico — ela respondeu, aninhando-se no peito dele. — O resto é amor.

Emanuel ficou ali, abraçado à mulher que mudara sua vida, sentindo as batidas de três corações pulsando em uníssono. O império de tatuagens continuava a crescer, os milhões continuavam a entrar, mas nada se comparava à paz daquele quarto, onde o luxo era medido pela suavidade do algodão e pela promessa de uma vida nova que estava a poucos dias de florescer.

— Você acha que eu vou ser um bom pai para três? — Emanuel perguntou, de repente vulnerável.

Eduarda olhou para ele, para o homem poderoso que o mundo temia, mas que ali era apenas um pai ansioso.

— Você já é um bom pai para a Valentina, apesar de mimá-la demais. Com o Arthur e a Maya, você vai aprender que o controle não funciona. Eles vão te ensinar a sentir.

Emanuel sorriu, beijando a testa dela.

— É, talvez eu precise de algumas aulas de História da Arte para entender a beleza do caos que está vindo por aí.

— Eu te ensino — ela prometeu, fechando os olhos enquanto o balanço da poltrona os levava para um estado de serenidade que nenhuma joia ou grife poderia comprar.

Ali, entre agulhas de tricô e planos de futuro, o império de Emanuel encontrava sua verdadeira fundação. Não no aço ou no vidro, mas na pele macia e no amor silencioso de uma mulher que sabia exatamente quem era, e que não precisava de brilhos para iluminar o caminho dos filhos que estavam por vir.