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O Sangue, o Grito e a Terra

O sol ainda não havia despontado no horizonte quando as primeiras contrações reais começaram, transformando a serenidade da fazenda da família de Eduarda em um cenário de tensão absoluta. Localizada no interior, longe do asfalto e dos arranha-céus de vidro onde Emanuel construíra seu império, a propriedade era um refúgio de carvalhos centenários e silêncio — um silêncio que agora era quebrado pelos gemidos baixos de Eduarda.

— Emanuel, por favor, pare de andar de um lado para o outro. Você está abrindo um buraco no assoalho de madeira — pediu Eduarda, ofegante, agarrada ao pilar da varanda enquanto uma onda de dor a atravessava.

— Eu não consigo parar! — Emanuel explodiu, o rosto pálido, contrastando com a tinta escura das tatuagens que subiam pelo seu pescoço. — Isso é loucura, Duda. Uma loucura completa. Estamos a duas horas do hospital mais próximo. Se algo der errado, eu não vou me perdoar. Eu já chamei o helicóptero, ele pode pousar no pasto em vinte minutos.

Eduarda negou com a cabeça, as lágrimas já banhando seu rosto doce.

— Não... eu já disse. Minha avó nasceu aqui, minha mãe nasceu aqui, e meus irmãos também. Dona Rosa já está chegando. Ela é a melhor parteira dessa região. Eu quero sentir a terra, Emanuel. Eu quero que o Arthur e a Maya cheguem ao mundo com paz, não cercados por máquinas frias e luzes de neon.

— Paz? — Emanuel rugiu, aproximando-se dela e segurando suas mãos com uma força que tentava ser gentil, mas transbordava desespero. — Você está carregando gêmeos! Não é um parto simples. É arriscado demais. Se você me ama, se você quer que eu continue são, vamos para a cidade. Agora!

Eduarda soltou um soluço manhoso, aquele som que sempre desarmava Emanuel, mas que agora carregava o peso da exaustão física.

— Você prometeu... você disse que respeitaria minhas escolhas. Por favor, não me force a entrar num carro agora. Eu não aguentaria a viagem. Deixe-me fazer isso do meu jeito. Por favor, Emanuel...

Ele fechou os olhos, os punhos cerrados. O controle, sua ferramenta mais preciosa, estava escorrendo por entre seus dedos. Ele odiava aquele lugar, odiava a falta de tecnologia, mas odiava ainda mais ver o pavor nos olhos da mulher que amava.

— Tudo bem — ele cedeu, a voz rouca. — Mas se eu sentir que algo não está certo, eu te levo à força. Não me teste, Eduarda.

Duas horas depois, a casa estava mergulhada em um caos organizado. Dona Rosa, uma mulher de mãos calejadas e olhar profundo, já estava no quarto. Sara chegara pouco depois, trazendo Valentina no colo e uma expressão de absoluto horror.

— Você só pode estar brincando — disse Sara, olhando para as bacias de água morna e as ervas que Dona Rosa espalhava pelo quarto. — Emanuel, você ficou demente? Isso aqui é a Idade Média. Onde estão os monitores? Onde está a epidural?

— Ela não quer, Sara! — Emanuel gritou da sala, onde tentava, sem sucesso, manter a calma.

— Pois ela é uma tonta e você é um frouxo por deixar! — Sara rebateu, embora, no fundo, estivesse genuinamente preocupada. — Valentina, não olhe para lá. Sua tia Duda decidiu que somos camponeses agora.

O tempo passou a ser medido por gritos. O que começou como uma experiência espiritual e familiar rapidamente se transformou em um pesadelo. Arthur nasceu primeiro, um choro vigoroso que ecoou pelas vigas do teto, mas o clima de celebração durou poucos segundos. Eduarda não teve tempo de segurar o filho; ela empalideceu drasticamente, o corpo tremendo de forma descontrolada.

— Algo está errado — Emanuel disse, invadindo o quarto, ignorando as ordens de Dona Rosa para ficar de fora. — Por que ela está dessa cor? Por que o sangue não para?

— O segundo bebê está atravessado, e a placenta começou a descolar — Dona Rosa disse, a voz firme, mas apressada. — Preciso que você saia, Emanuel. Agora!

— Eu não vou a lugar nenhum! — ele berrou, vendo Eduarda perder a consciência por alguns segundos. — Eduarda! Olhe para mim! Fique acordada!

O quarto tornou-se um campo de batalha. O cheiro de sangue e suor impregnava o ar. Eduarda soltou um grito que não parecia humano, uma súplica de dor que rasgou o coração de Emanuel. Ele avançou para a cama, tentando segurá-la, mas sua presença estava atrapalhando as manobras desesperadas da parteira.

— Emanuel, saia! Você está sufocando ela! — Sara gritou da porta, os olhos arregalados, entregando Valentina para uma das tias de Eduarda.

— Eu vou salvar ela! — Emanuel estava fora de si. O homem racional e prático morrera; em seu lugar, havia um animal encurralado vendo sua companheira morrer. Ele começou a gritar ordens sem sentido, tentando puxar Eduarda para o colo, impedindo que Dona Rosa trabalhasse.

— Chega! — O pai de Eduarda, um homem robusto e de expressão severa, entrou no quarto junto com os dois irmãos mais velhos da moça. — Emanuel, você está enlouquecendo. Deixe a mulher trabalhar!

— Tirem as mãos de mim! — Emanuel lutou, desferindo um soco que atingiu o ombro de um dos cunhados. — Ela está morrendo! Vocês estão deixando ela morrer nesse lugar maldito!

Foi uma cena de violência e desespero. Os três homens tiveram que se atracar com Emanuel. Ele era forte, movido por uma adrenalina frenética, mas a família de Eduarda era numerosa. Eles o arrastaram para fora do quarto enquanto ele chutava e rugia o nome de Eduarda, as veias de seu pescoço saltadas, os olhos vermelhos de puro terror.

— Me soltem! Eu vou matar todos vocês se algo acontecer com ela! — ele gritava, enquanto era levado pelo corredor.

Eles o empurraram para dentro de um quarto de hóspedes no final do corredor e trancaram a porta por fora.

— Fique aí até recuperar a razão! — gritou o pai de Eduarda, encostando as costas na porta para garantir que ele não a arrombasse.

Lá dentro, Emanuel era um furacão. Ele socou a porta até os nós dos seus dedos sangrarem, misturando-se à tinta das suas tatuagens. Ele jogou uma cadeira contra a janela, mas as grades de ferro antigas impediram sua fuga. Ele caiu de joelhos, encostando a testa na madeira da porta, soluçando de uma forma que nunca fizera em toda a sua vida adulta.

— Por favor... por favor, não tire ela de mim — ele implorava ao vazio. — Eu mudo tudo. Eu não peço mais nada. Só deixe ela viver.

Minutos que pareceram séculos se passaram. O silêncio que se seguiu aos gritos de Eduarda foi o som mais aterrorizante que Emanuel já ouvira. Ele imaginou o pior. Imaginou a casa vazia, imaginou criar três crianças sem a doçura dela para equilibrar a sua rigidez.

De repente, um segundo choro, mais agudo e delicado, atravessou as paredes da fazenda.

Emanuel parou de socar a porta. Ele prendeu a respiração.

— Emanuel? — A voz de Sara soou do outro lado da porta, estranhamente mansa.

— Sara? Pelo amor de Deus, me diga... — ele não conseguia terminar a frase.

A chave girou na fechadura. O pai de Eduarda abriu a porta, o rosto suado e exausto, mas com um brilho de alívio nos olhos. Ao lado dele, Sara segurava um embrulho cor-de-rosa, enquanto as lágrimas borravam sua maquiagem impecável.

— Ela está viva, seu idiota — disse Sara, soltando um riso nervoso. — Quase foi para o outro lado, mas a Dona Rosa fez um milagre. A Maya nasceu.

Emanuel passou por eles como um raio, correndo pelo corredor até o quarto principal. O ambiente agora estava calmo, banhado pela luz suave do amanhecer que começava a entrar pela janela. Eduarda estava deitada, pálida como um fantasma, mas com os olhos abertos e fixos nos dois pequenos vultos que descansavam ao seu lado.

Ele caiu de joelhos ao lado da cama, as mãos sangrando sobre o lençol branco.

— Duda... — ele soluçou, escondendo o rosto na curva do pescoço dela. — Nunca mais. Nunca mais me faça passar por isso.

Eduarda moveu a mão fracamente, acariciando os cabelos curtos de Emanuel.

— Eu te disse... que ia dar certo — ela sussurrou, a voz quase sumindo. — Olhe para eles, Emanuel. Eles são lindos.

Emanuel levantou a cabeça. Arthur, com uma pequena mecha de cabelo escuro, e Maya, delicada e serena, dormiam como se nada tivesse acontecido. O contraste entre a violência do parto e a paz dos bebês era quase insuportável para ele.

— Você quase morreu — ele disse, a voz rígida de novo, a proteção voltando a assumir o controle. — Assim que você puder se mexer, vamos para a melhor clínica de recuperação do país. Eu não quero saber de tradições por um bom tempo.

— Deixe ela respirar, Emanuel — Sara disse, aparecendo na porta com Valentina no colo. A loira observou a cena, o casal e os gêmeos, e sentiu uma pontada de algo que não era ciúme, mas uma aceitação profunda. — Ela conseguiu o que queria. Ela é mais forte do que todos nós juntos.

Emanuel olhou para Sara, depois para Eduarda. Ele percebeu que, naquele quarto de fazenda, seu império não valia nada. Suas máquinas, sua fama, seus milhões... tudo era poeira diante da força bruta da vida que Eduarda acabara de trazer ao mundo.

— Eu te amo — ele sussurrou para Eduarda, beijando seus lábios secos. — Mas você está proibida de ter mais filhos em fazendas. Ou em qualquer lugar que não tenha uma UTI de última geração a cinco metros de distância.

Eduarda riu, um som frágil e manhoso que aqueceu o peito de Emanuel.

— Vamos ver, Emanuel... vamos ver.

Sara revirou os olhos e se aproximou, sentando-se na beirada da cama.

— Bom, agora que o drama acabou, eu já liguei para o buffet. Vamos precisar de uma festa de boas-vindas quando voltarmos para a cidade. E Arthur e Maya vão precisar de roupas novas, porque essas que a sua mãe trouxe, Duda, são de um gosto duvidoso.

— Nem comece, Sara — Emanuel e Eduarda disseram em uníssono, e pela primeira vez, houve uma harmonia real no quarto.

Valentina esticou a mão e tocou o pé minúsculo de Maya. A bebê esnobe deu um sorriso de canto de boca, como se aceitasse os novos súditos em seu reino. Emanuel observou sua família — a complexa, barulhenta e desequilibrada família que ele construíra. Ele sabia que os desafios estavam apenas começando, que a convivência entre a timidez de Eduarda e a vulgaridade de Sara ainda causaria faíscas, mas enquanto olhava para os gêmeos, ele sentiu que, pela primeira vez, o controle não era necessário. A vida, em toda a sua imperfeição, era o suficiente.