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Sombras e Caprichos
O sol da tarde filtrava-se pelas persianas do estúdio principal de Emanuel, criando um padrão de listras douradas sobre a pele tatuada de um cliente que acabara de sair. Emanuel limpou as mãos, sentindo o cansaço acumulado nas articulações. A decisão sobre o casamento da prima de Eduarda e a viagem subsequente tinha trazido uma trégua temporária, mas ele sabia que, em sua vida, a calmaria era apenas o prelúdio de uma nova tempestade.
Ele se sentou em sua poltrona de couro, fechando os olhos por um instante, até que o som suave da porta se abrindo o fez despertar. Não era o estalar autoritário dos saltos de Sara; era o passo leve, quase flutuante, de Eduarda.
Ela entrou segurando alguns livros de História da Arte contra o peito, vestindo uma saia longa de algodão e uma blusa de tricô fino que caía levemente por um dos ombros. Seus olhos castanhos brilhavam com uma excitação que Emanuel não via há dias.
— Manu? — ela chamou, a voz doce e carregada daquela manha característica que costumava desarmá-lo em segundos. — Você tem um minutinho para mim?
Emanuel sorriu de canto, estendendo a mão para ela.
— Para você? Sempre, Duda. O que aconteceu? A faculdade está indo bem?
Eduarda se aproximou, sentando-se no braço da poltrona dele e deixando os livros de lado. Ela começou a brincar com o colarinho da camisa de Emanuel, enrolando o tecido nos dedos pequenos.
— Está indo maravilhosa! — ela exclamou, e então hesitou por um segundo, mordendo o lábio inferior. — Na verdade, surgiu uma oportunidade incrível. O meu professor de Iconografia organizou uma visita técnica noturna. É um evento exclusivo para a nossa turma.
Emanuel arqueou uma sobrancelha. Ele conhecia aquele tom. Era o tom de quem estava prestes a pedir algo que sabia ser problemático.
— Uma visita técnica à noite? — ele perguntou, a voz tornando-se um pouco mais séria. — Onde seria isso? No museu? Na galeria nacional?
Eduarda respirou fundo, aninhando-se mais perto do pescoço dele, o cheiro de flores silvestres que emanava dela prechendo os sentidos de Emanuel.
— É no Cemitério da Consolação — ela sussurrou, a voz sumindo um pouco. — Eles têm túmulos que são verdadeiras obras de arte, Manu. Esculturas neoclássicas, simbolismo, anjos de mármore de Carrara... É uma aula prática de arte tumular. Vai ser hoje à noite, às dez horas.
O corpo de Emanuel ficou rígido instantaneamente. Ele se afastou um pouco para olhar diretamente nos olhos dela, a expressão de carinho sendo substituída por uma máscara de incredulidade e autoridade.
— No cemitério? À noite? — Emanuel repetiu, a voz ganhando um tom grave e definitivo. — Absolutamente não, Eduarda.
O brilho nos olhos dela vacilou, sendo substituído por uma sombra de mágoa. Ela fez um biquinho, os lábios tremendo levemente.
— Mas Manu... é para a minha nota. Todos os meus amigos vão. O professor disse que a iluminação artificial vai destacar detalhes que não vemos de dia. É arte, Emanuel!
— É um lugar perigoso e insalubre para você estar a essa hora — ele rebateu, levantando-se da poltrona e começando a andar de um lado para o outro, o estresse do dia voltando com força total. — Eu conheço a cidade, Duda. Eu sei o que acontece nesses lugares à noite. Você é jovem, é distraída e, francamente, é sensível demais para ficar andando entre túmulos no escuro.
— Eu não sou criança! — Eduarda protestou, a voz subindo um tom, embora ainda mantivesse aquela cadência manhosa que parecia um pedido de colo. — Eu vou estar com a turma. O professor vai estar lá. Por que você sempre tenta me trancar em uma redoma?
— Eu não tento te trancar, eu tento te proteger! — Emanuel parou na frente dela, as mãos nos quadris. — Você não vai. E ponto final. Eu me recuso a passar a noite preocupado, imaginando você tropeçando no escuro ou algo pior acontecendo.
Nesse momento, a porta se abriu novamente. Sara entrou, segurando um tablet e usando um conjunto de alfaiataria rosa-choque que gritava poder. Ela parou, observando a cena: Emanuel com o rosto vermelho de irritação e Eduarda com os olhos marejados, sentada como uma boneca abandonada na poltrona.
— Nossa, o clima aqui está maravilhoso — Sara comentou, a voz carregada de sarcasmo. — Deixe-me adivinhar: a princesinha quer ir ao baile e o rei não deixa?
— Não é um baile, Sara! — Eduarda exclamou, as primeiras lágrimas começando a rolar. — É um evento da faculdade. No cemitério.
Sara soltou uma gargalhada genuína, jogando o cabelo loiro para trás.
— No cemitério? — Ela olhou para Eduarda com uma mistura de deboche e uma ponta de admiração pela estranheza da ideia. — Credo, garota. Você já é mórbida o suficiente com esses seus livros de história, agora quer virar gótica? Emanuel tem razão, isso é ridículo. Além do mais, o cheiro de terra úmida destrói qualquer tratamento de cabelo.
— Ninguém pediu a sua opinião, Sara! — Eduarda retrucou, limpando o rosto com as costas das mãos, mas sem conseguir parar o choro. — Você só pensa em luxo e estética. Você não entende o valor histórico e artístico de nada!
Sara deu de ombros, aproximando-se da mesa de Emanuel e deixando o tablet lá.
— Eu entendo de segurança e de não passar a noite em um lugar onde as pessoas são enterradas por diversão. Emanuel, os contratos de licenciamento da marca para a Ásia chegaram. Precisamos assinar. Esqueça essa bobagem de cemitério.
Emanuel suspirou, sentindo-se espremido entre a praticidade fria de Sara e o drama emocional de Eduarda.
— Sara, agora não — ele disse, a voz cansada. — Eduarda, o assunto está encerrado. Você não vai a esse evento. Eu posso contratar um guia particular para te levar lá no sábado à tarde, com segurança, se você faz tanta questão de ver essas estátuas.
Eduarda levantou-se abruptamente. Ela não gritou, mas o modo como seu corpo tremia e a forma como ela o olhava — com uma mistura de carência e uma teimosia silenciosa — era muito mais impactante.
— Você não pode fazer isso — ela soluçou, aproximando-se dele e segurando as lapelas de seu casaco. — Você não é meu pai, Emanuel. Você diz que me ama, mas me trata como se eu fosse um objeto que você guarda na gaveta.
— Duda, não comece com isso — ele avisou, a voz endurecendo.
— Eu vou sim! — Ela bateu o pé levemente, um gesto que seria infantil se não houvesse tanta dor em sua expressão. — Eu vou porque é importante para a minha carreira. E eu vou porque... porque você não manda em mim desse jeito!
Emanuel sentiu uma veia pulsar em sua testa. O estresse de gerir um império, de lidar com a competitividade de Sara e agora com a rebeldia emocional de Eduarda estava drenando suas últimas reservas de paciência.
— Você não vai a lugar nenhum — ele disse, cada palavra saindo como um bloco de gelo. — Se você sair por aquela porta para ir a esse cemitério, não espere que eu vá te buscar quando você ficar com medo ou quando algo der errado.
— Eu não preciso que você me busque! — Eduarda retrucou, embora o tremor em sua voz denunciasse que ela precisava, sim. — Eu vou com os meus amigos. Eles me valorizam. Eles não me acham "frágil" ou "incapaz".
Sara, que assistia a tudo de braços cruzados, soltou um estalido com a língua.
— Que draminha, hein? Emanuel, deixe ela ir. Se ela for assaltada por um fantasma ou tropeçar em uma cova aberta, talvez aprenda a ouvir quem tem mais de dois neurônios funcionando.
— Cala a boca, Sara! — Emanuel explodiu, fazendo as duas mulheres saltarem. — Ninguém vai a lugar nenhum! Eu estou exausto, estou com a cabeça explodindo e não vou tolerar esse comportamento infantil nem essa provocação barata.
Eduarda recuou, os olhos arregalados pela explosão dele. Ela nunca o vira tão irritado. O medo e a mágoa lutaram em seu rosto, mas a teimosia — aquela característica que Emanuel muitas vezes esquecia que ela possuía — venceu.
— Você está sendo um monstro — ela sussurrou, as lágrimas agora correndo livremente. — Um monstro egoísta.
Ela pegou seus livros da poltrona e correu em direção à porta.
— Eduarda! — Emanuel chamou, mas ela já havia saído, o som de seus passos rápidos desaparecendo no corredor.
O silêncio que se seguiu no escritório era denso e desconfortável. Sara soltou um suspiro longo e caminhou até o frigobar, servindo-se de uma água tônica.
— Ela vai acabar indo, você sabe disso, não sabe? — Sara perguntou, o tom agora mais calmo, quase racional. — Ela é mansa, Emanuel, mas é teimosa como uma mula quando coloca algo na cabeça. Especialmente se sentir que você está podando a liberdade dela.
Emanuel desabou na poltrona, cobrindo o rosto com as mãos.
— Eu só quero que ela esteja segura, Sara. Por que é tão difícil para ela entender isso?
Sara caminhou até ele, colocando uma mão em seu ombro. O toque dela era firme, desprovido da suavidade de Eduarda, mas carregado de uma solidariedade que só quem compartilhava as pressões do topo poderia oferecer.
— Porque ela tem vinte anos e vive em um mundo de livros e sonhos — Sara disse, a voz surpreendentemente desprovida de sarcasmo por um momento. — E você... você é um homem que construiu tudo do nada. Você vê perigo em todo lugar porque o mundo foi duro com você. Mas tente controlar demais uma criatura como a Eduarda e você vai acabar quebrando as asas dela. Ou pior, ela vai voar para longe só para provar que pode.
Emanuel olhou para Sara, surpreso com a lucidez da observação.
— Desde quando você se tornou especialista em psicologia?
Sara deu um sorriso de lado, o brilho predatório voltando aos seus olhos.
— Eu não sou especialista em psicologia, querido. Sou especialista em administração. E pessoas são apenas os ativos mais difíceis de gerir. Agora, assine esses papéis. Se ela for para o tal cemitério, mande um dos seus seguranças segui-la de longe, sem que ela perceba. Resolva o problema de forma prática, em vez de ficar gritando como um louco.
Emanuel pegou a caneta, mas sua mente estava longe dos contratos. Ele imaginava Eduarda, pequena e vulnerável, caminhando entre as sombras de um cemitério, movida por um desejo de independência que ele mesmo, em sua superproteção, havia ajudado a inflamar.
— Eu a amo tanto que às vezes sinto que vou sufocá-la — Emanuel admitiu em voz baixa, quase para si mesmo.
— Você já está sufocando — Sara respondeu, voltando para sua postura de mulher de negócios. — E se você não aprender a soltar a corda de vez em quando, vai acabar ficando apenas comigo. E nós dois sabemos que, por mais que eu seja incrível, você precisa daquela doçura irritante dela para não virar uma pedra de gelo completa.
Emanuel assinou os documentos com um gesto brusco. Ele pegou o celular e discou o número de seu chefe de segurança.
— Marcos? Sim, sou eu. Preciso de um carro seguindo a Eduarda. Ela vai para o Cemitério da Consolação. Mantenha distância, não deixe que ela veja vocês. Mas se qualquer pessoa se aproximar a menos de dois metros dela... intervenha.
Ele desligou o aparelho e encarou a janela. A noite estava caindo sobre a cidade, trazendo consigo o frio e as incertezas. Ele sabia que, quando Eduarda voltasse, haveria mais choro, mais manha e, possivelmente, um silêncio punitivo. Mas, por enquanto, o estresse de ser o guardião de duas mulheres tão opostas parecia um fardo pesado demais, mesmo para os seus ombros largos.
Sara aproximou-se e deu um beijo rápido em seu pescoço, o cheiro de seu perfume caro e marcante agindo como um estimulante.
— Pronto, o problema está sob controle — ela disse. — Agora, vamos jantar. Eu reservei aquele restaurante novo nos Jardins. Você precisa de um drinque forte e eu preciso de atenção.
Emanuel levantou-se, sentindo a tensão ainda presente em cada fibra de seu ser. Ele olhou para a porta por onde Eduarda saíra, sentindo uma pontada de culpa misturada com a firme convicção de que estava certo.
— Vamos, Sara — ele disse, a voz sem emoção. — Mas se o meu telefone tocar com qualquer notícia do cemitério, o jantar acaba na hora.
— Justo — Sara sorriu, enganchando o braço no dele.
Enquanto caminhavam para fora do estúdio, Emanuel percebeu que sua vida era um equilíbrio precário entre o desejo de domínio e a necessidade de afeto. E que, entre o cemitério de Eduarda e o luxo de Sara, ele era o único que realmente parecia estar enterrado sob o peso de suas próprias escolhas.