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D

Sussurros na Penumbra

O silêncio na mansão de pedra não era vazio; ele vibrava. Para Eduarda, era como se cada fresta nas vigas de madeira e cada entalhe nas molduras antigas estivessem contando uma história em um idioma que só ela conseguia traduzir. Deitada entre o calor protetor de Emanuel e a respiração pesada e inquieta de Sara, Duda sentiu que o sono a evitava. O relógio de carvalho no corredor bateu três vezes, um som profundo que pareceu ressoar dentro de seus próprios ossos.

Com movimentos de uma leveza quase etérea, ela se desvencilhou do braço de Emanuel. Ele se mexeu, soltando um suspiro cansado, mas não acordou. Sara, mergulhada em um sono defensivo, nem sequer notou a ausência da outra. Eduarda calçou suas pantufas de lã, jogou um xale de tricô sobre os ombros e saiu do quarto, guiada por uma curiosidade que sempre fora sua bússola e, às vezes, sua perdição.

A escadaria rangia sob seus pés, mas o som não a assustava. Para ela, a casa não era hostil; era apenas solitária. Ao chegar ao pé da escada, viu um brilho alaranjado vindo da sala de estar. A lareira ainda estava acesa, e diante dela, sentada em uma poltrona de encosto alto, estava Elena.

A dona da casa não parecia surpresa em vê-la. Ela segurava um livro de capas gastas e uma xícara de porcelana que fumegava levemente.

— A noite é um convite para quem tem a alma inquieta, não é, Eduarda? — disse Elena, a voz suave como o roçar de seda sobre a pedra.

— Eu não queria incomodar — sussurrou Duda, aproximando-se com a timidez que lhe era inerente, mas com os olhos brilhando de interesse. — O silêncio da casa... ele parece ter muito a dizer.

Elena sorriu, um gesto que desta vez pareceu alcançar seus olhos profundos, tornando-os menos sombrios. Ela indicou a poltrona oposta com um aceno de mão.

— Sente-se, querida. Valério já se recolheu, mas eu sempre fico um pouco mais. Gosto de ouvir o que as paredes sussurram quando os vivos calam a boca.

Eduarda sentou-se, aninhando-se no veludo gasto. A luz do fogo dançava no rosto de Elena, revelando rugas que contavam décadas de isolamento e preservação.

— A senhora contou sobre a Noiva de Pedra — começou Eduarda, a voz manhosa e curiosa. — Eu sinto que há mais naquela história do que apenas um susto para viajantes. A arte desta casa... os detalhes nos móveis... tudo parece uma homenagem a algo que foi perdido.

Elena pousou a xícara na mesa de apoio e olhou fixamente para as chamas.

— Você tem olhos de artista, Eduarda. Ou de historiadora. Consegue ver além da superfície. A Noiva de Pedra não é uma maldição, é um lamento. Ela representa a beleza que foi interrompida antes de florescer. Como uma escultura que o mestre abandonou no meio do caminho.

— É melancólico — disse Duda, sentindo uma conexão profunda com o sentimento. — Mas há uma pureza nisso. Às vezes, o que é perfeito não foi feito para durar no nosso mundo barulhento.

— Exatamente — concordou Elena, inclinando-se para a frente. — Seu namorado, o Emanuel... ele é um homem de força, de controle. Ele tenta proteger você e aquela outra moça de tudo, inclusive do que ele não entende. Mas ele não percebe que você não teme a sombra. Você a estuda.

Eduarda baixou o olhar, brincando com as franjas do seu xale.

— Ele se preocupa muito. O mundo dele é feito de linhas permanentes, de tinta sob a pele, de decisões rápidas. Ele acha que eu sou frágil porque eu gosto do que é delicado e antigo. Ele não entende que a delicadeza tem sua própria forma de resistência.

— E a loira? — perguntou Elena, com um tom levemente divertido. — Ela parece ser o oposto de tudo o que este lugar representa.

— Sara é... — Eduarda buscou as palavras, tentando ser justa. — Ela é necessária. Ela é o barulho que mantém o Emanuel acordado quando o silêncio se torna pesado demais. Ela é vulgar, sim, e barulhenta, mas ela é leal à maneira dela. Eu não acho que ela me odeie, ela só não sabe o que fazer com alguém como eu.

As duas mulheres continuaram conversando por quase uma hora. Elena mostrou a Eduarda um relicário de prata que guardava uma mecha de cabelo e um esboço em carvão de um jardim que não existia mais. Elas falaram sobre simbolismo, sobre a dor da perda e sobre como a beleza pode ser encontrada até no que é considerado assustador. Para Eduarda, aquela era a conversa mais agradável que tivera em meses; ali, ela não precisava ser a "namorada tímida" ou a "menina insegura". Ela era apenas uma mente curiosa sendo alimentada.

Enquanto isso, no andar de cima, Emanuel despertou. O lado esquerdo da cama estava frio. Instintivamente, sua mão buscou o corpo de Eduarda, encontrando apenas o lençol vazio. Ele sentou-se abruptamente, o coração disparando. O estresse acumulado dos últimos dias transformou-se em um alerta imediato.

— Duda? — sussurrou ele, a voz rouca.

Olhou para o outro lado. Sara ainda dormia, embora estivesse atravessada na cama, ocupando o espaço que pertencia a ele. Emanuel levantou-se, vestindo apenas a calça jeans, e saiu para o corredor. O frio da casa o atingiu como um tapa, mas ele mal sentiu. Sua mente trabalhava em cenários de crise: ela teria passado mal? Teria saído para o jardim e se perdido na neblina? Ou, pior, os anfitriões estranhos teriam algo a ver com o sumiço dela?

Ele desceu as escadas em silêncio, os músculos das costas tensos, a postura de quem está pronto para o confronto. Ao chegar ao átrio, ouviu o som de vozes vindas da sala. Ele parou na penumbra, observando.

O que viu o deixou paralisado por um momento. Eduarda estava sentada de frente para Elena, com um sorriso suave no rosto, gesticulando enquanto falava sobre alguma técnica de pintura antiga. Havia uma luz nela que ele raramente via quando estavam em meio ao caos urbano ou sob o escrutínio de Sara. Ela parecia em paz.

Emanuel relaxou os ombros, soltando o ar que nem percebera que estava prendendo. No entanto, a irritação logo seguiu o alívio. O estresse de acordar e não encontrá-la fizera seu sangue ferver.

— Eduarda? — a voz dele ecoou pela sala, profunda e autoritária, quebrando a atmosfera íntima do encontro.

Duda deu um pequeno salto na poltrona, virando-se para ele com os olhos arregalados.

— Manu! Você acordou...

Elena levantou os olhos para Emanuel, mantendo a calma imperturbável.

— Seu protetor veio buscá-la, querida — comentou a dona da casa, com um tom que beirava o sarcasmo elegante.

Emanuel caminhou até elas, parando ao lado da poltrona de Duda. Ele colocou a mão no ombro dela, um gesto possessivo e firme.

— O que você está fazendo aqui embaixo sozinha a esta hora, Duda? — perguntou ele, ignorando Elena por um segundo. — Eu acordei e você não estava lá. Sabe o susto que eu levei?

— Eu só não conseguia dormir, Manu — disse ela, a voz voltando àquela cadência manhosa que ela usava para acalmá-lo. — Eu vim caminhar e encontrei a dona Elena. Estávamos tendo uma conversa maravilhosa sobre a casa.

Emanuel olhou para Elena, seus olhos observadores e sérios tentando ler as intenções da mulher.

— Agradeço a companhia que deu à minha namorada, mas já está tarde — disse ele, a rigidez na voz deixando claro que a conversa havia acabado.

— Oh, o tempo voa quando se encontra uma alma afim, senhor Emanuel — respondeu Elena, levantando-se com elegância. — Sua namorada é uma joia rara. Ela vê o mundo de uma forma que a maioria das pessoas esqueceu. Você deveria ouvi-la mais, em vez de apenas guardá-la.

Emanuel sentiu o ferrão da crítica, mas não respondeu. Ele apenas apertou levemente o ombro de Eduarda.

— Vamos, Duda. Volte para o quarto.

Eduarda levantou-se, lançando um olhar de cumplicidade para Elena.

— Obrigada por tudo, Elena. Eu nunca vou esquecer o que me contou sobre o relicário.

— Vá em paz, pequena historiadora — despediu-se a mulher, desaparecendo nas sombras do corredor que levava à cozinha.

Emanuel guiou Eduarda de volta para a escadaria. Assim que estavam fora do alcance dos ouvidos de Elena, ele parou e a virou para si, segurando-a pelos braços.

— Eduarda, você tem noção de como este lugar é estranho? Você não pode simplesmente sair andando por aí no meio da noite com pessoas que mal conhecemos.

— Você está sendo controlador de novo, Manu — sussurrou ela, embora não tentasse se soltar. — Ela é apenas uma mulher solitária que ama a arte. Eu estava segura.

— Você não sabe o que é segurança — rebateu ele, o estresse voltando a transbordar. — Eu passo o dia inteiro tentando garantir que nada aconteça com você ou com a Sara. Quando eu acordo e vejo que você sumiu em uma casa que parece saída de um pesadelo, eu perco o chão.

Eduarda aproximou-se, colando o corpo ao dele, sentindo o calor do seu peito nu contra o rosto.

— Desculpe por te assustar — disse ela, o tom doce e sedutoramente submisso que ela sabia que o desarmava. — Mas foi especial. Eu me senti... vista. Não como a sua namorada, ou como a menina que a Sara provoca, mas como eu mesma.

Emanuel suspirou, enterrando o rosto no cabelo dela, aspirando o cheiro de baunilha que parecia ser a única coisa real naquele lugar bizarro.

— Eu vejo você, Duda. Eu só... eu fico exausto de ter que vigiar tudo o tempo todo.

— Então para de vigiar por um minuto — pediu ela, puxando-o para que voltassem a subir.

Ao entrarem no quarto, Sara estava sentada na cama, esfregando os olhos com as mãos cheias de anéis, o cabelo loiro bagunçado, mas ainda assim mantendo uma aparência marcante.

— Onde vocês dois estavam? — perguntou ela, a voz rouca e carregada de mau humor. — Eu acordei e estava sozinha nesta tumba. Emanuel, se você me deixar sozinha de novo com esses fantasmas, eu juro que peço demissão e levo metade dos seus clientes comigo.

— A Duda resolveu fazer um tour noturno — respondeu Emanuel, jogando-se na cama e puxando as duas para perto dele. — Mas acabou. Ninguém mais sai deste quarto até o sol nascer.

Sara deitou-se de novo, bufando, mas logo se aninhou no flanco direito de Emanuel.

— Eu ouvi vozes lá embaixo — resmungou Sara. — Aquela mulher é louca, Eduarda. Não dê corda para ela.

— Ela não é louca, Sara — respondeu Duda, já fechando os olhos, sentindo o braço de Emanuel envolver sua cintura. — Ela só é... guardiã de muitas coisas.

— Guardiã de mofo, isso sim — retrucou a loira, mas o cansaço logo a venceu.

Emanuel ficou acordado por mais algum tempo, ouvindo a respiração das duas. O estresse de ser o centro daquele triângulo amoroso e profissional era uma carga pesada. Ele amava a competência feroz de Sara e a inteligência que ela trazia para seus estúdios; ela era seu braço direito, a mulher que não tinha medo de sujar as mãos para manter o império funcionando. Mas, ao mesmo tempo, ele sentia que sem a doçura quase mística de Eduarda, ele se tornaria apenas mais um empresário frio e vazio.

Eduarda, mesmo em silêncio, trouxera algo daquela conversa com Elena para a cama. Ela sentia-se mais forte, menos insegura. O relicário de prata, a Noiva de Pedra, a ideia de que a beleza pode ser eterna através da memória... tudo isso a preenchia.

— Manu? — sussurrou ela, quase dormindo.

— Hum?

— Amanhã... quando o carro estiver consertado... podemos ir embora logo? Eu quero ir ao casamento. Não pela festa, mas porque eu quero ver o amor ser celebrado antes que ele vire uma lenda.

Emanuel beijou a têmpora dela.

— Nós vamos, Duda. Eu prometo.

Sara soltou um resmungo ininteligível, chutando o lençol, e Emanuel teve que usar a mão livre para cobri-la novamente. Ele fechou os olhos, esperando que o dia trouxesse a lógica de volta. Mas, nas sombras daquele quarto de pedra, ele soube que nunca mais olharia para Eduarda da mesma forma. Ela não era apenas a menina que precisava de proteção; ela era a única de todos eles que realmente conseguia enxergar no escuro.

E enquanto o sol começava a lutar contra a neblina lá fora, Emanuel finalmente dormiu, sonhando com linhas de tinta que se transformavam em véus de noiva e com duas mulheres que, cada uma à sua maneira, eram as únicas âncoras que o impediam de se perder na própria tempestade.