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Noites de Fogo e Assombro

O asfalto liso das rodovias principais havia ficado para trás há horas, substituído por uma estrada de terra batida que serpenteava entre laranjais e pés de café. O SUV de Emanuel, embora potente, sacolejava ritmicamente, levantando uma nuvem de poeira avermelhada que dourava sob o sol poente do interior. O casamento da prima de Eduarda agora era apenas uma lembrança envolta em fotos de celular e comentários de família; Emanuel finalmente conseguira o que queria: um refúgio.

No banco do passageiro, Sara bufava a cada solavanco mais forte, segurando-se no apoio de mão com unhas impecavelmente esculpidas. Ela usava um conjunto de linho branco que já parecia sofrer com a poeira fina.

— Emanuel, se eu encontrar um carrapato no meu corpo, eu juro que peço o divórcio antes mesmo de casarmos — reclamou ela, a voz carregada daquele sarcasmo defensivo que usava sempre que se sentia fora de seu elemento urbano. — O que aconteceu com a ideia de Mykonos? Onde estão os iates? As festas? Por que estamos indo para um lugar onde o sinal de 5G é um mito grego?

Emanuel apertou o volante, sentindo o estresse acumulado dos últimos meses latejar em suas têmporas. Ele amava Sara, amava a competência dela na administração de seus estúdios e a forma como ela não se intimidava com nada, mas o constante bombardeio de reclamações estava testando seus limites.

— É a casa da minha tia, Sara. Minha família inteira está lá. Eu precisava desse tempo — respondeu ele, a voz grave e cansada. — E Mykonos não vai fugir do mapa. Só tente relaxar por quarenta e oito horas.

No banco de trás, Eduarda era o oposto. Com o rosto colado no vidro, ela observava a paisagem rural com olhos maravilhados. Para ela, o interior não representava falta de luxo, mas uma abundância de significados.

— É tão calmo aqui, Manu — sussurrou ela, a voz doce e manhosa. — O ar tem cheiro de terra e de lenha queimada. Parece que o tempo anda mais devagar.

— O tempo parou, Duda, essa é a diferença — retrucou Sara, revirando os olhos.

Quando o carro finalmente parou diante da grande porteira de madeira da fazenda, uma horda de primos, tios e sobrinhos já se aglomerava. A tia de Emanuel, uma mulher robusta de sorriso largo e mãos calejadas pelo trabalho no campo, foi a primeira a abraçá-lo.

— Meu sobrinho rico voltou! — exclamou ela, apertando Emanuel contra o peito. Logo em seguida, seus olhos curiosos pousaram nas duas mulheres.

Emanuel apresentou Eduarda, que recebeu um abraço caloroso e retribuiu com sua timidez característica, e Sara, que ofereceu apenas a ponta dos dedos e um sorriso treinado, claramente desconfortável com a efusividade da recepção.

A noite caiu rapidamente, trazendo consigo um frescor que o asfalto das metrópoles nunca conheceu. Após um jantar farto servido em uma mesa comprida de madeira, onde o barulho de risadas e talheres preenchia o ambiente, a família começou a se deslocar para o terreiro.

O terreiro era um espaço amplo de terra batida em frente à casa principal, cercado por bancos de madeira e troncos de árvore que serviam de assento. No centro, uma fogueira já começava a estalar, lançando fagulhas para o céu coalhado de estrelas.

— Agora vem a melhor parte — anunciou um dos primos mais velhos de Emanuel, sentando-se com uma caneca de café fumegante. — Hora de contar os causos.

Eduarda sentou-se em um dos troncos, puxando seu xale de tricô para mais perto do corpo. Seus olhos castanhos brilhavam sob a luz das chamas. Ela adorava folclore, adorava a estética do mistério e as narrativas que passavam de geração em geração.

Sara, por outro lado, sentou-se o mais perto possível de Emanuel, tentando equilibrar-se em um banco de madeira que ela claramente considerava instável. Ela olhava para a escuridão além do círculo da fogueira como se esperasse que algo pulasse de trás dos cafezais a qualquer momento.

— Vocês conhecem a história do Velho da Capa Preta que ronda a curva do rio? — começou o tio de Emanuel, a voz baixando para um tom conspiratório.

— Ah, tio, essa é clássica — disse Emanuel, rindo e passando o braço pelos ombros de Sara. Ele sentiu que ela estava rígida como uma estátua.

— Clássica, mas real — insistiu o tio. — Meu pai contava que, em noites de lua minguante, dava para ouvir o arrastar da capa nas folhas secas. Ele não falava, não pedia nada. Só ficava parado na beira da estrada, olhando. E quem olhasse de volta para os olhos dele, que eram dois buracos de sombra, perdia a voz por sete dias.

Eduarda inclinou-se para a frente, fascinada.

— Por que ele perdia a voz? — perguntou ela, a voz quase um sussurro. — Era um pacto ou apenas o choque do sobrenatural?

— Dizem que é porque o Velho rouba as palavras para costurar na capa dele — respondeu o primo, fazendo um gesto dramático.

Sara soltou um riso nervoso, ajeitando o cabelo loiro.

— Que bobagem. É óbvio que é só uma história para assustar criança e fazer elas não saírem de casa à noite. Muito criativo, realmente.

Mas, apesar do tom desdenhoso, Sara apertou a mão de Emanuel com tanta força que ele sentiu os anéis dela cravarem em sua pele.

As histórias continuaram. Falaram da mula sem cabeça que soltava faíscas pelos cascos na encruzilhada, do lobisomem que fora um sétimo filho e que se transformava sob o pé de manga da vizinha, e de luzes misteriosas que dançavam sobre os brejos, atraindo os incautos para o fundo da lama.

A cada novo relato, Eduarda parecia mais vibrante. Ela fazia perguntas, queria saber detalhes sobre a aparência das criaturas e os rituais para se proteger. Para ela, aquilo era pura poesia visual e histórica. Já Sara estava em um estado de alerta deplorável. Qualquer estalo da lenha na fogueira a fazia dar um pulo.

— Emanuel — sussurrou Sara, a voz tremendo levemente —, já chega, não acha? Amanhã temos que acordar cedo para... seja lá o que as pessoas fazem aqui. Vamos para dentro.

Emanuel olhou para o relógio de pulso. Passava das onze. O estresse do dia e da viagem começava a cobrar seu preço em sua coluna e em sua paciência.

— Você tem razão, Sara. Já está tarde — disse ele, levantando-se. — Vamos, Duda?

Eduarda nem sequer desviou o olhar da tia de Emanuel, que estava prestes a começar uma história sobre uma noiva que morrera afogada no poço da fazenda vizinha.

— Ah, não, Manu... só mais essa — pediu Eduarda, com aquela manha irresistível, segurando a mão dele e puxando-o de volta. — A tia Maria disse que essa aconteceu de verdade, na década de cinquenta. Por favor, eu quero ouvir.

— Duda, amanhã ela te conta — insistiu Emanuel, tentando manter o tom firme. — Está ficando frio e eu estou exausto.

— Eu não estou com frio — retrucou Eduarda, a teimosia silenciosa brilhando em seus olhos. — Podem ir vocês dois. Eu fico aqui com a família. Eu adoro isso, Manu. É tão... visceral.

Sara levantou-se abruptamente, as mãos nos quadris, a saia de linho agora visivelmente amassada.

— Você está brincando, não é, Eduarda? Você quer ficar aqui no meio do nada, ouvindo histórias de gente morta e monstros, enquanto o Emanuel está caindo de sono? Deixe de ser egoísta e vamos logo.

Eduarda olhou para Sara com uma calma que raramente demonstrava diante da loira.

— Eu não estou sendo egoísta, Sara. Eu estou aproveitando o momento. Se você está com medo, pode ir. O Manu te leva. Eu fico.

A palavra "medo" atingiu Sara como um tapa. Ela inflou o peito, os olhos azuis faiscando.

— Medo? Eu não tenho medo de historinhas de caipira! Eu só tenho bom senso e gosto por conforto. Emanuel, diga para ela que é hora de dormir. Agora.

Emanuel olhou de uma para a outra. De um lado, Sara, exalando irritação e uma vulnerabilidade que ela tentava esconder sob a máscara de mulher de negócios vulgar e poderosa. Do outro, Eduarda, pequena e aparentemente frágil, mas movida por uma paixão intelectual e emocional que a tornava irredutível.

— Duda, eu não vou deixar você aqui sozinha — disse Emanuel, a voz endurecendo.

— Eu não estou sozinha, Manu! — Eduarda riu, apontando para os dez parentes ao redor da fogueira. — Estou com a sua família. Eles cuidam de mim. Vá descansar. Você trabalhou tanto essa semana, seus olhos estão vermelhos de cansaço. Vá com a Sara.

Emanuel sentiu uma pontada de culpa misturada com irritação. Ele queria que as duas estivessem com ele. Queria o controle da situação. Mas ali, no terreiro, sob o céu imenso, ele percebeu que não podia governar os desejos delas como governava seus estúdios.

— Tudo bem — cedeu Emanuel, suspirando. — Dez minutos, Eduarda. Eu vou levar a Sara para o quarto e volto para te buscar.

— Não precisa voltar, Manu — disse a tia Maria, piscando para ele. — Eu levo a menina para o quarto dela daqui a pouco. Deixe ela aproveitar. Ela é a primeira namorada sua que realmente gosta das nossas coisas.

Sara soltou um som de indignação, mas Emanuel já a estava puxando pelo braço em direção à casa principal.

— Vamos, Sara. Antes que você comece a ver assombração até na sombra das árvores.

— Eu não vejo assombração, Emanuel! — protestou ela enquanto caminhavam. — Só acho que essa garota é perturbada. Quem gosta de ouvir sobre noivas no poço a essa hora?

Emanuel a conduziu até o quarto de hóspedes que havia sido preparado para eles. Era um cômodo simples, com paredes de alvenaria branca, uma cama de ferro antiga e janelas de madeira que davam para o pomar. O cheiro de lavanda e mofo leve era onipresente.

Assim que entraram, Sara trancou a porta e começou a se despir com uma pressa nervosa.

— Emanuel, verifique embaixo da cama — ordenou ela, jogando o vestido de linho sobre uma cadeira.

— Sara, por favor...

— Verifique! — exclamou ela, ficando apenas de lingerie rendada, o corpo siliconado e escultural contrastando violentamente com a rusticidade do quarto.

Emanuel, para evitar uma discussão maior, ajoelhou-se e olhou sob a cama.

— Nada, Sara. Apenas poeira e talvez um chinelo velho.

Ela relaxou visivelmente, mas ainda assim correu para debaixo das cobertas pesadas, puxando o edredom até o queixo.

— Aquela garota é louca — repetiu ela. — Ela vai ter pesadelos e vai vir chorando para o nosso quarto no meio da noite, você vai ver.

Emanuel sentou-se na beira da cama, tirando as botas. Ele olhou para a janela. Através das frestas da madeira, ele ainda podia ver o brilho alaranjado da fogueira lá fora e ouvir o murmúrio baixo das vozes. Ele imaginou Eduarda lá, com o rosto iluminado pelas chamas, absorvendo cada palavra sombria com uma fome que ele ainda não compreendia totalmente.

— Ela não vai ter pesadelos, Sara — disse Emanuel em voz baixa. — A Duda não tem medo do que está morto. Ela tem medo do que está vivo e pode machucá-la.

Sara não respondeu. Ela já estava fechando os olhos, tentando se convencer de que os sons da floresta lá fora eram apenas o vento, e não o arrastar de uma capa preta.

No terreiro, o clima havia mudado. As histórias tornaram-se mais curtas, os silêncios mais longos. Eduarda estava fascinada.

— E dizem — continuou a tia Maria, olhando fixamente para Eduarda — que nesta mesma fazenda, há muitos anos, uma escrava que era curandeira deixou um feitiço no tronco daquela gameleira ali perto do rio. Quem amarrar uma fita branca lá e fizer um pedido de amor verdadeiro, nunca será abandonado. Mas o preço é alto.

— Qual o preço? — perguntou Eduarda, o coração batendo mais rápido.

— Você nunca mais terá paz — respondeu a tia, com um sorriso enigmático. — Pois o amor verdadeiro é uma tempestade, não um lago calmo.

Eduarda sorriu. Ela sabia bem o que era aquela tempestade. Ela vivia nela todos os dias, dividindo o homem que amava com uma mulher que era seu oposto absoluto, lutando contra sua própria insegurança e buscando seu espaço em um império de tinta e poder.

Cerca de meia hora depois, a fogueira começou a minguar. Os parentes foram se despedindo, bocejando e seguindo para suas respectivas acomodações. Eduarda permaneceu por último, observando as brasas moribundas.

Emanuel apareceu na varanda da casa, vestindo apenas uma camiseta e calça de moletom. Ele caminhou silenciosamente pelo terreiro até parar atrás de Eduarda, colocando as mãos em seus ombros.

— Agora chega, historiadora — disse ele, a voz suave, mas definitiva. — Até as assombrações já foram dormir.

Eduarda inclinou a cabeça para trás, encostando-a no abdômen dele.

— Foi maravilhoso, Manu. Obrigada por me trazer.

— Você não ficou com medo? — perguntou ele, acariciando o pescoço dela. — A Sara está lá em cima trancada e quase tendo um ataque de nervos.

Eduarda riu, um som cristalino que pareceu flutuar na noite.

— Não. Eu me senti em casa. Essas histórias... elas dão sentido às coisas que não podemos explicar. É como as suas tatuagens, Manu. Elas marcam a pele para que a alma não esqueça quem somos.

Emanuel a puxou para cima, fazendo-a levantar-se. Ele a abraçou com força, sentindo a delicadeza do corpo dela contra o seu. O estresse que o consumia parecia ter encontrado um ponto de dissipação ali, naquele contato.

— Você é um mistério para mim, Duda — confessou ele. — Às vezes acho que você é a mais frágil de nós três, e em momentos como este, percebo que você é a única que não tem medo da escuridão.

— Eu tenho você para me guiar no escuro, não tenho? — murmurou ela, abraçando-o pela cintura.

— Sempre.

Eles caminharam de volta para a casa sob o olhar silencioso das estrelas. Ao entrarem no quarto, encontraram Sara dormindo pesadamente, um braço jogado sobre o travesseiro de Emanuel. Eduarda deitou-se do outro lado, aninhando-se no espaço que sobrava.

Emanuel deitou-se no meio, servindo mais uma vez de ponte entre a luz ofuscante e barulhenta de Sara e as sombras profundas e poéticas de Eduarda. Antes de fechar os olhos, ele pensou na história da gameleira e no pedido de amor. Ele percebeu que, de certa forma, ele já vivia o preço daquele feitiço. Ele não tinha paz, sua vida era uma tempestade constante entre duas forças da natureza, mas enquanto sentia o calor das duas ao seu lado, ele soube que não escolheria a calmaria por nada neste mundo.

Lá fora, o vento soprou entre os cafezais, e se alguém estivesse prestando atenção, poderia jurar ter ouvido o som de uma capa se arrastando nas folhas secas, guardando as palavras de uma noite que o tempo, naquela fazenda, jamais ousaria esquecer.