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O Alvorecer dos Segredos
O orvalho da madrugada ainda pesava sobre as folhas das laranjeiras, transformando a fazenda em um cenário prateado e silencioso. O relógio de parede na sala principal badalou suavemente cinco vezes, um som que se perdeu nos corredores largos da casa colonial. No quarto de hóspedes, a penumbra era quebrada apenas pelo ritmo calmo da respiração de Emanuel e pelos suspiros leves de Sara, que dormia com o rosto enterrado no travesseiro, alheia ao mundo.
Eduarda, porém, estava desperta. Ela se sentou na beira da cama com a cautela de quem carrega um cristal precioso, observando Emanuel. Ele parecia mais jovem quando dormia; as linhas de expressão marcadas pelo estresse dos estúdios de tatuagem e pelas responsabilidades financeiras haviam se suavizado. Ela sentiu uma vontade imensa de acariciar o rosto dele, mas conteve-se. Tinha um compromisso.
Com movimentos de uma gata, ela vestiu um vestido de algodão leve e um casaco de lã, calçando suas botas de cano curto. Ao sair do quarto, o ranger da madeira sob seus pés pareceu um trovão em seus ouvidos, mas ninguém acordou.
Na cozinha, o cheiro de café fresco já flutuava no ar. A tia Maria e a mãe de Emanuel, Dona Glória — uma mulher de olhos vivos e sorriso que Emanuel herdara, embora ele o usasse com menos frequência —, já estavam de pé, vestindo xales pesados contra o frio da manhã.
— Pronta, minha filha? — sussurrou Dona Glória, colocando uma mão carinhosa no ombro de Eduarda. — O caminho é um pouco longo, mas as águas do ribeirão são mais bonitas quando o sol ainda não as tocou totalmente.
— Estou pronta — respondeu Eduarda, a voz carregada de uma antecipação mística. — Eu sonhei com o que a tia Maria contou ontem. Sobre o lugar onde a mulher se entregou ao rio por amor.
— Não foi apenas por amor, Duda — corrigiu Maria, ajeitando o lenço na cabeça. — Foi pela impossibilidade dele. Algumas almas são grandes demais para este mundo pequeno. Vamos, antes que o meu sobrinho acorde e resolva que você precisa de um guarda-costas para ver o sol nascer.
As três mulheres saíram pela porta dos fundos, mergulhando na neblina densa que cobria o pasto. Eduarda sentia-se parte de um ritual antigo. Caminhar entre a mãe e a tia do homem que amava, em direção a um lugar sagrado pelo sofrimento e pela memória, dava-lhe uma sensação de pertencimento que a vida na cidade jamais oferecera.
Enquanto caminhavam, Dona Glória falava sobre a infância de Emanuel.
— Ele sempre foi assim, sabe? — dizia ela, enquanto saltavam um pequeno córrego. — Controlador. Quando era pequeno, ele organizava os lápis de cor por tonalidade e ficava bravo se alguém mudasse a ordem. Ele acha que, se mantiver tudo sob seu olhar, nada de ruim acontece. Ele não entende que o amor é como esse rio que vamos ver: você pode tentar represá-lo, mas ele sempre encontra uma fresta para escapar.
— Ele tem medo de me perder — murmurou Eduarda, olhando para as próprias mãos. — E tem medo de que a Sara destrua o que ele construiu.
— Ele ama as duas de formas que o coração dele ainda não aprendeu a explicar — comentou Maria. — A Sara é a terra firme, a estrutura. Você, Duda, é a correnteza. E um homem como o Emanuel precisa de ambas para não secar por dentro.
Após vinte minutos de caminhada, chegaram a uma encosta onde o som de água caindo tornava-se ensurdecedor. O ribeirão despencava em uma pequena queda d'água, formando uma piscina natural cercada por rochas cobertas de musgo e chorões cujos galhos tocavam a superfície.
— É aqui — disse Maria, apontando para uma pedra chata que avançava sobre a água. — Dizem que ela se sentou ali por três dias e três noites, esperando o noivo que fora levado pela guerra. No quarto dia, ela não estava mais lá. Apenas o véu, preso nos galhos desse chorão.
Eduarda aproximou-se da borda, sentindo o spray gelado no rosto. A estética da tragédia a envolvia como um abraço. Ela imaginou a cena, a dor transmutada em natureza. Para ela, aquilo não era assustador; era a prova máxima de que os sentimentos deixam marcas permanentes no mundo, assim como a tinta de Emanuel deixava marcas na pele.
Enquanto isso, de volta à casa, o sol começava a filtrar-se pelas frestas das janelas. Emanuel moveu o braço, buscando o corpo de Eduarda, mas encontrou apenas o vazio frio do lençol. Seus olhos se abriram instantaneamente. O alerta de estresse, sempre presente, disparou como um alarme.
Ele sentou-se na cama, olhando ao redor. Sara ainda dormia, roncando levemente, com um braço caído para fora do colchão.
— Duda? — chamou ele, a voz rouca.
Nenhuma resposta. Ele se levantou, o peito subindo e descendo com uma ansiedade crescente. Verificou o banheiro privativo. Vazio. Saiu para o corredor, o coração batendo contra as costelas.
— Duda! — chamou mais alto, sem se importar em acordar o restante da casa.
Sara despertou com o grito, sentando-se e afastando o cabelo loiro do rosto com um gesto irritado.
— O que foi, Emanuel? Algum fantasma te pegou pelo pé? — perguntou ela, a voz carregada de sarcasmo matinal.
— A Eduarda sumiu, Sara! — exclamou ele, vestindo uma camiseta de qualquer jeito. — Ela não está no quarto. Ela não está em lugar nenhum.
— Ela deve estar na cozinha comendo pão de queijo, Emanuel. Deixe de ser dramático — retrucou Sara, bocejando e esticando os braços, fazendo com que a camisola de seda subisse perigosamente. — Aquela garota é manhosa, mas não é burra. Ela sabe que não deve ir longe.
Emanuel não deu ouvidos. Ele desceu as escadas correndo, encontrando apenas o tio sentado na varanda, fumando um cigarro de palha.
— Tio, você viu a Eduarda? — perguntou Emanuel, a respiração ofegante.
— Vi as três mulheres saindo cedo, meu filho — respondeu o homem calmamente. — Sua mãe, a Maria e a menina. Foram para o lado do ribeirão.
Emanuel sentiu uma mistura de alívio e fúria. Como elas podiam levá-la para longe sem avisá-lo? E logo para o lugar das histórias de assombração?
— Emanuel! Espera! — gritou Sara da sacada, agora vestindo um robe chamativo. — Você não vai me deixar aqui sozinha nesta casa maluca!
— Fique aí, Sara! — gritou ele de volta, já começando a correr em direção à trilha. — Eu vou buscar a Eduarda.
Ele correu pela pastagem, o suor começando a brotar em sua testa apesar do frio matinal. Seu cérebro trabalhava a mil por hora. Ele imaginava Eduarda escorregando nas pedras, ou ficando impressionada demais com as histórias mórbidas de sua tia. Ele precisava tê-la sob seus olhos. Precisava do controle.
Ao se aproximar da queda d'água, ele parou por um segundo para recuperar o fôlego. Viu as três silhuetas perto da margem. Eduarda estava de pé sobre a pedra chata, o vento agitando seu vestido e seus cabelos castanhos. Ela parecia uma parte integrante daquela paisagem melancólica.
— Eduarda! — a voz dele trovejou, sobrepondo-se ao som da cascata.
As três mulheres se viraram. Dona Glória e Maria trocaram um olhar de "eu não disse?", enquanto Eduarda desceu da pedra com um sorriso que vacilou ao ver a expressão no rosto de Emanuel.
Ele caminhou até elas com passos pesados, parando na frente de Eduarda. Suas mãos foram direto para os ombros dela, apertando-os com uma força que beirava o desconforto.
— O que você tem na cabeça? — perguntou ele, a voz baixa e vibrante de raiva contida. — Sair assim, sem me dizer nada? Eu acordei e você não estava lá. Eu pensei que...
— Você pensou o quê, Manu? — interrompeu Eduarda, mantendo o olhar fixo no dele. — Que eu tinha sido levada por uma assombração? Que eu tinha fugido?
— Eu não sabia o que pensar! — exclamou ele, soltando-a e passando as mãos pelo cabelo de forma nervosa. — Este lugar é perigoso, as pedras são lisas. E você... você é distraída, Duda.
— Eu não sou distraída, Emanuel — disse ela, a voz ganhando uma firmeza rara. — Eu estava com a sua mãe. Eu estava segura. Você não pode me trancar num quarto só porque tem medo do que não pode controlar.
Dona Glória deu um passo à frente, colocando-se entre o filho e a namorada.
— Deixe a menina respirar, Emanuel. Nós viemos ver a beleza do lugar. Você está agindo como se ela fosse uma posse, e não uma mulher.
— Eu estou protegendo ela, mãe! — rebateu ele, sentindo-se traído pela própria família. — Vocês sabem como eu me sinto sobre essas coisas.
Nesse momento, Sara apareceu no topo da trilha, ofegante, segurando a barra do robe para não tropeçar.
— Ah, que lindo! — ironizou ela, aproximando-se do grupo. — O clube das mulheres e o seu guarda-costas particular. Emanuel, eu quase quebrei o tornozelo vindo atrás de você. E tudo isso para quê? Para ver um monte de água e mato?
Sara parou ao lado de Emanuel, lançando um olhar desdenhoso para Eduarda.
— Você adora uma cena, não é, Duda? Adora fazer o Manu correr atrás de você como se você fosse uma criança perdida. É muito cansativo, sabia?
Eduarda sentiu a insegurança morder seu peito, mas a conversa com Elena na noite anterior e a manhã com as mulheres da família de Emanuel haviam deixado uma semente de resistência.
— Eu não pedi para ele vir, Sara — respondeu Eduarda calmamente. — Eu vim ver a história da mulher que morreu de amor. É algo que você provavelmente não entenderia, já que só se importa com o que pode ser comprado ou administrado.
O rosto de Sara ficou vermelho de indignação.
— Como é que é? Escuta aqui, sua mosca morta...
— Chega! — gritou Emanuel, a autoridade de quem comanda estúdios em três continentes silenciando ambas. — Eu não aguento mais. Eu venho para cá em busca de paz e o que eu recebo é uma disputa de egos e desobediência.
Ele olhou para Eduarda com uma mistura de amor e irritação profunda.
— Duda, para o quarto. Agora. Vamos tomar café e arrumar as coisas. Nós vamos embora hoje mesmo.
— Mas Manu, o almoço de domingo... — começou Dona Glória.
— Não tem almoço, mãe. Eu não consigo ficar aqui com elas se comportando assim. Eu vou enlouquecer.
Eduarda baixou a cabeça, a manha voltando a transparecer em seus ombros caídos, mas ela não protestou. Sara deu um sorriso vitorioso, embora estivesse secretamente irritada por perder o banquete que a tia de Emanuel prometera.
A caminhada de volta foi feita em um silêncio tenso. Emanuel ia na frente, com passos rápidos. Sara vinha logo atrás, reclamando baixinho da poeira em suas sandálias de grife. Eduarda vinha por último, acompanhada pelas duas senhoras que trocavam olhares de lamentação.
Ao chegarem à casa, Emanuel foi direto para o quarto. Ele começou a jogar as roupas nas malas com uma eficiência brutal. O estresse acumulado parecia ter encontrado um ponto de ebulição.
Eduarda entrou no quarto e fechou a porta. Ela se aproximou dele devagar.
— Manu... desculpa. Eu não queria te estressar. Eu só queria ver o rio.
Emanuel parou com uma pilha de camisetas na mão. Ele olhou para ela e viu os olhos úmidos, a expressão doce que sempre o desarmava. Ele soltou as roupas e a puxou para um abraço apertado, enterrando o rosto no pescoço dela.
— Eu fico louco, Duda — sussurrou ele. — Eu sinto que, se eu fechar os olhos por um segundo, o meu mundo desmorona. A Sara me pressiona com os números, com o controle, com as exigências dela... e você... você é tão delicada que eu sinto que qualquer vento pode te levar.
— Eu não sou tão delicada assim — murmurou ela, retribuindo o abraço. — Eu sobrevivi à trilha, não sobrevivi?
Ele soltou um riso seco.
— Sobreviveu. Mas você não entende. Eu amo as duas, mas de jeitos que me rasgam ao meio. Eu queria que este fim de semana fosse perfeito.
— Nada é perfeito, Manu — disse Eduarda. — Nem as tatuagens que você faz. Elas têm a textura da pele, elas mudam com o tempo. Por que o nosso relacionamento tem que ser diferente?
Ele a afastou um pouco, olhando-a nos olhos.
— Porque eu sou o Emanuel. E eu não aceito nada menos do que o controle absoluto sobre o que é meu.
A porta se abriu subitamente, e Sara entrou, já com seu óculos de sol de marca na cabeça e uma bolsa de couro legítimo no braço.
— O carro já está pronto? — perguntou ela, ignorando o momento íntimo entre os dois. — Eu já liguei para o meu assistente em São Paulo. Temos uma reunião amanhã cedo sobre a expansão de Londres e eu não pretendo chegar lá com cheiro de esterco de vaca.
Emanuel suspirou, a tensão voltando aos seus ombros.
— Está pronto, Sara. Vamos.
Enquanto se despediam da família, Dona Glória puxou Emanuel de lado por um momento.
— Meu filho, preste atenção no que vou te dizer. Você está tentando segurar duas rédeas com uma mão só. Uma hora, os cavalos vão correr para lados opostos e você vai cair. Aprenda a soltar um pouco. A menina Eduarda tem raízes mais profundas do que você imagina, e a Sara... bem, a Sara é um incêndio. Você não controla o fogo, você apenas aprende a não se queimar.
Emanuel não respondeu. Ele apenas beijou a testa da mãe e entrou no carro.
A viagem de volta foi o ápice do desconforto. Sara falava sem parar ao telefone sobre contratos, lucros e estratégias de marketing, sua voz vulgar e autoritária preenchendo o habitáculo do SUV. Eduarda, no banco de trás, colocou seus fones de ouvido e fechou os olhos, perdendo-se novamente nas histórias de noivas e rios, sentindo que, embora estivesse voltando para a selva de pedra, uma parte dela havia ficado naquela pedra chata sobre o ribeirão.
Emanuel dirigia em silêncio, os olhos fixos na estrada. O estresse não havia passado; ele apenas se transformara em uma vigilância silenciosa. Ele olhava pelo retrovisor e via Eduarda, tão serena e distante. Olhava para o lado e via Sara, tão vibrante e pragmática.
Ele percebeu que a viagem não resolvera nada. O conflito entre o desejo de proteção de Eduarda e a disputa de poder com Sara continuava vivo, pulsando sob a superfície. Ele era o dono de um império, um mestre da agulha e da tinta, mas ali, naquele carro, ele sentia que era apenas um homem tentando manter o equilíbrio em uma corda bamba esticada sobre um abismo de emoções.
Ao entrarem na cidade, as luzes de neon e o barulho do tráfego pareceram sufocantes após a paz da fazenda. Emanuel estacionou em frente ao prédio de luxo onde moravam.
— Finalmente! — exclamou Sara, saindo do carro e esticando as pernas. — Civilização! Emanuel, suba logo. Eu pedi comida japonesa e quero que você revise os termos do contrato de Tóquio antes de dormirmos.
Eduarda saiu devagar, olhando para Emanuel.
— Eu vou para o meu quarto — disse ela, a voz baixa. — Preciso estudar para a prova de História da Arte amanhã.
Emanuel sentiu a puxada emocional. Sara queria o empresário; Eduarda precisava do homem.
— Eu vou subir com a Sara para resolver as coisas da empresa, Duda — disse ele, a voz firme, mas com um brilho de culpa nos olhos. — Mas depois eu passo no seu quarto para te dar boa noite.
Eduarda apenas assentiu, um sorriso triste brincando em seus lábios. Ela sabia como aquilo funcionava. Ela era o refúgio, mas Sara era a urgência.
Enquanto subiam pelo elevador panorâmico, Emanuel observou o reflexo dos três no vidro. Ele no centro, Sara à direita verificando mensagens no celular, e Eduarda à esquerda, olhando para as luzes da cidade. Ele era um homem rico, poderoso e amado, mas naquela noite, o peso da coroa parecia mais insuportável do que nunca.
O estresse de Emanuel não era apenas pelas viagens, pelos casamentos ou pelas assombrações. Era o estresse de saber que, no fundo, ele nunca conseguiria dar a cada uma delas o que elas realmente queriam sem destruir a si mesmo no processo.
E enquanto as portas do elevador se abriam para o luxo do seu apartamento, Emanuel soube que a tempestade de que sua tia falara estava apenas começando. E ele não tinha certeza se teria força suficiente para não se afogar nela.