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D

Erosão

O mês que se seguiu foi uma aula sobre a física da ausência. Emanuel descobriu que um vácuo não é vazio; é uma força, uma pressão negativa que suga tudo para dentro de si. E o vácuo que Eduarda deixara era um buraco negro no centro de seu universo cuidadosamente construído.

O primeiro sintoma foi no estúdio. Seu santuário, o lugar onde o mundo exterior se dissolvia no zumbido da máquina de tatuar e no cheiro de tinta, tornou-se uma câmara de tortura. Ele tentava desenhar, mas todos os rostos tinham os olhos dela. Todas as curvas se tornavam a curva suave de seu quadril. Ele rasgou mais folhas de seu caderno de esboços naquele mês do que em toda a sua carreira. A mão que era uma extensão de sua vontade, capaz de criar universos em miniatura na pele das pessoas, agora tremia com uma frustração impotente.

O segundo sintoma foi o sono. Ele não dormia mais. Deitava-se ao lado de Sara na cama fria e vasta, o corpo dela um continente distante, e encarava o teto, repassando cada momento com Eduarda. O primeiro olhar na cozinha. O confronto na neblina. O beijo na ruína. A marca de caneta em seu pulso. A humilhação nos olhos dela na galeria. E, acima de tudo, a frase final, a porta batendo, o silêncio.

O silêncio. Era o pior sintoma de todos.

Nos primeiros dias, ele seguiu as regras não ditas do orgulho masculino. Esperou. Deu-lhe espaço. Disse a si mesmo que ela voltaria, que a necessidade dela por ele era tão forte quanto a dele por ela. No quarto dia, ele cedeu. Mandou uma mensagem.

*“Precisamos conversar.”*

Os dois tiques azuis do WhatsApp apareceram quase instantaneamente. E então, nada. Horas se transformaram em um dia. O “visualizado” era um insulto digital, uma bofetada silenciosa.

No fim da primeira semana, ele ligou. A chamada foi para a caixa postal após o quarto toque. A voz dela, gravada e impessoal, foi como um soco. Ele não deixou recado.

Na segunda semana, a loucura começou a se instalar. Ele alternava entre fúria e desespero. Mandava mensagens longas e passionais, declarando sua necessidade, prometendo mundos. E depois, mensagens curtas e raivosas, acusando-a de ser infantil. Todas lidas. Nenhuma respondida.

Na terceira semana, ele fez o impensável. Dirigiu até a rua dela numa noite de terça-feira e estacionou do outro lado, observando as luzes do prédio. Sentiu-se um adolescente patético, um stalker. O que ele faria? Subiria? Bateria na porta? E diria o quê? Ele era Emanuel, o homem que comandava impérios. E estava reduzido a vigiar uma janela, esperando por uma sombra que nunca apareceu. Após uma hora, ele foi embora, o nojo de si mesmo uma bile amarga na garganta.

Agora, na quarta semana, a erosão era visível. Havia olheiras escuras sob seus olhos. Ele perdera peso. Seu temperamento, sempre controlado, estava em frangalhos. Ele explodia com assistentes por motivos triviais, tornara-se ríspido em reuniões. A máquina que era o seu império começava a ranger, a sentir a falha em seu engenheiro-chefe.

E Sara via tudo.

Ela observava com a distância clínica de uma cientista estudando o colapso de uma estrela. No início, sentiu um prazer cruel. Era a justa punição pela sua arrogância, pela sua presunção de que poderia ter tudo. Vê-lo sofrer pela ausência da “camponesa” era uma validação de seu próprio valor. Ele a queria, mas precisava da outra. Que sofresse, então.

Mas o prazer logo deu lugar à preocupação. Uma preocupação fria, pragmática. O Emanuel que ela via não era o parceiro de negócios implacável que ela ajudara a construir. Era um homem obcecado, disfuncional. E a disfunção dele era uma ameaça direta ao status quo. Ao império. Ao poder *dela*.

Naquela noite, ela o encontrou no estúdio às três da manhã. A cena era a mesma de todas as outras noites. Ele estava sentado na escuridão, iluminado apenas pela tela do celular, olhando para a foto de Eduarda. A garrafa de uísque na mesa ao seu lado estava pela metade. Outro sintoma. Emanuel não bebia para afogar mágoas; ele bebia para celebrar vitórias.

Sara acendeu a luz. Ele se encolheu, como uma criatura noturna exposta ao sol.

— Já chega, Emanuel — disse ela, a voz sem calor, mas também sem o sarcasmo habitual. Era o tom de uma CEO falando com um executivo problemático.

— O que você quer, Sara?

— Eu quero o meu parceiro de volta. O homem que fecha negócios de sete dígitos antes do café da manhã. Não este fantasma patético que assombra o próprio apartamento.

Ele riu, um som seco e sem alegria.

— Ele não está disponível no momento. Deixe um recado.

Ela caminhou até ele e pegou o celular de sua mão. Ele não resistiu. Ela olhou para a foto de Eduarda, a garota dormindo na poltrona, a expressão de paz inocente.

— É por causa disto? — Ela balançou o celular. — Por causa de uma garotinha que você conheceu por três dias? Você vai deixar tudo o que construímos desmoronar por causa de uma paixonite de adolescente?

— Não a diminua, Sara. Você não sabe de nada.

— Oh, eu sei de tudo! — Ela jogou o celular na mesa. — Eu sei que ela não responde suas mensagens. Eu sei que você tem ligado e ela não atende. Eu sei que você foi até a rua dela como um maníaco. Eu sei que você não dorme, mal come e está bebendo como um universitário com o coração partido. Você não é sutil, Emanuel. Sua obsessão fede. Está impregnando as paredes, os lençóis, os nossos negócios.

Ele se levantou, passando as mãos pelo rosto, cansado.

— E o que você sugere que eu faça?

— Esqueça-a! — ela explodiu, a paciência finalmente se esgotando. — Siga em frente! Ela te deu um fora. Acontece. Encontre outro brinquedo. O mundo está cheio de garotas bonitas e submissas que adorariam aquecer a sua cama.

— Não é outro brinquedo que eu quero. — Ele a encarou, e pela primeira vez, ela viu a profundidade do abismo em seus olhos. Não era paixão. Era algo mais primitivo. Era necessidade. — É ela.

Sara sentiu um calafrio. Aquilo não era normal. A reação dele era desproporcional. Desequilibrada.

— Por quê, Emanuel? — perguntou ela, a voz agora mais baixa, genuinamente curiosa. — O que ela tem de tão especial? Ela é bonita, mas de um jeito comum. Não é brilhante. Não é poderosa. Ela é… nada. Um rascunho.

Ele caminhou até a janela do estúdio, que dava para o mar de luzes de São Paulo.

— Você está errada. Ela não é um rascunho. Ela é a página em branco. — Ele se virou para Sara, e sua expressão era a de um homem confessando uma heresia. — Você e eu, Sara, nós somos o livro já escrito. Cada página está cheia de estratégias, conquistas, cicatrizes e contratos. Somos complexos, somos poderosos, mas somos definidos. Não há mais espaço para escrever.

— E isso é ruim? Nós escrevemos um best-seller, porra!

— Não é ruim. É a nossa vida. É o nosso império. — Ele fez uma pausa, procurando as palavras. — Mas com ela… era diferente. Perto dela, eu não era o Emanuel tatuador, o empresário. Eu era apenas… um homem. E ela não queria nada de mim. Não queria meu dinheiro, meu status. Ela só queria… a minha luz. E a minha sombra. Ela queria tudo. E quando eu estava com ela, o barulho… — ele gesticulou para a cidade lá fora, para a vida deles — …o barulho parava. Era silêncio. Um silêncio que eu não sabia que precisava até ouvi-lo. E agora… agora o único silêncio que eu tenho é o dela. E está me ensurdecendo.

Sara o encarava, paralisada. Pela primeira vez, ela entendeu. Não era sobre sexo. Não era sobre beleza. Era sobre a paz. Eduarda era o ópio de Emanuel. A droga que acalmava o demônio da ambição que o consumia, o mesmo demônio que Sara amava e alimentava.

Ela havia pensado que Eduarda era uma ameaça ao seu status. Um risco para o negócio. Mas a verdade era muito pior. Eduarda não era uma ameaça ao império. Ela havia se tornado a condição para a existência do imperador.

Sem a sua dose de paz, de submissão, de adoração pura, o imperador estava se desintegrando.

— Então, o que você vai fazer? — perguntou Sara, a mente já trabalhando, recalculando todas as variáveis com esta nova e terrível informação.

— Eu não sei. — Ele admitiu a derrota, a voz um sussurro. — Eu não sei como alcançá-la. Ela construiu um muro.

— Muros podem ser derrubados. Ou contornados. — A voz de Sara era fria e prática novamente. Ela estava de volta ao modo de resolução de problemas. O problema não era mais a existência de Eduarda; era a ausência dela.

Ele a olhou, surpreso pela mudança de tom.

— O que você quer dizer?

Sara deu um sorriso que não alcançou os olhos. Um sorriso que era pura estratégia.

— Eu quero dizer, Emanuel, que o nosso acordo de monarquia dual foi um fracasso. Não porque a ideia era ruim, mas porque você executou o plano como um amador. Você a levou para o seu mundo, mas tentou mantê-la nas regras do meu. Um erro de principiante.

Ela caminhou até a mesa, pegou a garrafa de uísque e serviu um dedo em um copo limpo. Entregou a ele.

— Você não pode levá-la a uma galeria e apresentá-la como “amiga”. Isso a insulta. Você não pode escondê-la. Isso a diminui. Você está tentando encaixar um círculo num quadrado.

— Então qual é a solução, ó grande estrategista? — ele perguntou, o sarcasmo tingido de desespero.

Sara tomou um gole do próprio copo, o líquido âmbar brilhando sob a luz.

— A solução é criar um terceiro espaço. Um mundo que não seja nem o meu, nem o dela, mas um que seja construído para ela, em torno dela. Um lugar onde ela possa ser a rainha, sem ameaçar o meu trono principal. Você não a traz para o meu território. Você cria um território para ela.

Emanuel a encarava, a mente tentando acompanhar o raciocínio dela.

— Você está dizendo… para eu dar a ela o que ela quer? A luz?

— Estou dizendo para você dar a ela uma lâmpada, não o sol inteiro. — Sara se aproximou, a voz baixando para um tom conspiratório. — Pense comigo. Qual é a paixão dela? A fraqueza dela? Arte. História da arte.

— E?

— E você é um mecenas. Você tem dinheiro, contatos. E se… em vez de ligar para ela e implorar por um encontro, você aparecesse com uma oferta que ela não pudesse recusar? Algo que falasse a língua dela. Algo que a colocasse em um pedestal, mas um pedestal que você construiu e controla.

A mente de Emanuel começou a funcionar, as engrenagens enferrujadas voltando a girar. Uma ideia, um plano, começou a se formar nas brumas de sua obsessão.

— Uma bolsa de estudos? Um estágio em um museu na Europa?

— Exatamente! — O sorriso de Sara se alargou. Ela estava animada, como se estivesse fechando um negócio hostil. — Você não aparece como o amante rejeitado. Você aparece como o benfeitor. O homem poderoso que reconheceu o talento dela e quer investir em seu futuro. Você a eleva. Você a coloca em uma posição de gratidão. Você se torna o arquiteto dos sonhos dela. E um homem que realiza os seus sonhos… a esse homem, ela não pode dizer não.

Ele a olhou, uma mistura de admiração e repulsa. A mente dela era uma arma letal. Ela estava lhe dando a chave para a jaula de Eduarda, não por bondade, mas por autopreservação. Se Emanuel precisava de sua droga para funcionar, então ela, Sara, se certificaria de que ele a tivesse, mas de uma forma que ela pudesse controlar o fornecedor e a dosagem.

— E você? — perguntou ele. — Você estaria bem com isso? Eu, financiando a vida dela, colocando-a em um pedestal?

Sara terminou seu uísque em um gole.

— Eu estaria bem com qualquer coisa que te traga de volta da beira do abismo, Emanuel. Eu preciso de você funcional. O império precisa de você funcional. E se o preço da sua sanidade é um estágio de arte para a sua namoradinha, é um preço que estou disposta a pagar. — Ela colocou o copo na mesa com um baque seco. — É um investimento. Na nossa estabilidade.

Ela se virou para sair, mas parou na porta.

— Apenas lembre-se, Emanuel. Quando você a tiver de volta, quando ela estiver comendo na sua mão, grata e dócil, lembre-se de quem te deu a colher. Lembre-se de que a corrente que a prende a você, fui eu que ajudei a forjar.

Ela saiu, deixando-o sozinho com o plano diabólico e brilhante.

Emanuel olhou para o copo de uísque em sua mão. Ele sentiu uma onda de poder retornar, a adrenalina de um plano tomando forma, de uma estratégia de reconquista. Era manipulador. Era perverso. Era perfeito.

Ele não a forçaria. Ele a seduziria com seus próprios sonhos. Ele a compraria com a moeda mais valiosa de todas: a realização pessoal. Ela não seria sua amante secreta; seria sua protegida. Sua criação.

Ele pegou o celular, não para ligar para ela, mas para um de seus contatos em Florença, o diretor de um pequeno e prestigiado instituto de restauração de arte.

O silêncio de Eduarda havia sido uma arma poderosa. Mas ele estava prestes a contra-atacar com uma arma ainda maior: a ambição dela, que ela mesma talvez nem soubesse que tinha.

Ele sorriu, o primeiro sorriso genuíno em um mês. Um sorriso sombrio, predatório.

A erosão havia parado. A reconstrução estava prestes a começar. E ele construiria um castelo tão belo para sua princesa que ela nunca perceberia que as paredes eram, na verdade, as grades de uma jaula dourada. A guerra não tinha acabado. Apenas mudara de tática. E agora, com a sua rainha de gelo como sua improvável general, ele se sentia, mais uma vez, invencível.