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Sombras na Neblina e o Peso da Posse
A madrugada na casa de campo tinha um silêncio denso, interrompido apenas pelo estalar ocasional da madeira antiga e pelo som da chuva que agora diminuía, transformando-se em uma garoa fina e persistente. No quarto de hóspedes principal, Emanuel estava deitado, mas o sono era um luxo que sua mente agitada não permitia. Ao seu lado, Sara dormia profundamente, um braço jogado por cima do peito dele, a respiração pesada e rítmica de quem não tinha uma preocupação no mundo. O perfume caro dela, uma fragrância floral intensa, impregnava os lençóis, mas Emanuel sentia que o ar no quarto estava rarefeito.
Ele desvencilhou-se de Sara com cuidado cirúrgico. Ela murmurou algo ininteligível, virando-se para o outro lado, os cabelos loiros espalhados pelo travesseiro como fios de ouro sob a luz fraca da lua que filtrava pelas cortinas. Emanuel sentou-se na beira da cama, esfregando o rosto. Ele era um homem de controle, de lógica, de planos traçados com a precisão de suas agulhas de tatuagem. Mas ali, naquela casa estranha, ele se sentia descarrilado. A imagem de Eduarda — a suavidade de sua pele, o brilho tímido em seus olhos — agia como um ímã, puxando-o para longe da estabilidade que Sara representava.
Um som baixo vindo do corredor chamou sua atenção. Eram sussurros excitados e o ranger de tábuas do assoalho. Emanuel, movido por um instinto protetor que beirava a possessividade, levantou-se e caminhou até a porta, abrindo-a apenas uma fresta.
No corredor mal iluminado, ele viu três vultos. Eram as primas de Eduarda, jovens e cheias de uma energia rebelde, paradas à porta do quarto dela.
— Duda, acorda! — uma delas sussurrou, batendo levemente na madeira. — A neblina está perfeita. É hoje que a gente vê a Noiva.
— Anda, deixa de ser medrosa — disse a outra, rindo baixo. — Segunda-feira você se preocupa com a faculdade. Agora é hora de caçar fantasma.
A porta de Eduarda se abriu devagar. Ela apareceu vestindo um casaco de lã comprido sobre o pijama, os cabelos castanhos presos em um coque frouxo e desajeitado que a deixava ainda mais vulnerável aos olhos de Emanuel.
— Meninas, está muito frio — Eduarda murmurou, abraçando o próprio corpo. — E se meus pais acordarem? Ou os convidados?
— Eles estão apagados, Duda. O tal do Emanuel e a Barbie loira não vão sair daquele quarto tão cedo. Vamos logo!
Emanuel sentiu uma pontada de irritação ao ser mencionado, mas o que realmente o incomodou foi ver Eduarda cedendo, deixando-se levar pelas outras em direção às escadas. Onde elas pensavam que iam àquela hora? A estrada era perigosa, a visibilidade era nula e a propriedade era vasta.
Sem pensar duas vezes, ele pegou sua jaqueta de couro preta e calçou os sapatos, saindo do quarto em silêncio absoluto. Ele não acordaria Sara; ela odiaria a lama, o frio e, acima de tudo, a ideia de que ele estava seguindo a "garota da arte".
Ele as seguiu à distância, mantendo-se nas sombras da varanda enquanto as quatro garotas desciam os degraus e sumiam em direção ao pomar, onde a neblina sentava-se pesada sobre o solo úmido. O mundo lá fora era um borrão cinzento. Emanuel sentia o estresse subir pela sua espinha. Ele detestava situações que não podia monitorar. Eduarda era pequena, frágil demais para estar vagando por aí em uma noite como aquela.
— O que você pensa que está fazendo, garota? — ele murmurou para si mesmo, os dentes cerrados enquanto saltava da varanda e começava a trilhar o caminho pela grama molhada.
Ele as mantinha no campo de visão graças às lanternas de celular que elas balançavam. Elas seguiam em direção a uma velha construção de pedra, uma espécie de capela abandonada ou ruína de moinho que ficava no limite da propriedade, onde o folclore local dizia que uma noiva esperava por um noivo que nunca voltou da guerra.
A neblina se intensificou, tornando-se uma cortina branca que engolia as árvores. Emanuel acelerou o passo, o coração batendo com uma força incomum. Ele não estava com medo de fantasmas; ele estava com raiva da negligência de Eduarda consigo mesma.
À frente, ele ouviu um grito abafado, seguido de risadas nervosas.
— Ali! Eu vi um vulto branco! — exclamou uma das primas.
— É só a neblina, parem com isso — a voz de Eduarda soou trêmula, carregada de uma ansiedade que fez o estômago de Emanuel revirar.
Ele decidiu intervir quando viu Eduarda tropeçar em uma raiz exposta, quase caindo no chão lamacento. Antes que ela pudesse se recuperar, ele emergiu da névoa como uma sombra imponente.
— Já chega dessa brincadeira — a voz de Emanuel cortou o ar frio como uma lâmina.
As garotas deram um pulo, soltando gritos de susto. As lanternas focaram nele, iluminando seu rosto severo e os traços endurecidos pela irritação. Eduarda ficou estática, os olhos arregalados, a respiração saindo em pequenas nuvens de vapor.
— O que... o que o senhor está fazendo aqui? — Eduarda perguntou, a voz falhando.
— Eu que pergunto — Emanuel deu um passo à frente, ignorando as primas dela, que recuaram um pouco diante da presença intimidadora do homem. — É madrugada, está frio e vocês estão correndo pelo mato atrás de lendas urbanas. Você tem noção do perigo, Eduarda?
— Nós só estávamos nos divertindo — uma das primas tentou intervir, mas Emanuel lançou-lhe um olhar tão gélido que ela se calou imediatamente.
— Voltem para casa. Agora — ordenou ele, o tom de voz não aceitando contestações. — Eu levo a Eduarda.
As primas se entreolharam, confusas e um pouco assustadas com a autoridade daquele estranho rico e tatuado. Elas murmuraram algo sobre "esperar na varanda" e saíram apressadas, deixando os dois sozinhos sob o manto da neblina.
Eduarda tentou segui-las, mas Emanuel segurou seu braço. O toque não foi bruto, mas foi firme, carregado de uma eletricidade que a fez perder o fôlego.
— Eu disse que eu levo você — ele repetiu, a voz agora mais baixa, mais rouca.
— Você não pode falar assim com elas — Eduarda disse, tentando recuperar sua dignidade, embora estivesse tremendo de frio. — E não deveria estar aqui. A Sara...
— A Sara está dormindo — ele a interrompeu, puxando-a para mais perto, forçando-a a olhá-lo. — E eu não estou nem um pouco preocupado com o que ela pensa agora. Eu estou preocupado com você. Por que é tão teimosa? Você parece uma criança que precisa de supervisão constante.
Eduarda sentiu uma mistura de humilhação e uma estranha proteção. Ela se apoiou nele inconscientemente, buscando o calor que emanava de seu corpo robusto.
— Eu não sou uma criança — ela sussurrou, a voz manhosa, os olhos cheios de uma emoção intuitiva que ele não conseguia decifrar. — Eu só queria ver... se era verdade. As histórias.
— Histórias de fantasmas não vão te dar o que você precisa, Eduarda — Emanuel disse, sua mão subindo do braço dela para a bochecha fria, acariciando a pele macia com o polegar. — O que você procura na escuridão, eu posso te dar na luz.
A intensidade do olhar dele era quase insuportável. Eduarda sentia-se pequena diante dele, uma criatura de vidro sendo manuseada por um homem acostumado a lidar com aço e tinta.
— Por que você me olha assim? — ela perguntou, a voz quase inaudível. — Você tem tudo. Tem sucesso, tem dinheiro... tem ela. Ela é linda, é inteligente, ela cuida de tudo para você.
Emanuel sentiu a verdade nas palavras dela. Sara era, de fato, o pilar de sua vida profissional. Ela era a mulher que não se intimidava com os contratos de milhões, que organizava sua agenda e que o desafiava na cama com uma vulgaridade sofisticada que ele sempre apreciou. Ele a amava, de um jeito prático e carnal. Mas Eduarda... Eduarda era o silêncio que ele nunca teve. Ela era a arte que ele esqueceu de pintar.
— Sara é necessária — Emanuel admitiu, a voz soando como uma confissão sombria. — Ela é a engrenagem que faz o meu mundo girar. Eu não vou deixá-la.
Eduarda baixou o olhar, uma pontada de tristeza atingindo seu coração sensível.
— Então me deixe ir.
— Não — ele segurou o queixo dela, forçando-a a olhar para ele novamente. — Você não entendeu. Eu não vou deixar a Sara, mas eu também não vou deixar você ir. Você despertou algo em mim que eu achei que tinha morrido há anos, Eduarda. Essa sua fragilidade... esse jeito de olhar para o mundo como se tudo fosse um quadro... eu quero isso. Eu quero você.
— Isso é errado — ela murmurou, embora seu corpo estivesse se inclinando para o dele, atraído pela força gravitacional de sua presença.
— O que é certo ou errado não se aplica aqui — Emanuel disse, diminuindo a distância entre seus rostos. — Eu sou um homem que consegue o que quer, lembra? E agora, eu quero proteger você. Quero que você se apoie em mim quando o mundo for pesado demais para os seus ombros delicados.
Ele a envolveu em um abraço apertado, escondendo o rosto no pescoço dela, sentindo o cheiro de sabonete de flores e chuva. Eduarda hesitou por um segundo, as mãos pairando no ar, antes de finalmente agarrar a jaqueta de couro dele, enterrando o rosto em seu peito. Ela se sentia segura e, ao mesmo tempo, em terrível perigo.
— Vamos voltar — ele disse, soltando-a apenas o suficiente para guiá-la pela neblina. — Você vai pegar um resfriado e eu não vou permitir que nada aconteça com você.
Enquanto caminhavam de volta para a casa, Emanuel mantinha o braço firmemente ao redor da cintura dela. Ele sabia que estava entrando em um território perigoso. Sara não era uma mulher que aceitava divisões. Ela era possessiva, competitiva e, embora visse Eduarda como alguém insignificante agora, sua intuição feminina logo captaria a mudança no ar.
Ao chegarem perto da varanda, as primas de Eduarda observavam de longe, cochichando. Emanuel as ignorou solenemente. Ele levou Eduarda até a porta lateral que dava para a cozinha.
— Vá para o quarto — ele ordenou suavemente. — Tente dormir. Esqueça a prova de segunda por algumas horas.
— Emanuel... — ela começou, mas as palavras morreram em sua garganta.
Ele apenas acenou com a cabeça e esperou que ela entrasse. Quando a porta se fechou, ele ficou ali, na escuridão da varanda, acendendo um cigarro que raramente fumava, apenas para acalmar os nervos.
— Noite agitada, querido? — a voz de Sara veio das sombras, fazendo-o tensionar cada músculo.
Ela estava encostada na parede, enrolada em um robe de seda carmesim que parecia brilhar mesmo na penumbra. Ela segurava uma taça de vinho e tinha um sorriso irônico nos lábios perfeitamente pintados.
— O carro quebrado me deixou sem sono — Emanuel respondeu, a voz voltando à sua neutralidade fria e profissional. — Fui caminhar para esfriar a cabeça.
— E acabou encontrando a pequena camponesa e as amigas no meio do caminho? — Sara deu um passo à frente, a luz da sala batendo em seu rosto. — Eu vi vocês chegando. Você parecia bem... protetor.
Emanuel caminhou até ela, parando a poucos centímetros. Ele exalava autoridade, mas Sara não recuou. Ela nunca recuava.
— Elas estavam fazendo bobagem na neblina. Eu apenas as mandei de volta para dentro. Como convidado, achei que era o mínimo para evitar um acidente na propriedade dos anfitriões.
Sara soltou uma risada curta, um som que misturava descrença e diversão. Ela passou a mão livre pelo peito de Emanuel, sentindo a umidade da jaqueta.
— Você é sempre tão responsável, Emanuel. É por isso que eu amo você. Você resolve os problemas antes que eles cresçam — ela se inclinou e mordeu levemente o lábio inferior dele, um gesto de domínio puramente sexual. — Mas não perca muito tempo com as crianças da casa. Elas são... entediantes. E eu estou sentindo falta do meu homem na cama.
Emanuel olhou para Sara, para a beleza agressiva e a competência que ela exalava. Ela era o seu império. Ela era a mulher que o ajudara a construir tudo o que ele tinha. O sentimento por ela era sólido, real e profundo. Mas, ao fundo de sua mente, a imagem de Eduarda, trêmula e doce na neblina, permanecia gravada como uma tatuagem recente, ainda ardendo na pele.
— Vamos entrar, Sara — ele disse, passando o braço pelo ombro dela e conduzindo-a para o quarto.
— Vamos — ela ronronou, encostando a cabeça no ombro dele. — Amanhã temos que dar um jeito naquele carro. Eu não aguento mais esse cheiro de mofo e essa gente simples. Temos reuniões em São Paulo na segunda, lembra? Eu já organizei os contratos da nova unidade.
— Eu sei que você organizou — Emanuel murmurou. — Você sempre organiza tudo.
Enquanto entravam no quarto e Sara começava a se despir com a confiança de quem sabia o efeito que exercia, Emanuel olhou uma última vez para o corredor que levava ao quarto de Eduarda.
Ele queria a estrutura de Sara. Queria a mente administrativa dela, o corpo que ele conhecia tão bem, a parceria que o tornava invencível no mundo dos negócios. Mas ele também queria a alma de Eduarda. Queria a fragilidade que o fazia se sentir um protetor, a inocência que ele nunca possuiu e a paz que só ela parecia emanar.
Naquela madrugada, sob o teto de uma casa de campo isolada pela neblina, Emanuel aceitou sua própria natureza. Ele era um homem de excessos. E ele não permitiria que nenhuma das duas escapasse de suas mãos. Sara era sua rainha, mas Eduarda seria seu segredo mais precioso, sua musa escondida entre as sombras e os livros de arte.
O jogo tinha começado, e Emanuel estava pronto para mover cada peça com a precisão de quem nunca aceitava perder. Eduarda podia tentar fugir, e Sara podia tentar dominar, mas no final, o controle pertenceria apenas a ele.