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Prisioneiros do Barro e do Desejo
A manhã de domingo não trouxe o sol prometido pela previsão do tempo, mas sim um céu de chumbo que parecia ter desabado sobre as colinas. O que antes era uma garoa romântica e bucólica transformou-se em uma chuva torrencial, daquelas que apagam o horizonte e transformam estradas de terra em rios de lama intransitáveis. Na sala de jantar da casa de campo, o rádio de pilha de Marcos, o pai de Eduarda, emitia chiados antes de uma voz grave anunciar que a ponte principal de acesso à rodovia fora interditada por risco de desabamento.
Emanuel ouvia a notícia encostado no batente da janela, observando as cortinas de água que fustigavam o jardim. Ele apertava uma xícara de café preto com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos. A ideia de ficar preso ali, sem o controle de sua agenda, de seus estúdios e, principalmente, de seus impulsos, o deixava em um estado de alerta constante.
— Uma semana? — A voz de Sara cortou o ar como um chicote. Ela estava sentada à mesa, vestindo um conjunto de lounge de seda champagne que custava mais do que a mobília da sala inteira. — Marcos, você deve estar brincando. Eu tenho três reuniões de expansão em São Paulo e um contrato para assinar com Londres na quarta-feira!
— Sinto muito, Sara — Marcos respondeu, dando um gole em seu café, mantendo o tom jovem e tranquilo que parecia ser a marca registrada da família. — Mas com essa chuva, nem um trator sai daqui. A terra está fofa demais, e a encosta da estrada velha sempre desliza. O jeito é aproveitar a hospitalidade dos meus pais.
Sara bufou, jogando o telefone sobre a mesa.
— Sem sinal de Wi-Fi decente e agora sem estrada. Emanuel, faça alguma coisa! Ligue para alguém, mande um helicóptero!
Emanuel virou-se lentamente, o rosto uma máscara de frieza pragmática.
— Não há teto para voo, Sara. E mesmo que houvesse, não há onde pousar sem que o aparelho afunde no barro. Use o tempo para organizar os relatórios que você trouxe. Se a administração dos meus estúdios é tão impecável quanto você diz, uma semana de atraso não vai nos falir.
Sara semicerrou os olhos, captando a nota de irritação na voz dele. Ela se levantou, caminhando até ele com um requinte provocador, ignorando a presença dos outros na sala.
— Você está muito tenso, querido — ela murmurou, passando a mão pelo peito dele, sentindo os músculos rígidos sob a camisa polo. — Se vamos ficar presos aqui, espero que você encontre formas mais... criativas de gastar sua energia.
Emanuel não respondeu. Seus olhos haviam se desviado para o canto da sala, onde Eduarda estava sentada em um pufe, quase invisível atrás de um grande livro de gravuras. Ela parecia menor hoje, envolta em um suéter de tricô azul-claro que destacava a palidez delicada de sua pele. Ela não reclamava da chuva; pelo contrário, parecia aliviada pelo isolamento, embora o encontro na neblina na noite anterior ainda pairasse sobre ela como uma sombra.
— Duda, você ouviu? — Uma das primas, Bia, entrou correndo na sala, seguida pela outra, as duas com sorrisos conspiratórios. — Uma semana! Dá tempo de sobra para a gente voltar à ruína do moinho.
Eduarda levantou os olhos, encontrando o olhar de Emanuel por um breve segundo antes de desviar, sentindo o rosto queimar.
— Bia, a estrada está perigosa... e ontem o Emanuel... o convidado disse que não era seguro.
— Ah, bobagem! — A mãe de Eduarda, uma mulher de espírito livre chamada Helena, apareceu na porta da cozinha, secando as mãos em um pano de prato. — Se vamos ficar presos, que seja com aventura. Eu ouço as histórias dessa "Noiva" desde que era pequena e nunca fui lá conferir. Se a chuva der uma trégua à noite, eu vou com vocês. Assim ninguém se preocupa, certo?
Emanuel sentiu uma veia latejar em sua têmpora. A presença da mãe de Eduarda validava a loucura das meninas e, pior, retirava dele a autoridade de impedir que Eduarda se afastasse. Ele queria mantê-la ali, sob seu olhar, onde pudesse controlar cada interação e cada risco.
— Não acho prudente — Emanuel disse, sua voz saindo mais autoritária do que o ambiente exigia. — O terreno está instável. Como homem que preza pela segurança, sugiro que fiquem dentro de casa.
Sara soltou uma risadinha irônica, cruzando os braços sobre o silicone perfeito.
— Deixe as meninas brincarem de fantasma, Emanuel. É melhor do que elas ficarem aqui nos encarando com essas caras de tédio. Além disso — ela olhou para Helena —, a mãe delas vai junto. O que poderia acontecer?
Emanuel olhou para Sara com uma intensidade que teria feito qualquer outra pessoa recuar, mas Sara apenas sustentou o olhar, desafiando-o. Ela sentia que Emanuel estava estranhamente focado naquela família, e sua forma de marcar território era justamente desdenhar do que ele parecia querer proteger.
— Exatamente — disse Helena, piscando para as filhas. — Vai ser um passeio de meninas. Homens e administradoras ocupadas ficam em casa cuidando dos negócios.
O dia passou devagar, arrastando-se entre o som da chuva no telhado e o cheiro de bolo de fubá que vinha da cozinha. Emanuel tentou trabalhar em alguns esboços de tatuagem, mas sua mão, geralmente firme como uma rocha, parecia inquieta. Ele via Eduarda passar de um cômodo para o outro, sempre com aquele jeito manhoso, buscando a proximidade física da mãe ou das tias, como se precisasse de um escudo contra a tensão que ele projetava.
No meio da tarde, ele a encontrou na biblioteca, uma sala pequena e cheirando a papel antigo. Ela estava tentando alcançar um livro em uma prateleira alta. Sem dizer uma palavra, Emanuel caminhou até ela. Sua presença preencheu o espaço minúsculo, o perfume amadeirado sufocando o cheiro de mofo. Ele estendeu o braço por cima da cabeça dela e pegou o volume.
— É este? — perguntou ele, a voz baixa, quase um sussurro contra o topo da cabeça dela.
Eduarda congelou. Ela podia sentir o calor que emanava dele, a força bruta escondida sob a roupa simples.
— Sim... obrigada — ela disse, virando-se para pegá-lo, ficando presa entre a estante e o corpo dele.
Emanuel não recuou. Ele segurou o livro, mas não o entregou imediatamente. Seus olhos percorreram o rosto dela, detendo-se nos lábios entreabertos e na expressão de pura insegurança que a tornava tão irresistível para ele.
— Você vai mesmo com elas hoje à noite? — ele perguntou, o tom carregado de uma possessividade mal disfarçada.
— Minha mãe vai estar junto — Eduarda murmurou, buscando apoio na prateleira atrás de si. — Não tem por que ter medo.
— Eu não tenho medo por você, Eduarda. Eu tenho irritação por não poder garantir que você esteja segura — ele deu um passo à frente, diminuindo a distância a quase nada. — Você é muito frágil para esse lugar. Deveria estar em um lugar confortável, sendo cuidada, não andando no barro atrás de lendas.
— Você não é meu dono, Emanuel — ela disse, tentando usar uma coragem que não sentia. — Você é o namorado da Sara.
— Eu sei exatamente quem eu sou e quem está comigo — ele rebateu, a voz ficando mais sombria. — Mas isso não muda o fato de que, desde que te vi naquela sala, eu não consigo pensar em outra coisa a não ser em como você ficaria sob a minha proteção. E sob as minhas mãos.
Eduarda sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Era uma sensação ambivalente: o medo de um homem tão intenso e a atração magnética por alguém que parecia querer devorar sua existência.
— Me deixa passar — ela pediu, a voz saindo como um suspiro manhoso.
— Duda? — A voz de Sara ecoou do corredor, fazendo os dois se afastarem bruscamente.
Sara apareceu na porta, segurando um tablet. Ela olhou de Emanuel para Eduarda com uma expressão de tédio misturada a uma ponta de desconfiança que ela logo mascarou com sarcasmo.
— Atrapalho a aula de história? — Ela caminhou até Emanuel, passando o braço pela cintura dele de forma possessiva. — Querido, preciso que você revise os orçamentos da unidade de Miami. Estão no meu e-mail.
Emanuel olhou para Sara, depois para Eduarda, que aproveitou a oportunidade para escapar da sala quase correndo.
— Eu já disse que reviso depois, Sara — ele disse, a voz ríspida.
— Não seja mal-humorado — Sara disse, dando um tapinha no rosto dele, o som da palma contra a pele soando alto na sala silenciosa. — Eu sou a única que mantém sua cabeça no lugar enquanto você se perde nessas suas "crises artísticas". Aquela garota é uma fofa, mas não tem um neurônio que entenda de fluxo de caixa. Vamos, foque no que importa.
Emanuel sentiu um desejo súbito de se afastar, de gritar que nada daquilo importava agora, mas a racionalidade o impediu. Sara era sua parceira. Ela era a competência que ele admirava. Mas o contraste entre a vulgaridade confiante de Sara e a delicadeza pura de Eduarda estava criando uma rachadura em sua mente.
A noite caiu, e a chuva finalmente deu uma trégua, transformando-se em uma névoa espessa e úmida. Na cozinha, Helena e as meninas se preparavam, calçando galochas e vestindo capas de chuva coloridas.
— Prontas para a expedição? — perguntou Helena, animada.
Emanuel estava na sala, observando-as. Ele viu Eduarda colocar uma capa amarela que a deixava parecendo uma pequena luz na penumbra. Ele queria segurá-la pelo braço e trancá-la no quarto, mas Marcos e os outros tios estavam por perto, rindo e encorajando a aventura.
— Tomem cuidado — disse Marcos. — Se a névoa fechar demais, voltem imediatamente.
— Deixe de ser ranzinza, Marcos — Helena riu, dando um beijo no marido. — Nós conhecemos estas terras.
Emanuel deu um passo à frente, os olhos fixos em Eduarda.
— Se vocês não voltarem em uma hora, eu vou atrás de vocês — ele declarou. Não era um aviso, era uma promessa.
— Nossa, o Sr. Tatuador é mesmo um herói — Sara comentou do sofá, lixando as unhas com indiferença. — Vá lá, Duda, traga um fantasma para o Emanuel parar de ser tão tenso.
Eduarda não respondeu. Ela seguiu a mãe e as primas para fora, sentindo o ar gelado da noite. Enquanto caminhavam em direção ao mato, ela sentia os olhos de Emanuel queimando em suas costas. Ela sabia que ele estava furioso. Sabia que ele odiava não ter o controle da situação. E, no fundo de seu coração sensível, ela sentia uma pontada de culpa por gostar daquela atenção obsessiva.
A caminhada foi difícil. O barro grudava nas botas, e o som da floresta à noite era amplificado pela umidade. Helena ia na frente, contando histórias sobre como os avós de Eduarda se conheceram naquele moinho.
— Ali está ele — Bia apontou para a silhueta de pedra que surgia entre as árvores retorcidas.
A ruína do moinho era um lugar melancólico. As paredes de pedra estavam cobertas de musgo, e o teto havia desabado há décadas. Elas entraram com cuidado, as lanternas iluminando as sombras que dançavam nas paredes.
— Agora, silêncio — sussurrou Helena, entrando na brincadeira. — Dizem que se você chamar o nome dela três vezes...
— Mãe, para com isso — Eduarda pediu, sentindo o clima ficar pesado.
De repente, um estalo alto veio de fora. Elas congelaram.
— Foi só um galho — Bia disse, mas sua voz tremeu.
Outro som, desta vez como passos pesados esmagando a folhagem úmida. Eduarda sentiu o coração disparar. Ela pensou em Emanuel. Pensou que ele tinha vindo atrás delas, mas o som parecia vir de uma direção diferente da casa.
— Quem está aí? — Helena perguntou, sua voz perdendo a diversão e ganhando um tom de alerta maternal.
Uma silhueta alta surgiu na entrada da ruína. Por um momento, Eduarda achou que era o tatuador, mas a figura era mais rústica, vestindo trapos escuros e segurando uma ferramenta de metal. Era um dos caseiros das propriedades vizinhas, um homem conhecido por ser pouco sociável, que parecia estar ali apenas para checar o que as luzes faziam em sua divisa.
— Estão perdidas? — a voz do homem era rouca e desagradável.
— Não, apenas passeando — Helena respondeu, colocando-se à frente das meninas. — Já estamos de saída.
O homem não se moveu. Ele ficou parado na entrada, bloqueando o caminho, os olhos brilhando de forma estranha sob a luz das lanternas.
— É perigoso andar por aqui. A terra desliza. Vocês deviam estar em casa.
Antes que Helena pudesse responder, um movimento brusco veio de trás do homem. Uma mão enluvada de couro agarrou o ombro dele e o puxou para o lado com uma força brutal.
Emanuel emergiu da escuridão, os olhos injetados de uma fúria contida. Ele não estava usando capa de chuva; sua jaqueta estava encharcada e seus cabelos colados à testa. Ele parecia um demônio vingativo saindo da névoa.
— Eu disse que vinha buscar vocês — a voz dele vibrou nas paredes de pedra.
Ele olhou para o caseiro com um desprezo mortal.
— Elas estão comigo. Algum problema?
O homem, percebendo que Emanuel não era alguém com quem se devesse brincar, apenas resmungou algo e recuou para a escuridão da mata.
Emanuel caminhou direto até Eduarda. Ele a segurou pelos ombros, ignorando a mãe e as primas dela.
— Você está bem? — ele perguntou, a voz subindo de tom. — Eu ouvi vozes, achei que...
— Estou bem, Emanuel — ela disse, os olhos cheios de lágrimas pela tensão. — Foi só um susto.
— Um susto que você não precisava passar! — ele explodiu, virando-se para Helena. — Como você pode ser tão negligente? Trazer elas para cá com esse tempo, com estranhos rondando?
Helena, embora surpresa com a intensidade do convidado, manteve a calma.
— O Sr. Emanuel, agradeço a preocupação, mas nós estamos em nossa propriedade. O Juca é apenas o caseiro do vizinho.
— Eu não me importo com quem ele é! — Emanuel rosnou. — Eu não vou permitir que ela corra riscos inúteis.
Ele pegou a mão de Eduarda com firmeza.
— Vamos voltar. Agora. E você vai ficar no meu campo de visão pelo resto desta semana, entendeu?
Eduarda não protestou. Ela estava exausta, com frio e a presença de Emanuel, embora intimidadora, era o único lugar onde ela se sentia protegida. As outras as seguiram em silêncio, impressionadas com a força daquele homem.
Ao chegarem na casa, Sara estava na varanda, segurando uma taça de vinho, observando a cena com uma sobrancelha erguida.
— Ora, ora... o resgate foi um sucesso? — ela perguntou, o tom carregado de veneno. — Você parece ter encontrado sua donzela em perigo, Emanuel.
Ele passou por Sara sem dizer uma palavra, levando Eduarda para dentro direto para perto da lareira. Ele pegou uma manta e a envolveu com um cuidado que contrastava violentamente com a fúria de minutos atrás.
— Aqueça-se — ele ordenou suavemente.
Sara entrou logo atrás, batendo a porta. Ela caminhou até Emanuel e parou à sua frente, ignorando a família de Eduarda que se dispersava para os quartos.
— Você passou dos limites, Emanuel — ela disse, a voz baixa e perigosa. — Esse seu complexo de herói com essa menina está começando a ficar ridículo. Eu não sou idiota. Eu administro sua vida, lembra? Eu vejo os padrões.
Emanuel olhou para Sara. Ele amava a força dela, a maneira como ela nunca se dobrava. Mas, naquele momento, o cheiro de chuva e a doçura de Eduarda eram tudo o que ele queria processar.
— Se você é tão inteligente, Sara, então entenda uma coisa — ele se aproximou, sussurrando para que apenas ela ouvisse. — Eu não vou a lugar nenhum. Eu ainda sou o homem que você quer. Mas eu também vou cuidar do que eu decidir cuidar. E se você valoriza o que temos, vai aceitar que, nesta semana, as regras mudaram.
Sara sustentou o olhar dele, uma chama de competitividade acendendo em seus olhos loiros. Ela não ia brigar por ele como uma adolescente; ela ia jogar o jogo dele.
— Tudo bem, querido — ela sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos. — Vamos ver quem tem mais resistência. Mas lembre-se: eu sou a única que sabe o que você realmente é por baixo de todas essas tatuagens.
Ela subiu as escadas com um rebolado desafiador. Emanuel ficou sozinho na sala com Eduarda, que o observava da poltrona, encolhida na manta.
— Ela vai me odiar, não vai? — Eduarda perguntou, a voz trêmula.
Emanuel caminhou até ela e ajoelhou-se à sua frente, pegando suas mãos pequenas entre as suas.
— Sara não odeia ninguém, Eduarda. Ela apenas compete. Mas ela não entende que você não é uma competição. Você é... uma necessidade.
Ele beijou as mãos dela, um gesto de devoção que selou o destino de ambos para aquela semana de isolamento. Lá fora, a chuva voltou a cair com força total, garantindo que ninguém sairia daquela casa. E, lá dentro, as linhas entre o amor, a posse e o desejo estavam sendo redesenhadas no escuro.