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Lendas do Rio e Promessas de Sangue
A umidade da Amazônia era algo que Emanuel não lembrava ser tão densa. O ar no Pará parecia ter peso, um perfume de terra molhada, ervas e rio que impregnava a pele e as roupas. Eles haviam chegado à imensa propriedade de sua tia, uma construção colonial imponente à beira do Rio Tapajós, onde o resto da família já se aglomerava para o reencontro anual. Para Emanuel, o sucesso e a riqueza de seus estúdios de tatuagem eram apenas ruído de fundo ali; ele voltava a ser o sobrinho querido, mas também o homem que carregava uma configuração familiar que ainda fazia os primos mais velhos cochicharem.
No deck de madeira que avançava sobre as águas escuras, o clima era de uma tensão silenciosa. Emanuel estava sentado em uma poltrona de vime, observando o horizonte onde o céu começava a ganhar tons de violeta. Eduarda estava sentada no chão, entre as pernas dele, com a cabeça descansada em seu joelho. Ela parecia encantada, os olhos castanhos fixos na imensidão do rio. Sara, por outro lado, estava escorada no corrimão, segurando uma taça de gin com uma rodela de limão siciliano que ela mesma fizera questão de preparar, já que a "hospitalidade rústica" da família não incluía seus drinks favoritos.
— Manu, você ouviu o que a sua tia disse? — Eduarda sussurrou, a voz doce e manhosa, enquanto puxava levemente a barra da calça de Emanuel para chamar sua atenção. — Ela disse que, nas noites de lua cheia, os botos saem do rio vestidos de branco, com chapéus para esconder o buraco na cabeça... e que eles procuram as moças mais bonitas da margem.
Emanuel soltou um suspiro nasal, passando a mão pelos cabelos de Eduarda. Ele adorava a forma como ela se perdia em histórias e folclore, mas a ideia de "botos" sedutores rondando suas mulheres, mesmo que em lendas, despertava seu lado mais territorialista.
— É apenas uma história para assustar turista, Duda — respondeu Emanuel, a voz rouca e firme. — E para justificar algumas gravidezes indesejadas na região. Não precisa ficar com esse olhar de espanto.
— Ah, deixa ela, Emanuel — Sara interveio, dando um gole longo em sua bebida. O vestido de seda dourada que ela usava era curto demais para os padrões daquela fazenda, e o decote acentuado pelos seios siliconados atraía olhares constantes dos primos de Emanuel que passavam por ali. — A Duda é romântica. Ela quer acreditar no príncipe que vira peixe. Eu, particularmente, acho que se um homem aparecer de branco no meu quarto no meio da noite, ele leva um tiro antes de tirar o chapéu.
— Sara! — Eduarda exclamou, chocada, escondendo o rosto no joelho de Emanuel. — Que horror! A lenda é linda. É sobre encanto, sobre magia...
Emanuel sentiu a irritação crescer. Não por causa de Sara, cujo pragmatismo ele já conhecia e até apreciava em momentos de crise, mas porque percebeu dois primos seus, rapazes de vinte e poucos anos, parados perto da entrada do deck, encarando Eduarda com um sorriso bobo e Sara com uma cobiça indisfarçável.
— O único boto que você vai ver por aqui, Eduarda, sou eu — Emanuel sentenciou, a voz subindo um tom, o suficiente para que os primos ouvissem e entendessem o recado. — E eu não preciso de chapéu nem de magia para garantir que vocês duas fiquem exatamente onde eu quero.
Sara deu uma risada curta, provocativa.
— Ui, o grande tatuador ficou bravinho com os peixes? — Ela caminhou até ele, sentando-se no braço da poltrona e passando a mão livre pelo pescoço tatuado de Emanuel, onde uma fênix subia em direção à mandíbula. — Relaxa, Manu. Ninguém aqui tem coragem de enfrentar você. Nem os humanos, nem os botos.
— Eu não estou brincando, Sara — ele disse, segurando o pulso dela com firmeza, mas sem machucar. — Este lugar é aberto, tem muita gente. Não quero vocês andando sozinhas por aí, principalmente à noite. A correnteza desse rio é traiçoeira e a fauna local não é a única coisa perigosa.
Eduarda levantou o rosto, os olhos brilhando com uma ponta de insegurança.
— Você está bravo, Manu? Eu só achei a história bonitinha...
— Não estou bravo com você, pequena — ele suavizou a expressão, puxando-a para cima, fazendo com que ela se sentasse em seu colo. — Só não gosto da ideia de você ficar imaginando outros homens, mesmo que sejam lendas. Você é minha. As duas são.
— Eu sei — sussurrou Eduarda, aconchegando-se no peito dele, sentindo o cheiro de perfume amadeirado e o calor da pele de Emanuel. — Eu só queria ver o rio de perto.
— Veremos amanhã, com luz — Emanuel decidiu. — Agora, vamos entrar. O jantar vai ser servido e eu não quero minha família achando que eu não consigo controlar minhas próprias namoradas.
— "Controlar", que palavra forte — debochou Sara, levantando-se e ajeitando o vestido que subira pelas coxas. — Mas tudo bem, eu estou morrendo de fome e aquela sua tia faz um tucupi que, vou te falar, quase me faz esquecer que o sinal de internet aqui é uma porcaria.
O jantar foi uma mistura de caos e tradição. Emanuel sentou-se à cabeceira de uma das mesas laterais, com Eduarda à sua direita e Sara à sua esquerda. O contraste era gritante: Eduarda usava um vestido de algodão branco, simples e delicado, mantendo a cabeça baixa e respondendo com timidez às perguntas das tias. Sara, por outro lado, dominava a conversa com os tios, falando sobre a administração dos estúdios na Europa e como o mercado de luxo estava mudando.
Emanuel observava, orgulhoso e ao mesmo tempo exausto. Ele via como os homens da família o invejavam e como as mulheres o julgavam, mas ele não dava a mínima. Ele havia construído sua própria realidade.
— Emanuel, meu filho — a Tia Odete, a matriarca, chamou do outro lado da mesa. — E quando é que você vai casar com essas meninas? Ou vai continuar nessa... confusão?
O silêncio caiu sobre a mesa. Eduarda ficou vermelha instantaneamente, brincando com o arroz no prato. Sara apenas arqueou uma sobrancelha, esperando a resposta de Emanuel.
— Não é confusão, tia — Emanuel respondeu, a voz calma, mas carregada de uma autoridade que silenciava qualquer discordância. — É a minha vida. E elas são minhas mulheres. O dia que houver um casamento, será nos meus termos, não nos da sociedade.
— Mas a Eduarda ainda mora com os pais, não é? — Uma prima invejosa comentou, sorrindo falsamente. — Tão novinha... parece até que tem medo de crescer.
Emanuel sentiu Eduarda encolher-se ao seu lado. A insegurança dela era seu ponto fraco, e ele odiava quando alguém tocava naquela ferida.
— A Eduarda mora onde ela se sente confortável — Emanuel disparou, o olhar gélido fixo na prima. — Mas, se depender de mim, ela se muda amanhã. O espaço dela já existe, o lugar dela ao meu lado é garantido. Mais alguma dúvida sobre a minha casa?
Ninguém respondeu. Sara deu um sorriso de satisfação, bebendo seu vinho. Ela gostava quando Emanuel mostrava os dentes.
Após o jantar, a noite caiu pesada. O som dos grilos e dos animais da floresta criava uma sinfonia hipnótica. Emanuel levou as duas para o quarto que havia sido preparado para eles — uma suíte ampla, com uma cama king-size de madeira maciça e janelas que davam para o rio.
Eduarda foi direto para a varanda, atraída pelo reflexo da lua na água.
— Manu, olha! — ela chamou, a voz cheia de admiração. — A lua está tão grande. Parece que dá para tocar.
Emanuel caminhou até ela, abraçando-a por trás. Sara apareceu logo depois, encostando-se no batente da porta, observando os dois.
— É lindo mesmo — admitiu Sara, a voz mais suave agora. — Me faz sentir pequena. Eu odeio me sentir pequena.
— Às vezes é bom não ter o controle de tudo, Sara — disse Emanuel, olhando para ela e estendendo a mão.
Sara hesitou por um segundo, mas caminhou até eles, deixando que Emanuel a puxasse para o abraço coletivo. Ali, na escuridão da varanda, iluminados apenas pelo luar paraense, eles eram um universo à parte.
— Manu... — Eduarda começou, manhosa, virando-se nos braços dele. — Você promete que, se o boto aparecer, você me protege?
Emanuel soltou uma risada baixa, vibrando contra o peito dela.
— Duda, eu já te disse. Eu enfrentaria o rio inteiro por você. E por ela — ele olhou para Sara, que sorriu de lado, um brilho raro de vulnerabilidade nos olhos azuis. — Vocês são a minha responsabilidade. Meu patrimônio mais valioso.
— Você fala como se fôssemos empresas — Sara reclamou, mas se aninhou mais perto.
— Falo como um homem que sabe o que tem e que não vai deixar ninguém, nem homem, nem lenda, nem o destino, tirar de mim.
De repente, um movimento na água chamou a atenção deles. Um vulto rosado emergiu e mergulhou logo em seguida, criando círculos perfeitos na superfície espelhada do Tapajós.
— O boto! — Eduarda exclamou, os olhos brilhando.
Emanuel observou o animal sumir na escuridão. Ele sentiu uma onda de proteção possessiva percorrer seu corpo. Ele apertou os braços ao redor das duas, sentindo o corpo frágil de Eduarda e as curvas firmes de Sara.
— Ele que fique no rio — Emanuel sussurrou contra o cabelo de Eduarda. — Porque aqui em cima, nesta varanda, só existe um homem para vocês.
— E um homem muito possessivo, por sinal — Sara completou, puxando Emanuel para um beijo rápido e intenso, antes de olhar para Eduarda com uma cumplicidade rara. — Não é, Duda? Ele é todo nosso.
Eduarda sorriu, o medo da lenda substituído pela segurança do toque de Emanuel.
— Todo nosso — ela repetiu.
Naquela noite, enquanto a floresta sussurrava segredos antigos, Emanuel não dormiu imediatamente. Ele ficou observando as duas descansarem — Eduarda com o rosto sereno, abraçada ao travesseiro, e Sara com uma expressão de determinação mesmo no sono. Ele sabia que a viagem ao Pará era mais do que um reencontro familiar; era um teste de sua paciência e de sua capacidade de manter seu mundo unido.
Ele pensou no quarto vazio em sua casa, o quarto que esperava por Eduarda. Pensou na competência de Sara, que mantinha seus negócios fluindo enquanto ele criava arte na pele das pessoas. Ele era um homem de sorte, mas também um homem em guerra constante para manter o equilíbrio.
De madrugada, o som da água batendo no cais parecia um chamado. Emanuel levantou-se silenciosamente e foi até a janela. Ele viu outro boto passar, ou talvez fosse o mesmo. O animal parecia observá-lo. Emanuel apenas inclinou a cabeça, um desafio silencioso.
— Pode vir o que for — ele murmurou para a escuridão. — Eu não perco o que é meu.
Ele voltou para a cama, acomodando-se entre as duas. Eduarda, mesmo dormindo, buscou sua mão, entrelaçando os dedos nos dele. Sara se moveu, jogando uma perna sobre a dele, marcando território mesmo inconsciente.
Emanuel fechou os olhos. O império que ele construíra ao redor do mundo era vasto, mas ali, naquele pedaço de terra úmida e cheia de mistérios, ele entendia que sua verdadeira força não vinha do dinheiro ou da fama como tatuador. Vinha daquelas duas mulheres que, apesar de todas as diferenças, escolheram orbitar ao redor dele.
E ele seria o sol, o pilar e, se necessário, o monstro que as protegeria de qualquer encanto que o rio tentasse lançar. No Pará ou em qualquer lugar do mundo, a lei de Emanuel era absoluta: o que ele amava, ele guardava sob sete chaves e mil tatuagens.