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O Equilíbrio das Linhas e dos Afetos
A sala de estar da mansão em São Paulo parecia um cenário de revista de arquitetura, com seu pé-direito duplo, paredes de concreto aparente e móveis de design minimalista. No entanto, o clima naquela tarde de domingo era tudo menos minimalista. O ar estava carregado com o cheiro de café gourmet que Sara havia preparado e o perfume floral suave que Eduarda sempre exalava.
Emanuel estava afundado no sofá de couro italiano, o controle remoto em uma das mãos e uma expressão de concentração absoluta no rosto. Na televisão de oitenta polegadas, os jogadores entravam em campo. Para um homem que passava a semana inteira gerenciando crises, desenhando peles e lidando com a logística implacável de seus estúdios ao redor do mundo, aqueles noventa minutos de futebol eram seu único santuário de normalidade bruta.
— Emanuel, você não está falando sério — a voz de Sara cortou o silêncio, vinda do corredor. Ela apareceu usando um vestido justo de malha canelada e saltos que faziam um barulho autoritário no piso de mármore. — Nós temos aquela reserva no restaurante novo do Jardins. Eu levei duas semanas para conseguir essa mesa, e você sabe que o dono é um cliente em potencial para o novo estúdio de Moema.
Emanuel nem sequer desviou o olhar da tela.
— A reserva é para as nove, Sara. O jogo acaba antes das seis. Dá tempo de sobra.
— Não dá tempo de sobra se você ficar com essa cara de quem acabou de sair de uma briga de bar toda vez que seu time perde — rebateu Sara, parando na frente da televisão, bloqueando a visão do campo. — E eu preciso passar no shopping antes. Quero que a Eduarda experimente aqueles vestidos que separei. Ela não pode ir naquele lugar parecendo uma estudante de artes perdida.
— Sara, por favor, sai da frente — Emanuel pediu, sua voz baixando uma oitava, um sinal claro de que sua paciência estava no limite. — Eu trabalhei doze horas por dia nesta semana. Eu só quero ver o jogo.
Eduarda apareceu logo atrás de Sara, segurando um caderno de esboços contra o peito. Ela parecia uma boneca de porcelana ao lado da presença vibrante e agressiva de Sara. Seus olhos castanhos saltaram de Emanuel para a loira, sentindo a tensão elétrica entre os dois.
— Manu... — Eduarda chamou baixinho, usando o apelido que só ela tinha permissão de usar nos momentos de intimidade. — Eu queria tanto te mostrar os desenhos que fiz para a estampa da nova coleção de camisetas do estúdio. Você disse que me ajudaria com as proporções hoje.
Emanuel soltou um suspiro pesado, fechando os olhos por um segundo. Ele amava as duas, mas a dinâmica constante de ser puxado para direções opostas estava começando a desgastar seus nervos já fragilizados pelo café e pela falta de sono.
— Duda, agora não — ele disse, tentando manter a voz firme, mas falhando em soar ríspido com ela. — Depois do jogo eu olho tudo. Prometo.
— Depois do jogo você vai estar ocupado se arrumando, e depois vamos sair, e amanhã você viaja para Curitiba — Sara interveio, cruzando os braços, o que destacava o brilho do seu relógio de ouro. — Deixa de ser teimoso, Emanuel. É só um bando de homens correndo atrás de uma bola. A gente tem uma vida para organizar.
Emanuel sentiu o sangue pulsar nas têmporas. Ele se levantou, a altura impressionante e os braços tatuados fazendo-o parecer uma sombra imponente na sala.
— Chega! — ele exclamou, e o som de sua voz ecoou pelo ambiente, fazendo Eduarda dar um pequeno passo para trás. — Eu decido o que faço com o meu tempo nesta casa. Eu não sou um funcionário de vocês e não sou um projeto de administração da Sara. Eu vou assistir ao jogo, e se vocês não pararem de gritar no meu ouvido, eu vou para o estúdio e passo a noite lá sozinho.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Sara descruzou os braços, os olhos faiscando de uma irritação fria. Ela sabia exatamente até onde podia empurrar Emanuel antes que ele se fechasse completamente em sua concha de autoridade.
— Ótimo — disse Sara, dando de ombros com uma indiferença calculada. — Fique aí com seus jogadores. Eu vou para o quarto retocar minha maquiagem. Eduarda, se você quiser ser útil, venha me ajudar a escolher os acessórios.
Sara saiu da sala com a cabeça erguida, os saltos estalando como tiros no chão. Eduarda, porém, permaneceu parada. Ela olhou para Emanuel, que já havia se sentado novamente, embora seus ombros estivessem tensos e sua mandíbula estivesse tão cerrada que parecia feita de pedra.
Eduarda conhecia Emanuel melhor do que ele mesmo em certos aspectos. Ela sabia que a agressividade dele era apenas uma armadura contra o cansaço. Lentamente, ela caminhou até o sofá e sentou-se na beirada, deixando o caderno de lado.
— Manu? — ela chamou, a voz como um sussurro de seda.
— O que foi, Eduarda? — ele respondeu, sem olhar para ela, mas o tom já não era mais de raiva, apenas de exaustão.
Ela se aproximou mais, deslizando para o colo dele com a leveza de uma pluma. Eduarda era pequena e esguia, e nos braços dele, ela parecia desaparecer. Ela passou os braços finos ao redor do pescoço dele e encostou a bochecha macia contra a barba por fazer dele.
— Não fica bravo — ela murmurou, começando a fazer um carinho lento na nuca dele, exatamente onde ela sabia que a tensão se acumulava. — A Sara só quer que tudo seja perfeito para você. Ela se preocupa com os seus negócios.
Emanuel relaxou o pescoço contra a mão dela, soltando um ruído que era metade suspiro, metade rosnado.
— Ela não sabe a hora de parar, Duda. Eu me sinto sufocado.
— Eu sei... — Eduarda continuou o carinho, a voz manhosa e doce, como uma melodia de ninar. — Mas olha para mim. Eu não estou te cobrando nada.
Emanuel finalmente desviou os olhos da televisão e olhou para a mulher em seu colo. A doçura de Eduarda era o contraponto necessário para o mundo de metal, agulhas e números em que ele vivia.
— Você também queria que eu desligasse o jogo para ver seus desenhos — ele lembrou, mas sua mão já subia para a cintura dela, segurando-a com aquela possessividade instintiva que definia o relacionamento deles.
— Eu queria — admitiu ela, fazendo um biquinho adorável e escondendo o rosto no pescoço dele. — Mas eu prefiro você feliz. Se você quer ver o jogo, eu fico aqui quietinha com você. Eu posso até fingir que entendo o que está acontecendo.
Ela deu um beijo casto no queixo dele e depois olhou-o com aqueles olhos grandes e expressivos, cheios de uma adoração que Emanuel achava impossível de resistir.
— Mas... — ela começou, arrastando a palavra com um dengo que o fez sorrir contra a própria vontade. — Você podia só me dar dez minutinhos? Só para me dizer se o conceito da fênix que eu desenhei está bom? Eu tive tanto medo de errar o traço que você me ensinou...
Emanuel olhou para a televisão. O jogo estava apenas começando, o placar ainda em zero a zero. Ele olhou para Eduarda, que agora roçava o nariz no dele, exalando aquele cheiro de casa e de paz.
— Você é uma chantagista emocional, sabia? — ele murmurou, a voz agora rouca e carregada de afeto.
— Sou apenas uma aprendiz aplicada — ela respondeu, sorrindo e brilhando ao perceber que tinha vencido.
Emanuel pegou o controle remoto e apertou o botão de "mudo". Ele não desligou a televisão, mas o silêncio mudou a atmosfera da sala. Ele puxou o caderno de Eduarda e o abriu em seu colo, mantendo-a sentada sobre suas coxas.
— Mostra aqui o que você fez — ele ordenou, mas o tom era de um mestre orgulhoso, não de um homem irritado.
Eduarda começou a explicar suas escolhas de cores e linhas, sua voz suave preenchendo o espaço que antes era dominado pela tensão. Emanuel ouvia com atenção, fazendo correções técnicas ocasionais, mas seus dedos não paravam de acariciar a pele exposta do braço dela. Ele percebeu que, embora o futebol fosse sua fuga, aquele momento de conexão com Eduarda era sua cura.
De repente, Sara reapareceu na galeria do andar superior, observando a cena lá embaixo. Ela viu Emanuel, o homem que ninguém ousava questionar, totalmente entregue ao dengo de Eduarda. Sara soltou um suspiro, mas não era de raiva; era uma aceitação tácita. Ela sabia que seu papel era manter o império de pé e garantir que Emanuel fosse respeitado, mas Eduarda... Eduarda era quem garantia que ele continuasse tendo um coração para bater.
— Se vocês não terminarem essa aula de arte em dez minutos, eu mesma desligo o disjuntor desta casa! — gritou Sara lá de cima, mas havia um tom de brincadeira em sua voz que raramente aparecia.
Emanuel riu, um som profundo que vibrou no peito de Eduarda.
— Viu só? — disse ele para a morena. — Agora eu tenho duas generais me dando ordens.
— Não são ordens, Manu — Eduarda disse, selando os lábios dele com os seus em um beijo lento e profundo que fez o jogo na televisão perder completamente a importância. — É só cuidado.
Emanuel a apertou mais forte contra si. Ele olhou para a tela, onde um jogador acabara de perder um gol feito, e percebeu que não se importava mais. Ele tinha tudo o que precisava bem ali, entre seus braços. A resistência de Eduarda em morar com ele parecia uma memória distante agora; ela se integrara àquela casa e àquela vida de uma forma que tornava impossível imaginar o futuro sem seu toque suave.
— Tudo bem — Emanuel cedeu, fechando o caderno. — Dez minutos para os desenhos, vinte minutos de jogo no mudo, e depois eu vou me arrumar para esse jantar. Mas eu quero as duas prontas e sem reclamações.
— Combinado — disse Eduarda, vitoriosa, aninhando-se nos braços dele enquanto ele começava a explicar a técnica de sombreamento.
Lá fora, a cidade de São Paulo continuava seu ritmo caótico, mas dentro daquele santuário de vidro, o poder de Emanuel era exercido não através da força, mas através do equilíbrio delicado entre a autoridade de Sara e a doçura de Eduarda. Ele era o guardião delas, mas, naqueles momentos de domingo, ele era apenas um homem que descobria que render-se ao amor de suas mulheres era a sua maior vitória.
O jogo continuou na tela, silencioso e ignorado, enquanto Emanuel desenhava novas linhas no caderno de Eduarda, e Sara, observando-os de longe, finalmente permitia-se um pequeno sorriso de satisfação. O império estava em paz.