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O Espelho de Duas Faces

O closet da suíte principal era quase do tamanho do antigo quarto de Eduarda na casa de seus pais. Iluminado por luzes de LED embutidas e repleto de prateleiras de vidro, o espaço exalava o luxo que Emanuel fazia questão de prover. Para Eduarda, no entanto, aquele lugar ainda parecia um labirinto onde ela tentava encontrar sua própria identidade em meio às expectativas de seus dois guardiões.

Naquela tarde, o tapete felpudo estava coberto por sacolas de grifes famosas. Eduarda havia passado a manhã no shopping, mas, pela primeira vez, decidira ir sozinha, aproveitando que Emanuel estava em uma reunião por videoconferência com o estúdio de Tóquio e Sara estava ocupada com a contabilidade. Ela queria algo que fosse seu — um reflexo de quem ela era, e não do que Emanuel queria proteger ou do que Sara queria projetar.

— Mas o que é isso? — A voz de Sara cortou o silêncio do closet como um chicote.

Eduarda, que estava segurando um vestido de seda em um tom de azul-sereno, quase etéreo, deu um pequeno sobressalto. Sara entrou no recinto com sua energia habitual, caminhando com passos decididos, já estendendo a mão para tocar o tecido.

— Eu comprei para o evento da galeria amanhã — explicou Eduarda, tentando manter a voz firme, embora seu coração batesse um pouco mais rápido. — O que você acha?

Sara franziu o cenho, analisando a peça com um olhar clínico. Ela se aproximou do espelho, ajeitando o próprio cabelo loiro platinado, que estava preso em um rabo de cavalo alto e impecável.

— Querida, azul-bebê? — Sara soltou uma risadinha anasalada, cruzando os braços sobre o peito, o que realçava o decote generoso de sua blusa de seda preta. — Isso é muito... infantil. Você vai estar em um evento cercada pelos maiores nomes da arte e empresários do ramo de tatuagem. Você precisa de algo que diga "eu sou a mulher do Emanuel", e não "eu sou a sobrinha que ele trouxe para passear".

Eduarda sentiu uma pontada de irritação, algo raro em sua personalidade geralmente passiva. Ela olhou para o vestido. Ele tinha um corte fluido, romântico, com detalhes em renda delicada nas mangas. Era exatamente como ela se sentia: suave, mas com valor.

— Eu não sou um acessório dele, Sara — disse Eduarda baixinho, voltando-se para o espelho.

— Ninguém disse que é, bonequinha — rebateu Sara, ignorando o tom de Eduarda e começando a vasculhar as outras sacolas. — Mas imagem é tudo. Emanuel é uma marca. Eu sou o braço direito dele. E você é o lado suave. Mas "suave" não precisa ser sem graça. Eu separei um modelo para você na loja daquela estilista italiana que eu amo. Um vermelho-sangue, com fendas laterais. Iria destacar suas pernas e daria um ar de mulher fatal que você esconde aí embaixo desse jeito manhoso.

— Eu não quero ser uma mulher fatal, Sara — Eduarda virou-se de frente para a loira, apertando o cabide com força. — Esse vestido azul é o que eu escolhi. Ele combina comigo.

Sara soltou um suspiro de impaciência e aproximou-se, tentando pegar o vestido azul da mão de Eduarda para guardá-lo de volta na sacola.

— Deixa de ser teimosa, Duda. Eu entendo de moda, eu entendo de como as pessoas nos olham. Esse azul vai te apagar. Você vai parecer uma parede lavada. Me escuta, eu vou ligar para a loja e pedir para entregarem o vermelho. Você vai me agradecer quando vir os flashes apontados para você.

— Não — a palavra saiu da boca de Eduarda com uma clareza que congelou os movimentos de Sara.

Houve um segundo de silêncio absoluto. Sara arqueou uma sobrancelha, surpresa com a resistência direta.

— Como disse?

Eduarda respirou fundo, buscando a coragem que vinha cultivando desde que se mudara definitivamente para aquela casa. Ela amava a proteção de Emanuel e respeitava a eficiência de Sara, mas os limites precisavam ser traçados.

— Sara, eu agradeço que você queira me ajudar, de verdade — começou Eduarda, mantendo o tom educado, mas com um brilho de determinação nos olhos castanhos. — Mas eu não quero que você se meta nas minhas escolhas de roupa. Nós somos pessoas diferentes, com estilos completamente opostos.

Sara abriu a boca para retrucar, mas Eduarda continuou, ganhando confiança.

— Você gosta de coisas chamativas, justas, que gritam por atenção. E isso funciona para você, combina com a sua personalidade forte. Mas eu não sou assim. Eu gosto de leveza, de conforto, de algo que seja delicado. Se eu usar o que você escolhe, eu vou me sentir fantasiada.

— Fantasiada? — Sara riu, sarcástica. — Eu estou tentando te dar classe, Eduarda. Estou tentando te transformar em alguém que as pessoas respeitem à primeira vista.

Eduarda deu um passo à frente, encarando a loira de igual para igual, apesar da diferença de altura causada pelos saltos de Sara.

— Respeito não vem do tamanho do decote ou da cor do batom — disse Eduarda, e então, um lampejo de sinceridade ácida passou por seu rosto. — E, para ser sincera, Sara... eu acho o seu estilo um pouco brega. É tudo muito... demais. Muito brilho, muito justo, muito vulgar para o meu gosto. Eu não quero me vestir como você.

O rosto de Sara passou do deboche para a incredulidade em milissegundos. Seus olhos azuis se arregalaram. Ninguém, nem mesmo Emanuel nos seus dias mais mal-humorados, tinha coragem de chamar o estilo de Sara de "brega". Ela gastava fortunas em consultorias de imagem e marcas de luxo.

— Brega? — Sara repetiu, a voz subindo um tom. — Você, que usa vestidos de camponesa e sapatilhas de boneca, está me chamando de brega?

— Sim — respondeu Eduarda, mantendo a calma que deixava Sara ainda mais nervosa. — É o meu ponto de vista. Assim como você acha meu estilo "infantil", eu acho o seu exagerado. Por isso, de agora em diante, cada uma decide o que colocar no próprio corpo. Eu não interfiro nas suas joias pesadas, e você não interfere nas minhas rendas. Combinado?

Sara bufou, jogando as mãos para o alto, as pulseiras de ouro tilintando furiosamente.

— Inacreditável. O Emanuel te traz para cá, te dá o mundo, e você resolve virar uma rebelde de boutique.

— O que está acontecendo aqui? — A voz grave de Emanuel ecoou da porta do closet.

Ele estava encostado no batente, observando as duas. Ele ainda usava a camisa social preta com as mangas dobradas, revelando as tatuagens nos antebraços. Sua expressão era de cansaço, mas havia um brilho de curiosidade ao ver a cena.

— A sua "bonequinha" resolveu que agora é consultora de moda — disparou Sara, apontando para Eduarda. — E teve a audácia de dizer que o meu guarda-roupa é brega! Dá para acreditar?

Emanuel olhou para Sara, depois para Eduarda, que permanecia abraçada ao seu vestido azul, com o queixo levemente erguido. Ele viu a pequena mudança na postura de Eduarda — ela não estava mais encolhida, não estava mais buscando refúgio. Estava defendendo seu território.

— Ela disse isso? — Emanuel perguntou, um meio sorriso começando a surgir nos cantos de seus lábios.

— Disse! — exclamou Sara. — Eu estava tentando salvar ela de passar vergonha amanhã com esse trapo azul, e ela me atacou.

Emanuel caminhou lentamente para dentro do closet. Ele parou atrás de Eduarda, colocando as mãos grandes em seus ombros. O toque era possessivo, como sempre, mas ele sentiu a firmeza no corpo dela.

— E você, pequena? — ele perguntou, inclinando a cabeça para perto do ouvido de Eduarda. — O que você tem a dizer sobre isso?

Eduarda inclinou a cabeça para trás, encontrando o olhar de Emanuel através do espelho.

— Eu só disse a verdade, Manu. Eu amo a Sara, mas eu não sou ela. Eu quero usar o que eu gosto. Eu quero me sentir eu mesma, e não uma versão miniatura dela. Eu comprei esse vestido porque ele me faz sentir bonita para você. Não para os flashes.

Emanuel olhou para o vestido azul nas mãos dela. Para ele, Eduarda ficaria linda até se usasse um saco de estopa, mas ele entendia o que estava em jogo ali. Era a autonomia dela dentro daquela tríade.

— Sara — disse Emanuel, sem tirar os olhos de Eduarda pelo espelho. — Deixe ela em paz.

— O quê? — Sara quase gritou. — Emanuel, você sabe que eu estou certa!

— Você está certa sobre o que funciona para você, Sara — Emanuel virou-se levemente para a loira, sua voz assumindo aquele tom de autoridade que encerrava qualquer discussão. — Mas a Eduarda tem razão. Eu não a trouxe para cá para ser uma cópia sua. Eu a trouxe porque ela é o oposto de tudo o que este mundo é. Se ela quer usar azul, ela vai usar azul. Se ela acha o seu estilo exagerado, isso é uma opinião dela, e ela tem o direito de ter.

Sara soltou um som de indignação, mas sabia que, quando Emanuel falava naquele tom, a conversa estava encerrada. Ela olhou para Eduarda, que lhe deu um sorriso tímido, porém vitorioso.

— Ótimo — resmungou Sara, caminhando em direção à saída do closet. — Depois não venha chorar quando ninguém notar você na festa. E se você aparecer com um laço no cabelo, eu finjo que não te conheço.

Sara saiu batendo os saltos, claramente ofendida, mas Emanuel sabia que em uma hora ela estaria de volta, agindo como se nada tivesse acontecido, provavelmente planejando uma forma de ofuscar a todos com um vestido ainda mais chamativo para compensar o comentário de Eduarda.

Quando ficaram sozinhos, Emanuel puxou Eduarda para mais perto, envolvendo-a em um abraço completo.

— Você foi corajosa — sussurrou ele, beijando o topo da cabeça dela. — Chamá-la de brega foi um golpe baixo, sabia? Ela vai remoer isso por um mês.

Eduarda riu baixinho, escondendo o rosto no peito dele.

— Eu não queria ser má, Manu. Mas ela não parava de me pressionar. Eu precisava que ela entendesse que eu tenho os meus próprios gostos.

— Eu sei — ele disse, segurando o queixo dela e forçando-a a olhar para ele. — E eu gosto disso. Gosto que você esteja começando a mostrar as garras. Só não as use contra mim, pequena.

— Com você eu prefiro ser manhosa — ela respondeu, passando os braços pela cintura dele e se aninhando. — Mas eu vou usar o meu vestido azul amanhã. Você promete que vai me achar bonita?

Emanuel sorriu, um sorriso raro e genuíno que suavizava as linhas duras de seu rosto.

— Eduarda, eu te olharia em uma sala cheia de diamantes e ainda assim só veria você. O azul vai ser perfeito.

Eduarda suspirou de alívio. A transição para a vida na mansão estava sendo feita de pequenas batalhas como aquela. Ela estava aprendendo que, para viver sob o domínio de um homem como Emanuel e ao lado de uma mulher como Sara, ela precisava encontrar sua própria força silenciosa.

Naquela noite, enquanto Sara folheava revistas de moda com uma expressão emburrada na sala de estar e Emanuel terminava de revisar os contratos de Londres, Eduarda pendurou seu vestido azul no lugar de destaque do closet. Ela sabia que a convivência entre as duas ainda teria muitos atritos, mas, pela primeira vez, sentia que o seu espaço na casa — e na vida deles — não era apenas um presente concedido, mas um território conquistado por ela mesma.

Ela não seria uma cópia de Sara, nem apenas uma protegida de Emanuel. Ela seria Eduarda, a calmaria no centro da tempestade que era a vida deles. E, com essa certeza, ela finalmente sentiu que estava, de fato, em casa.