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O Véu do Medo e a Fúria do Protetor
A neblina se arrastava pelo asfalto da Serra das Almas como se fosse um ser vivo, serpenteando entre os troncos das árvores retorcidas. Dentro do carro de Bianca, o ar estava carregado de uma mistura de excitação juvenil e um terror latente que fazia os pelos dos braços de Eduarda se arrepiarem. Elas eram quatro: Bianca no volante, Eduarda no banco do carona, e duas amigas da faculdade, Mariana e Letícia, espremidas atrás entre risadinhas nervosas e lanternas de LED.
A lenda da Noiva Fantasma era o assunto do momento nos corredores de História da Arte. Diziam que, em noites de lua minguante, uma mulher vestida de seda branca e rendas apodrecidas vagava pelo mirante da serra, esperando por um noivo que nunca chegou. Para Eduarda, a história tinha um apelo romântico e melancólico que a fascinava; para as outras, era apenas a adrenalina de um desafio proibido.
— Bianca, tem certeza que é por aqui? — perguntou Eduarda, apertando as mãos pequenas sobre os joelhos. Ela usava um casaco de lã claro que a fazia parecer ainda mais delicada sob a luz fraca do painel. — Está ficando muito escuro. E se o carro quebrar?
— Relaxa, Duda! — Bianca deu um tapinha no ombro da amiga, embora seus próprios olhos estivessem fixos na estrada com uma concentração incomum. — O Emanuel nem sonha que estamos aqui. Ele acha que estamos em uma maratona de filmes de terror na minha casa.
O nome de Emanuel fez o estômago de Eduarda dar um nó. Ela sentia o peso da mentira. Emanuel era o seu porto seguro, mas também a sua sombra mais rigorosa. Se ele soubesse que ela estava se aventurando em uma estrada perigosa, conhecida por acidentes e pela presença de tipos suspeitos, ele perderia o controle.
— Olhem! Ali! — Letícia gritou do banco de trás, apontando para o acostamento onde a vegetação se abria para um precipício oculto pela névoa.
Bianca pisou no freio bruscamente. O carro derrapou levemente antes de parar. O silêncio que se seguiu foi absoluto, quebrado apenas pelo estalo do motor esfriando.
— Ali... na beira do mirante — sussurrou Mariana, a voz trêmula.
Eduarda colou o rosto no vidro frio. No início, viu apenas o cinza da neblina. Então, as nuvens se dissiparam por um segundo, revelando uma figura alta, envolta em um tecido que parecia brilhar com uma luz própria e doentia. Era um vestido longo, com um véu que flutuava ao sabor de um vento que elas não sentiam dentro do carro. A figura estava de costas, olhando para o abismo.
— Meu Deus... ela existe mesmo — murmurou Eduarda, os olhos grandes e expressivos transbordando um fascínio quase hipnótico. Ela não sentia medo naquele momento, apenas uma profunda empatia pela solidão daquela imagem.
— Vamos descer? — sugeriu Bianca, já com a mão na maçaneta.
— Você enlouqueceu? — Letícia recuou. — E se for um espírito mesmo? Ou pior, um assassino fantasiado?
Antes que pudessem decidir, a figura no mirante virou-se lentamente. Não havia rosto, apenas uma sombra profunda sob o véu. Ela levantou um braço, apontando diretamente para o carro delas. O pânico, que até então era uma faísca, explodiu em chamas.
— Sai daqui, Bianca! Acelera! — gritou Mariana.
Bianca não precisou de um segundo convite. Ela engatou a marcha à ré, os pneus cantando no asfalto molhado, e manobrou o carro com uma pressa desesperada, fugindo daquela visão enquanto as quatro garotas gritavam entre o pavor e a euforia do susto.
***
O retorno para a mansão dos pais de Emanuel deveria ter sido o fim da aventura, mas o destino tinha outros planos. Quando o carro de Bianca entrou no pátio, as luzes da varanda estavam acesas, e uma silhueta alta e imponente as esperava, encostada em um SUV preto de luxo.
Emanuel não parecia o homem calmo que Eduarda conhecia. Ele estava sem a jaqueta, apenas com uma camisa preta de botões com as mangas dobradas, revelando as tatuagens que subiam por seus antebraços. Sua postura era de uma rigidez absoluta. Ao lado dele, Sara observava a cena segurando uma taça de vinho, com um sorriso que misturava diversão e a consciência do desastre iminente.
Assim que as garotas desceram do carro, o silêncio de Emanuel foi mais aterrorizante do que o fantasma da serra.
— Onde vocês estavam? — A voz dele saiu baixa, mas carregada de uma vibração perigosa.
— Estávamos... em casa, Emanuel. Acabamos de sair para comprar lanches — mentiu Bianca, tentando manter a voz firme, mas falhando miseravelmente diante do olhar do irmão.
Emanuel caminhou até o carro e colocou a mão sobre o capô.
— O motor está fervendo. Vocês rodaram pelo menos cinquenta quilômetros. E eu liguei para a lanchonete da esquina, ninguém viu vocês lá — ele deu um passo em direção a Bianca, mas seus olhos, frios e cortantes, cravaram-se em Eduarda, que tentava se esconder atrás da amiga. — Eduarda. Venha aqui.
A garota estremeceu. O tom "manhoso" que ela costumava usar para desarmá-lo não funcionaria desta vez. Ela caminhou lentamente, de cabeça baixa, até parar diante dele.
— Nós fomos ver a noiva, Emanuel — confessou ela, a voz quase um sussurro. — Na Serra das Almas.
O estalo que Emanuel deu com a língua contra o céu da boca foi o único som antes de ele explodir.
— Vocês perderam a porra do juízo? — Ele não gritou, mas sua voz subiu de tom, carregada de uma fúria que fez as outras duas amigas se afastarem em direção ao portão. — Aquela estrada é um lixo! É perigosa, cheia de caminhoneiros embriagados e assaltantes. E vocês foram atrás de uma lenda idiota no meio da madrugada?
— Foi só uma brincadeira, Emanuel! — Bianca tentou intervir. — Estamos bem, não aconteceu nada.
— Não aconteceu nada porque vocês tiveram sorte! — Ele virou-se para a irmã com um olhar que a fez calar a boca instantaneamente. — Se o pneu fura? Se um bêbado acerta vocês? Eu teria que buscar o corpo de vocês em um necrotério por causa de uma "brincadeira"?
Sara se aproximou, balançando os quadris no vestido justo de seda champanhe. Ela parou ao lado de Emanuel e colocou a mão no ombro dele, um gesto de posse e, ao mesmo tempo, uma tentativa de mediar a tensão.
— Calma, querido. Elas são jovens, a cabeça é cheia de vento — Sara disse, lançando um olhar de soslaio para Eduarda. — Mas realmente, Duda... ir para a serra à noite? Você é tão miúda, qualquer brisa te leva. Emanuel quase teve um infarto quando percebeu que vocês não estavam no quarto.
Eduarda sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. A humilhação de ser repreendida na frente de Sara e das amigas era demais para sua sensibilidade.
— Por que você está com tanta raiva? — perguntou Eduarda, a voz embargada, finalmente levantando os olhos para ele. — Nós só queríamos ver algo diferente. Eu achei que você ficaria curioso, não... assim. Você está agindo como se eu tivesse cometido um crime.
Emanuel sentiu um aperto violento no peito. Ver os olhos de Eduarda brilhando com lágrimas sempre o desarmava, mas a raiva pela negligência dela era maior. Ele a queria segura, trancada em uma redoma onde nada pudesse tocá-la, e a ideia de que ela estivera em perigo real o deixava louco.
— Eu não estou curioso, Eduarda. Eu estou furioso porque você não tem noção do que o mundo pode fazer com alguém como você — ele disse, dando um passo para mais perto dela, ignorando a presença de Sara por um segundo. — Você é ingênua. Você acredita em fantasmas enquanto os verdadeiros monstros estão dirigindo ao seu lado naquelas estradas.
— Você está me sufocando! — Eduarda exclamou, deixando uma lágrima cair. — Você se mantém distante, mal fala comigo, me trata com frieza o tempo todo... e agora quer mandar no que eu faço com a minha melhor amiga? Você não é meu pai, Emanuel!
O silêncio que se seguiu foi pesado. Bianca arregalou os olhos. Ninguém falava assim com Emanuel.
Ele estreitou os olhos, a mandíbula tão tensa que os músculos do rosto saltavam.
— Não, eu não sou seu pai — ele respondeu, a voz perigosamente calma. — Mas eu sou o homem que garante que você tenha tudo o que precisa. Sou eu quem deixa os doces que você gosta na mesa. Sou eu quem vigia seus passos quando você acha que ninguém está olhando. Se eu sou frio, é para não perder a cabeça com a sua teimosia.
Sara soltou uma risadinha curta, achando a cena dramática demais.
— Chega de show, gente. Emanuel, deixe a menina. Ela já aprendeu a lição, veja como ela está tremendo. — Sara estendeu a mão e tocou o braço de Eduarda, um toque que parecia gentil, mas que carregava a autoridade de quem sabia que era a "mulher da casa". — Vá para dentro, Duda. Tome um banho quente. Amanhã o Emanuel já vai ter esquecido isso... ou vai descontar a raiva na academia.
Eduarda olhou de Sara para Emanuel. Ela sentiu uma pontada de ciúme e tristeza. Sara era tão resolvida, tão dona de si, enquanto ela se sentia uma criança perdida. Sem dizer mais nada, Eduarda deu as costas e correu para dentro da casa, o som de seus passos rápidos ecoando no hall.
Emanuel fez menção de ir atrás dela, mas Sara segurou seu braço com firmeza.
— Deixe-a — disse a loira, os olhos brilhando com uma inteligência astuta. — Ela precisa de um tempo para processar que o "protetor" dela também tem garras. E você... você precisa se acalmar antes de quebrar alguma coisa.
Emanuel respirou fundo, tentando controlar a pulsação acelerada. Ele olhou para a porta por onde Eduarda desaparecera e depois para Sara.
— Ela podia ter se machucado, Sara.
— Mas não se machucou — Sara deu de ombros, aproximando-se dele e colando o corpo escultural ao seu. — Ela é meiga, Emanuel, mas não é de porcelana. Embora eu saiba que você adoraria que ela fosse, só para poder guardá-la em uma prateleira.
Emanuel não respondeu. Ele passou o braço pela cintura de Sara, puxando-a para perto por puro instinto de busca de estabilidade, mas seus pensamentos estavam longe. Ele ainda conseguia ver o rastro de lágrimas no rosto de Eduarda.
***
Mais tarde naquela noite, a mansão estava em silêncio. No quarto de hóspedes, Eduarda estava encolhida na cama, olhando para o teto. Ela se sentia confusa. A raiva de Emanuel tinha sido desproporcional, mas, no fundo de sua mente intuitiva, ela sabia que não era apenas autoritarismo. Era medo.
Uma batida suave na porta a fez sentar-se rapidamente.
— Quem é? — perguntou, a voz rouca de tanto chorar.
A porta se abriu e Emanuel entrou. Ele não acendeu a luz, deixando apenas a claridade do corredor iluminar parte do quarto. Ele trazia um copo de água e um pequeno prato com dois macarons de pistache — os que haviam sobrado do último pacote.
Ele caminhou até a cama e deixou as coisas na mesa de cabeceira.
— Coma — disse ele, a voz agora desprovida de fúria, soando apenas exausta.
— Eu não quero — respondeu ela, abraçando os próprios joelhos. — Você foi horrível comigo lá fora.
Emanuel sentou-se na beirada da cama. O peso dele fez o colchão inclinar, e Eduarda, involuntariamente, deslizou para perto dele.
— Eu fui horrível porque eu imaginei o pior — ele confessou, olhando para as próprias mãos. — Você não entende, Eduarda. Quando Bianca me disse que vocês tinham saído e eu vi que o carro não estava... meu primeiro pensamento foi que algo tinha acontecido com você. E esse pensamento é insuportável para mim.
Eduarda sentiu o coração acelerar. Ela se aproximou um pouco mais, buscando a proximidade física que sempre a acalmava.
— Por que é insuportável? Você tem a Sara, você tem a sua vida... eu sou só a amiga da sua irmã.
Emanuel virou o rosto para ela. No escuro, seus olhos pareciam duas brasas negras. Ele estendeu a mão e tocou o rosto de Eduarda, o polegar acariciando a pele macia de sua bochecha com uma ternura que ele raramente se permitia mostrar.
— Você nunca foi "só" nada, Duda — ele sussurrou. — Você é a parte de mim que eu tento manter pura. Se algo acontece com você, eu perco o que me resta de humanidade.
Eduarda sentiu uma onda de emoção. Ela se inclinou para o toque dele, fechando os olhos.
— Então não seja tão frio — ela pediu, a voz manhosa voltando a aparecer. — Isso dói mais do que os seus gritos.
Emanuel suspirou, sentindo a fragilidade dela sob seus dedos. Ele queria beijá-la. Queria tomá-la nos braços e nunca mais soltar. Mas a imagem de Sara, esperando por ele no quarto principal, surgiu em sua mente. Ele amava Sara. Amava a força e a vulgaridade sofisticada dela, a forma como ela administrava sua vida e seu corpo. Mas o que sentia por Eduarda era uma fome diferente, uma necessidade de alma.
— Eu vou tentar — ele mentiu, sabendo que a distância era sua única proteção. — Agora, coma e durma. Se amanhã você tiver olheiras, eu vou saber que não descansou.
Ele se levantou, mas antes de sair, parou na porta.
— E Eduarda?
— Sim?
— Se quiser ver algo "diferente" de novo... me peça. Eu levo você. Não ouse ir a lugar nenhum perigoso sem mim novamente. É uma ordem.
Ela assentiu, um pequeno sorriso surgindo em seus lábios.
— Sim, Emanuel.
Quando ele saiu, Eduarda pegou um dos doces. Ela se sentia protegida, mas também mais apaixonada do que nunca. Ela não sabia como aquela dinâmica funcionaria a longo prazo, mas, por enquanto, saber que a fúria dele era apenas um disfarce para o cuidado era o suficiente para que ela pudesse dormir em paz.
No corredor, Emanuel encostou a cabeça na parede por um momento, fechando os olhos. Ele queria as duas. E, vendo a forma como Sara reagira hoje — com aquela aceitação quase divertida e sem o menor sinal de ameaça —, ele começou a perceber que talvez não precisasse escolher. Sara era a rainha de seu império, mas Eduarda era a princesa de seu coração secreto. E ele seria o guardião impiedoso de ambas.