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O Refúgio de Vidro e a Dança das Sombras

A viagem para a casa de campo da família de Emanuel, encravada em um vale isolado onde o sinal de celular era uma lenda urbana e o ar cheirava a pinheiro e terra molhada, deveria ser um retiro de paz. Para Emanuel, era a chance de consolidar seu domínio sobre as duas mulheres que ocupavam seus pensamentos; para Sara, era um feriado de luxo com vinho caro e a chance de observar o "aquário" humano que ela tanto apreciava; mas para Eduarda, era uma armadilha emocional.

Desde o incidente na Serra das Almas e a conversa sussurrada no escuro do quarto, Eduarda sentia que o chão sob seus pés havia se tornado instável. O toque de Emanuel em seu rosto ainda queimava em sua memória, mas a presença constante e exuberante de Sara ao lado dele servia como um balde de água gelada em suas fantasias. Ela decidiu, antes mesmo de entrarem no SUV preto de Emanuel, que manteria distância. Se ele queria ser frio, ela seria invisível.

— Duda, querida, você está tão quieta aí atrás — comentou Sara, virando-se no banco do carona. Ela usava óculos escuros de grife e um lenço de seda amarrado no cabelo loiro perfeitamente escovado. — Está pensando no fantasma da serra ou no sermão que o Emanuel te deu?

Eduarda, encolhida no banco de trás ao lado de Bianca, forçou um sorriso tímido.

— Só estou com um pouco de sono, Sara. A faculdade tem sido cansativa.

Emanuel, cujas mãos grandes apertavam o volante com uma firmeza desnecessária, olhou pelo retrovisor. Seus olhos encontraram os de Eduarda por um segundo, um flash de intensidade que a fez desviar o olhar imediatamente para a paisagem que passava pela janela.

— Ela precisa descansar — disse Emanuel, sua voz profunda preenchendo o espaço interno do carro. — Por isso viemos para cá. Sem festas, Bianca. Sem aventuras na floresta.

— Sim, senhor, capitão — ironizou Bianca, revirando os olhos. — Você está agindo como se tivéssemos dez anos de idade.

— Se agirem como se tivessem dez anos, serão tratadas como tal — retrucou ele, o tom de autoridade não deixando espaço para réplicas.

Ao chegarem à propriedade, a imponência da casa de campo — uma construção de madeira nobre e vidro que se integrava à natureza — trouxe um alívio momentâneo. Eduarda foi a primeira a descer, pegando sua mochila pequena e caminhando apressadamente em direção à varanda, tentando evitar que Emanuel a ajudasse com a bagagem.

— Eu levo isso, Eduarda — disse ele, aproximando-se por trás. O cheiro de seu perfume, uma mistura de tabaco e sândalo, a envolveu.

— Não precisa, Emanuel. Está leve — respondeu ela, sem olhar para trás, quase correndo para dentro da casa.

Emanuel parou no meio do caminho, estreitando os olhos. Ele não estava acostumado a ser evitado, muito menos por ela. Sara, descendo do carro com sua elegância provocante, soltou uma risada baixa ao passar por ele.

— Parece que a sua coisinha meiga está te dando um gelo, querido — provocou ela, ajustando o decote do vestido justo. — Talvez você tenha sido um ogro demais na outra noite.

— Eu fiz o que era necessário para protegê-la — resmungou ele, pegando as malas restantes.

— Claro que sim — disse Sara, dando um tapinha no rosto dele. — Mas cuidado para não apertar passarinho demais, ou ele acaba fugindo da gaiola. Eu vou escolher o melhor quarto. Aquele com a banheira de hidromassagem voltada para o vale.

Durante a tarde, o jogo de gato e rato se intensificou. Eduarda buscou refúgio na biblioteca da casa, um mezanino repleto de livros antigos sobre arte e botânica. Ela se sentou em uma poltrona de veludo, escondida atrás de uma estante, esperando que o silêncio a protegesse. Mas o silêncio na casa de Emanuel nunca era vazio; era sempre carregado de sua presença.

O som de passos firmes na madeira anunciou sua chegada. Eduarda prendeu a respiração, focando os olhos em uma gravura de um jardim renascentista, embora as letras estivessem dançando diante de seus olhos.

— Bianca disse que você não desceu para o lanche — disse Emanuel. Ele estava parado na entrada do mezanino, a luz do sol poente criando uma aura ao redor de seu corpo robusto.

— Eu não estava com fome — respondeu ela, a voz saindo pequena e trêmula.

Emanuel caminhou até ela, parando a poucos passos de distância. Ele observou a forma como ela se encolhia, como se tentasse ocupar o menor espaço possível no mundo. Aquela fragilidade o irritava e o fascinava na mesma medida.

— Você está fugindo de mim, Eduarda. Por quê?

Ela finalmente levantou os olhos, a ingenuidade e a mágoa lutando em seu olhar.

— Eu não estou fugindo. Só estou... seguindo as suas regras. Você disse que é frio para manter as coisas no lugar. Estou ajudando você a manter as coisas no lugar, Emanuel.

Emanuel sentiu um golpe no estômago. Suas próprias palavras sendo usadas contra ele. Ele deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela.

— Eu disse que sou frio, não que sou indiferente. Há uma diferença.

— Para mim parece a mesma coisa — sussurrou ela, fechando o livro com força e tentando se levantar.

Ele bloqueou o caminho dela, colocando as mãos nos braços da poltrona, cercando-a. Eduarda sentiu o calor que emanava dele, a força controlada que parecia pronta para explodir a qualquer momento.

— Não me enfrente, Eduarda. Você sabe que eu não tenho paciência para esses seus jogos de esquiva.

— Então me deixe ir! — ela pediu, a voz manhosa subindo de tom pela primeira vez. — Vá ficar com a Sara. Ela é quem você ama, ela é quem sabe lidar com você. Eu sou só... a menina que se mete em encrenca.

Emanuel inclinou o rosto, ficando a centímetros do dela. Ele podia ver cada detalhe de seu rosto sensível, a leve trepidação em seus lábios.

— Eu amo a Sara — afirmou ele, a voz rouca. — Ela é minha parceira, minha força. Mas você... você é outra coisa. Você é o que eu quero proteger do mundo, inclusive de mim mesmo. Mas se você continuar fugindo, eu vou parar de ser paciente.

— E vai fazer o quê? — desafiou ela, embora suas pernas estivessem tremendo.

Emanuel não respondeu com palavras. Ele apenas a encarou por um longo tempo, um olhar que parecia despir sua alma, antes de se afastar abruptamente.

— O jantar será servido em uma hora. Use algo quente, a temperatura vai cair.

Ele saiu da biblioteca sem olhar para trás, deixando Eduarda com o coração martelando contra as costelas.

O jantar foi uma prova de resistência. A mesa estava posta com requinte, e Sara brilhava em um conjunto de malha dourada que realçava cada curva de seus seios siliconados e sua cintura fina. Ela falava sobre a nova expansão dos estúdios em Berlim, discutindo logística e orçamentos com Emanuel como se fossem generais planejando uma invasão.

Eduarda mal tocava na comida, sentindo-se uma intrusa em uma vida que ela não pertencia. Bianca tentava puxar conversa sobre a faculdade, mas Eduarda estava sintonizada apenas na tensão que vibrava entre ela e o homem na cabeceira da mesa.

— Você está tão pálida, Duda — comentou Sara, servindo-se de mais vinho. — Emanuel, você está sobrecarregando a menina com essa sua cara de poucos amigos. Deixe-a respirar. Quer um pouco de vinho, querida? Ajuda a soltar a língua.

— Não, obrigada, Sara. Eu não bebo muito — respondeu Eduarda educadamente.

— Que desperdício — riu Sara, olhando para Emanuel com um brilho malicioso. — Você gosta de coisas puras, não é, querido? Mas às vezes um pouco de pecado faz bem para a alma.

Emanuel não sorriu. Ele observava Eduarda, que mantinha os olhos fixos no prato.

— Eduarda gosta de momentos simples, Sara. Ela não precisa de artifícios para se destacar — disse ele, um elogio que soou como uma posse territorial.

Sara não pareceu ofendida. Pelo contrário, ela achava a dinâmica fascinante. Ela sabia que Emanuel a amava, sabia que era ela quem ocupava o lugar de autoridade em sua vida, mas via a obsessão dele por Eduarda como uma extensão de sua personalidade controladora. Para Sara, ter Eduarda por perto era como ter uma joia delicada que Emanuel guardava para os momentos de introspecção.

— Bom, eu vou para a hidromassagem — anunciou Sara, levantando-se e deixando um beijo rápido e possessivo nos lábios de Emanuel. — Você vem depois?

— Em breve — respondeu ele, embora seus olhos não tivessem deixado Eduarda.

Assim que Sara e Bianca saíram da sala, o silêncio caiu como uma cortina pesada. Eduarda se levantou imediatamente, mas Emanuel foi mais rápido. Ele a segurou pelo pulso quando ela tentou passar por ele. Não foi um aperto doloroso, mas era inegociável.

— Me solta, Emanuel.

— Por que você está fazendo isso? — ele perguntou, a voz carregada de uma tensão acumulada. — Fugir de mim no estúdio é uma coisa. Aqui, nesta casa, não há para onde ir.

— Eu só quero paz — disse ela, as lágrimas finalmente começando a descer. — Eu não aguento ver como você olha para ela e depois olha para mim. Eu não sou um objeto de estudo, Emanuel. Eu sinto coisas. Eu sofro.

Emanuel a puxou para mais perto, forçando-a a encostar o corpo no seu. A diferença de estatura e porte era esmagadora. Eduarda se sentia pequena, frágil, mas o calor dele era o único lugar onde ela queria estar.

— Você acha que eu não sofro? — ele rosnou baixo, perto de seu ouvido. — Você acha que é fácil manter o controle quando eu vejo você andando por aí com esse ar de quem não sabe o poder que tem sobre mim? Eu quero você, Eduarda. Do meu jeito, sob as minhas condições.

— E a Sara? — ela soluçou.

— A Sara não se importa. Ela sabe quem ela é para mim. A pergunta é: você sabe quem você é para mim?

Eduarda balançou a cabeça, as lágrimas molhando a camisa dele.

— Eu sou a amiga da sua irmã. A menina ingênua que você resgata das estradas.

Emanuel soltou o pulso dela, mas apenas para envolver sua cintura com os dois braços, prendendo-a contra si em um abraço protetor e possessivo.

— Você é a minha paz — sussurrou ele, enterrando o rosto no pescoço dela, inalando o cheiro natural de sabonete e juventude que ela exalava. — E eu nunca deixo minha paz ir embora.

Eduarda não conseguiu lutar mais. Ela se apoiou nele, escondendo o rosto em seu peito, sentindo as batidas fortes do coração de Emanuel. Era um ritmo caótico, muito diferente da frieza que ele tentava projetar.

— Você é mau — sussurrou ela, as mãos agarrando a camisa dele.

— Eu sou prático — corrigiu ele, afastando-se apenas o suficiente para olhar no fundo dos olhos dela. — E a minha lógica diz que eu não preciso escolher se eu puder ter as duas. Sara aceita isso porque ela é forte o suficiente para não ser diminuída. Você aceita isso porque sabe que ninguém no mundo vai cuidar de você como eu.

Eduarda queria protestar, queria dizer que ela merecia ser a única, mas a verdade é que ela estava terrivelmente apaixonada por aquele homem controlador e complexo. E o cuidado dele, embora às vezes sufocante, era o que a mantinha inteira.

— Vá para o seu quarto — ordenou ele, sua voz voltando ao tom de autoridade, mas com uma suavidade que não existia antes. — Amanhã vamos caminhar até o lago. Só nós dois. Sem a Bianca, sem a Sara.

— Você vai contar para ela? — perguntou Eduarda, temerosa.

— Sara já sabe, Eduarda. Ela sempre sabe.

Eduarda subiu as escadas com o coração aos saltos. Ao passar pelo quarto principal, a porta estava entreaberta. Ela viu Sara sentada na frente da penteadeira, removendo a maquiagem. A loira viu o reflexo de Eduarda no espelho e sorriu. Não era um sorriso de escárnio, mas um de boas-vindas.

— Durma bem, Duda — disse Sara, a voz melodiosa. — O ar da montanha faz maravilhas para a pele. E para o coração também.

Eduarda apressou o passo, entrando em seu quarto e fechando a porta. Ela se deitou na cama, sentindo o peso daquela nova realidade. Ela estava fugindo de Emanuel, mas percebeu que, naquela casa de vidro e madeira, todos os caminhos levavam de volta a ele.

Lá embaixo, Emanuel permanecia na sala escura, observando as brasas na lareira. Ele era um homem que construíra um império com traços de tinta e decisões racionais, mas ali, no silêncio da noite, ele sabia que a tatuagem mais profunda que já fizera não estava na pele de ninguém, mas em sua própria alma. Ele queria as duas. A força e a doçura. O fogo e a paz. E ele usaria cada grama de seu poder para garantir que nenhuma delas jamais escapasse de seu domínio.

A viagem estava apenas começando, e a casa de campo, que deveria ser um refúgio, estava se tornando o palco de uma união pouco convencional, onde o amor não seguia regras, mas sim a vontade inabalável de um homem que se recusava a perder.