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Vínculos de Sangue e Seda
A luz da manhã na montanha era de um azul pálido e gélido, filtrando-se entre as copas das árvores como lanças de cristal. Eduarda caminhava com dificuldade, seus pés pequenos em botas de trilha que pareciam pesadas demais para sua estrutura esguia. Ao seu lado, Bianca avançava com uma energia inesgotável, movida por aquela impulsividade que sempre as colocava em situações complicadas.
— Bianca, devíamos voltar — murmurou Eduarda, parando para retomar o fôlego. O ar rarefeito da altitude fazia seus pulmões arderem levemente. — O Emanuel disse que íamos ao lago juntos. Ele vai ficar furioso se acordar e não nos encontrar.
— Ah, Duda, deixe de ser medrosa! — Bianca riu, saltando sobre um tronco caído com agilidade. — Meu irmão é um controlador nato, mas ele não é o dono do mundo. Além disso, a trilha do Mirante das Águias é curta. Estaremos de volta antes mesmo de a Sara terminar de passar o corretivo nas olheiras.
Eduarda olhou para trás, para o caminho que já haviam percorrido. A casa de campo era agora apenas um ponto distante e luxuoso no vale. Ela sentia um pressentimento ruim, uma vibração na boca do estômago que nunca falhava. Emanuel não era apenas um homem preocupado; ele era um homem que exigia obediência como forma de amor. E ela, em sua timidez e vontade de agradar, estava quebrando a regra de ouro: nunca sair sem o seu conhecimento.
— Vamos logo, então — cedeu Eduarda, apertando o cardigã contra o corpo.
A trilha, no entanto, não era tão curta quanto Bianca imaginava. Um desvio mal sinalizado e uma subida mais íngreme do que o esperado transformaram o passeio de quarenta minutos em uma jornada de três horas. Quando finalmente atingiram o mirante, a vista era de tirar o fôlego, mas o sol já estava alto no céu, e o pânico começava a nublar a visão de Eduarda.
— Temos que descer. Agora — disse Eduarda, a voz firme pela primeira vez.
A descida foi silenciosa e tensa. Quando os portões de madeira da propriedade finalmente surgiram diante delas, o SUV de Emanuel não estava na garagem. Ele estava atravessado no meio do pátio, com a porta do motorista aberta.
Emanuel estava parado no centro do gramado. Sua postura era a de um predador que acabara de localizar a presa. Ele não usava camisa, apenas uma calça de moletom cinza, e a luz do sol batia em suas tatuagens, fazendo-as parecer vivas sobre os músculos retesados. Ao longe, na varanda, Sara observava a cena em silêncio, fumando um cigarro fino, sua expressão era de uma neutralidade calculada.
— Onde. Vocês. Estavam? — A voz de Emanuel não foi um grito. Foi um rosnado baixo, vibrando com uma fúria que fez os pássaros das árvores próximas levantarem voo.
— Emanuel, foi minha ideia, eu só queria mostrar o mirante para a Duda e... — Bianca começou, mas o irmão levantou a mão, um gesto tão brusco que ela se calou imediatamente.
— Para dentro, Bianca. Agora. E não saia do seu quarto até que eu mande — ordenou ele.
— Mas Emanuel...
— AGORA! — Ele rugiu, e Bianca, percebendo que o irmão havia cruzado uma linha perigosa de estresse, obedeceu, lançando um olhar de desculpas para Eduarda antes de correr para a casa.
Eduarda ficou sozinha diante dele. Ela se sentia minúscula. O suor da trilha grudava alguns fios de cabelo castanho em seu rosto pálido, e seus olhos grandes estavam marejados de puro terror.
— Emanuel, por favor... — ela começou, a voz manhosa e trêmula.
Ele caminhou até ela com passos pesados. Antes que ela pudesse recuar, ele a agarrou pelo braço, não com a ternura de costume, mas com uma força que a fez soltar um ganido de dor.
— Eu disse para você não ir a lugar nenhum sem mim — ele disse, o rosto a centímetros do dela, os olhos negros de uma raiva possessiva. — Eu disse que levaria você. Eu passei duas horas procurando por vocês na mata, achando que tinham caído em um desfiladeiro ou que algum desgraçado as tinha encontrado.
— Foi só uma trilha... — ela soluçou.
— Para você é sempre "só" alguma coisa! — Ele a puxou em direção à entrada lateral da casa, que levava diretamente ao seu escritório e suíte privativa. — Você não tem noção do que eu sinto quando não sei onde você está. Você é minha, Eduarda. E você vai aprender a nunca mais me desobedecer dessa forma.
Ele a empurrou para dentro do quarto e trancou a porta. O som da chave girando foi como um tiro no silêncio. Emanuel estava descontrolado. O estresse acumulado dos estúdios, a pressão de manter tudo sob controle e o medo visceral de perder a pureza que Eduarda representava explodiram em uma necessidade sombria de domínio.
Ele a jogou sobre a cama de casal. Eduarda tentou se sentar, mas ele subiu sobre ela, prendendo seus pulsos acima da cabeça com apenas uma das mãos.
— Emanuel, você está me assustando — ela chorou, o corpo esguio tremendo sob o peso dele.
— É para estar assustada — ele sibilou. — Talvez assim você entenda que eu não sou um brinquedo, Eduarda. Eu sou o homem que decide o que acontece com você.
Ele não ouviu os apelos dela. Sua fúria era cega. Emanuel a beijou com uma violência que cortou o lábio dela, um beijo que não pedia permissão, mas que reivindicava território. Suas mãos, antes cuidadosas, agora rasgavam o cardigã leve dela. Ele a queria, precisava marcar nela a lição de que ele era o seu dono.
Quando ele se livrou das próprias roupas e afastou a saia dela, Eduarda estava em prantos, um choro silencioso de quem não entende como o seu protetor se tornara seu agressor.
— Por favor, não... eu nunca... — ela tentou dizer, mas Emanuel estava perdido em sua própria escuridão.
Ele entrou nela com uma força bruta, impulsionado pela possessividade e pela adrenalina da raiva. O grito que escapou da garganta de Eduarda foi agudo e carregado de uma dor que ele nunca pretendera causar. O sangue da virgindade dela manchou os lençóis brancos, um contraste violento com a pele clara da garota.
Emanuel continuou por alguns segundos, focado em sua própria necessidade de punição e posse, até que o som do choro dela — um som quebrado, de alguém que acabara de ser destruído — finalmente perfurou a névoa de sua fúria.
Ele parou abruptamente. Seus olhos focaram no rosto de Eduarda. Ela estava com os olhos fechados, o rosto vermelho de tanto chorar, e pequenos soluços sacudiam seu corpo. Ele olhou para baixo e viu o sangue. Viu as marcas de seus dedos nos pulsos dela.
O choque o atingiu como um raio. O monstro que assumira o controle recuou, deixando apenas o homem que a amava desesperadamente.
— Duda? — ele chamou, a voz falhando, agora carregada de um horror súbito.
Ela não respondeu. Apenas continuou a chorar, encolhendo-se o máximo que podia, como se tentasse desaparecer no colchão.
— Meu Deus... o que eu fiz? — Emanuel se afastou dela, caindo sentado na beira da cama, cobrindo o rosto com as mãos. O silêncio do quarto era agora preenchido pelo som devastador do sofrimento dela. — Eduarda, me perdoa... me perdoa, por favor.
Ele se aproximou novamente, mas desta vez seus movimentos eram lentos, quase hesitantes. Ele tentou tocar o ombro dela, mas ela estremeceu violentamente.
— Não me toque — ela sussurrou, a voz quebrada.
— Eu perdi o controle, eu... eu estava com tanto medo de te perder naquela mata que eu enlouqueci — ele disse, as lágrimas agora surgindo em seus próprios olhos. Emanuel, o homem de gelo, o tatuador rico e poderoso, estava desmoronando. — Por favor, olhe para mim. Duda, eu te amo. Eu nunca quis te machucar, nunca.
Ele insistiu, com uma paciência desesperada, até que conseguiu puxá-la para o seu colo. No início, ela ficou rígida, mas o calor familiar dele e o som de seu coração batendo de forma errática começaram a quebrar sua resistência. Ela enterrou o rosto no pescoço dele e chorou tudo o que estava guardado: o medo da trilha, a dor da perda da inocência e a confusão de amar alguém que podia ser tão cruel.
— Dói — ela murmurou contra a pele dele.
— Eu sei, meu anjo. Eu sei. Eu sou um monstro — ele sussurrou, beijando o topo da cabeça dela, embalando-a como se ela fosse uma criança. — Eu vou cuidar de você. Eu prometo que nunca mais, em toda a minha vida, eu vou levantar a voz ou a mão para você dessa forma.
Ele a levou para o banheiro anexo. Com uma delicadeza extrema, Emanuel preparou uma banheira com água morna. Ele a despiu com as mãos trêmulas, tratando-a como se ela fosse feita de vidro soprado. Ele a lavou, limpando o sangue e o suor com uma esponja macia, murmurando palavras de conforto e promessas de proteção eterna.
Eduarda, em seu estado de choque e exaustão, deixou-se cuidar. Ela precisava daquele Emanuel — o homem que comprava seus doces, o homem que a observava de longe com zelo.
Quando voltaram para a cama, os lençóis haviam sido trocados por ele em um momento de silêncio. O quarto estava na penumbra da tarde. Emanuel deitou-se ao lado dela, puxando o edredom sobre ambos.
— Duda... — ele começou, olhando-a nos olhos. — Eu quero te mostrar que eu posso ser o homem que você merece. Não o animal que você viu hoje.
Desta vez, não houve pressa. Não houve raiva. Emanuel começou a beijá-la com uma suavidade que parecia um pedido de desculpas em forma de toque. Seus lábios percorreram o rosto dela, as pálpebras, a ponta do nariz, até encontrarem a boca dela em um beijo doce, com gosto de arrependimento e promessa.
Suas mãos agora mapeavam o corpo de Eduarda com uma reverência quase religiosa. Ele tocava cada curva, cada centímetro de pele, como se estivesse tatuando a memória de sua suavidade em seu próprio ser. Quando ele se moveu para ficar entre as pernas dela novamente, foi com uma lentidão infinita.
— Diga-me se doer — ele pediu, a voz rouca de emoção. — Diga-me para parar e eu paro.
— Não pare — ela sussurrou, buscando o calor dele. Ela precisava que aquela memória substituísse a anterior. Ela precisava sentir que ele a amava, não apenas que a possuía.
Emanuel entrou nela novamente, mas desta vez foi uma dança de almas. Cada movimento era calculado para dar prazer a ela, para curar a ferida que ele mesmo abrira. Eduarda soltou um suspiro longo, as mãos se cravando nas costas tatuadas dele, não mais por dor, mas por uma entrega absoluta.
Eles fizeram amor com uma calma que parecia parar o tempo. Foi um ato de reconciliação, onde a força bruta de Emanuel se transformou em uma proteção absoluta e a fragilidade de Eduarda se tornou sua maior força, pois era ela quem detinha o perdão que ele tanto buscava.
Quando terminaram, exaustos e suados, Eduarda adormeceu com a cabeça no peito dele. Emanuel permaneceu acordado, observando-a. Ele sabia que algo havia mudado para sempre. O segredo que ele guardava — o desejo de ter as duas mulheres — agora tinha um peso real, uma responsabilidade que ele quase destruíra.
Houve uma batida leve na porta.
— Emanuel? — Era a voz de Sara, baixa e controlada.
Ele se levantou com cuidado para não acordar Eduarda e caminhou até a porta, abrindo apenas uma fresta. Sara estava lá, ainda com sua taça de vinho, observando-o com aqueles olhos que pareciam ler através de paredes. Ela viu o estado dele, viu a marca de lágrima em seu rosto e o olhar de devoção que ele lançava para a cama.
— Você a quebrou? — perguntou Sara, sem julgamento, apenas com uma curiosidade prática.
— Eu quase quebrei — confessou ele, a voz baixa. — Mas eu a recuperei.
Sara assentiu, bebendo um gole do vinho.
— Ela é doce demais para o seu temperamento, querido. Mas eu suponho que é por isso que você precisa de mim para equilibrar as coisas. Vá descansar. Eu já disse para a Bianca que vocês estão resolvendo "assuntos administrativos".
— Obrigado, Sara — disse ele, sinceramente.
— Não me agradeça. Apenas garanta que ela esteja inteira para o café da manhã. Eu não gosto de ver coisas bonitas estragadas.
Emanuel fechou a porta e voltou para a cama. Ele puxou Eduarda para perto, sentindo o cheiro de lavanda que parecia emanar da pele dela mesmo depois de tudo. Ele a amava. Amava Sara por sua compreensão implacável e amava Eduarda por sua vulnerabilidade curativa.
Ele decidiu, naquele momento, que o mundo poderia pensar o que quisesse. Ele seria o muro ao redor de Eduarda e o parceiro de aço de Sara. Ele seria o senhor daquele império de sentimentos complexos, e nunca mais deixaria que sua própria fúria colocasse em risco o equilíbrio frágil que ele levara tanto tempo para construir.
Eduarda se mexeu durante o sono, murmurando o nome dele. Emanuel apertou o abraço, fechando os olhos. O jogo havia mudado; a posse agora era acompanhada por uma promessa de redenção. E ele faria de tudo para ser o homem que ambas precisavam, custasse o que custasse.