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O Santuário de Vidro sob Assalto

O silêncio da Serra da Mantiqueira era, geralmente, o bálsamo que Emanuel buscava para aplacar o estresse de gerenciar um império de tatuagens e investimentos que não parava de crescer. Um ano havia se passado desde que a dinâmica entre ele, Sara e Eduarda se consolidara sob o mesmo teto. Eduarda, agora com vinte e um anos, desabrochara em sua faculdade de História da Arte, mas continuava sendo a mesma criatura doce, manhosa e dependente que Emanuel sentia necessidade vital de proteger. Sara, por sua vez, permanecia como sua rocha administrativa e sua parceira de fogo, a mulher que não apenas aceitara a presença de Eduarda, mas que passara a vê-la como uma extensão preciosa da família que haviam construído de forma tão pouco convencional.

Emanuel aprendera a lição do passado. Ele não era mais o homem que usava a força bruta contra a fragilidade de Eduarda; ele se tornara seu santuário. Ele era o provedor que comprava seus livros raros e seus doces favoritos, e o amante que a envolvia com uma paciência infinita. Com Sara, ele dividia as decisões de poder, o luxo e o sexo voraz. Ele tinha tudo o que queria.

Naquela noite, a casa de campo estava cheia. Emanuel convidara dois casais de amigos próximos, também do meio artístico e empresarial, para um final de semana de vinhos e tranquilidade. O jantar fora impecável, regado a risadas e à presença vibrante de Sara, que ostentava um vestido de seda dourada que realçava suas curvas e sua confiança inabalável. Eduarda, sentada ao lado de Emanuel, usava um vestido de lã leve em tom de creme, mantendo sua mão pequena sempre próxima à dele, buscando aquele contato físico que a mantinha segura.

— Você está muito quieta, Duda — comentou Sara, sorrindo enquanto girava a taça de vinho. — Está pensando na prova de iconografia ou no fato de que o Emanuel prometeu te levar para ver as estrelas no telescópio?

— Um pouco dos dois — respondeu Eduarda, com um sorriso tímido, encostando a cabeça no ombro de Emanuel. — O ar daqui me deixa com preguiça.

Emanuel beijou o topo da cabeça dela, sentindo o perfume natural de baunilha que ela exalava.

— Ela merece a preguiça — disse Emanuel, sua voz profunda e calma. — Estudou a semana inteira. Amanhã teremos um dia sem horários.

O clima de paz, porém, foi estilhaçado de forma súbita. O som de vidro temperado explodindo na sala de estar ecoou como um tiro de canhão pelo corredor. Emanuel reagiu instantaneamente. Seus anos de experiência lidando com o lado mais duro da vida nas ruas, antes do sucesso, trouxeram seus instintos de volta à superfície em milésimos de segundo.

— Para o chão! Agora! — rugiu Emanuel, empurrando Eduarda para baixo da mesa de carvalho maciço e puxando Sara pelo braço.

Antes que os convidados pudessem processar o que estava acontecendo, cinco homens armados, usando balaclavas e roupas escuras, invadiram a sala de jantar. O brilho frio dos canos das pistolas e fuzis automáticos contrastava com o luxo do ambiente.

— Ninguém se mexe! — gritou um dos invasores, um homem alto cuja voz carregava um sotaque carregado e agressivo. — Se alguém gritar, a mesa vai virar um necrotério!

Eduarda soltou um soluço sufocado, encolhendo-se em posição fetal sob a mesa, as mãos cobrindo os ouvidos. O medo era uma presença física que a paralisava. Sara, embora pálida, mantinha o queixo erguido e os olhos fixos em Emanuel, buscando o comando dele.

Emanuel se colocou à frente da mesa, protegendo o acesso ao lugar onde Eduarda estava escondida. Sua postura era de uma rigidez absoluta, os músculos dos braços tatuados saltando sob a luz dos candelabros. Ele estava desarmado, mas sua presença emanava uma periculosidade que fez os invasores hesitarem por um breve momento.

— O que vocês querem? — perguntou Emanuel, a voz tão fria que parecia vir de outro mundo. — Dinheiro? Joias? Eu tenho um cofre no escritório. Levem o que quiserem e saiam da minha casa.

— Sabemos quem você é, Emanuel — disse o líder, aproximando-se com a arma em riste. — Sabemos quanto você vale. O cofre é só o começo. Queremos as transferências internacionais. E queremos diversão.

O homem olhou para Sara, um olhar lascivo que fez o sangue de Emanuel ferver.

— Essa loira aí... ela vale um bom resgate, não vale? Ou talvez a morena que está escondida ali embaixo?

Ao ouvir a menção a Eduarda, Emanuel deu um passo à frente, ignorando a arma apontada para seu peito.

— Se você encostar um dedo nelas — sibilou Emanuel, cada palavra saindo como uma promessa de morte —, eu juro que não haverá lugar no mundo onde você possa se esconder. Eu não estou negociando a segurança delas. O dinheiro está à disposição. Elas não.

— Você não está em posição de exigir nada, tatuador — o líder riu, chutando uma das cadeiras. — Amordaça os outros e leva o dono da casa para o escritório. E tragam as mulheres. Vamos precisar de incentivo para ele digitar as senhas.

Dois homens avançaram para puxar Eduarda debaixo da mesa. Ao sentir as mãos brutas em seus braços, Eduarda soltou um grito de puro pavor, um som quebrado que atingiu Emanuel como uma facada.

— Emanuel! Por favor! — ela clamou, os olhos transbordando lágrimas enquanto era arrastada para cima.

— Solta ela! — gritou Sara, partindo para cima de um dos homens com uma coragem impulsiva. Ela desferiu um tapa no rosto do invasor, mas foi rapidamente contida com um empurrão que a fez cair contra o aparador de cristais.

— Chega! — Emanuel gritou, sua voz dominando o caos. — Eu vou com vocês. Eu faço o que quiserem. Mas deixem elas em paz! Sara, fique com a Duda. Não solte ela.

Os invasores forçaram todos a se moverem para o escritório no andar superior. Emanuel era empurrado por trás pelo cano de uma pistola. No corredor, ele viu o terror nos olhos de seus amigos, que eram mantidos sob guarda, mas seu foco absoluto era nas duas mulheres atrás dele. Eduarda estava em um estado de choque quase catatônico, sendo amparada por Sara, que a abraçava de lado, tentando protegê-la com o próprio corpo.

— Vai ficar tudo bem, Duda — sussurrava Sara, embora sua própria voz tremesse. — O Emanuel vai resolver. Ele sempre resolve.

No escritório, o líder apontou para o computador de última geração sobre a mesa de mogno.

— Senta e começa a trabalhar, riquinho. Quero dez milhões em criptoativos agora.

Emanuel sentou-se, suas mãos pairando sobre o teclado. Ele olhou para o canto da sala, onde um dos homens mantinha Eduarda e Sara sob a mira de uma submetralhadora. Eduarda estava soluçando baixo, escondendo o rosto no pescoço de Sara, que mantinha um olhar de desafio para o sequestrador.

— Eu preciso de tempo para as autenticações — disse Emanuel, tentando ganhar cada segundo possível. Ele sabia que o alarme silencioso que ativara sob a mesa de jantar já devia ter alertado sua equipe de segurança privada, mas a casa era isolada. Eles demorariam pelo menos vinte minutos. — São contas protegidas. Se eu errar a senha por pressa, os valores são bloqueados por vinte e quatro horas. Vocês querem o dinheiro ou querem me apressar?

O líder rosnou, impaciente.

— Você tem dez minutos.

Enquanto Emanuel fingia navegar pelos sistemas de segurança bancária, sua mente trabalhava em alta velocidade. Ele observava os reflexos no vidro da estante. Dois homens no corredor, dois na sala com ele, e o líder ao seu lado. Ele precisava de uma distração.

De repente, um dos homens se aproximou de Eduarda. Ele esticou a mão para tocar o cabelo castanho da garota, que se encolheu violentamente.

— Tão bonitinha... parece uma boneca de porcelana — disse o homem, rindo. — Será que ela quebra fácil?

— Tira a mão dela agora — disse Sara, a voz carregada de veneno. — Ou eu juro que arranco seus olhos.

O homem riu e levantou a mão para dar um tapa em Sara, mas Eduarda, em um surto de coragem nascido do desespero e do amor pela "irmã" mais velha, agarrou o braço do homem e cravou os dentes em sua mão com toda a força que tinha.

O grito de dor do invasor foi o sinal que Emanuel precisava.

No momento em que o líder virou a cabeça para ver o que estava acontecendo, Emanuel pegou o pesado cinzeiro de cristal sobre a mesa e o desferiu contra a têmpora do homem. O som do impacto foi seco. O líder desabou.

Emanuel não parou. Ele saltou sobre a mesa com a agilidade de um felino, atingindo o homem que ameaçava as mulheres antes que ele pudesse puxar o gatilho. Foi uma luta brutal. Emanuel não estava apenas lutando por sua vida; ele estava lutando pela integridade de seu santuário. Ele desferiu socos precisos e violentos, sua fúria contida de um ano explodindo de uma só vez.

— Sara! Leva ela para o cofre! — gritou Emanuel, enquanto imobilizava o segundo homem em um mata-leão.

Sara não hesitou. Ela agarrou Eduarda, que estava em prantos e paralisada, e a arrastou para a passagem oculta atrás da estante de livros, um quarto de pânico que Emanuel instalara justamente para emergências como aquela.

— Entra, Duda! Entra! — Sara a empurrou para dentro do compartimento blindado.

Eduarda olhou para trás, vendo Emanuel lutar contra mais um invasor que entrava no escritório.

— Emanuel! — ela gritou, a voz cheia de angústia.

— Fecha a porta, Sara! — Emanuel ordenou, sua voz soando abafada enquanto ele recebia um golpe no estômago, mas revidava com uma cabeçada que quebrou o nariz do oponente.

Sara fechou a porta de aço, e o silêncio do isolamento acústico engoliu os sons da batalha. Lá dentro, Eduarda desabou no chão, abraçando os joelhos.

— Ele vai morrer, Sara... ele vai morrer por nossa causa — soluçava Eduarda, o corpo sacudido por tremores.

Sara sentou-se ao lado dela e a puxou para um abraço apertado. A loira, sempre tão vulgar e agressiva para o mundo exterior, agora era pura suavidade para a "pequena" de Emanuel.

— Ele não vai morrer, Duda. Aquele homem é um demônio quando quer proteger o que é dele. Ele nos ama. Ele não vai deixar nada acontecer. Respira comigo... respira.

Do lado de fora, a segurança privada de Emanuel finalmente chegou, entrando na casa com táticas militares. O confronto foi rápido e decisivo.

Dez minutos depois, a porta do quarto de pânico foi aberta por fora. Emanuel estava lá. Ele estava coberto de sangue que não era seu, o lábio cortado e um hematoma roxo começando a se formar na maçã do rosto. Suas roupas estavam rasgadas, e ele respirava com dificuldade.

Ao vê-lo, Eduarda correu e se jogou em seus braços com tanta força que quase o derrubou.

— Emanuel! Você está vivo! Você está vivo! — ela chorava compulsivamente, escondendo o rosto em seu peito manchado.

Ele a envolveu com uma força possessiva, fechando os olhos e sentindo o coração dela bater contra o seu.

— Eu disse que cuidaria de você, meu anjo — sussurrou ele, a voz rouca e carregada de emoção. — Eu disse que ninguém encostaria em você.

Sara saiu do cofre logo atrás, limpando uma lágrima solitária que teimava em cair, mas mantendo seu sorriso irônico de defesa.

— Você demorou, querido — disse ela, embora suas mãos estivessem tremendo enquanto ela ajeitava o cabelo loiro desalinhado. — Eu quase tive que usar meus saltos como arma letal.

Emanuel estendeu o braço livre e puxou Sara para o abraço também. Ali, no meio do caos de sua casa invadida, cercado por policiais e seguranças, ele mantinha suas duas mulheres presas a si.

— Vocês estão bem? — perguntou ele, olhando de uma para a outra. — Eles tocaram em vocês? Machucaram?

— A Duda mordeu um deles — disse Sara, com um brilho de orgulho nos olhos. — Foi a coisa mais corajosa que eu já vi essa menina fazer.

Emanuel olhou para Eduarda, surpreso.

— Você fez isso, pequena?

Eduarda assentiu, ainda soluçando, mas segurando a mão de Emanuel com firmeza.

— Ele ia bater na Sara. Eu não podia deixar.

Emanuel beijou a testa de Eduarda e depois a de Sara. A adrenalina estava baixando, dando lugar a uma exaustão profunda, mas também a uma clareza absoluta.

— Eu vou tirar vocês daqui — disse ele. — Vamos para o hotel na cidade. Esta casa vai ficar fechada até que cada centímetro seja limpo e a segurança seja triplicada.

Enquanto caminhavam para fora, escoltados pelos seguranças, Eduarda se mantinha colada ao lado de Emanuel, buscando sua proteção quase automática. Sara caminhava do outro lado, vigilante, sua mente já calculando os danos e os próximos passos administrativos para garantir que a notícia não afetasse os negócios, mas sempre tocando o braço de Emanuel para se certificar de que ele estava ali.

Naquela noite, no luxuoso hotel da cidade, Emanuel não dormiu. Ele ficou sentado em uma poltrona entre as duas camas. Em uma delas, Eduarda dormia um sono inquieto, segurando a mão dele mesmo inconsciente. Na outra, Sara o observava, fumando um cigarro na janela aberta, o olhar perdido nas luzes da metrópole.

— Você sabe que isso muda as coisas, não sabe? — perguntou Sara em voz baixa, a fumaça subindo em espirais. — Elas não estão mais seguras apenas por serem "suas". Elas são alvos agora.

— Eu sei — respondeu Emanuel, apertando a mão de Eduarda com suavidade. — E é por isso que eu vou construir um muro ainda mais alto. Ninguém chega perto delas, Sara. Ninguém.

— Nós somos uma família estranha, Emanuel — comentou Sara, apagando o cigarro e caminhando até ele. Ela se inclinou e beijou o ombro dele. — Mas eu não trocaria isso por nada. Nem pela paz que as pessoas normais têm.

— Eu também não — disse ele, olhando para Eduarda e depois para Sara.

Ele amava a força de uma e a doçura da outra. Ele era o eixo que mantinha aqueles dois mundos colidindo sem se destruir. E, depois daquela noite, ele sabia que não importava quantos homens armados tentassem invadir seu santuário; ele sempre seria o monstro que lutaria para manter seus anjos a salvo.

Eduarda despertou por um momento, sentindo a pressão da mão de Emanuel.

— Emanuel? — ela chamou, a voz manhosa e carregada de sono.

— Estou aqui, Duda. Vá dormir. Eu não vou a lugar nenhum.

Ela sorriu debilmente e voltou a fechar os olhos. O medo ainda estava lá, nas sombras de sua mente intuitiva, mas o calor da mão de Emanuel era a única verdade que importava. O protetor estava de vigília, e no mundo dele, as marcas de amor eram as únicas que realmente permaneciam.