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O Fruto da Imprudência e o Elo de Sangue

O ar no casarão de Emanuel estava impregnado com o cheiro doce de talco e o som suave de ninar, uma calmaria que contrastava com a intensidade caótica que sempre definira aquele triângulo amoroso. Ágata, a filha de Sara, e Arthur, o filho de Eduarda, haviam completado um mês de vida naquela semana. Eram dois berços, duas maternidades distintas sob o mesmo teto, unidas pelo mesmo homem que, agora mais do que nunca, sentia o peso e a glória de seu império particular.

Sara, prática e dominante como sempre, havia passado pela gestação e pelo parto com a eficiência de quem administra uma de suas empresas. Ela se recuperara rápido, mas impusera uma barreira de ferro: Emanuel não tocaria nela de forma íntima até que os quarenta dias de resguardo fossem cumpridos à risca. Ela conhecia o corpo que tinha, valorizava sua saúde e, acima de tudo, gostava de testar o autocontrole de Emanuel, provocando-o com lingeries caras enquanto o mantinha à distância de um braço.

Eduarda, por outro lado, era o oposto. A maternidade a deixara ainda mais manhosa, mais sensível e, paradoxalmente, mais carente da presença física de Emanuel. Arthur era um bebê calmo, mas Eduarda parecia vibrar em uma frequência de ansiedade e desejo que só o toque do seu protetor conseguia aplacar. Para ela, o resguardo não era uma regra de saúde, era uma tortura emocional que a afastava do homem que era seu sol e seu escudo.

Naquela noite chuvosa, o silêncio da casa era apenas quebrado pelo tique-taque do relógio na biblioteca. Sara estava no andar de cima, dormindo profundamente após uma longa sessão de amamentação com Ágata. Emanuel, exausto mas incapaz de desligar a mente, estava no escritório quando a porta se abriu silenciosamente.

Eduarda entrou usando uma camisola de seda branca, fina o suficiente para revelar as curvas que a gravidez deixara mais acentuadas e macias. Ela parecia uma aparição, com os cabelos castanhos caindo desalinhados sobre os ombros e os olhos brilhando com uma urgência silenciosa.

— Duda? O que foi? O Arthur acordou? — perguntou Emanuel, levantando-se imediatamente da poltrona.

— Não... ele está dormindo como um anjinho — ela sussurrou, caminhando até ele com aquele jeito tímido que sempre o desarmava. — Eu só não conseguia dormir. Senti sua falta.

Emanuel suspirou, sentindo a tensão nos ombros. Ele a puxou para um abraço, sentindo o calor do corpo dela contra o seu.

— Você precisa descansar, pequena. O médico disse que você ainda precisa de tempo. O parto do Arthur foi difícil para você.

Eduarda se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos dele, levando a mão ao rosto de Emanuel, traçando a linha de sua mandíbula com os dedos trêmulos.

— Eu não aguento mais a distância, Emanuel. Eu me sinto vazia quando você não me toca. Por favor... só um pouco.

— Duda, o resguardo... a Sara me mataria se soubesse que estou sendo negligente com a sua saúde — ele tentou argumentar, mas sua voz já falhava. O cheiro de leite e baunilha que emanava dela era inebriante.

— A Sara não precisa saber — ela murmurou, colando os lábios no pescoço dele. — Eu estou bem. Eu me sinto forte. Eu só preciso de você.

Emanuel lutou contra o próprio desejo por alguns segundos. Ele era racional, prático, mas Eduarda era sua fraqueza absoluta. A forma como ela se apoiava nele, como se ele fosse o único ar disponível no mundo, quebrava todas as suas defesas. Ele a pegou no colo, sentindo o peso leve e macio dela, e a colocou sobre a mesa de mogno, afastando os papéis administrativos com um gesto bruto.

— Você tem certeza? — ele perguntou, a voz rouca, as mãos já subindo pelas pernas dela.

— Sim... por favor, Emanuel. Agora.

Eles quebraram o resguardo ali mesmo, entre a penumbra do escritório e o som da chuva. Foi um encontro carregado de uma fome reprimida, uma mistura de desespero e ternura. Emanuel tentou ser cuidadoso, lembrando-se da fragilidade dela, mas Eduarda o puxava para mais perto, pedindo por mais, entregando-se com uma intensidade que ele nunca vira antes. Naquele momento, as regras médicas e as advertências de Sara pareceram fumaça diante do fogo que os consumia.

***

Três semanas depois.

O clima na mansão mudara. Eduarda andava pálida, recusando seus doces favoritos e passando mais tempo deitada do que o normal. Emanuel notara, mas atribuíra ao cansaço de cuidar de um recém-nascido. Sara, no entanto, tinha olhos de águia.

— Você está com aquela cara de novo, Duda — disse Sara, entrando no quarto de Eduarda sem bater. Ela segurava Ágata no colo, enquanto Arthur dormia no berço ao lado.

— Que cara, Sara? — Eduarda perguntou, sentada na beira da cama, tentando disfarçar um enjoo súbito.

— A cara de quem está com o estômago virado e a cabeça nas nuvens. A mesma cara que você teve há dez meses — Sara estreitou os olhos loiros, sua mente administrativa processando os fatos com rapidez cruel. — Emanuel! Vem aqui agora!

O grito de Sara ecoou pelo corredor, e poucos segundos depois, Emanuel apareceu na porta, preocupado.

— O que aconteceu? Algum dos bebês está mal?

— Os bebês estão ótimos — disse Sara, apontando para Eduarda com o queixo. — Mas a sua "bonequinha" aqui parece que esqueceu de ler o manual de instruções do corpo humano. Há quanto tempo vocês quebraram o resguardo?

O silêncio de Emanuel foi a resposta definitiva. Ele desviou o olhar, a culpa estampada no rosto sério.

— Eu não acredito... — Sara soltou uma risada irônica, embora houvesse uma ponta de preocupação genuína em sua voz. — Eu proibi você de me tocar para não correr riscos, e você vai e faz isso com a menina que mal se recuperou de um parto? Você é um animal, Emanuel.

— Ela me pediu, Sara! — ele tentou se defender, mas soou fraco.

— E se ela pedisse para pular de um penhasco, você pulava junto? — Sara revirou os olhos. — Duda, vá ao banheiro. Eu comprei um teste na farmácia hoje cedo porque tive um pressentimento. Vá. Agora.

Eduarda obedeceu, trêmula. Emanuel ficou na sala, andando de um lado para o outro sob o olhar julgador de Sara. Minutos depois, Eduarda voltou. Ela não precisou dizer nada. O pequeno bastão de plástico em sua mão mostrava duas linhas vermelhas vibrantes.

— De novo? — Emanuel sussurrou, sentando-se na cama e enterrando o rosto nas mãos. — O Arthur tem um mês, Duda... como vamos fazer isso?

— Eu não sei... — ela começou a chorar, o medo da responsabilidade e da saúde física a atingindo de uma vez. — Eu só queria ficar perto de você.

— Bom, agora você vai ficar bem perto dele pelos próximos oito meses — Sara disse, cruzando os braços. — Mas o problema não somos nós. O problema é que a sua mãe, Emanuel, está estacionando o carro lá fora agora. E ela veio para o chá da tarde que a Bianca organizou.

Emanuel empalideceu ainda mais. Helena, sua mãe, era uma mulher doce, mas extremamente rigorosa quando se tratava do bem-estar de Eduarda, a quem ela amava como a uma filha biológica.

***

A cena na sala de estar era digna de um drama teatral. Helena estava sentada no sofá, segurando o neto Arthur, enquanto Bianca servia o chá. Emanuel, Sara e Eduarda estavam sentados à frente dela como réus em um tribunal.

— Vocês estão muito estranhos hoje — comentou Helena, observando o filho. — Emanuel, você parece que viu um fantasma. E Duda, querida, você está tão pálida. Tem certeza de que está se alimentando bem? O resguardo é uma fase delicada, você precisa de ferro, de descanso...

Emanuel olhou para Sara, buscando socorro, mas a loira apenas deu um gole em seu chá, deixando-o lidar com a situação. Ela não ia protegê-lo dessa vez.

— Mãe... temos uma notícia — Emanuel começou, a voz falhando.

— Notícia? Mais alguma expansão dos estúdios? — Helena sorriu.

— Não. É sobre a Eduarda.

Helena franziu a testa, entregando o bebê para Bianca e focando toda a sua atenção no filho. O instinto materno dela detectou a tensão no ar.

— O que tem a Eduarda? Ela está doente?

— Ela está grávida, dona Helena — disparou Sara, sem qualquer filtro, aproveitando para ver a reação da sogra.

O silêncio que se seguiu foi tão pesado que o tilintar da colher de Bianca na xícara pareceu um trovão. Helena piscou várias vezes, processando a informação. Ela olhou para o pequeno Arthur no colo de Bianca, depois para a barriga ainda proeminente de Eduarda, e finalmente para Emanuel.

— Grávida? — Helena repetiu, a voz subindo de tom. — O Arthur tem quatro semanas, Emanuel! Quatro semanas!

— Mãe, foi um acidente, nós não pensamos... — Emanuel tentou explicar, levantando-se.

— Não pensaram? — Helena levantou-se também, a indignação brilhando em seus olhos. — Você é um homem de vinte e seis anos, Emanuel! Você sabe perfeitamente como essas coisas funcionam. Eduarda é uma menina, ela é sensível, o corpo dela ainda está se curando de uma gestação! Como você pôde ser tão irresponsável?

— Eu tive culpa também, tia Helena — Eduarda disse, soluçando baixo, escondendo o rosto nas mãos.

— Não, Duda. Não se culpe — Helena caminhou até ela e a abraçou, mas lançou um olhar fulminante para o filho. — O Emanuel deveria ser o seu protetor. Ele deveria ter o discernimento que você, na sua carência e juventude, às vezes não tem. Quebrar o resguardo dessa forma é perigoso! Você poderia ter tido uma hemorragia, uma infecção... meu Deus, Emanuel, eu não te criei para ser um egoísta!

— Eu não sou egoísta! Eu a amo! — Emanuel exclamou, sentindo a pressão do mundo sobre seus ombros.

— Amar é cuidar, não é apenas satisfazer desejos no meio da noite enquanto dois recém-nascidos dormem no quarto ao lado! — Helena sentenciou. — Agora você vai arcar com as consequências. Ela vai precisar de acompanhamento médico redobrado. E você, Sara, como permitiu que isso acontecesse sob o seu teto?

Sara deu de ombros, imperturbável.

— Eu cuido da administração dos estúdios e da minha própria cama, Helena. Eu proibi ele de entrar no meu quarto, mas não posso colocar um cinto de castidade no seu filho quando ele vai visitar a Duda. Eu avisei que ia dar problema.

Helena suspirou, tentando se acalmar. Ela olhou para os dois bebês e depois para a nora improvisada e o filho.

— Três bebês em menos de um ano... — Helena murmurou, sentando-se novamente, massageando as têmporas. — Vocês são loucos. Todos vocês. Mas agora não há o que fazer. Eduarda, você vai ficar de repouso absoluto. Emanuel, você vai contratar uma enfermeira extra para ajudar com as crianças, porque você vai passar o resto do seu tempo livre garantindo que a Duda não levante um dedo.

— Eu farei o que for preciso — disse Emanuel, aproximando-se de Eduarda e pegando a mão dela. — Eu sinto muito, mãe. Eu realmente perdi o controle.

— Sim, você perdeu — disse Helena, olhando-o com severidade. — Mas espero que agora entenda que o seu desejo não pode estar acima da segurança das pessoas que você diz amar.

Mais tarde, após a saída de Helena e Bianca, a casa voltou ao seu silêncio habitual, mas com uma nova camada de complexidade. Sara estava no berçário, observando os dois bebês dormirem. Emanuel entrou e parou ao lado dela.

— Você está brava? — ele perguntou.

Sara olhou para ele, um sorriso de lado surgindo em seus lábios perfeitamente pintados.

— Brava? Não. Eu só acho engraçado como você se perde naquela doçura dela. Mas se prepare, Emanuel. Três crianças chorando ao mesmo tempo... eu vou querer um aumento na minha porcentagem dos lucros dos estúdios para lidar com esse caos.

Emanuel riu, um som seco de alívio, e a puxou para um abraço rápido.

— Você terá o que quiser, Sara.

Ele saiu e foi para o quarto de Eduarda. Ela estava deitada, olhando para o teto, com a mão sobre o ventre ainda macio. Emanuel deitou-se ao lado dela e a puxou para o seu peito.

— A minha mãe quase me matou — ele sussurrou.

— Ela tem razão — disse Eduarda, aninhando-se nele. — Mas eu não me arrependo. Eu amo ter um pedaço de você crescendo em mim de novo. Só... tente ser mais paciente dessa vez.

— Eu serei — ele prometeu, beijando a testa dela. — Eu serei tudo o que vocês precisarem.

Emanuel fechou os olhos, sentindo o peso de sua família pouco convencional. Ele era o centro daquele universo, um homem dividido entre a razão de Sara e a emoção de Eduarda, agora multiplicado por três novas vidas. O resguardo quebrado fora uma imprudência, um erro de cálculo em sua vida perfeitamente controlada, mas enquanto sentia o coração de Eduarda batendo contra o seu, ele sabia que, apesar das broncas e dos riscos, ele não mudaria um único traço daquela história. Ele era o protetor, o amante e o pai, e seu império, embora caótico e fértil demais, era o único lugar onde ele realmente se sentia em casa.