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Labirinto de Sombras e Sedas

O convite de Henrique não poderia ter vindo em momento pior, ou talvez, na visão distorcida de Emanuel para diversão, no momento mais oportuno. "O Labirinto do Medo", uma experiência imersiva de terror psicológico em um casarão abandonado na periferia de São Paulo, era o assunto do momento entre os empresários e amigos do círculo de Emanuel. Para um homem que passava o dia lidando com a precisão milimétrica das agulhas e a pressão de gerenciar estúdios em três continentes, a ideia de uma descarga de adrenalina pura era quase terapêutica.

— Você só pode estar brincando, Emanuel — Sara disse, enquanto retocava o batom vermelho intenso no espelho do hall de entrada. — Eu não tenho medo de monstros de borracha, mas tenho pavor de arruinar meu scarpin em um chão sujo de poeira e sabe-se lá o que mais.

— Não seja estraga-prazeres, Sara — Emanuel respondeu, ajustando o relógio de pulso. Ele usava uma jaqueta de couro preta e jeans escuros, um visual prático que realçava sua postura de autoridade. — Vai ser divertido. É um teste de reflexos. E você adora um desafio, não adora?

Eduarda, por outro lado, parecia que estava prestes a ser levada para o patíbulo. Ela segurava a alça de sua bolsa transversal com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Vestia um casaco de lã batida sobre um vestido leve, parecendo pequena e vulnerável sob a luz do lustre de cristal.

— Manu... eu não gosto dessas coisas — ela sussurrou, a voz carregada de uma manha que geralmente o dobrava. — Eu tenho pesadelos com filmes de terror. Por que não podemos só ir jantar?

Emanuel caminhou até ela, envolvendo sua cintura e puxando-a para perto. Ele beijou o topo da cabeça de Eduarda, sentindo o perfume suave de baunilha que ela usava.

— Porque você precisa sair um pouco da bolha dos livros de arte, pequena. Eu vou estar lá o tempo todo. Nada vai acontecer com você. É tudo encenação.

— Ouvi dizer que eles separam os grupos — comentou Sara, guardando o batom na bolsa de grife e lançando um olhar provocativo para Eduarda. — Dizem que os namorados têm que provar que são "heróis" e resgatar as donzelas em perigo. Você vai aguentar cinco minutos sem o Emanuel, Duda? Ou vai desmaiar no primeiro susto?

— Eu não sou frouxa, Sara — Eduarda rebateu, embora sua voz tenha saído um pouco menos firme do que ela gostaria. — Só acho... desnecessário.

— Ótimo, então vamos logo — Emanuel sentenciou, cortando a discussão. — O carro já está lá embaixo.

O trajeto até o casarão foi preenchido por uma tensão palpável. Emanuel estava animado, os olhos brilhando com a expectativa do jogo. Sara mantinha uma postura de tédio fingido, embora alternasse olhares atentos pela janela. Eduarda permanecia em silêncio, rezando mentalmente para que o lugar estivesse fechado por algum motivo administrativo.

Quando chegaram, o cenário era digno de um pesadelo cinematográfico. O casarão era uma construção do século XIX, cercada por árvores secas e uma iluminação propositalmente falha que lançava sombras distorcidas nas paredes descascadas. Henrique e outros dois amigos já estavam lá com suas respectivas namoradas.

— Finalmente, Emanuel! — Henrique exclamou, rindo. — Achei que a Sara tivesse se recusado a pisar no barro.

— Quase isso — Sara respondeu, descendo do carro com uma elegância que desafiava o terreno irregular. — Mas eu não perderia a chance de ver o Emanuel tentando bancar o Rambo.

O organizador do evento, um homem vestido com roupas de zelador manchadas de sangue falso, aproximou-se do grupo.

— Regras simples, senhores — explicou o homem com uma voz gutural. — As damas entram primeiro. Elas serão conduzidas a cômodos específicos no coração do labirinto. Os senhores entram dez minutos depois. O objetivo é encontrá-las e levá-las até a saída nos fundos. Se um monstro tocar em vocês, voltam para o início do corredor atual. Se as damas entrarem em pânico e apertarem o botão de pânico no pulso, a experiência acaba para o casal.

Eduarda sentiu um calafrio subir pela espinha. Emanuel sentiu o tremor dela e apertou sua mão.

— Vai ficar tudo bem, Duda. Eu vou te achar em um piscar de olhos.

— E eu? — Sara perguntou, cruzando os braços, realçando o decote generoso. — Vai me deixar mofando lá com as teias de aranha?

— Eu vou buscar as duas. Vocês sabem que eu nunca deixo nada para trás — ele disse, com uma seriedade que misturava o carinho com seu instinto controlador.

Para a surpresa de todos, o organizador anunciou que, devido ao layout da casa naquela noite, Eduarda e Sara ficariam no mesmo cômodo: a "Câmara das Bonecas".

— Perfeito — murmurou Sara. — Pelo menos vou ter alguém para usar como escudo humano se um palhaço assassino aparecer.

— Sara! — Emanuel repreendeu, mas não pôde evitar um sorriso de canto. — Cuidem uma da outra. Eu chego logo.

As mulheres foram conduzidas para dentro da escuridão por um monitor. Emanuel ficou do lado de fora, ouvindo os primeiros gritos vindos de dentro da casa. Ele sentiu o sangue pulsar mais rápido. Adorava aquela sensação de desafio, de ter um objetivo claro e obstáculos físicos. Era uma pausa bem-vinda da complexidade das negociações financeiras e dos dramas emocionais que suas namoradas frequentemente traziam para o sofá de casa.

Lá dentro, o clima era outro.

Sara e Eduarda foram deixadas em um quarto mal iluminado por uma lâmpada amarela que piscava ritmicamente. O cômodo estava repleto de prateleiras com bonecas de porcelana antigas, muitas delas faltando olhos ou membros, penduradas por fios de nylon no teto. O cheiro de mofo e poeira era sufocante.

— Isso é ridículo — Sara disse em voz alta, embora sua voz estivesse um tom acima do normal. Ela se encostou em uma parede, tentando manter a pose, mas seus olhos loiros varriam o quarto incessantemente. — Quem gasta dinheiro para decorar um lugar assim? É de um mau gosto absoluto.

Eduarda não respondeu. Ela estava encolhida em um canto, abraçando os próprios joelhos. O silêncio da casa era quebrado apenas por sons de arranhões nas paredes e gritos distantes de outras participantes.

— Sara... você ouviu isso? — Eduarda sussurrou, os olhos arregalados fixos em uma porta de armário entreaberta.

— Ouvi o quê? É só o som da ventilação, garota. Ou algum ator pago para fazer barulho. Se acalma, ou você vai ter um ataque de asma e o Emanuel vai ficar furioso por ter perdido o ingresso caro.

— Eu não consigo... é muito escuro — a voz de Eduarda falhou, e as primeiras lágrimas começaram a surgir. — Eu quero ir embora. Eu quero o Manu.

Sara suspirou, sentindo uma mistura de irritação e uma pontada inesperada de proteção. Ela detestava a fragilidade de Eduarda, mas estar ali, naquele ambiente hostil, fazia com que a menina parecesse ainda mais deslocada.

— Escuta aqui, Duda — Sara caminhou até ela, o som de seus saltos estalando no assoalho de madeira. Ela se agachou na frente da morena. — O Emanuel é obcecado por controle, certo? Ele está lá fora agora se sentindo o rei da selva porque acha que vai entrar aqui e nos salvar. Se você apertar esse botão de pânico agora, você vai estragar a noite dele. E você sabe como ele fica quando se sente frustrado.

Eduarda soluçou, olhando para o bracelete com o botão vermelho.

— Mas e se... e se alguma coisa sair do controle?

— Nada sai do controle com o Emanuel por perto — Sara afirmou, embora um barulho súbito de algo caindo no andar de cima a fizesse pular levemente. — E eu estou aqui. Eu sou mais útil que uma boneca de porcelana, não sou?

Eduarda limpou o rosto com a manga do casaco e olhou para Sara. A loira, apesar da vulgaridade que Eduarda muitas vezes criticava mentalmente, exalava uma confiança que era quase palpável.

— Você não está com medo? — perguntou Eduarda.

Sara deu um sorriso irônico, embora suas unhas estivessem cravadas na palma da mão.

— Eu sou formada em administração e lido com os tatuadores mais egocêntricos do mundo todos os dias. Monstros de mentira não me assustam. O que me assusta é a fatura do cartão se o Emanuel resolver me castigar por não ter paciência com você.

De repente, a luz da lâmpada apagou de vez. O quarto mergulhou em uma escuridão total. Um som de risada infantil ecoou de algum lugar atrás das prateleiras.

— Sara! — Eduarda gritou, tateando no escuro até encontrar o braço da outra.

— Eu estou aqui! — Sara exclamou, sua voz perdendo um pouco da firmeza. — Fica perto de mim!

No corredor, Emanuel já havia começado sua jornada. Ele se movia com uma eficiência silenciosa que surpreenderia seus concorrentes de negócios. Quando um ator vestido como uma criatura deformada saltou de um nicho na parede, Emanuel nem sequer piscou. Ele apenas desviou o corpo com agilidade e continuou avançando.

— É só isso? — ele murmurou para si mesmo, um sorriso brincando em seus lábios.

Ele estava gostando da caçada. Cada porta que abria, cada corredor escuro que atravessava, aumentava sua determinação. Ele sabia que as duas estariam juntas, e a imagem mental de Sara tentando manter a compostura enquanto Eduarda se escondia atrás dela o fazia querer chegar logo para ver a cena.

Ele chegou à porta da "Câmara das Bonecas". A porta estava trancada por fora com um cadeado de combinação. Havia uma charada escrita na parede com tinta reagente a luz UV.

— "Onde o tempo para e a infância morre, a chave reside no olhar daquela que não vê" — Emanuel leu em voz alta, pegando a lanterna que o organizador lhe dera.

Ele iluminou o quarto através de uma pequena fresta na porta. Viu as duas mulheres abraçadas no centro do cômodo. Sara estava de pé, protegendo Eduarda com o próprio corpo, enquanto segurava um de seus sapatos de salto alto na mão, pronta para usá-lo como arma contra qualquer coisa que se aproximasse.

— Emanuel! — Sara gritou ao ver o feixe de luz. — Tira a gente daqui agora! Essa droga de quarto tem cheiro de morte e a Eduarda está quase desmaiando!

— Manu! Por favor! — a voz de Eduarda era um lamento que apertou o coração de Emanuel.

— Calma, eu estou aqui — Emanuel disse, sua voz firme projetando a estabilidade que elas precisavam. — Preciso resolver o enigma do cadeado. Sara, olhe para as bonecas. Alguma delas tem algo diferente nos olhos?

Sara, tremendo mas focada, começou a iluminar as prateleiras com a luz fraca que vinha da fresta.

— Tem uma... no canto superior. Os olhos dela são números! — Sara gritou. — Três... oito... zero!

Emanuel girou o cadeado rapidamente. O clique do metal abrindo foi o som mais doce que Eduarda ouviu em toda a sua vida. A porta se escancarou e Emanuel entrou, sendo imediatamente atingido pelo impacto das duas mulheres se jogando contra ele.

Ele envolveu as duas em seus braços poderosos. Eduarda chorava abertamente em seu peito, enquanto Sara respirava de forma ofegante, agarrada ao seu braço, ainda empunhando o sapato.

— Eu peguei vocês — ele sussurrou, sentindo a adrenalina começar a baixar e ser substituída por aquela satisfação possessiva de tê-las sob sua proteção. — Já passou. Vamos sair daqui.

— Nunca mais — Eduarda disse entre soluços. — Nunca mais eu venho em um lugar desses.

— Concordo com a pequena — Sara disse, tentando recompor o cabelo loiro, embora suas mãos ainda tremessem. — Da próxima vez, Emanuel, se você quiser adrenalina, tente investir em criptomoedas perigosas ou algo assim. Isso aqui é barbárie.

Emanuel riu, conduzindo-as pelo corredor de saída, ignorando os últimos sustos que os atores tentavam dar. Ele se sentia revigorado.

— Vocês foram bem — ele elogiou, olhando para Sara. — Você protegeu ela.

Sara deu de ombros, recuperando sua máscara de arrogância.

— Alguém tinha que fazer o trabalho sujo. Ela estava quase fundindo o DNA dela com o meu casaco de tanto que me apertava.

Eduarda olhou para Sara com gratidão genuína, apesar da provocação.

— Obrigada, Sara. De verdade.

Ao saírem para o ar fresco da noite, Emanuel olhou para suas duas mulheres. Eduarda estava pálida, com os olhos vermelhos, parecendo uma pintura melancólica que ele queria guardar em uma moldura. Sara estava descabelada, com o batom levemente borrado e um salto na mão, exalando uma energia de sobrevivente que ele achava irresistível.

— Agora, jantar — Emanuel decretou, abrindo a porta do carro para elas. — E sem discussões sobre o cardápio. Eu escolho.

— Depois dessa, você pode escolher até o que eu vou vestir amanhã — Sara murmurou, entrando no banco de trás e puxando Eduarda para o lado dela, um gesto de camaradagem que raramente acontecia.

Emanuel fechou a porta e deu a volta no carro. Ele ainda sentia a vibração da adrenalina, mas olhar pelo retrovisor e ver as duas, finalmente em silêncio e compartilhando o mesmo espaço sem hostilidade imediata, era o verdadeiro prêmio da noite.

— Manu? — Eduarda chamou, enquanto o carro se afastava do casarão.

— Oi, amor.

— Eu acho que... se você estiver comigo e com a Sara... eu posso tentar morar na cobertura. Só para não ter que passar por essas coisas sozinha de novo.

Emanuel sorriu no escuro do carro. O plano do Labirinto do Medo tinha funcionado melhor do que ele imaginava.

— É uma excelente decisão, Duda — ele respondeu. — A melhor que você tomou em muito tempo.

Sara soltou uma risada baixa.

— Viu só? Bastou um bando de bonecas velhas para você entender que o harém do Emanuel é o lugar mais seguro do mundo. Bem-vinda à casa de loucos, querida.

Emanuel acelerou o carro, sentindo que, pela primeira vez, o caos de sua vida estava exatamente onde ele queria: sob seu comando, entre quatro paredes, e dividido entre o carinho doce de uma e a intensidade vibrante da outra. A paz era chata; o que ele tinha era um império, e ele pretendia governá-lo com mão de ferro e muito amor.