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Sombras de Neon e Poeira na Estrada

A viagem para a casa de campo dos pais de Eduarda deveria ter sido um interlúdio de calmaria, uma tentativa de Emanuel de selar a paz definitiva após o susto no Labirinto do Medo. O SUV de luxo deslizava pela rodovia estadual, cortando a escuridão de uma noite sem lua, até que um estalo metálico seco, seguido por uma fumaça branca e densa saindo do capô, forçou Emanuel a encostar no acostamento de terra batida.

— Não pode ser... — Emanuel resmungou, golpeando o volante com a palma da mão. — Esse carro saiu da revisão ontem.

— Emanuel, está saindo fogo? — Eduarda perguntou, a voz trêmula, as mãos pequenas apertando as alças do cinto de segurança. — Por favor, diz que não vai explodir.

— Não vai explodir, Duda, mas o motor abriu o bico — ele respondeu, saindo do carro para encarar o desastre sob o calor do asfalto.

Sara desceu logo em seguida, batendo a porta com força. Ela usava um conjunto de linho branco curtíssimo que contrastava com sua pele bronzeada, e seus saltos finos afundavam na brita da estrada.

— Maravilhoso. Simplesmente fantástico — ironizou ela, cruzando os braços e deixando o silicone em evidência. — No meio do nada, sem sinal de celular e com esse cheiro de óleo queimado. O que a gente faz agora, "Imperador"?

Emanuel ignorou o sarcasmo. Ele olhou ao redor. A estrada era um deserto de asfalto ladeado por matagal denso. A única luz visível, a cerca de quinhentos metros dali, era um letreiro de neon rosa e azul que piscava de forma intermitente, refletindo em uma poça d'água estagnada.

— Tem um estabelecimento logo ali — Emanuel apontou. — Vamos andando. Não podemos ficar aqui parados, é perigoso.

— Aquele lugar parece... estranho — sussurrou Eduarda, saindo do carro e colando-se ao braço de Emanuel. — As cores são muito fortes.

— É um posto de apoio, Duda. Ou algo do tipo — Emanuel tentou tranquilizá-la, embora seu instinto lhe dissesse que a realidade seria bem menos higiênica.

À medida que se aproximavam, o som de uma música sertaneja antiga e abafada começou a preencher o ar, misturada ao cheiro de fritura e perfume barato. O letreiro, quando finalmente legível, dizia: "Paraíso das Rosas – Bar e Pousada". No pátio de terra, alguns caminhões estavam estacionados e, na varanda de madeira, mulheres com roupas mínimas e maquiagens pesadas observavam a chegada do trio como se vissem um banquete.

— Emanuel... — Sara parou abruptamente, os olhos estreitados. — Isso não é uma pousada. É um cabaré de beira de estrada.

— É o que tem para hoje, Sara — Emanuel disse, a voz endurecendo. — Ou você prefere dormir no acostamento com os coiotes?

— Eu prefiro os coiotes — murmurou Eduarda, escondendo o rosto no ombro dele. — Manu, vamos voltar para o carro...

— Não dá, pequena. Lá é um alvo fácil. Aqui tem gente, tem luz. Só vamos conseguir um quarto, ligar para o guincho e sair daqui ao amanhecer.

Ao cruzarem a porta de entrada, o ambiente ficou subitamente silencioso. O bar era escuro, iluminado apenas por luzes negras e globos espelhados baratos. Homens de meia-idade com camisas suadas de suor e poeira pararam de beber para encarar Emanuel — e, principalmente, as duas mulheres ao seu lado. Mas foram as mulheres do local que reagiram primeiro.

Uma loira oxigenada, usando um corpete de renda preta que mal continha seus seios, desceu de um banco alto e caminhou em direção a eles com um rebolado exagerado.

— Ora, ora... o que o vento trouxe para o Paraíso? — disse ela, ignorando completamente Sara e Eduarda e parando a centímetros de Emanuel. — Você parece perdido, bonitão. E muito bem de vida, pelo que vejo.

Emanuel manteve o rosto impenetrável, aquela máscara de frieza que usava quando negociava contratos milionários.

— Meu carro quebrou. Preciso de um quarto e de um telefone — disse ele, a voz curta e grossa.

— Quarto a gente tem — a mulher respondeu, passando a unha comprida e vermelha pelo braço tatuado de Emanuel, subindo até o ombro. — Mas a gente cobra por hora... ou por serviço. Eu sou a Sheila. E você, como se chama?

— Emanuel. E eu quero um quarto para a noite toda. Para nós três.

Um risinho coletivo ecoou das mesas próximas. Outras duas mulheres se aproximaram. Uma morena de lábios carnudos e um vestido de oncinha tocou no peito de Emanuel, sentindo a firmeza dos músculos sob a camiseta.

— Três? — a morena perguntou, soprando fumaça de cigarro para o lado. — Você é guloso, hein, Emanuel? Mas essas duas aí parecem meio... sem graça. Uma é uma bonequinha de porcelana que vai quebrar se a gente encostar, e a outra... — ela olhou para Sara com desdém — ...parece que gastou todo o dinheiro do mês em plástico. Você devia provar algo mais natural, mais... experiente.

Sara sentiu o sangue ferver. Ela não era de levar desaforo para casa, mas o ambiente era hostil demais, e a forma como aqueles homens no fundo da sala as olhavam a deixava, pela primeira vez na vida, genuinamente desconfortável. Ela apertou o braço de Emanuel, sentindo a tensão dele.

— Escuta aqui, "Sheila" — Sara disparou, a voz carregada de veneno —, a gente só quer a chave do quarto. Guarde suas mãos e seus comentários para quem está pagando pelo seu tempo.

A prostituta riu, uma gargalhada rouca.

— Ui, que brava! Cuidado, Emanuel, essa aí morde. Mas se você cansar de ser mandado por essa loira azeda, meu quarto é o número sete. Tenho um desconto especial para homens com tantas tatuagens... eu adoro ler o que está escrito na pele.

Eduarda estava em choque. Ela nunca tinha estado em um lugar assim. O ambiente fétido, as palavras vulgares e a forma predatória como aquelas mulheres olhavam para o seu namorado a faziam querer desaparecer. Ela sentia que sua timidez era uma fraqueza exposta ali, uma ferida aberta.

— Manu... por favor — ela implorou baixinho, as lágrimas já começando a arder nos olhos.

Emanuel percebeu que a situação estava prestes a fugir do controle. Ele viu um homem corpulento atrás do balcão, provavelmente o dono, e caminhou até lá, arrastando as duas mulheres consigo. Ele tirou um bolo de notas do bolso, uma quantia que provavelmente pagaria o aluguel daquele lugar por um mês.

— O melhor quarto que você tiver. Agora — ordenou Emanuel, batendo o dinheiro no balcão de madeira pegajosa.

O homem arregalou os olhos, pegou as notas e entregou uma chave com um chaveiro de coração de plástico.

— Final do corredor, à esquerda. O telefone está mudo por causa da chuva de ontem, mas o guincho passa na estrada às seis da manhã.

Emanuel pegou a chave e não olhou para trás. Ele atravessou o salão com passos largos, ignorando os assobios e os comentários obscenos das mulheres que ainda tentavam chamar sua atenção.

O quarto era pequeno, com paredes pintadas de um rosa descascado e uma cama de casal larga, coberta por um edredom de cetim que já vira dias melhores. O cheiro de desinfetante barato tentava, sem sucesso, mascarar o odor de cigarro.

Assim que a porta foi trancada, Eduarda desabou. Ela se sentou na beira da cama e começou a chorar silenciosamente, os ombros sacudindo.

— Eu quero ir embora... esse lugar é horrível. Aquelas mulheres... o jeito que elas tocaram em você...

Emanuel suspirou, sentindo o peso do mundo. Ele se ajoelhou na frente dela, pegando suas mãos.

— Duda, olha para mim. Eu estou aqui. Ninguém vai encostar em você, e ninguém vai me tirar daqui. Foi só um imprevisto.

Sara, por sua vez, andava de um lado para o outro no espaço exíguo, parecendo um animal enjaulado. Ela chutou os sapatos para um canto e começou a limpar o braço onde a prostituta havia encostado, usando um lenço umedecido que tirou da bolsa.

— Que nojo, Emanuel! Que lugar degradante! — Sara explodiu, embora sua voz tivesse um tremor que ela não conseguia esconder. — E você deixou aquela... aquela mulher passar a mão em você! Você nem reagiu!

Emanuel levantou-se, a paciência no limite.

— E você queria que eu fizesse o quê, Sara? Começasse uma briga em um cabaré cheio de caminhoneiros e cafetões? Eu estava tentando conseguir a droga da chave! Minha prioridade era tirar vocês daquele salão!

— Elas olharam para a gente como se fôssemos lixo — Sara disse, a voz subindo de tom. — E para você como se fosse um pedaço de carne. Eu nunca me senti tão... tão exposta.

— Eu também — murmurou Eduarda, levantando o rosto banhado de lágrimas. — Senti que elas iam me bater só por eu estar perto de você, Manu.

Emanuel fechou os olhos por um instante, tentando controlar a própria irritação. Ele estava exausto, sujo e preocupado com o carro, mas ver suas duas mulheres naquele estado de vulnerabilidade despertou seu instinto mais primitivo de proteção. Ele caminhou até a cama e puxou as duas para o centro do colchão.

— Deitem — ele ordenou, não com grosseria, mas com a autoridade de quem vai assumir o comando da situação.

Ele se sentou entre as duas, as costas apoiadas na cabeceira rangente. Eduarda imediatamente se aninhou em seu lado esquerdo, escondendo o rosto em seu pescoço, buscando o cheiro familiar de sua colônia para apagar o odor do quarto. Sara, relutante no início, acabou cedendo e deitou a cabeça em seu ombro direito, passando a perna por cima das dele em um gesto de posse.

— Eu vou ficar acordado — Emanuel disse, a voz baixa e firme. — Ninguém entra por aquela porta. Amanhã cedo, o guincho chega e a gente esquece que essa noite existiu.

— Você jura que não vai sair daqui? — Eduarda perguntou, a voz abafada pela pele dele. — Nem se elas chamarem?

Emanuel beijou a testa dela.

— Eu não trocaria vocês por nada naquele salão, Duda. Aquilo é comércio. O que eu tenho com vocês é... é outra coisa.

Sara soltou um suspiro longo, fechando os olhos.

— Elas eram vulgares, Emanuel. De um jeito que até eu achei demais. Aquela loira... ela realmente achou que tinha chance com você.

— Ela não sabe quem eu sou, Sara. Ninguém aqui sabe. Para eles, somos apenas viajantes com dinheiro. Para mim, elas são apenas ruído de fundo.

O silêncio começou a se instalar, quebrado apenas pelo som abafado da música que ainda vinha do bar e pelo barulho ocasional de um caminhão passando pela rodovia. Emanuel sentia o corpo de Eduarda relaxar aos poucos, a respiração tornando-se mais lenta à medida que o cansaço vencia o medo. Sara, porém, permanecia tensa, os dedos brincando com a barra da camiseta dele.

— Emanuel? — Sara sussurrou, após o que pareceu uma eternidade.

— Hum?

— Se você algum dia me trocar por uma daquelas... eu mato você antes de ir embora.

Emanuel deu um sorriso seco na penumbra do quarto.

— Você sabe que eu gosto de mulheres difíceis, Sara. Aquelas lá são fáceis demais. Não teriam paciência para aguentar minhas crises de estresse e eu não teria paciência para a falta de cérebro delas.

— E a Duda? — Sara continuou, num tom raramente suave. — Ela é doce demais para esse mundo, não é?

Emanuel olhou para a morena dormindo em seu peito, parecendo um anjo em meio ao cenário dantesco.

— É por isso que ela tem a mim. E, de certa forma, tem você também. Você não deixou aquela mulher chegar perto dela no bar.

Sara ficou em silêncio por um momento, processando a afirmação. Era verdade. No momento em que as prostitutas se aproximaram, o primeiro instinto de Sara não foi apenas proteger a si mesma, mas colocar-se entre elas e a fragilidade de Eduarda.

— Eu só não queria que ela começasse a chorar e chamasse mais atenção — Sara mentiu, fechando os olhos finalmente. — Só isso.

Emanuel não contestou. Ele sabia a verdade. Naquela noite estranha, em um quarto de cabaré fétido na beira de uma estrada esquecida, a dinâmica entre os três havia dado mais um passo em direção a algo sólido. Ele era o eixo, o protetor, o homem que suportava o peso das sombras para que elas pudessem dormir.

As horas passaram devagar. Emanuel manteve os olhos fixos na porta, a mão descansando sobre a nuca de Eduarda e o braço ao redor de Sara. Ele ouviu passos no corredor, risadas bêbadas e o som de portas abrindo e fechando, mas nada o moveu. Ele era uma estátua de carne e tatuagens, um guardião em um reino de decadência.

Quando os primeiros raios de sol começaram a atravessar a cortina puída, Emanuel sentiu um alívio genuíno. O som de um motor pesado e o sinal sonoro de ré do guincho ecoaram no pátio.

— Acordem — ele chamou baixinho. — O resgate chegou.

Eduarda despertou sobressaltada, olhando ao redor com pavor até encontrar os olhos de Emanuel. Sara sentou-se na cama, passando a mão no rosto e tentando recuperar sua dignidade estética.

— Graças a Deus — Sara murmurou, calçando os sapatos com pressa. — Eu preciso de um banho de uma hora com sais minerais e água fervendo.

— Vamos, o carro já deve estar sendo carregado — Emanuel disse, levantando-se e esticando os músculos entorpecidos.

Ao saírem do quarto, o corredor estava silencioso, com cheiro de bebida velha. No salão principal, Sheila, a loira da noite anterior, estava debruçada sobre o balcão, com a maquiagem borrada e um aspecto deplorável sob a luz crua da manhã. Ela olhou para Emanuel, esperando talvez um aceno ou um olhar de arrependimento.

Emanuel passou por ela como se ela fosse parte da mobília. Ele segurava a mão de Eduarda com firmeza e tinha o braço em volta de Sara, conduzindo-as para fora, para o ar puro da manhã.

Enquanto o SUV era içado pelo guincho e eles se acomodavam na cabine do caminhão para a viagem de volta à civilização, Eduarda encostou a cabeça no vidro, observando o "Paraíso das Rosas" diminuir na distância.

— Manu? — ela chamou.

— Sim, pequena.

— Você ainda quer que eu more com você?

Emanuel olhou para ela, surpreso pela pergunta súbita.

— Mais do que tudo, Duda. Você sabe disso.

— Então eu vou. Eu não quero mais ficar longe... se algo assim acontecer de novo, eu quero estar onde você estiver. Mesmo que seja um lugar horrível.

Sara, do outro lado, soltou um riso abafado, mas não havia deboche em seu rosto.

— Finalmente, hein, bonequinha? Demorou um cabaré inteiro para você entender que o Emanuel não é um homem que se deixa sozinho por aí.

Emanuel sorriu, sentindo uma satisfação profunda. O carro quebrado, o dinheiro gasto e a noite em claro tinham valido a pena. Ele finalmente teria seu império completo sob o mesmo teto. O caos ainda existiria, as brigas entre Sara e Eduarda continuariam a testar sua paciência, mas agora, ele teria a certeza de que, ao fechar a porta de sua cobertura, o mundo lá fora — com todas as suas sombras e tentações — não teria a menor chance contra o que ele havia construído.