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O Cisne de Marfim e Tinta
A atmosfera nos bastidores do Teatro Municipal de São Paulo era uma mistura inebriante de resina, laquê, suor frio e o cheiro metálico da ansiedade. Eduarda estava sentada em um banco baixo, as mãos trêmulas enquanto amarrava as fitas de cetim rosa sobre os tornozelos. Seus dedos, geralmente ágeis ao folhear livros de História da Arte, pareciam desajeitados sob a pressão do momento. Três anos. Fazia três anos que ela não sentia o chão de madeira de um palco profissional sob as pontas dos pés.
— Respira, Duda. Se você desmaiar agora, o Emanuel mata todo mundo neste teatro, começando pelo maestro — a voz de Sara cortou o silêncio tenso do camarim privativo.
Eduarda olhou para cima e viu a loira encostada no batente da porta. Sara estava deslumbrante, como sempre, usando um vestido de veludo preto que abraçava suas curvas generosas e um decote que desafiava as leis da gravidade. Ela segurava uma taça de espumante, parecendo totalmente deslocada naquele ambiente de disciplina e silêncio, mas sua presença era uma âncora estranhamente reconfortante.
— Eu estou apavorada, Sara — confessou Eduarda, a voz saindo pequena. — E se eu cair? E se eles virem que eu não sou mais a mesma?
Sara caminhou até ela, o som de seus saltos agulha ecoando no piso. Ela se inclinou, e o perfume caro e forte inundou os sentidos de Eduarda. Com uma mão perfeitamente manicurada, Sara ergueu o queixo da morena.
— Escuta aqui, garota. Você passou os últimos meses treinando naquela sala que o Emanuel montou até seus pés sangrarem. Eu vi. Eu ouvi. Você é a coisa mais irritantemente perfeita que já vi dançar. Se você errar um passo, ninguém vai notar, porque eles vão estar ocupados demais olhando para essa sua carinha de anjo. E se alguém vaiar, eu mesma desço do camarote e arranco os olhos do infeliz com o meu salto. Entendeu?
Eduarda soltou um riso nervoso, limpando uma lágrima que ameaçava borrar a maquiagem pesada de palco.
— Obrigada, Sara.
— Não me agradeça. Só entra lá e faz o Emanuel sentir que cada centavo que ele gastou naquela reforma valeu a pena. Ele está lá fora, sabia? Parece um leão enjaulado. Henrique tentou falar de negócios e o Emanuel quase quebrou o copo de uísque na mão. Ele só tem olhos para aquele palco.
A campainha soou, anunciando os cinco minutos para o início do segundo ato, onde Eduarda faria sua reestreia como solista convidada no "Grand Pas de Deux" de *O Quebra-Nozes*.
— Vá — disse Sara, dando um tapinha encorajador (e um pouco forte demais) no ombro de Eduarda. — Eu vou voltar para o meu lugar antes que o Emanuel mande a segurança me buscar.
No camarote central, Emanuel estava sentado na borda da poltrona. Ele usava um terno sob medida, preto sobre preto, que escondia as tatuagens, mas não a intensidade predatória de seu olhar. Ele ignorava a movimentação da elite paulistana ao seu redor. Para ele, o teatro estava vazio, exceto pelo espaço iluminado além das cortinas de veludo carmesim.
Henrique, ao seu lado, tentou puxar assunto.
— Ela deve estar nervosa, não? É um retorno triunfal.
— Ela está pronta — Emanuel respondeu, a voz curta e grossa. Ele não queria conversar. Ele queria ver. Queria possuir cada movimento dela com os olhos.
Sara entrou no camarote, deslizando para o assento ao lado de Emanuel. Ela pegou a mão dele, que estava fechada em um punho sobre o joelho, e entrelaçou seus dedos nos dele. Emanuel não a afastou; a energia elétrica de Sara ajudava a ancorar sua própria tensão.
— Ela está pronta, Manu — sussurrou Sara, aproximando-se do ouvido dele. — Mas prepare o coração. Ela não parece a nossa Duda de casa. Ela parece uma deusa.
As luzes se apagaram. O silêncio caiu sobre o público como um manto pesado. A orquestra começou os primeiros acordes da *Dança da Fada Açucarada*, uma melodia celestial e delicada que parecia flutuar pelo ar.
Quando o canhão de luz se acendeu, Eduarda estava lá.
Emanuel sentiu o ar escapar de seus pulmões. Ele já a vira praticar na cobertura, mas nada o preparara para a visão dela sob as luzes do palco, vestida em um tutu de marfim bordado com fios de prata que brilhavam como estrelas. Ela parecia etérea, uma criatura feita de luz e música.
Eduarda começou a se mover.
Cada *plié* era de uma suavidade agonizante, cada *extensão* era uma linha perfeita de graça e força. Ela não apenas dançava; ela comandava o espaço. A timidez que a definia no dia a dia desaparecera, substituída por uma autoridade artística que Emanuel nunca imaginara que ela possuísse. Ele viu a força nas pernas dela, a musculatura definida que ele tanto gostava de acariciar sob os lençóis, agora trabalhando com uma precisão cirúrgica.
— Meu Deus — murmurou Sara, a ironia habitual sumindo de sua voz. — Ela é... ela é magnífica.
Emanuel não conseguia falar. Ele estava fascinado. Havia algo de possessivo na forma como ele a observava; ele sentia um orgulho feroz de saber que aquela mulher, aquela criatura divina que fazia o público prender a respiração, pertencia a ele. Ela era o seu segredo mais precioso, agora revelado ao mundo, mas ainda assim, inteiramente dele.
Eduarda executou uma série de *pirouettes* com uma velocidade estonteante, parando em um *arabesque* perfeito, o equilíbrio tão estável que parecia desafiar a gravidade. Ela olhou para o camarote central por um milésimo de segundo, e Emanuel soube que ela o vira. O brilho nos olhos dela não era de medo, mas de triunfo.
O espetáculo seguiu como um sonho febril. Quando a música atingiu o clímax e Eduarda finalizou sua última variação, o teatro permaneceu em silêncio por um batimento cardíaco antes de explodir em aplausos.
Emanuel foi o primeiro a ficar de pé.
Ele não aplaudia como os outros; ele apenas a encarava, os olhos escuros ardendo de uma paixão renovada. Eduarda, no centro do palco, ofegante, com o peito subindo e descendo sob o corpete justo, fez uma reverência profunda. Flores começaram a ser lançadas, mas ela mantinha o olhar fixo no camarote onde o seu mundo residia.
Vinte minutos depois, Emanuel entrou no camarim como uma tempestade. Os seguranças do teatro nem tentaram impedi-lo; havia algo na expressão dele que dizia que ele derrubaria as portas se fosse necessário.
Eduarda estava sentada diante do espelho, ainda com o figurino, tentando remover a coroa de prata de seus cabelos. Quando viu o reflexo dele no espelho, ela paralisou.
Emanuel caminhou até ela, colocou as mãos em seus ombros e a forçou a se levantar. Sem dizer uma palavra, ele a puxou para um beijo profundo, possessivo, que carregava todo o estresse das últimas semanas e toda a admiração que ele não conseguia colocar em palavras.
— Você... — ele começou, a voz falhando pela primeira vez em anos. — Você me deixou sem palavras, Eduarda.
— Você gostou, Manu? — ela perguntou, a voz manhosa voltando, mas temperada com a confiança de quem acabara de conquistar uma multidão.
— Eu odiei — ele rosnou, embora seus olhos dissessem o contrário. — Odiei cada segundo em que todos aqueles homens ficaram olhando para você. Eu queria descer lá e cobrir você com o meu paletó. Eu queria que você estivesse dançando só para mim, naquela sala de casa.
Eduarda riu, passando os braços pelo pescoço dele, ignorando o fato de que a maquiagem de palco poderia manchar a camisa dele.
— Mas eu estava dançando só para você. Você viu? Eu não errei nada.
— Você foi perfeita — disse Emanuel, voltando a beijá-la.
— Com licença, o casal de comerciais de margarina pode abrir espaço para a estrela da noite? — Sara entrou, carregando um buquê imenso de rosas vermelhas, quase do tamanho dela mesma. — Duda, querida, eu admito: você me fez borrar o rímel. E olha que este rímel custou duzentos dólares e prometia ser à prova de tudo, até de casamentos fracassados.
Sara entregou as flores a Eduarda e, de forma surpreendente, deu-lhe um beijo na bochecha.
— Você foi incrível. De verdade. Agora, por favor, tire esse figurino antes que o Emanuel tenha um ataque de possessividade e te leve daqui enrolada em um tapete.
— Nós vamos comemorar — Emanuel decretou. — Reservei o andar superior do Fasano. Só nós três.
— E o Sorte e o Oliver? — perguntou Eduarda, lembrando-se dos gatos.
— Os gatos vão ficar com a babá de pet — disse Sara, revirando os olhos. — Hoje à noite a atenção é toda nossa. E eu quero detalhes de como é a sensação de ter três mil pessoas babando por você, porque geralmente sou eu quem causa esse efeito, mas hoje... hoje eu aceito o segundo lugar.
Eduarda sorriu, sentindo-se completa. Ela olhou para Emanuel, que ainda a segurava pela cintura como se ela pudesse desaparecer, e para Sara, que já estava retocando o batom no espelho dela.
No restaurante, a tensão do palco deu lugar a uma celebração luxuosa. Emanuel não conseguia tirar as mãos de Eduarda; ele agia como se tivesse redescoberto um tesouro. Ele pedia os vinhos mais caros, observando como a luz das velas refletia nos olhos castanhos dela.
— Eu não quero que você pare — disse Emanuel, de repente, cortando a conversa sobre a faculdade.
— O quê? — Eduarda perguntou, confusa.
— O ballet. Eu vi o que isso faz com você. Você brilha de um jeito que... — ele hesitou, buscando a palavra certa — ...que me assusta e me fascina ao mesmo tempo. Você pode continuar com a História da Arte, mas não quero que esconda esse talento de novo. Se você quiser dançar, eu compro um teatro para você.
— Não precisa comprar um teatro, Manu — ela riu, tocando a mão dele sobre a mesa. — Ter a sala em casa e poder fazer essas apresentações especiais... é o suficiente. Eu não quero mais a vida de antes. Eu quero esta vida. Com você. Com a Sara.
Sara levantou a taça de cristal.
— Aos nossos arranjos nada convencionais e à bailarina mais talentosa de São Paulo. Que, aliás, ainda me deve uma explicação de como consegue ter aquelas pernas e ainda comer sobremesa.
— É o treino, Sara — Eduarda brincou. — Se você quiser, eu te ensino uns passos.
— Eu? De tutu? — Sara soltou uma gargalhada vulgar e sonora que fez algumas cabeças se virarem no restaurante. — Querida, eu nasci para ser a plateia de luxo, não para ficar pulando em sapatilhas. Mas eu aceito as massagens nos pés que o Emanuel vai ter que te dar amanhã. Posso entrar na fila.
Emanuel sorriu, sentindo-se estranhamente em paz. A noite de domingo, que costumava ser o seu momento de irritação e estresse, transformara-se em algo diferente. Ele olhou para Eduarda, a sua pequena bailarina que escondia uma força de titânio, e para Sara, a sua administradora implacável que escondia um coração (embora muito bem enterrado sob camadas de sarcasmo e silicone).
Ao voltarem para a cobertura, o silêncio da noite foi quebrado apenas pelo ronrom dos gatos e pelo som suave dos passos de Eduarda, que ainda parecia flutuar.
Emanuel a levou para o quarto, mas antes que pudessem entrar, ele parou na porta da sala de ensaio. A luz da lua entrava pelas janelas amplas, iluminando a barra de madeira e os espelhos.
— Dança para mim? — ele pediu, a voz baixa e rouca. — Só mais uma vez. Sem música. Sem público. Só para o seu dono.
Eduarda olhou para ele, o cansaço desaparecendo. Ela entrou na sala, ainda usando o vestido de seda que escolhera para o jantar. Ela não precisava de sapatilhas agora. Ela se posicionou no centro da sala, e no silêncio da madrugada paulistana, ela executou um *adágio* lento.
Emanuel ficou na porta, encostado no batente, observando cada curva, cada extensão. Sara apareceu atrás dele, em silêncio, observando também. Por um momento, não havia disputas, não havia ciúmes, não havia vulgaridade ou timidez. Havia apenas a beleza pura de um movimento.
Quando Eduarda terminou, ela não fez uma reverência. Ela simplesmente caminhou até Emanuel e se aninhou em seus braços.
— Você é o meu melhor público, Manu — ela sussurrou.
— E você é a minha melhor obra de arte — ele respondeu, beijando o topo de sua cabeça.
Sara, atrás deles, soltou um suspiro dramático.
— Tá bom, chega de poesia. Meus pés estão me matando e eu quero dormir. Emanuel, carrega a bailarina para a cama e tenta não quebrar nada, porque amanhã temos uma reunião às oito com os fornecedores de Berlim.
Emanuel obedeceu, pegando Eduarda no colo. Ele caminhou pelo corredor de seu império particular, sentindo-se o homem mais rico do mundo. Não pelos estúdios, não pelo dinheiro, mas porque possuía o equilíbrio perfeito entre a seda e o couro, entre o cisne e a leoa.
Enquanto as luzes da cobertura se apagavam, a última imagem na mente de Emanuel não era a de Eduarda no palco do Teatro Municipal, mas a dela ali, na sala de casa, dançando apenas para ele. Ele finalmente entendeu que não precisava controlar cada aspecto da vida delas; ele só precisava ser o porto seguro para onde elas sempre voltariam, não importa o quão alto voassem ou o quão forte rugissem.
A paz, afinal, não era a ausência de barulho, mas a harmonia entre as vozes que ele escolhera para amar. E naquela noite, sob o céu cinza de São Paulo, o silêncio era a música mais bonita que ele já ouvira.