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Sapatilhas de Sangue e Cinza
A chuva batia nas vidraças da cobertura com uma insistência melancólica, emoldurando o cinza de São Paulo que se estendia além do parapeito. Emanuel estava em seu escritório, um refúgio de couro, madeira escura e o aroma persistente de tinta de tatuagem e uísque caro. Ele revisava alguns portfólios de novos artistas para o estúdio de Madri, mas sua mente estava inquieta.
Eduarda estava estranha. Mais silenciosa que o habitual, o que, para alguém naturalmente tímida, significava quase uma invisibilidade emocional. Ela passava horas na biblioteca ou encarando as telas de História da Arte, mas havia uma rigidez em sua postura que Emanuel, observador nato de corpos e movimentos, não conseguia ignorar.
Ele se levantou e caminhou até o quarto de hóspedes, que Eduarda usava para guardar suas caixas de mudança — aquelas que ela ainda se recusava a desempacotar totalmente, como se manter as tampas fechadas fosse uma garantia de que poderia fugir se o mundo de Emanuel ficasse grande demais para ela.
— Duda? — chamou ele, empurrando a porta entreaberta.
O quarto estava vazio, mas uma das caixas maiores havia cedido lateralmente. O conteúdo transbordava: tecidos finos, tules em tons de rosa seco e champanhe, e algo que reluziu sob a luz halógena do corredor. Emanuel se aproximou e franziu o cenho. Ele se abaixou, pegando um par de sapatilhas de ponta. Elas não eram novas. O cetim estava gasto, a biqueira endurecida por resina e gesso, e havia manchas escuras, quase imperceptíveis, que ele reconheceu imediatamente.
Sangue seco.
— O que é isso, Emanuel? — A voz de Sara ecoou atrás dele, carregada de uma curiosidade ácida.
Ela entrou no quarto balançando os quadris, segurando uma taça de vinho branco. Usava um vestido justo de seda vermelha que gritava por atenção, mas seus olhos loiros e afiados estavam fixos no objeto nas mãos do namorado.
— Sapatilhas de ballet? — Sara soltou uma risada curta, mas sem humor. — Não me diga que a bonequinha de porcelana faz pliés nas horas vagas? Eu sabia que ela era delicada, mas isso é clichê demais, até para ela.
Emanuel não respondeu. Ele virou a sapatilha e leu a inscrição discreta no arco interno: *E. Cavalcante – Royal Opera House*.
— Royal Opera House? — Emanuel murmurou, a voz ficando mais grave. — Isso é em Londres. É um dos palcos mais prestigiados do mundo.
— Deve ser de algum brechó — desdenhou Sara, embora uma ponta de insegurança brilhasse em seus olhos. Ela detestava não ser o centro das atenções ou descobrir que havia camadas em Eduarda que ela não podia controlar. — Ou talvez ela tenha feito aulas quando criança, como toda menina rica e mimada.
— Essas sapatilhas foram usadas por uma profissional, Sara — disse Emanuel, passando o polegar pelo cetim gasto. — O desgaste, a forma como a fita está cortada... isso aqui é o resultado de milhares de horas de treino.
— O que vocês estão fazendo aqui? — A voz de Eduarda soou na porta, pequena e trêmula.
Ela estava parada ali, segurando um livro contra o peito. Seus olhos castanhos saltaram de Emanuel para as sapatilhas e, por um instante, a cor sumiu de seu rosto, deixando-a de uma palidez cadavérica.
— Duda — Emanuel disse, levantando-se com a sapatilha na mão. — Eu não sabia que você dançava.
Eduarda entrou no quarto, seus movimentos rápidos e nervosos. Ela tentou pegar o calçado da mão dele, mas Emanuel o manteve fora de seu alcance, não por maldade, mas por uma necessidade possessiva de entender aquele segredo.
— Isso é velho. É lixo — disse ela, a voz subindo um tom, beirando o pânico. — Eu esqueci que tinha guardado isso. Me dá, Emanuel. Por favor.
— Lixo? — Sara interveio, cruzando os braços e deixando o decote em evidência, aproximando-se como um predador que fareja sangue. — Tem o seu nome aqui, "queridinha". E um selo de Londres. Você era bailarina? Tipo, de verdade? Ou só usava o figurino para tirar fotos bonitas?
Eduarda ignorou Sara, mantendo o olhar fixo em Emanuel.
— Por favor, Manu... coloca de volta na caixa. Eu não quero falar sobre isso.
Emanuel deu um passo à frente, sua presença imponente prechendo o espaço entre as duas mulheres. Ele tocou o rosto de Eduarda com a mão livre, o polegar traçando a linha de sua mandíbula.
— Por que você nunca me contou? Eu te conheço há meses. Eu sei como seu corpo se move, como você é flexível, a força que tem nas pernas apesar de parecer tão frágil... Tudo faz sentido agora. Você não era apenas uma bailarina. Você era *a* bailarina.
Eduarda fechou os olhos, uma lágrima solitária escapando.
— Eu era — sussurrou ela. — Mas a Eduarda que dançava morreu há três anos.
— Morreu por quê? — Sara perguntou, a voz menos sarcástica agora, genuinamente intrigada. — Alguma lesão dramática? Um namorado que te proibiu? Ou você simplesmente não era boa o suficiente para o papel principal?
Eduarda respirou fundo, e algo em sua postura mudou. A timidez habitual deu lugar a uma rigidez de aço, a memória muscular de anos de disciplina russa.
— Eu era a primeira bailarina, Sara — disse Eduarda, a voz fria e cortante como Emanuel nunca tinha ouvido. — Eu me apresentei em Paris, Nova York e Londres. Eu era a Giselle, a Odette, a Sugar Plum Fairy. Eu não desisti porque não era boa. Eu desisti porque não aguentava mais ser um instrumento.
Emanuel sentiu um aperto no peito. Ele, que vivia da arte de marcar a pele alheia, entendia o que era ser consumido pela própria vocação.
— O que aconteceu, Duda? — perguntou ele, suavemente.
— Eu quebrei — disse ela, olhando para as sapatilhas como se fossem restos de um acidente de carro. — Não fisicamente. Meus ossos aguentaram. Mas minha alma se desintegrou. Cada vez que eu subia no palco, eu sentia que estava deixando um pedaço da minha vida para trás. O peso da perfeição, as dietas, a dor constante... Eu olhei no espelho um dia antes da estreia de "O Lago dos Cisnes" em Londres e não vi ninguém. Eu vi uma boneca de corda. Então, eu simplesmente saí do teatro. Deixei tudo para trás. Minha carreira, minha bolsa de estudos, meus pais... eles não entenderam. Ninguém entendeu.
— Seus pais são modernos e jovens, Eduarda — Sara pontuou, bebendo um gole de vinho. — Eles devem ter ficado furiosos. Todo aquele investimento...
— Eles ficaram decepcionados — corrigiu Eduarda, a voz embargada. — Por isso eu estudo História da Arte agora. Eu quero olhar para a arte, não ser a arte. Eu quero paz, Emanuel. Eu quero ser a menina tímida que ninguém nota, não a estrela que todo mundo julga.
Emanuel jogou as sapatilhas de volta na caixa com uma violência súbita que fez as duas mulheres pularem. Ele estava irritado. Irritado porque ela havia escondido uma parte tão monumental de si mesma; irritado porque o talento dela era algo que ele desejava ter visto, possuído, admirado.
— Você escondeu isso de mim porque achou que eu ia te pressionar a voltar? — perguntou ele, a voz ríspida.
— Eu tive medo que você me visse diferente — confessou ela, aproximando-se dele, tentando tocar seu braço tatuado. — Você gosta de coisas fortes, Emanuel. De mulheres marcantes, como a Sara. Eu achei que, se você soubesse que eu era uma "fracassada" que fugiu do próprio sucesso, você perderia o interesse.
Emanuel soltou uma risada rascante, segurando a cintura de Eduarda com força e puxando-a para perto.
— Você é idiota? — rosnou ele contra os lábios dela. — Você conquistou o que milhões tentam e abandonou tudo porque quis. Isso não é fraqueza, Eduarda. Isso é uma forma de controle que eu nem sabia que você tinha.
Sara, sentindo-se deixada de lado na intensidade do momento, bufou e colocou a taça sobre uma cômoda.
— Bom, agora que o segredo de estado foi revelado, o que vamos fazer? — perguntou ela, cruzando os braços sobre os seios siliconados. — Vamos montar uma barra de ballet no meio da sala? Porque eu não vou dividir o espelho da academia com você fazendo alongamentos, querida.
Emanuel olhou para Sara, seu olhar mudando de intensidade.
— Ela não vai voltar a dançar se não quiser, Sara. Mas ela vai parar de se esconder.
Ele se voltou para Eduarda, seus olhos escuros fixos nela com uma autoridade que a fazia tremer.
— Eu quero ver — ordenou ele.
— O quê? Não, Emanuel...
— Eu quero ver você dançar. Agora. Sem sapatilhas, sem palco. Só você.
— Eu não consigo — ela implorou, a insegurança voltando a nublar seu rosto. — Eu estou enferrujada. Eu não pratico há anos.
— Mentira — disse Sara, surpreendendo a ambos. — Eu ouço você no meio da noite, Eduarda. Às vezes, quando o Emanuel está viajando ou dormindo pesado. Eu ouço o barulho dos seus pés no chão da biblioteca. Eu achava que você estava apenas andando de um lado para o outro por causa da ansiedade da faculdade, mas agora eu sei. Você pratica no escuro, não pratica?
Eduarda ficou em silêncio, o rosto ardendo de vergonha.
— Pratica? — Emanuel repetiu, a voz perigosamente baixa.
— Só... alguns exercícios básicos — admitiu ela, quase em um sussurro. — Para não perder a forma totalmente. É a única coisa que me acalma.
Emanuel a pegou pela mão e a arrastou para a sala de estar ampla, onde o chão de madeira nobre brilhava sob as luzes embutidas. Sara os seguiu, encostando-se no batente da porta, o sarcasmo dando lugar a uma curiosidade genuína e, talvez, um pouco de respeito relutante.
— Dança — ordenou Emanuel, soltando a mão dela e cruzando os braços.
Eduarda ficou parada no centro da sala. Ela usava um vestido simples de algodão e estava descalça. Por um longo minuto, nada aconteceu. O som da chuva era a única trilha sonora. Então, ela fechou os olhos.
A transformação foi instantânea.
Os ombros de Eduarda desceram, o pescoço pareceu alongar-se e sua coluna se endireitou com uma elegância que não era humana. Ela respirou fundo, e quando abriu os braços em primeira posição, o ar ao redor dela pareceu vibrar.
Ela começou a se mover. Não era uma coreografia completa, apenas uma sequência de *adágios* e *tours*. Mas a forma como seus pés tocavam o chão, o controle absoluto de cada músculo, a precisão de seus dedos no ar... era hipnotizante. Eduarda não era mais a menina manhosa que pedia colo; ela era uma força da natureza, uma criatura de técnica e emoção pura.
Emanuel sentiu a garganta secar. Ele já vira muitas coisas bonitas na vida, já desenhara obras de arte em peles famosas, mas nada se comparava àquela exibição de poder silencioso.
Sara, por sua vez, sentiu um nó estranho no estômago. Ela sempre se orgulhou de sua aparência, de seu corpo trabalhado por cirurgias e academia, de sua presença que parava ambientes. Mas Eduarda, ali, suada e sem maquiagem, possuía uma beleza que o dinheiro não podia comprar e que a vulgaridade não podia tocar. Era uma beleza de sacrifício.
Eduarda terminou com um *pirouette* triplo, parando com uma precisão absoluta, o peito subindo e descendo com a respiração ofegante. Ela olhou para Emanuel, vulnerável e poderosa ao mesmo tempo.
— Satisfeito? — perguntou ela, a voz falhando.
Emanuel caminhou até ela em silêncio. Ele não disse nada. Simplesmente a pegou no colo e a beijou com uma fome que misturava desejo e uma nova forma de adoração.
— Você é minha — ele rosnou contra a boca dela. — Cada passo, cada cicatriz naqueles pés... tudo é meu.
— Ei! — Sara interrompeu, embora seu tom fosse menos agressivo do que o normal. — Eu ainda estou aqui, lembram? E eu não vou ficar assistindo o "Show de Talentos da Duda" a noite toda.
Emanuel soltou Eduarda, mas manteve um braço ao redor de sua cintura. Ele olhou para Sara.
— Sara, amanhã você vai ligar para o melhor marceneiro de São Paulo. Eu quero uma barra de ballet profissional e espelhos instalados naquele quarto de hóspedes.
Eduarda arregalou os olhos.
— Manu, eu disse que não queria...
— Você não vai voltar para o palco se não quiser — ele a interrompeu, com um tom finalizador. — Mas você não vai mais dançar escondida no escuro como se estivesse cometendo um crime. Nesta casa, o que é seu é meu, e eu quero ter o privilégio de te ver ser o que você nasceu para ser.
Sara revirou os olhos, mas não protestou. No fundo, ela sabia que a dinâmica tinha mudado. Eduarda não era apenas a "namorada fofinha"; ela era uma competidora de peso, com uma disciplina que Sara respeitava.
— Tudo bem, "Imperador" — disse Sara, indo até o bar para pegar a garrafa de vinho. — Mas se ela ganhar uma sala de dança, eu quero aquela reforma na área da piscina que a gente discutiu. Equilíbrio, lembra?
Emanuel sorriu, sentindo a tensão do dia finalmente se dissipar. Ele tinha as duas ali, sob seu teto, sob seu comando, cada uma com suas forças e fraquezas.
— Equilíbrio — concordou ele.
Eduarda encostou a cabeça no ombro de Emanuel, sentindo-se, pela primeira vez em anos, leve. O segredo fora exposto, e o mundo não havia acabado. Pelo contrário, parecia ter se expandido.
— Obrigada, Manu — sussurrou ela.
— Não me agradeça ainda — disse ele, levando-a em direção ao sofá, onde Sara já se acomodava. — O jogo vai começar em dez minutos, e eu quero as minhas duas mulheres quietas e carentes ao meu lado. Sem discussões, sem sapatilhas e sem relatórios de administração.
— Eu não prometo nada — disse Sara, puxando Eduarda para o outro lado do sofá com uma brusquidão que era, à sua maneira, um gesto de aceitação. — Mas se o seu time perder, Emanuel, a culpa é toda sua por ter nos deixado tão nervosas com esse drama todo.
Emanuel sentou-se entre elas, sentindo o calor de Sara à direita e a suavidade de Eduarda à esquerda. Ele olhou para a caixa de sapatilhas abandonada no corredor e sorriu. A vida com elas era um caos constante, uma mistura de vulgaridade e delicadeza, de força e fragilidade. E ele, o tatuador que marcava destinos, não mudaria uma única linha daquela história.
O jogo começou, mas para Emanuel, a verdadeira vitória já havia sido conquistada. Ele havia descoberto o cisne escondido em sua pequena protegida, e agora, ele era o único que possuía as chaves da gaiola — uma gaiola de ouro, seda e o mais profundo e possessivo amor.