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Poeira, Sangue e Segredos
A fazenda da família Albuquerque, no interior de Minas Gerais, era o cenário de lembranças de infância para Emanuel e Eduarda, mas agora parecia um campo minado. O casarão colonial, cercado por pastos verdejantes e o cheiro doce de terra molhada, recebia toda a linhagem para o tradicional encontro de férias. Para Emanuel, o luxo de seus estúdios internacionais parecia um universo distante enquanto ele estacionava sua caminhonete preta à frente da varanda.
Ao seu lado, Sara saltou do veículo com um par de óculos escuros de grife e um vestido de seda amarelo-limão que deixava muito pouco para a imaginação. Ela era um ponto de cor berrante e artificial em meio ao rústico.
— Manu, se uma vaca lamber esse meu vestido, eu juro que transformo ela em um bife de ouro — Sara comentou, ajeitando o busto siliconado que o decote teimava em destacar.
— Tente ser discreta, Sara. Só por hoje — Emanuel pediu, embora soubesse que era um pedido inútil. Ele estava tenso. O maxilar travado revelava o estresse de estar no território de seus pais e tios.
— Discreta não está no meu vocabulário, querido. E você sabe que sua família me adora porque eu sou a única que fala a verdade nessa mesa de jantar — ela riu, puxando-o para um beijo rápido e possessivo antes de entrarem.
Lá dentro, o ambiente era oposto. Eduarda já estava lá, ajudando a tia, Dona Odete, a organizar a louça. Quando Emanuel entrou, o olhar de Eduarda se iluminou por um segundo, para logo em seguida se apagar em timidez ao ver Sara pendurada no braço dele. Eduarda usava um vestido de algodão branco, simples e solto, que a fazia parecer uma camponesa de um livro de época.
O jantar foi servido em uma mesa longa de madeira maciça. O pai de Emanuel, um homem rigoroso, e os pais de Eduarda, um casal de intelectuais modernos, conversavam sobre política e negócios. No entanto, o tópico mudou drasticamente quando Dona Odete, a matriarca da fazenda, decidiu focar sua atenção na sobrinha mais nova.
— Eduarda, minha flor, você está cada dia mais linda — começou Odete, servindo uma generosa porção de arroz carreteiro. — Estive conversando com a vizinha, a Sônia. O filho dela, o Rodrigo, voltou da Europa. Ele é agrônomo, um rapaz de ouro. Eu disse a ela que vocês dois seriam o par perfeito.
Eduarda sentiu o rosto queimar instantaneamente. Ela olhou para o prato, apertando o garfo com força.
— Tia, eu... eu não estou pensando nisso agora. A faculdade toma todo o meu tempo.
— Bobagem! — interveio a mãe de Eduarda, sorrindo. — Um pouco de romance faz bem para a arte, querida. O Rodrigo é muito culto, vocês teriam muito o que conversar.
Emanuel, sentado à frente de Eduarda, sentiu o sangue ferver. Ele cortou o pedaço de carne no seu prato com uma violência desnecessária, o som do metal contra a cerâmica ecoando na mesa.
— Acho que a Duda é inteligente o suficiente para escolher os próprios pretendentes, tia — Emanuel disse, a voz mais rouca que o normal, carregada de uma autoridade que ele mal conseguia conter.
— Ora, Manu, não seja protetor demais — Sara interveio, bebendo um gole de vinho e lançando um olhar malicioso para o namorado. — Deixe a menina conhecer o agrônomo. Quem sabe ele não tem um... trator potente?
A vulgaridade de Sara fez o pai de Emanuel pigarrear, desconfortável, enquanto Eduarda parecia querer desaparecer sob a mesa. Emanuel lançou um olhar mortal para Sara, que apenas deu de ombros, divertindo-se com o caos.
— Eu só acho — continuou Emanuel, ignorando Sara e fixando os olhos em Eduarda — que ela não precisa de ninguém empurrando candidatos goela abaixo. Ela sabe o que quer.
— Mas ele vem para o café amanhã — sentenciou Odete, ignorando o clima pesado. — E você, Duda, vai usar aquele vestido azul que eu te dei.
O restante do jantar foi um suplício para Emanuel. Ver a passividade de Eduarda e a insistência da família em "casá-la" despertava nele um instinto de posse que beirava o incontrolável. Ele queria levantar, bater na mesa e dizer que ela já pertencia a ele, que o corpo esguio dela já conhecia cada tatuagem de suas mãos. Mas o medo do escândalo, o medo de ver o olhar de decepção dos tios sobre Eduarda, o mantinha preso à cadeira.
Após o jantar, a casa ficou silenciosa. Sara, entediada com a falta de sinal de internet, decidiu tomar um banho demorado e dormir cedo. Emanuel aproveitou a oportunidade. Ele sabia que Eduarda costumava ir para a varanda ou para perto dos animais quando estava angustiada.
Ele a encontrou perto do curral, observando a lua cheia que iluminava a propriedade. O cheiro de feno e animal era forte, mas para eles, era o único lugar onde as paredes não tinham ouvidos.
— Duda — ele sussurrou, aproximando-se por trás.
Ela deu um pequeno salto, mas relaxou ao sentir o perfume dele.
— Você não devia estar aqui, Manu. A Sara... ou minha mãe...
— A Sara sabe que eu vim falar com você. E sua mãe está dormindo — ele a virou para si, segurando seu rosto com as duas mãos. — Eu não suporto ouvir eles falando de outros homens para você.
— Eu também odeio — ela murmurou, os olhos brilhando com lágrimas contidas. — Mas o que eu posso fazer? Eu sou a "Dudinha", a menina sensível que não sabe dizer não. Eu me sinto uma hipócrita, Manu. Estar aqui, com eles, e querer você...
— Você não é hipócrita. O mundo é que é complicado demais — Emanuel a puxou para um beijo urgente.
Não era apenas um beijo de carinho; era um beijo de necessidade, de frustração acumulada. Ele a conduziu para dentro do curral, para as sombras, longe da vista da casa principal. O ambiente era rústico, o chão coberto de palha limpa em um dos cantos, e o calor dos animais trazia uma atmosfera crua e primitiva.
Emanuel a prensou contra uma das vigas de madeira. Suas mãos, calejadas e firmes, subiram pelas pernas de Eduarda, levantando o vestido branco.
— Manu, aqui não... — ela tentou protestar, mas sua voz era um gemido manhoso.
— Aqui é o único lugar onde eu posso ser seu de verdade agora — ele respondeu, atacando o pescoço dela com mordidas leves. — Eu vou contar para eles, Duda. Eu não aguento mais esse teatro.
— Não agora... por favor, só me ama agora — ela pediu, entregando-se.
O contraste entre a delicadeza de Eduarda e a força bruta de Emanuel se manifestava em cada toque. Ele a colocou sobre um fardo de feno, desabotoando a calça com pressa. O desejo era uma urgência que queimava o peito. Eduarda se arqueava, os dedos enterrados nos braços tatuados dele, buscando o apoio que só ele fornecia.
O som da respiração ofegante de ambos se misturava ao som dos bois ruminando ao fundo. Estavam no auge da entrega, no momento em que o mundo exterior deixava de existir, quando um som seco de passos sobre a madeira da entrada do curral os fez congelar.
— Duda? Você está aí, minha filha? — A voz de Dona Odete ecoou, acompanhada pelo facho de uma lanterna que começou a varrer o ambiente.
O coração de Emanuel quase parou. Ele rapidamente puxou o vestido de Eduarda para baixo e se colocou na frente dela, tentando usar seu corpo largo para escondê-la nas sombras entre os fardos de feno.
— Eduarda, eu vi a luz da varanda acesa e... — Odete continuava a caminhar para dentro, a lanterna se aproximando perigosamente do canto onde eles estavam.
Emanuel sentia o suor frio escorrer. Eduarda estava encolhida, a mão sobre a boca para abafar a respiração descompassada. Se a tia desse mais cinco passos, o escândalo que eles tanto temiam seria inevitável.
— Tia Odete? — Uma voz estridente e confiante veio da entrada do curral, interrompendo o avanço da mulher.
Era Sara. Ela estava parada na porta, usando um robe de seda preta que brilhava sob a luz da lua, segurando um cigarro eletrônico.
— Sara? O que faz aqui fora a essa hora, menina? — Odete virou-se, desviando a lanterna de Emanuel e Eduarda.
— Eu perdi um brinco de diamante perto da cerca hoje à tarde — mentiu Sara, com uma naturalidade assustadora. — Achei que tinha caído por aqui. E o Emanuel veio me ajudar, mas ele é tão inútil que acho que se perdeu entre as vacas. Manu! Você está aí dentro?
Emanuel soltou o ar que nem sabia que estava prendendo. Ele saiu das sombras, fingindo limpar o pó da camisa, com uma expressão de tédio perfeitamente calculada.
— Estou aqui, Sara. Não tem brinco nenhum nessa sujeira.
Odete olhou de Emanuel para Sara, desconfiada, mas a presença avassaladora da loira sempre confundia seus sentidos.
— E a Eduarda? Eu achei que tinha ouvido a voz dela — disse a tia.
— A Duda passou por mim correndo agora há pouco, disse que ia buscar um copo de água na cozinha — Sara disse, cruzando os braços e exibindo um sorriso irônico. — A senhora sabe como ela é, parece um fantasma andando pela casa.
— Ah... deve ser isso. Essa menina vive no mundo da lua — Odete suspirou, parecendo convencida. — Bem, vamos entrar. Esse sereno faz mal para os ossos.
— Vá indo, tia. Eu vou só dar mais uma bronca no meu namorado por ele ser tão lerdo e já entramos — Sara piscou.
Quando Odete se afastou o suficiente, Eduarda saiu de trás dos fardos, tremendo da cabeça aos pés. Ela olhou para Sara com uma mistura de pavor e gratidão.
Sara caminhou até eles, soltando uma nuvem de vapor do cigarro. Ela olhou para o vestido desalinhado de Eduarda e para a calça de Emanuel, que ainda estava com o cinto frouxo.
— Vocês dois são amadores — Sara disse, o tom de voz livre de qualquer ciúme, apenas carregado de sua habitual praticidade ácida. — Se querem se pegar no mato, pelo menos tranquem a porta. Ou aprendam a ser rápidos.
— Sara... obrigado — murmurou Eduarda, a voz quase inaudível.
— Não me agradeça, santinha. Eu fiz isso pelo Manu. Não estou a fim de lidar com um enterro familiar em plena sexta-feira — ela se aproximou de Emanuel e deu um tapa forte no braço dele. — E você, trate de se recompor. Amanhã tem o tal agrônomo, e se você tiver um surto de ciúmes na frente de todo mundo, eu não vou te salvar de novo.
Sara deu as costas e começou a caminhar em direção à casa, seus saltos (que ela insistia em usar mesmo no campo) estalando no chão batido.
Emanuel olhou para Eduarda. A adrenalina do quase flagrante ainda corria em suas veias, mas a realidade da situação pesava mais do que nunca.
— Ela tem razão, Duda. Isso não pode continuar assim.
— Eu sei — Eduarda abraçou o próprio corpo, sentindo o frio da noite. — Mas amanhã... o que vamos fazer amanhã?
Emanuel passou o braço pelos ombros dela, conduzindo-a de volta para a segurança — ou para a prisão — da casa grande.
— Amanhã eu vou mostrar para aquele agrônomo, e para quem mais quiser ver, que algumas coisas nesta fazenda já têm dono.
Eduarda não disse nada, mas no fundo, ela sabia que o equilíbrio entre a proteção de Emanuel e a cumplicidade cínica de Sara era a única coisa que a mantinha inteira. O escândalo estava chegando, como uma tempestade de verão no horizonte, e por mais que ela temesse o raio, uma parte dela ansiava para que a chuva finalmente lavasse todas as mentiras.