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O Altar de Palha e o Veredito do Sangue
A manhã na fazenda Albuquerque nasceu com uma névoa densa, daquelas que abafam o som dos pássaros e dão ao campo um ar de mistério e presságio. Para Emanuel, o silêncio da madrugada não trouxe descanso. Ele passou as primeiras horas do dia revisando planilhas de seus estúdios em Londres, tentando canalizar a irritação e a ansiedade para o trabalho, mas seus olhos sempre fugiam para a janela, vigiando o movimento da casa grande.
Sara, por outro lado, parecia em seu elemento natural. Ela apareceu na cozinha para o café da manhã usando um conjunto de ginástica de lycra rosa choque, extremamente justo, que fazia as tias de Emanuel cruzarem os braços e desviarem o olhar. Ela ignorava os julgamentos silenciosos com uma eficiência invejável, espalhando geleia de amora no pão enquanto comentava sobre a falta de um spa naquela região "esquecida por Deus".
— Manu, o tal Rodrigo agrônomo já mandou mensagem para a sua tia — Sara anunciou, com um sorriso de canto de boca, observando o namorado ficar rígido. — Parece que ele chega às dez. Dizem que ele é um "partidão". Educado, cheira a perfume francês e terra arada.
— Não me interessa o que ele cheira, Sara — Emanuel rebateu, fechando o notebook com um estalo seco. — Eduarda não vai a lugar nenhum com esse sujeito.
— Ah, ela vai. A mãe dela já separou o vestido azul, lembra? — Sara deu uma piscadela maliciosa. — Se eu fosse você, levava a pequena para "conversar" antes que o pretendente apareça. Ela está lá no pomar, parecendo uma alma penada.
Emanuel não precisou de mais nenhum incentivo. Ele saiu da casa sob o olhar atento de sua mãe, Dona Margarida, e de sua tia, Dona Odete. Elas tomavam café na varanda, trocando segredos sobre o futuro de Eduarda. Ele sentia o peso do julgamento delas, mas sua necessidade de ver a prima era maior que qualquer cautela.
Ele a encontrou sob as sombras das laranjeiras. Eduarda usava o bendito vestido azul claro, que realçava sua pele alva e seus olhos sensíveis. Ela parecia uma boneca de porcelana prestes a quebrar. Quando viu Emanuel, seus lábios tremeram.
— Ele está chegando, não está? — perguntou ela, a voz sumida.
— Eu não vou deixar ele te levar, Duda — Emanuel disse, aproximando-se e ignorando o fato de que estavam a poucos metros da visão da casa. — Eu não aguento mais ver você sendo tratada como uma mercadoria que eles querem despachar.
— Mas o que eu faço, Manu? — Ela se apoiou no tronco de uma árvore, as lágrimas já começando a brotar. — Eu me sinto sufocada. Minha mãe já está planejando o nosso noivado sem eu sequer ter falado "oi" para o rapaz.
Emanuel a puxou para um abraço apertado. O calor do corpo dela contra o seu era o único calmante para seus nervos destruídos.
— Vamos para o celeiro velho — ele sussurrou no ouvido dela. — Onde ninguém vai procurar. Precisamos de um momento só nosso antes dessa tempestade começar.
O celeiro velho ficava nos fundos da propriedade, uma construção de madeira escura que não era usada há anos para os animais, servindo apenas como depósito de ferramentas e feno seco. O aroma de madeira antiga e poeira suspensa criava um santuário isolado do resto do mundo.
Lá dentro, a luz do sol filtrava-se pelas frestas do telhado, criando feixes dourados que iluminavam o ar. Assim que a porta pesada foi encostada, a tensão de Emanuel transbordou. Ele a prensou contra a parede de madeira, beijando-a com uma possessividade que beirava o desespero.
— Você é minha, Duda. Só minha — ele declarou entre os beijos, as mãos grandes mapeando as curvas delicadas sob o tecido azul.
— Eu sei... eu sou sua — ela respondeu, a timidez dando lugar a uma urgência alimentada pelo medo da perda.
Eles se moveram para o centro do celeiro, onde uma pilha de feno alto e macio servia como um altar improvisado. Emanuel a deitou com cuidado, mas seus movimentos eram rápidos. Ele precisava marcar seu território, precisava sentir que, apesar de todos os "Rodrigos" do mundo, era o sangue dele que corria nas veias dela, era o toque dele que ela reconhecia.
Eduarda, geralmente tão passiva e dependente, sentiu uma súbita onda de audácia. Ela queria sentir-se no controle de algo, nem que fosse por um momento. Ela puxou Emanuel para cima de si, mas logo em seguida, o inverteu, sentando-se sobre ele enquanto ele se acomodava no feno.
Ela levantou a saia do vestido azul, revelando as coxas brancas e macias. Emanuel soltou um gemido baixo, segurando a cintura dela com firmeza, as tatuagens de seus braços contrastando violentamente com a pureza da imagem dela.
— Duda... — ele murmurou, a voz carregada de desejo.
Ela se inclinou para frente, os cabelos castanhos caindo como uma cortina ao redor dos dois, e começou a se mover. Eduarda cavalgava nele com uma entrega total, um ritmo manhoso e desesperado que fazia Emanuel perder qualquer noção de tempo ou lugar. Naquele momento, ele não era o empresário rico ou o primo protetor; ele era apenas um homem rendido à mulher que amava.
O prazer subia em ondas, e o silêncio do celeiro era preenchido apenas pelo som da madeira rangendo levemente e pela respiração entrecortada dos dois.
Enquanto isso, na casa grande, o clima de celebração estava no auge. Rodrigo, o agrônomo, acabara de chegar em uma caminhonete impecável.
— Onde está a Eduarda? — perguntou Dona Odete, radiante. — Ela estava no pomar agora mesmo.
— E o Emanuel sumiu também — comentou Dona Margarida, a mãe dele, franzindo o cenho. — Eles sempre foram muito grudados, mas hoje ele parece especialmente inquieto.
— Vamos chamá-la — sugeriu a mãe de Eduarda, entusiasmada. — Ela deve estar escondida no celeiro velho, ela adorava ler lá quando era criança. Vamos todos, o dia está lindo para um passeio até lá.
O grupo, formado pelas três irmãs — Margarida, Odete e a mãe de Eduarda — seguiu pelo caminho de terra, conversando animadamente sobre o futuro da família. Elas não chamaram, queriam fazer uma surpresa, mostrar ao pretendente a "simplicidade encantadora" da moça da família.
Ao chegarem perto do celeiro, elas notaram que a porta estava entreaberta.
— Duda? — a mãe dela chamou baixinho, com um sorriso no rosto. — Tem alguém aqui?
Elas entraram em fila. O sol que entrava pelas frestas iluminava exatamente o centro do celeiro.
O choque foi tão violento que o tempo pareceu congelar.
Eduarda estava no topo, com o vestido azul levantado até a cintura, as costas nuas voltadas para a porta, movendo-se com um abandono que nenhuma daquelas mulheres jamais associaria à "doce Dudinha". Emanuel estava abaixo dela, as mãos firmes em suas nádegas, o rosto enterrado no pescoço da prima, soltando um gemido de prazer que morreu na garganta assim que o grito de Dona Odete rasgou o ar.
— MEU DEUS DO CÉU! — O grito da tia ecoou como um tiro de canhão.
Eduarda deu um salto para trás, tropeçando no feno, tentando desesperadamente puxar o vestido para cobrir as pernas. Emanuel levantou-se num movimento instintivo, colocando-se à frente dela enquanto fechava a calça com as mãos trêmulas pela adrenalina e pelo susto.
As três mulheres estavam paradas como estátuas de horror. Dona Margarida levou a mão ao peito, empalidecendo a ponto de parecer que ia desmaiar. A mãe de Eduarda soltou um soluço sufocado, os olhos arregalados de uma forma que beirava a loucura.
— O que é isso? — a mãe de Eduarda sussurrou, a voz falhando. — Emanuel... Eduarda... vocês são primos! Irmãos de criação!
— Saiam daqui — Emanuel ordenou, a voz saindo em um rosnado defensivo. Ele estava vermelho de fúria e vergonha, mas seu instinto de proteção falava mais alto. — Saiam agora!
— Como você ousa? — Odete avançou um passo, apontando o dedo trêmulo para o sobrinho. — Nós confiamos em você! Você a corrompeu! Sua própria prima, uma menina!
— Ninguém corrompeu ninguém! — Eduarda gritou, levantando-se de trás de Emanuel, as lágrimas escorrendo livremente, o vestido manchado de palha e o rosto marcado pelo pavor. — Eu o amo! Nós nos amamos!
O tapa cruzou o rosto de Eduarda antes que Emanuel pudesse intervir. Foi a própria mãe dela, em um acesso de histeria.
— Cale a boca! — gritou a mulher. — Isso é um pecado! É uma abominação! O que vão dizer de nós? O Rodrigo está lá fora! A família inteira... meu Deus, a minha filha é uma...
— Não termine essa frase — Emanuel rugiu, segurando o braço da tia com uma força que a fez recuar. — Se você disser mais uma palavra contra ela, eu esqueço que somos do mesmo sangue.
— Você já esqueceu, Emanuel! — Margarida, a mãe dele, finalmente falou, a voz carregada de um desprezo frio que doeu mais que qualquer grito. — Você sempre foi o orgulho desta família. O homem de sucesso. E agora você se arrasta no feno com a sua prima como um animal? E a Sara? Aquela mulher mora com você! Você não tem decência?
Nesse momento, a sombra de Sara apareceu na porta do celeiro. Ela observava a cena com uma expressão ilegível, os braços cruzados sobre o peito. Ela não parecia surpresa; parecia apenas entediada com a previsibilidade do drama.
— O show chegou ao clímax, pelo que vejo — Sara disse, sua voz cortando a histeria como uma navalha.
— Sara, pelo amor de Deus, tire esse homem daqui! — Odete implorou. — Ele está abusando da sua confiança!
Sara soltou uma risada curta e seca, caminhando para dentro do celeiro e parando ao lado de Emanuel. Ela olhou para as três senhoras com um olhar de profundo desdém.
— Deixem de ser hipócritas — Sara disparou. — Eu sei sobre eles há meses. E quer saber? O Emanuel tem amor suficiente para nós duas. Ele cuida dela melhor do que qualquer um de vocês, que só querem vendê-la para o primeiro agrônomo que aparece com uma conta bancária gorda.
— Você aceita isso? — A mãe de Eduarda olhou para Sara como se ela fosse uma alienígena. — Você é cúmplice dessa imoralidade?
— Eu aceito a verdade — Sara respondeu, colocando a mão no ombro de Emanuel de forma possessiva. — O que eu não aceito é essa encenação de família perfeita. Vocês estão mais preocupadas com o "escândalo" do que com a felicidade da Eduarda. Olhem para ela! Ela está apavorada por causa de vocês, não por causa dele.
— Chega — Emanuel disse, sua voz recuperando a autoridade fria que ele usava em seus negócios. — O segredo acabou. É isso o que vocês viram. Eu amo a Sara e eu amo a Eduarda. E nenhuma de vocês vai encostar um dedo na Duda novamente.
— Você vai embora desta fazenda agora, Emanuel — disse Margarida, a voz trêmula de mágoa. — E você, Eduarda, vai para o seu quarto. Você vai ficar trancada até decidirmos o que fazer com você.
— Ela não vai a lugar nenhum com vocês — Emanuel deu um passo à frente, mas Eduarda segurou seu braço.
— Manu... por favor — ela soluçou. — Vá. Se você ficar agora, vai ser pior. Eu... eu vou para o quarto.
— Duda, não — ele tentou protestar.
— Vá, Emanuel — ela repetiu, os olhos suplicantes. — Por favor.
Emanuel olhou para as tias e para a mãe, vendo nelas um muro de preconceito e ódio que ele não conseguiria derrubar com lógica. Ele olhou para Sara, que apenas assentiu, indicando que era hora de recuar estrategicamente.
— Eu vou — Emanuel disse, apontando para a mãe de Eduarda. — Mas se eu souber que você gritou com ela, ou que tentou forçá-la a ver aquele homem, eu volto e levo ela comigo, nem que eu tenha que derrubar esta casa.
Ele caminhou em direção à saída, seguido por Sara. Na porta, ele parou e olhou uma última vez para Eduarda, que estava cercada pelas três mulheres, parecendo mais pequena e frágil do que nunca em seu vestido azul amassado.
— Isso não acabou — ele prometeu.
O trajeto de volta para a sede foi um borrão. Sara dirigia a caminhonete enquanto Emanuel socava o painel, a frustração explodindo em cada gesto.
— Você foi um idiota — Sara comentou, mantendo os olhos na estrada. — Eu te avisei para ser rápido.
— Eu não podia evitar, Sara! Eu precisava dela.
— Eu sei. Eu vi — ela deu um sorriso irônico. — Ela tem fogo, aquela santinha. Mas agora o jogo mudou, Manu. Elas vão tentar destruir ela. Vão tentar fazer ela se sentir a pior pessoa do mundo para que ela peça perdão e aceite o casamento com o tal Rodrigo.
— Eu não vou deixar — Emanuel rosnou.
— Então é melhor você preparar os seus advogados e o seu jato — Sara disse, acelerando o carro. — Porque a partir de hoje, nós não somos mais a família Albuquerque. Somos nós contra eles. E eu, pessoalmente, adoro uma guerra.
Enquanto a caminhonete se afastava, levantando uma cortina de poeira na estrada de terra, o celeiro velho ficava para trás, guardando o segredo que agora era uma ferida aberta. O escândalo que Eduarda tanto temia havia explodido, e as consequências seriam gravadas na pele de todos eles, tão profundas e indeléveis quanto a tinta de uma tatuagem.