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Raízes de Sangue e Leite
O asfalto da rodovia deu lugar ao cascalho batido conforme a caminhonete de luxo de Emanuel avançava pela estrada ladeada por jacarandás. O destino era a fazenda da família, um refúgio de arquitetura colonial encravado no interior, onde o tempo parecia ditar suas próprias regras, alheio à correria dos estúdios de tatuagem e à modernidade de São Paulo.
No banco do passageiro, Sara usava óculos escuros de grife que cobriam metade do rosto, observando a paisagem com um tédio mal disfarçado. Ela vestia um conjunto de linho branco curtíssimo, que contrastava com sua pele bronzeada e realçava o volume generoso de seu busto. No colo, a pequena Ágata, vestida com um macacão de seda bordado, olhava pela janela com uma expressão de julgamento precoce, como se a poeira da estrada fosse uma ofensa pessoal à sua linhagem.
No banco de trás, Eduarda encolhia-se contra a porta, tentando ocupar o menor espaço possível. Ela usava um vestido de algodão azul-claro, com manguinhas bufantes e um decote quadrado discreto. O coração dela batia acelerado. Emanuel insistira que essa viagem seria importante para "unir a família" e, principalmente, para que sua avó, a matriarca da linhagem, conhecesse a "outra" nora.
— Duda, para de roer as unhas — Emanuel disse, os olhos fixos na estrada, mas a mão direita alcançando o banco de trás para apertar o joelho da jovem. — Minha avó é uma mulher de outro tempo, mas ela vai adorar você. Ela gosta de gente mansa.
— O problema não é ser mansa, Emanuel — Sara interveio, ajeitando o cabelo loiro platinado que o vento desarrumava. — O problema é que a Dona Benedita tem faro para fraqueza. Eu sobrevivi ao crivo dela porque mostrei que mando em você tanto quanto ela. Já a Duda... bem, ela parece que vai desmaiar se uma galinha cacarejar mais alto.
— Eu não vou desmaiar, Sara — murmurou Eduarda, a voz saindo mais trêmula do que ela gostaria. — Só estou nervosa. Eu nunca conheci ninguém da família dele além dos pais.
— Relaxa, bonequinha — Sara deu um sorriso de lado, sem malícia real, mas com sua habitual superioridade. — Se ela começar a te assustar, eu jogo a Ágata no colo dela. A velha adora a neta, mesmo que a Ágata tenha esse jeito de quem nasceu num trono de ouro.
Emanuel suspirou, sentindo o peso das duas mulheres em sua vida. Ele precisava que Eduarda se sentisse em casa. Ele precisava que ela visse que havia espaço para ela em seu mundo, mesmo que esse mundo incluísse Sara e uma bebê esnobe.
Quando estacionaram diante da imponente casa de fazenda, uma figura pequena, de cabelos brancos presos em um coque rigoroso e olhos que pareciam perfurar a alma, já os esperava na varanda. Era Dona Benedita.
— Finalmente — a voz da idosa era firme, apesar da idade.
Emanuel desceu do carro e abraçou a avó com um respeito que raramente demonstrava a qualquer outra pessoa. Sara desceu logo em seguida, caminhando com a confiança de quem era dona do lugar, equilibrando Ágata no quadril.
— Benção, Dona Benedita — disse Sara, inclinando a cabeça levemente. — Trouxe a sua rainha para te visitar.
A idosa pegou a bebê no colo por um instante, analisando o rosto de Ágata.
— Continua com cara de quem quer comprar a fazenda e transformar em um shopping — comentou a avó, e um raro sorriso surgiu em seus lábios. — E você, Sara, continua vestindo menos pano do que uma mesa de centro.
— É o meu charme, velha — Sara riu, dando um beijo no rosto da sogra.
E então, os olhos de Dona Benedita se voltaram para Eduarda, que permanecia ao lado da porta do carro, segurando a própria bolsa como se fosse um escudo. Emanuel se aproximou e a puxou pela cintura, trazendo-a para o círculo familiar.
— Vovó, esta é a Eduarda.
O silêncio que se seguiu foi denso. Eduarda sentiu-se nua sob o olhar clínico da matriarca. Dona Benedita não disse "oi". Ela não estendeu a mão. Em vez disso, caminhou lentamente até a jovem, seus passos pesados ecoando na madeira da varanda.
— Venha cá, menina — ordenou a idosa.
Eduarda obedeceu, sentindo as pernas de gelatina. Quando chegou perto o suficiente, Dona Benedita não olhou para seu rosto. Seus olhos desceram para os quadris de Eduarda, que eram largos e suaves, contrastando com sua estrutura esguia.
Sem qualquer aviso ou pudor, as mãos calejadas da idosa avançaram. Ela apertou os ossos do quadril de Eduarda, sentindo a estrutura óssea da jovem com uma força surpreendente.
— Ei! O que é isso? — Emanuel deu um passo à frente, confuso e protetor.
— Calado, Emanuel — cortou a avó. — Eu sei o que estou procurando.
Eduarda estava estática, o rosto queimando de vergonha. Sara, ao lado, arqueou uma sobrancelha, achando a cena fascinante.
— Quadril bom — sentenciou Dona Benedita. — Largo na medida certa para a passagem. Ossatura de quem carrega bem.
Antes que Eduarda pudesse processar o comentário, a mão da idosa subiu com rapidez. Com uma audácia que chocou até mesmo Sara, Dona Benedita puxou levemente o decote do vestido azul de Eduarda para baixo e, com a outra mão, apalpou o seio direito da jovem por cima do tecido fino, sentindo o peso e a densidade da carne.
— Vovó! — Emanuel exclamou, agora realmente irritado, tentando afastar a mão da idosa.
— Solte-me, rapaz — a velha disse, soltando o vestido de Eduarda, que agora cobria o rosto com as mãos, querendo desaparecer. — Eu criei seis filhos e enterrei três maridos. Eu conheço o corpo de uma fêmea melhor do que qualquer médico desses hospitais de vidro de vocês.
Dona Benedita olhou para Emanuel, depois para Sara, e finalmente fixou os olhos em Eduarda, que tremia.
— Você está com o passo pesado, menina. E o peito está denso, mudando de cor na aréola — a idosa deu um passo atrás, cruzando os braços sobre o peito. — Pode parar de choramingar e começar a preparar o enxoval. Você está grávida.
O mundo pareceu parar. O som dos pássaros, o vento nas árvores, até o resmungo de Ágata desapareceu.
Emanuel sentiu o ar faltar nos pulmões. Ele olhou para Eduarda, cujas mãos haviam caído do rosto, revelando olhos castanhos arregalados em um choque absoluto.
— O quê? — a voz de Emanuel saiu num sussurro. — Vovó, isso é impossível. A Duda... nós somos cuidadosos.
— A natureza não quer saber do seu cuidado, Emanuel — rebateu a idosa, voltando-se para a entrada da casa. — O sangue dela mudou. O cheiro dela mudou. Está no início, mas o bicho já fincou pé ali dentro.
Sara foi a primeira a reagir. Ela soltou uma gargalhada alta, genuína, que ecoou por toda a propriedade.
— Ah, não! — Sara disse, aproximando-se de Eduarda e analisando-a como se ela fosse um espécime raro. — A santinha da faculdade de História da Arte? Grávida? Emanuel, você realmente não perde tempo, hein?
— Sara, cala a boca — Emanuel rosnou, mas seus olhos não saíam de Eduarda. Ele se aproximou dela, tocando seus ombros com delicadeza. — Duda... amor... você... sua regra está atrasada?
Eduarda sentia a cabeça girar. Ela tentou puxar pela memória. Com a correria do fim do semestre e as visitas à prima no hospital, ela mal tinha parado para pensar em si mesma.
— Eu... eu não sei — ela gaguejou, as lágrimas começando a transbordar. — Eu achei que era o estresse. Eu me senti um pouco enjoada na semana passada, mas achei que era o perfume da Sara no carro...
— O meu perfume? — Sara interrompeu, ofendida. — Meu perfume custa dois mil dólares o frasco, querida. Ele não dá enjoo, ele dá status.
— Chega! — Emanuel gritou, silenciando o ambiente.
Ele puxou Eduarda para um abraço apertado, enterrando o rosto no pescoço dela. O coração dele martelava. Se aquilo fosse verdade, tudo mudaria. O controle que ele tanto tentava exercer sobre a vida dela finalmente teria um motivo inquestionável. Ela não poderia mais dizer que não estava pronta para morar com ele. Ela teria que vir. Ela seria dele, sob seu teto, sob seus olhos, vinte e quatro horas por dia.
— Se você estiver grávida — Emanuel sussurrou no ouvido dela, a voz carregada de uma possessividade sombria e amorosa —, você se muda para a minha casa amanhã. Sem discussões. Sem "esperar mais um pouco".
Eduarda soluçou contra o peito dele. Ela estava apavorada, mas, no fundo daquela insegurança, uma pequena centelha de algo novo começava a brilhar.
Sara caminhou até eles, parando ao lado do casal. Ela olhou para a barriga ainda plana de Eduarda e depois para Emanuel.
— Bom — disse Sara, ajeitando Ágata no colo —, parece que a casa vai ficar pequena. Eu vou querer o quarto maior para a Ágata, já que ela é a primogênita. E você, Duda, trate de aprender a administrar as coisas. Se vai parir um herdeiro do império, não pode ficar só olhando quadro velho na faculdade.
— Você não está brava? — Eduarda perguntou, a voz pequena, olhando para Sara por cima do ombro de Emanuel.
Sara deu de ombros, a expressão voltando àquela indiferença superior.
— Por que eu estaria? Eu sou a Sara. Ninguém me substitui. Além disso... — ela deu um sorriso malicioso — ... vai ser divertido ver você gorda e sem poder usar esses vestidos de boneca. E a Ágata precisa de alguém para mandar. Um irmãozinho ou irmãzinha vai ser perfeito para ela treinar a autoridade.
Emanuel soltou Eduarda o suficiente para olhar em seu rosto. Ele limpou uma lágrima que escorria pela bochecha dela com o polegar.
— Vamos entrar — ele disse, o tom agora calmo, mas inabalável. — Vou ligar para o meu médico particular. Quero um exame de sangue feito aqui na fazenda ainda hoje. Eu mando um helicóptero buscar o laboratório se for preciso.
Dona Benedita observava tudo da porta da sala, com um sorriso de canto de boca.
— Não precisa gastar querosene de helicóptero, seu tonto — disse a idosa. — O que a terra diz, o homem não desmente.
Emanuel ignorou a avó e guiou as duas mulheres para dentro da casa. Ele sentia uma mistura explosiva de ansiedade e triunfo. Olhou para o lado e viu Sara, exuberante e pragmática, já reclamando do sinal de internet para verificar planilhas. Olhou para o outro lado e viu Eduarda, frágil e doce, caminhando como se pisasse em ovos, carregando o que poderia ser o futuro de todos eles no ventre.
Ele era um homem de sorte, pensou. Ou um homem condenado. De qualquer forma, ele finalmente teria o que queria: todas as suas peças sob o mesmo teto, unidas não apenas pela vontade dele, mas pelo sangue que agora começava a ditar as regras daquele jogo de poder e afeto.
Eduarda, ao entrar na sala de estar de teto alto, sentiu o olhar de Ágata sobre ela. A bebê a encarava com seus olhos claros e frios, como se já soubesse que seu reinado teria que ser compartilhado. Eduarda levou a mão ao próprio ventre, sentindo um calor estranho e profundo. O medo ainda estava lá, mas a proteção de Emanuel ao seu redor parecia, pela primeira vez, mais como um porto seguro do que como uma gaiola.
— Vai ficar tudo bem, bonequinha — Sara disse, passando por ela para se jogar em uma poltrona de couro. — Mas já aviso: se for menino e tiver a cara do Emanuel, eu me recuso a trocar as fraldas. Ele já é difícil o suficiente sendo um só.
Emanuel apenas sorriu, um sorriso raro e verdadeiro, enquanto fechava a porta da casa, trancando o resto do mundo do lado de fora. Ali, entre as paredes de pedra e o cheiro de café fresco, sua dinastia estava apenas começando.