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O Sangue da Terra e o Peso do Herdeiro

O sol da tarde incidia sobre as colinas de Minas Gerais, tingindo o pasto de um dourado profundo que parecia refletir a riqueza de Emanuel. Mas, dentro da sede da fazenda, o clima não era de contemplação. Eduarda estava sentada em uma cadeira de balanço na varanda, suas mãos acariciando a barriga que, aos quatro meses, já exibia uma protuberância generosa e firme. O vestido de linho branco, largo e fresco, não conseguia esconder a mudança em seu corpo: as curvas estavam mais acentuadas, os seios mais pesados e o rosto, antes pálido, agora tinha um viço rosado e saudável.

Dentro dela, o contraste era constante. Arthur, o menino, parecia herdar a impaciência do pai e a energia de Sara, chutando e se revirando em um frenesi agitado. Maya, por outro lado, era o porto seguro de Eduarda, movendo-se com uma lentidão serena que trazia paz à mãe nos momentos de maior cansaço.

— Eles não param um segundo, não é? — A voz de Sara surgiu vinda da porta, acompanhada pelo estalo seco de seus saltos, que ela se recusava a abandonar mesmo no campo.

Sara estava impecável em um conjunto de seda verde-esmeralda, as unhas impecavelmente feitas e a pequena Ágata no colo. A bebê, agora com um ano, observava a barriga de Eduarda com uma expressão de desconfiança absoluta, apertando seu coelhinho de pelúcia de grife contra o peito.

— O Arthur está bem agitado hoje — respondeu Eduarda com um sorriso tímido, ajeitando-se na cadeira. — Acho que ele sentiu o ar da fazenda.

— Ou sentiu o cheiro de confusão — Sara comentou, sentando-se na mureta da varanda com uma elegância felina. — A Dona Benedita e a mãe do Emanuel estão lá dentro em um conclave com uma mulher que parece ter saído de um filme de época. Emanuel está andando de um lado para o outro como um leão enjaulado.

Eduarda sentiu um aperto no peito. A visita da família de Emanuel sempre a deixava tensa, mas a chegada de "Dona Zefa", a parteira de quem todos falavam em tons de reverência e temor, trazia uma camada extra de ansiedade.

— Eu estou bem, Sara. Os exames na cidade dizem que está tudo perfeito — murmurou Eduarda, buscando conforto na própria lógica.

— Exames são papéis, bonequinha — Sara disse, e pela primeira vez não havia ironia em sua voz, apenas uma observação prática. — Para essa gente aqui, o que vale é o que o sangue diz. E Emanuel... bem, você sabe como ele fica quando sente que não tem o controle remoto da vida de todo mundo na mão.

Nesse momento, a porta de carvalho da sala se abriu. Emanuel saiu primeiro, a expressão sombria, as mangas da camisa social enroladas até os cotovelos, revelando as tatuagens que pareciam pulsar com sua irritação. Atrás dele vinham Dona Benedita, a mãe de Emanuel — uma mulher elegante que mantinha a postura de uma rainha exilada — e uma senhora pequena, de pele curtida pelo sol e olhos que pareciam enxergar através do tempo.

Aquela era Dona Zefa. Ela não usava jaleco, mas carregava um rosário de madeira e um cheiro persistente de ervas secas e terra molhada.

— Tragam a menina para a luz — ordenou Dona Zefa, a voz rouca e firme.

Emanuel caminhou até Eduarda e, sem dizer uma palavra, pegou sua mão, ajudando-a a levantar com uma delicadeza quase possessiva. Ele a posicionou diante da parteira, mantendo o braço firme ao redor da cintura dela, como se pudesse protegê-la de qualquer veredito.

Dona Zefa não usou estetoscópio. Ela se aproximou de Eduarda, fechou os olhos e começou a passar as mãos sobre a barriga da jovem, sem tocá-la de fato no início, apenas sentindo o calor. Depois, suas mãos calejadas pressionaram pontos específicos com uma precisão cirúrgica.

O silêncio na varanda era absoluto. Até Ágata parou de se mexer, observando a cena com olhos atentos.

— O menino é fogo, quer sair rasgando o mundo — disse a parteira, os olhos ainda fechados. — A menina é água, está segurando o irmão para ele não se apressar.

Dona Zefa abriu os olhos e encarou Eduarda. O brilho neles era intenso, quase doloroso. Ela desceu o olhar para os pulsos de Eduarda e depois para a veia que pulsava em seu pescoço.

— O corpo é doce, mas o vaso é fino — sentenciou a mulher, voltando-se para Emanuel. — Ela está forte agora, mas o parto desses dois vai exigir um preço que o corpo dela não está pronto para pagar.

Emanuel sentiu um frio gélido percorrer sua espinha.

— O que você está querendo dizer com isso? — A voz dele saiu baixa, perigosa. — Ela tem os melhores médicos, terá a melhor equipe de São Paulo.

— Médicos cortam e costuram, Emanuel — disse Dona Benedita, intervindo com a autoridade de quem já viu gerações nascerem naquela terra. — Zefa está vendo o que o bisturi não alcança.

— O sangue dela é ralo para dois — continuou Zefa, ignorando a interrupção. — Se ela for para um hospital frio, cheirando a remédio e cercada de máquinas, o coração dela vai se perder no meio do caminho. Qualquer deslize, qualquer pressa de médico para acabar logo o serviço, e ela morre na mesa, deixando os pequenos órfãos.

Eduarda sentiu o mundo girar. Suas pernas fraquejaram e ela se apoiou totalmente no peito de Emanuel. O medo, que antes era uma sombra, agora era um monstro gigante diante dela.

— Você está louca? — Emanuel explodiu, o controle finalmente se esvaindo. — Você está vindo aqui para assustar a minha mulher? Eu vou levá-la para o melhor hospital do país! Ela vai ter segurança!

— A segurança dela está nesta terra — rebateu Zefa, sem se abalar com o grito do homem. — Ela precisa ter os bebês aqui, na fazenda. Com o tempo da natureza, com as ervas que firmam o sangue e com as mãos de quem conhece o mistério do nascimento. Se levá-la para a cidade, você vai trazer dois filhos em caixas de vidro e uma mulher num caixão de madeira.

— Chega! — Emanuel rugiu, apontando o dedo para a saída. — Saiam todos daqui! Agora!

Dona Zefa apenas balançou a cabeça, guardando o rosário no bolso do avental.

— O destino não se apaga com gritos, rapaz. Pense bem. O amor que você tem por ela é o que pode matá-la se você for teimoso demais.

A parteira se retirou, seguida pela mãe de Emanuel, que lançou um olhar de profunda preocupação para o filho. Dona Benedita permaneceu por um momento, encarando Emanuel.

— Ela nunca errou, Emanuel. Nem uma única vez em cinquenta anos — disse a avó, antes de entrar na casa.

Emanuel respirava com dificuldade, o peito subindo e descendo. Ele olhou para Eduarda, que chorava silenciosamente contra seu peito, os ombros pequenos tremendo sob o peso da profecia.

— Manu... — ela soluçou, a voz quase inaudível. — Eu estou com medo. Eu não quero morrer.

— Você não vai morrer! — Ele a apertou com tanta força que ela gemeu baixinho. — Eu não vou deixar. Eu contrato a equipe inteira do hospital, eu trago uma UTI móvel para cá se for preciso, mas você vai ficar bem.

Sara, que assistira a tudo em silêncio, levantou-se. Ela entregou Ágata para a babá que aguardava na sombra e caminhou até o casal. O rosto de Sara estava sério, despido de sua máscara habitual de vulgaridade e deboche.

— Emanuel, para de ser um brutamontes por um segundo e escuta — disse ela, a voz firme. — Eu não acredito em misticismo, você sabe disso. Eu acredito em números e fatos. Mas eu vi o rosto daquela mulher. Ela não está brincando.

— Você também, Sara? — Emanuel olhou para ela com desprezo. — Vai dar ouvidos a uma curandeira de beira de estrada?

— Eu dou ouvidos ao que pode salvar a vida da Duda! — Sara rebateu, dando um passo à frente, sem se intimidar com o tamanho dele. — Olhe para ela! Ela está apavorada. Se você forçar a barra e levá-la para São Paulo contra a vontade dela, o estresse sozinho vai matá-la antes mesmo do parto.

Emanuel passou a mão pelo rosto, sentindo-se encurralado. Ele sempre resolvera tudo com dinheiro, influência e força de vontade. Mas ali, diante da fragilidade de Eduarda e da imensidão daquela terra, ele se sentia pequeno.

— Eu quero o melhor para ela — ele murmurou, a voz quebrada pela primeira vez.

— Então talvez o melhor não seja o que você acha que é — disse Sara, colocando a mão no ombro de Eduarda. — Duda, olha para mim.

Eduarda levantou os olhos marejados.

— Se você quiser ficar aqui, eu fico com você — prometeu Sara, e o choque daquela afirmação fez até Emanuel parar de respirar por um segundo. — Eu trago meu escritório para cá, eu gerencio os estúdios por satélite, mas eu não deixo você sozinha com essas velhas e essas ervas. Se for para ter esses bebês no meio do mato, a gente transforma este lugar num hospital de luxo, mas com a paz que essa doida diz que você precisa.

Eduarda olhou de Sara para Emanuel. Ela se sentia dividida. A ideia de ter um parto em casa a assustava, mas a imagem de um hospital frio, onde ela se sentia apenas mais um número, parecia subitamente muito mais perigosa após as palavras de Zefa.

— Eu... eu confio na Dona Benedita — disse Eduarda, a voz ganhando um pouco de firmeza. — E eu sinto que... talvez a cidade seja barulhenta demais para a Maya e para o Arthur.

— Você está dizendo que quer ficar? — Emanuel perguntou, a voz carregada de incredulidade. — Eduarda, é a sua vida!

— É a nossa vida, Manu — ela corrigiu, tocando o rosto dele com a mão trêmula. — Se aquela mulher viu algo... eu não quero arriscar. Por favor. Fica aqui comigo. Não me obriga a ir para aquele hospital.

Emanuel fechou os olhos, sentindo uma dor lancinante no peito. O controle era sua âncora, e agora ele estava sendo obrigado a soltá-la em mar aberto. Ele olhou para a barriga de Eduarda, onde seus dois herdeiros cresciam, e depois para a mulher que ele amava com uma intensidade que beirava o doentio.

— Se eu fizer isso — começou Emanuel, o tom voltando a ser o de um comandante planejando uma guerra —, eu vou transformar esta fazenda em uma fortaleza. Ninguém entra, ninguém sai sem minha permissão. Eu vou trazer médicos para ficarem de prontidão na vila vizinha, e se eu sentir que algo está errado por um segundo que seja, eu te coloco num helicóptero e te levo, nem que seja amarrada. Entendido?

Eduarda assentiu, sentindo um alívio imediato banhar seu corpo.

— Entendido.

— Ótimo — disse Sara, recuperando sua postura habitual e cruzando os braços, o que fez seus seios siliconados se destacarem sob a seda. — Agora que decidimos que vamos virar camponeses de luxo, Emanuel, trate de providenciar uma antena de internet decente para este fim de mundo. Eu tenho uma empresa para tocar e não vou ficar dependendo de sinal de fumaça enquanto espero a Duda parir.

Emanuel não respondeu a Sara. Ele apenas puxou Eduarda para um abraço protetor, olhando para o horizonte. Ele sentia que estava entrando em um território onde suas tatuagens e seu dinheiro não tinham poder. Ali, o que mandava era o sangue, a terra e a vontade indomável das mulheres que o cercavam.

Pela primeira vez em sua vida, Emanuel não era o mestre do destino. Ele era apenas um homem, esperando que o tempo fosse piedoso com o que ele tinha de mais precioso.

— Você vai ficar bem, pequena — ele sussurrou contra o cabelo dela, embora estivesse tentando convencer a si mesmo. — Eu não vou deixar o mundo te levar de mim.

Lá dentro da casa, o som de um chocalho de prata indicava que Ágata havia encontrado um novo brinquedo, enquanto Dona Benedita acendia uma vela para a saúde da nora e dos bisnetos. A profecia de Dona Zefa pairava no ar como o perfume das damas-da-noite que começavam a abrir: doce, inebriante e perigosamente fatal. O destino de Eduarda, Arthur e Maya estava agora selado às raízes daquela fazenda, e o inverno que se aproximava prometia ser o mais longo da vida de Emanuel.