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O Asfalto, o Sangue e a Redenção
— Arthur, por favor, solte o cabelo da sua irmã! — Emanuel exclamou, sua voz ecoando dentro da caminhonete blindada com um tom que misturava exaustão e autoridade.
No banco de trás, o caos era absoluto. Arthur, com seus dois anos e uma energia que parecia alimentada por baterias nucleares, segurava uma mecha do cabelo castanho de Maya. A menina, que era a imagem esculpida de Eduarda em miniatura, não revidava com violência; em vez disso, choramingava baixinho, escondendo o rosto no ombro da mãe.
— Vem cá, meu amor, a mamãe protege — sussurrou Eduarda, puxando Maya para o colo.
Eduarda parecia ter florescido nos últimos dois anos. O ar da fazenda e a maternidade haviam lhe dado uma confiança silenciosa, embora ela continuasse sendo o porto seguro e sensível da família. Ela usava um vestido de malha leve e trazia Arthur preso ao peito em um movimento coordenado, tentando acalmar o "furacão" que só sossegava quando sentia o calor dela.
— Esses dois são um pesadelo logístico — Sara comentou, retocando o batom vermelho no banco do passageiro.
Sara não havia mudado quase nada. Continuava exuberante, com suas curvas realçadas por roupas que desafiavam o decoro rural e uma língua afiada que era o terror dos administradores de Emanuel. No entanto, havia uma sombra de frustração em seus olhos claros. Por mais que ela tentasse comprar o afeto dos gêmeos com brinquedos caros e roupas de grife, Arthur e Maya a olhavam como se ela fosse uma alienígena.
— Eles não te odeiam, Sara — Emanuel disse, notando o olhar da loira pelo retrovisor. — Só são… seletivos.
— Eles são esnobes, isso sim — Sara bufou, guardando o espelho na bolsa de couro de crocodilo. — Puxaram à Ágata, mas sem o meu bom gosto para alianças. Ágata, pelo menos, sabe quem manda nesta hierarquia.
Ágata, agora com quase quatro anos, estava sentada em sua cadeirinha de luxo, ignorando os irmãos menores enquanto mexia em um tablet educativo. Ela era a personificação da calma blasé, uma ilha de indiferença no meio do oceano de choro e gritos dos gêmeos.
De repente, um estalo metálico seguido de um chiado sinistro vindo do motor interrompeu a discussão. A caminhonete deu um solavanco violento e a fumaça branca começou a subir pelo capô. Emanuel amaldiçoou entre dentes, jogando o veículo para o acostamento de terra de uma rodovia estadual que parecia ter sido esquecida por Deus.
— O que foi isso? — Eduarda perguntou, apertando os gêmeos contra si.
— O motor abriu o bico — Emanuel respondeu, saindo do carro e batendo a porta.
Ele abriu o capô e foi recebido por uma lufada de calor e o cheiro acre de óleo queimado. Estavam no meio do nada, a quilômetros da cidade mais próxima, e o sol já começava a se esconder atrás das montanhas, trazendo aquele tom de azul escuro que precede a noite perigosa das estradas.
— Sem sinal de celular — Sara anunciou, saindo do carro e equilibrando-se em seus saltos agulha no terreno irregular. — Ótimo. Simplesmente maravilhoso. Emanuel, eu te disse para revisarmos a frota antes de sair da fazenda da sua mãe.
— O carro é novo, Sara! — Emanuel gritou de volta, o estresse finalmente rompendo sua barreira de calma. — Foi algum detrito na pista que rompeu a mangueira do radiador.
Meia hora depois, a situação era desesperadora. O único veículo que parou foi um caminhão de frete antigo, cujo motorista informou que não poderia rebocá-los, mas que havia um posto com rodoviária a dois quilômetros dali. Sem alternativa e com a noite caindo, Emanuel tomou a decisão que faria Sara ter um colapso nervoso: eles iriam a pé até o posto e pegariam o próximo ônibus de linha para São Paulo.
— Ônibus? — Sara quase gritou, a voz subindo uma oitava. — Emanuel, eu não entro em um ônibus desde que ganhei meus primeiros dez mil reais! E olha para este lugar! Isso aqui parece o cenário de um filme de terror slasher!
— É isso ou dormir no acostamento com três crianças — Emanuel sentenciou, pegando Maya no colo e passando o braço pela cintura de Eduarda, que carregava Arthur. — Vamos. Eu protejo vocês.
A caminhada até a rodoviária de beira de estrada foi um exercício de humilhação para Sara e de superação para Eduarda. Quando finalmente avistaram as luzes de neon tremeluzentes do posto "Estrela do Sul", o cenário não era encorajador. O lugar era um aglomerado de concreto encardido, com cheiro de óleo diesel frito e urina. No pátio, caminhoneiros cansados dividiam espaço com mulheres de roupas ínfimas e maquiagem pesada que circulavam entre as sombras.
Assim que Emanuel entrou na área iluminada, o burburinho começou. Ele era um homem impossível de ignorar: alto, de porte atlético, com os braços e o pescoço cobertos de tatuagens que exalavam poder e perigo. Mesmo carregando uma criança e guiando duas mulheres, ele emanava uma aura de predador alfa que atraía olhares imediatos.
— Ora, ora… olha o que o caminhão trouxe — disse uma mulher de minissaia de couro, encostada em uma bomba de combustível desativada. Ela soprou a fumaça do cigarro na direção de Emanuel, ignorando completamente Eduarda e Sara.
Emanuel não desviou o olhar. Ele caminhou direto para o guichê de passagens, mantendo seu grupo fechado, como uma falange romana.
— Quatro passagens para São Paulo. O próximo ônibus — ele ordenou ao atendente, que parecia mais interessado no decote de Sara do que no trabalho.
— Só daqui a quarenta minutos, patrão — respondeu o homem com um sorriso desdentado. — O ônibus de linha está atrasado.
Emanuel soltou um suspiro pesado e conduziu a família para os bancos de plástico da sala de espera aberta. Eduarda estava pálida, sentindo a energia hostil do lugar. Ela se sentou, mantendo os gêmeos grudados nela. Arthur, sentindo o medo da mãe, começou a chorar de novo, aquele choro manhoso que exigia atenção total.
— Shhh, a mamãe está aqui, Arthur — Eduarda sussurrou, começando a amamentá-lo ali mesmo, buscando no ato de nutrir uma forma de se isolar do ambiente.
Sara, por outro lado, estava em estado de guerra. Ela se sentou ao lado de Eduarda, mas sua postura era de uma leoa pronta para o bote. Seus olhos varriam o ambiente, detectando cada "profissional da noite" que se aproximava para avaliar Emanuel.
— Ei, bonitão… — uma loira oxigenada, com um vestido que parecia um cinto largo, aproximou-se de Emanuel, que estava de pé, vigiando a entrada. — Vi que seu carro quebrou. Se quiser descansar enquanto o ônibus não vem, tenho um quarto com ar-condicionado ali atrás. Posso fazer um preço especial para um homem tão… ilustrado.
Ela estendeu a mão para tocar o braço de Emanuel, mas antes que pudesse encostar na pele tatuada, Sara se levantou como uma mola.
— Tira a mão, antes que eu te ensine o que acontece com quem mexe no que é meu — Sara rosnou, a voz baixa e cortante como uma navalha.
A mulher recuou, surpresa com a agressividade da loira siliconada.
— Calma, madame. Só estava sendo hospitaleira.
— Guarde sua hospitalidade para os caminhoneiros que não têm família, sua baranga — Sara retrucou, os olhos faiscando. — Ele não está no seu cardápio, nem hoje, nem nunca.
Emanuel colocou a mão no ombro de Sara, aplicando uma pressão firme.
— Sara, senta. Não vale a pena.
— Não vale a pena? — ela se virou para ele, a indignação transbordando. — Essas mulheres estão se jogando em cima de você na frente da Duda e das crianças! E você fica aí, parado como uma estátua!
— Eu estou vigiando a retaguarda, Sara — ele respondeu, o tom de voz caindo para aquele registro baixo que ele usava quando a paciência estava no fim. — Se eu começar uma briga aqui, quem vai sofrer são eles. Agora, senta e fica perto da Eduarda.
Eduarda olhou para Emanuel com gratidão. Ela via o esforço dele para manter o controle. Ele era um homem de explosões, mas ali, naquele purgatório de beira de estrada, ele era o escudo. Ele se posicionou de forma que seu corpo bloqueasse a visão das prostitutas e dos curiosos, criando uma barreira física entre sua família e a sordidez do posto.
Maya, que estava no colo de Eduarda, começou a esticar os braços para o pai, choramingando. Emanuel a pegou, aninhando a pequena cabeça da filha no vão do seu pescoço. Era uma imagem de puro contraste: o tatuador rico e perigoso, cercado por prostitutas e perigo, acalentando uma criança com uma doçura infinita.
— Está tudo bem, Maya. O papai está aqui — ele murmurou.
— Manu… estou com medo — Eduarda confessou baixinho, olhando para um grupo de homens que começava a se reunir perto da lanchonete, lançando olhares cobiçosos para as joias de Sara e o relógio de Emanuel.
— Eu sei, pequena. Mas ninguém vai tocar em vocês. Eu prometo.
Os quarenta minutos pareceram quarenta anos. A cada minuto, a tensão aumentava. Sara era provocada pelas mulheres locais, que riam de seus saltos e de sua aparência "fina", enquanto Emanuel precisava manter a mão no bolso da jaqueta, onde guardava um canivete tático, pronto para qualquer movimento brusco dos homens que rodeavam o grupo.
Quando os faróis do ônibus de linha finalmente iluminaram o pátio, um suspiro coletivo de alívio partiu de Eduarda e Sara. O veículo era velho, barulhento e cheirava a poeira, mas para elas, parecia a carruagem da Cinderela.
Emanuel subiu primeiro, garantindo que os assentos no fundo estivessem vazios. Ele acomodou Eduarda e os gêmeos em um banco, e Sara com Ágata no banco da frente. Ele permaneceu no corredor, de pé, até que o ônibus desse a partida e as luzes do posto ficassem para trás.
O balanço do ônibus e o ronco do motor agiram como um sedativo. Arthur finalmente dormiu no peito de Eduarda, e Maya adormeceu no colo de Emanuel, que agora se sentara ao lado da namorada tímida.
Sara, exausta, encostou a cabeça no vidro da janela. Ela olhou para o lado e viu Emanuel segurando a mão de Eduarda com uma força que demonstrava todo o seu alívio.
— Emanuel? — Sara chamou baixinho.
Ele olhou para ela.
— Da próxima vez que você quiser "unir a família" no campo, por favor, compre um helicóptero novo. Eu não nasci para ser heroína de rodoviária.
Emanuel soltou uma risada curta e cansada.
— Pode deixar, Sara. Da próxima vez, a gente vai de jato.
— Acho bom — ela resmungou, fechando os olhos. — E Duda?
Eduarda levantou a cabeça, sonolenta.
— Oi, Sara?
— Você foi bem lá atrás. Não desmaiou nem nada. Talvez você esteja ficando forte morando com esse ogro.
Eduarda deu um sorriso doce, o primeiro daquela noite.
— Eu só estava tentando ser como você, Sara. Corajosa.
Sara paralisou por um segundo, a surpresa atravessando sua expressão antes de ela voltar à sua máscara de indiferença.
— É… bem. Alguém tem que ter sangue frio nesta família. Agora durmam. Eu vou ficar acordada vigiando as malas. Se alguém tentar roubar minha bolsa da Chanel, eu pulo deste ônibus em movimento.
Emanuel apertou a mão de Eduarda e beijou o topo da cabeça de Maya. O ônibus seguia pela estrada escura, cortando o interior rumo às luzes de São Paulo. Ali, naquele espaço apertado e desconfortável, entre o ronco do motor e o sono das crianças, Emanuel sentiu que, por mais caótica que fosse sua vida, ele tinha tudo o que precisava. Ele era o mestre de seu império de tinta, mas ali, ele era apenas o protetor de um amor dividido em duas faces — a doçura que o acalmava e o fogo que o mantinha alerta. E, de alguma forma, no meio do asfalto e do perigo, eles haviam se tornado, mais do que nunca, uma única e indestrutível vontade.