D
O Grito da Terra e o Silêncio da Tinta
A madrugada ainda não havia cedido lugar ao sol quando o primeiro gemido de Eduarda cortou o silêncio pesado da fazenda. Não foi um grito, mas um som baixo, gutural, que parecia vir das entranhas da terra. No quarto principal, onde o cheiro de lavanda e de antisséptico se misturavam em uma dança estranha, Emanuel despertou em um salto. Ele não dormia de fato há semanas; apenas cochilava, mantendo um olho no relógio e outro na respiração rítmica de sua "bonequinha".
— Manu... — sussurrou Eduarda, as mãos pequenas cravadas nos lençóis de fios egípcios que Emanuel fizera questão de trazer da cidade. — Está começando. Dói diferente agora.
Emanuel não perdeu tempo com perguntas. Ele acendeu o abajur, revelando o rosto de Eduarda banhado em suor frio. A pele dela, normalmente tão alva e suave, parecia esticada ao limite. Ele tocou a barriga monumental, sentindo a tensão da musculatura.
— Calma, eu estou aqui — ele disse, a voz rouca, tentando mascarar o pânico que subia por sua garganta. — Vou chamar a Zefa. E a Sara.
— A Sara não... — Eduarda tentou protestar, mas uma nova contração a dobrou ao meio, roubando-lhe o fôlego.
— A Sara sim — Emanuel rebateu com firmeza, já saindo do quarto. — Ela é a única que mantém a cabeça no lugar quando eu sinto que vou quebrar tudo.
Em menos de dez minutos, a casa colonial se transformou em um formigueiro humano sob a luz amarelada das lamparinas e lâmpadas de LED. Sara apareceu no corredor vestindo um robe de seda preta, os cabelos loiros presos em um coque apressado, mas ainda exalando uma aura de autoridade inabalável. Ela carregava um tablet em uma mão e uma garrafa de água mineral na outra.
— Já avisei a equipe médica na vila — disse Sara, cruzando o quarto com passos decididos. — O helicóptero está em alerta, mas o teto de nuvens está baixo. Emanuel, para de tremer. Você está deixando ela mais nervosa.
— Eu não estou tremendo — rosnou ele, embora suas mãos tatuadas estivessem visivelmente instáveis enquanto ele ajeitava os travesseiros de Eduarda.
Dona Zefa entrou logo em seguida. Ela não trazia aparelhos, apenas uma bacia de ágata, panos brancos fervidos e um maço de ervas que defumava o ambiente com um aroma terroso. Ela se aproximou da cama e ignorou Emanuel e Sara, focando apenas nos olhos castanhos e dilatados de Eduarda.
— O dia vai ser longo, passarinha — disse a parteira, tocando a testa da jovem com os dedos calejados. — O sol vai ter que cruzar o céu inteiro antes desses dois decidirem quem sai primeiro. O Arthur está empurrando, mas a Maya é quem guarda a porta.
As horas seguintes foram um teste de resistência que Emanuel nunca imaginou enfrentar. Acostumado a controlar impérios de tinta e negócios internacionais, ele se viu reduzido a um espectador impotente diante da biologia bruta. Eduarda alternava entre momentos de lucidez mansa e crises de dor que a faziam apertar os braços de Emanuel até deixar marcas roxas sobre suas tatuagens.
— Eu não consigo, Manu... — choramingava ela às dez da manhã, quando o calor do interior começava a abafar o quarto. — Me leva para o hospital, por favor... me dá aquela anestesia...
— Você consegue, sim! — Sara interveio, aproximando-se da cama. Ela pegou um leque e começou a abanar Eduarda com uma energia surpreendente. — Escuta aqui, Duda. Você é a mulher mais doce que eu já conheci, mas se você aguentou o Emanuel todos esses anos, você aguenta esses dois pirralhos. Não ouse desistir agora. Eu não vou criar três filhos do Emanuel sozinha porque você resolveu ser preguiçosa.
Eduarda soltou uma risada fraca em meio às lágrimas, olhando para a loira.
— Você é... tão vulgar, Sara — murmurou a jovem.
— Sou prática, querida. Agora respira — Sara limpou o suor do rosto de Eduarda com uma delicadeza que raramente mostrava. — Emanuel, vai beber um café. Você está com cara de quem vai enfartar e eu não quero dois cadáveres no meu tapete novo.
Emanuel se recusou a sair. Ele permaneceu ajoelhado ao lado da cama, sendo o pilar onde Eduarda se escorava. Ele sentia cada contração dela como se fosse em seu próprio corpo. O estresse acumulado o deixava rígido, mas o amor por aquelas duas mulheres — a que sofria na cama e a que comandava o quarto com mãos de ferro — era o que o mantinha em pé.
Ao meio-dia, a situação escalou. O ritmo do parto estagnou e o semblante de Dona Zefa tornou-se grave. Ela pediu que Emanuel e Sara saíssem por um momento para que ela pudesse realizar uma manobra manual.
No corredor, Emanuel socou a parede de madeira, o som ecoando pela casa vazia.
— Se acontecer algo com ela, Sara... se aquela velha errou...
— Ela não errou — Sara disse, embora sua voz tivesse perdido um pouco da confiança. Ela se encostou na parede, fechando os olhos. — Eu vi o monitoramento fetal que os médicos mandaram instalar escondido. Os batimentos estão estáveis, mas ela está exausta. O problema é a exaustão, Emanuel. A Duda é feita de vidro, e esses bebês são feitos de ferro.
— Eu deveria ter levado ela para a cidade — ele lamentou, a voz embargada. — Eu fui um egoísta. Eu queria ela aqui, sob meu controle, e agora ela está morrendo.
— Cala a boca — Sara disse, abrindo os olhos e encarando-o com uma chama de fúria. — Ela não está morrendo. Ela está lutando. E se você desmoronar, ela desmorona junto. Ela se apoia em você, seu imbecil. Seja o homem que ela acha que você é.
Emanuel respirou fundo, recompondo-se. Ele olhou para Sara e, em um gesto raro, segurou a mão dela. As mãos de Sara, sempre tão cuidadas, estavam sujas de água e suor de Eduarda.
— Obrigado por estar aqui — ele disse baixinho.
— Eu faço parte disso tanto quanto você — ela respondeu, desviando o olhar, a vulnerabilidade passando rápido por seu rosto. — Agora vamos voltar lá.
O entardecer trouxe uma luz alaranjada que banhava o quarto, dando a tudo um aspecto de pintura renascentista. Eduarda estava no limite de suas forças. Seus lábios estavam secos e sua voz era apenas um sussurro de dor. Dona Zefa, incansável, mantinha-se entre as pernas da jovem, comandando o ritmo da natureza.
— Agora, passarinha! — gritou a parteira. — A Maya abriu o caminho! Empurra com a força da terra, menina!
Eduarda soltou um grito que pareceu rasgar o ar da fazenda. Emanuel a segurou por trás, servindo de encosto, enquanto Sara segurava as pernas de Eduarda, incentivando-a com palavras que oscilavam entre ordens administrativas e encorajamento materno.
— Vai, Duda! Agora! Expulsa essa menina! — gritava Sara.
Com um esforço que pareceu consumir o último resto de vida de Eduarda, um choro agudo e cristalino preencheu o quarto. Maya nasceu pequena, coberta por um verniz alvo, com uma mecha de cabelo castanho que já denunciava a herança da mãe.
— Uma rainha — anunciou Dona Zefa, entregando a bebê rapidamente para Sara, que a limpou com uma agilidade surpreendente, enquanto a parteira se voltava imediatamente para o ventre de Eduarda. — Não para! O Arthur não quer ficar sozinho!
O nascimento de Arthur foi diferente. Ele era maior, mais robusto, e parecia lutar contra o mundo antes mesmo de respirar o ar de fora. Eduarda, no entanto, estava desfalecendo. Seus olhos começaram a virar, e o aperto em torno das mãos de Emanuel afrouxou.
— Duda! Olha para mim! — Emanuel gritou, o pânico voltando com força total. — Eduarda, não fecha os olhos! O Arthur precisa de você! Eu preciso de você!
— Ela está perdendo muito sangue, Zefa! — Sara exclamou, percebendo a coloração dos panos.
Dona Zefa não se abalou. Ela pegou um frasco com um líquido escuro e forte, passando sob o nariz de Eduarda, ao mesmo tempo em que pressionava um ponto nervoso em sua coxa.
— Acorda, menina! — a velha ordenou com uma voz que parecia vir de outro mundo. — O seu filho quer o seu peito! Não deixe ele no frio!
Eduarda deu um solavanco, o cheiro forte das ervas trazendo-a de volta do abismo. Ela olhou para Emanuel, viu as lágrimas escorrendo pelo rosto do homem que ela considerava invencível, e encontrou uma reserva de força que nem ela sabia que possuía. Com um último esforço hercúleo, um rugido de dor e libertação, Arthur veio ao mundo.
Ele não chorou de imediato. O quarto ficou em um silêncio sepulcral por cinco segundos que pareceram séculos. Emanuel parou de respirar. Sara estancou o movimento de limpar Maya. Então, Arthur soltou um grito potente, um som de autoridade que fez Ágata, no quarto ao lado, começar a chorar em resposta.
— Dois — suspirou Dona Zefa, sentando-se no banquinho, exausta. — A terra deu, a terra protegeu.
Emanuel desabou sobre a cama, soluçando sem controle, com o rosto escondido no pescoço de Eduarda. Ela, embora pálida como um fantasma, tinha um sorriso de paz absoluta nos lábios.
— Eles estão aqui, Manu... — sussurrou ela, as mãos trêmulas buscando os filhos.
Sara aproximou-se com os dois bebês enrolados em mantas de lã fina. Ela colocou Maya no braço esquerdo de Eduarda e Arthur no direito. A cena era um contraste absurdo: a fragilidade de Eduarda, a força bruta de Emanuel ajoelhado ao lado, e Sara, a loira exuberante e vulgar, observando-os com uma expressão de triunfo e uma ponta de algo que parecia muito com carinho familiar.
— Viu só? — Sara disse, limpando uma lágrima teimosa que estragava sua maquiagem cara. — Eu disse que você conseguia. Mas aviso logo: o Arthur tem a sua cara, Emanuel. Ele já nasceu com cara de quem vai me dar trabalho na contabilidade daqui a vinte anos.
Emanuel levantou a cabeça, olhando para os filhos e depois para Sara. Ele estendeu a mão e puxou Sara para perto, envolvendo-a no abraço que já continha Eduarda e os bebês. Por um momento, não havia disputas, não havia ciúmes, não havia o estresse dos estúdios ou a pressão da sociedade. Havia apenas aquele núcleo estranho e funcional que eles haviam construído.
— Obrigado — Emanuel disse, olhando para as duas. — Obrigado por não me deixarem perder a cabeça.
— Alguém tem que mandar nesta casa, querido — Sara respondeu, recuperando seu tom irônico, embora não se afastasse do abraço. — E agora que somos seis, contando com a Ágata e a sua avó maluca, eu vou precisar de um aumento na verba de administração.
Eduarda riu baixinho, sentindo o calor de Emanuel de um lado e a presença vibrante de Sara do outro. Ela olhou para Maya e Arthur, sentindo que, apesar de todo o medo e da profecia de Dona Zefa, ela finalmente havia encontrado seu lugar. Ela não era mais apenas a namorada tímida que morava com os pais; ela era a mãe de dois herdeiros, o coração calmo de um império turbulento.
A noite caiu sobre a fazenda, mas desta vez o silêncio era de descanso. Dona Zefa retirou-se para a cozinha para tomar um café forte com Dona Benedita, deixando os três jovens com seus novos tesouros.
Emanuel, sentado na beira da cama, observava Eduarda amamentar Arthur enquanto Sara segurava Maya, balançando-a com uma naturalidade que chocaria qualquer um que a visse em um evento social. Ele percebeu que o controle que ele tanto buscava nunca viria da força ou do dinheiro, mas daquela harmonia frágil e preciosa que acabara de nascer no sangue e no suor.
— Você vai morar aqui agora, não vai? — Emanuel perguntou, a voz suave, quase com medo da resposta.
Eduarda olhou para os filhos, para o quarto que agora cheirava a vida nova, e para Sara, que lhe deu um aceno encorajador com a cabeça.
— Eu já estou em casa, Manu — ela respondeu.
E, pela primeira vez em anos, Emanuel sentiu que podia finalmente relaxar. A tinta de sua vida estava seca, e o desenho que se formava era muito mais complexo e bonito do que qualquer tatuagem que ele já tivesse criado. A dinastia estava completa, e o futuro, embora certamente barulhento e caótico, era inteiramente deles.