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O Prenúncio da Tempestade e o Sussurro da Bruxa

O som da chuva batendo contra o telhado de telhas de barro da fazenda era agora um ruído constante, quase hipnótico. O que deveria ser um pernoite forçado transformou-se em um isolamento completo. A notícia vinda do rádio de pilha na cozinha, entre chiados e interferências, era desanimadora: a estrada principal sofrera uma queda de barreira e a ponte que ligava a propriedade à rodovia estava submersa.

Emanuel observava a água escorrer pelos vidros da janela da sala, o rosto endurecido pela frustração. Ele era um homem de ação, de controle. Estar preso em uma casa de campo, dependendo da hospitalidade alheia e da clemência do clima, fazia seus nervos vibrarem como cordas de violão esticadas demais.

— Não adianta olhar, Manu. A natureza não segue suas ordens de serviço — disse Sara, surgindo atrás dele. Ela usava um vestido de malha preta, curto e justo, que contrastava com a estética rústica da casa. Seus seios, acentuados pelo silicone e pelo decote, moviam-se com confiança enquanto ela se aproximava para massagear os ombros tensos do namorado.

— Preciso voltar, Sara. Tenho o lançamento do novo estúdio em Berlim na próxima semana. A logística está toda na minha mão — ele murmurou, embora o toque dela o fizesse relaxar minimamente.

— A logística administrativa está na *minha* mão, e eu estou aqui — Sara rebateu com um sorriso irônico, dando um beijo no pescoço dele. — Relaxe. O mundo não vai parar de se tatuar porque você está preso no interior. Além disso, as meninas estão bem. Ágata está encantada com os primos correndo pela casa, e Maya... bom, Maya encontrou sua babá de luxo.

Emanuel virou o rosto para o canto da sala. Eduarda estava sentada em uma poltrona de vime, com Maya aninhada em seu colo. A bebê de oito meses, geralmente tão arisca e chorona com estranhos, segurava um dos dedos de Eduarda com sua mãozinha gorda, enquanto a jovem lia em voz baixa um livro de poesias. A luz suave da tarde nublada iluminava o perfil delicado de Eduarda, realçando a doçura de seus traços e a castanho profundo de seus cabelos.

O coração de Emanuel deu um solavanco. Era uma visão de paz absoluta. Ele amava Sara por sua ferocidade, por sua competência e pela química explosiva que compartilhavam, mas Eduarda despertava nele um instinto protetor quase primitivo. Ele queria envolver aquela fragilidade, garantir que nada a machucasse.

A mãe de Eduarda, Dona Helena, entrou na sala com um semblante preocupado, limpando as mãos em um avental.

— Duda, querida, eu estava conversando com seu pai. Estamos preocupados com a Dona Generosa. Ela mora sozinha no vale e, com essa chuva, o riacho pode ter subido demais.

Eduarda levantou os olhos do livro, a expressão tingida de uma ansiedade imediata.

— Ela está bem, mamãe? A senhora acha que aconteceu algo?

— Não sabemos, por isso preciso que você vá até lá. Leve sua prima Lúcia. Vocês conhecem a trilha alta que não alaga. Só para ver se ela precisa de mantimentos ou se a casa resistiu bem.

Emanuel, que até então apenas observava, deu um passo à frente, a voz soando mais autoritária do que pretendia.

— Ir até lá agora? Com essa chuva? É perigoso.

Dona Helena olhou para Emanuel com uma mistura de surpresa e cortesia.

— É apenas uma caminhada de vinte minutos pela mata, senhor Emanuel. As meninas conhecem o caminho desde pequenas. Dona Generosa é uma senhora de idade, vive isolada. O povo da região a chama de "bruxa", sabe? Mas ela é apenas uma conhecedora de ervas e curas. Não podemos deixá-la sem assistência.

— Eu vou com elas — afirmou Emanuel, cruzando os braços.

Sara soltou uma risada curta, encostando-se no batente da porta.

— Você, Manu? No meio da lama? Você não aguenta cinco minutos sem sinal de internet, imagina subindo morro para visitar uma curandeira. Deixe a menina ir. Ela é daqui, você é um turista.

Emanuel lançou um olhar severo para Sara.

— Não é questão de ser turista, Sara. O terreno está instável. Se houver um deslizamento, o que essas duas garotas vão fazer?

Eduarda levantou-se com cuidado, entregando Maya para os braços de Sara, que pegou a filha com uma eficiência técnica, embora sem a mesma ternura que a jovem demonstrava.

— Eu ficarei bem, Emanuel — disse Eduarda, aproximando-se dele. Ela falou baixo, quase num sussurro, sua timidez lutando contra a intensidade do olhar dele. — Eu conheço cada pedra daquele caminho. E a Dona Generosa... ela é importante para nós. Ela me ajudou muito quando eu era criança e vivia doente.

Emanuel sentiu o cheiro de lavanda que emanava dela, misturado ao cheiro de bebê de Maya. Ele sentiu uma vontade avassaladora de segurá-la pelos ombros e proibi-la de sair, mas sabia que não tinha esse direito. Não ainda.

— Se você não voltar em uma hora, eu vou atrás de você — declarou ele, a voz rouca.

Eduarda corou, os olhos brilhando com uma emoção que ela não conseguia esconder.

— Eu volto logo. Prometo.

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A trilha era densa e o som da chuva nas folhas das árvores criava uma atmosfera de isolamento total. Eduarda e sua prima Lúcia caminhavam com botas de borracha, protegidas por capas de chuva pesadas. Lúcia, uma jovem mais expansiva, não parava de falar.

— Você viu o jeito que aquele homem olha para você, Duda? Meu Deus, se eu tivesse um homem daqueles me olhando assim, eu já teria desmaiado.

— Não diga bobagens, Lúcia — Eduarda respondeu, embora seu coração estivesse acelerado. — Ele é casado. Ou quase isso. E tem duas filhas.

— E a mulher dele? — Lúcia continuou, ignorando o tom de reprovação da prima. — Ela parece uma boneca de plástico. Bonita, claro, mas... assustadora. Ela percebeu, sabia? Ela viu ele quase te devorando com os olhos na cozinha e nem piscou. Gente rica é esquisita.

Eduarda preferiu o silêncio. Ela se sentia confusa. Emanuel era a personificação de tudo o que a assustava e, ao mesmo tempo, a atraía. Ele era sólido, imponente, um homem que parecia carregar o peso do mundo sem vacilar. E o jeito com que ele a tratava, como se ela fosse algo precioso e quebrável, fazia com que ela se sentisse vista de uma maneira que ninguém jamais a vira.

Chegaram à cabana de Dona Generosa pouco depois. A casa era pequena, coberta de trepadeiras e ervas penduradas na varanda para secar. O cheiro de terra molhada e fumaça de lenha pairava no ar.

— Dona Generosa? — chamou Eduarda, batendo na porta de madeira desgastada.

A porta se abriu lentamente, revelando uma mulher de idade indefinida, com cabelos brancos longos e olhos de um azul tão pálido que pareciam quase brancos. Ela usava um xale pesado e um colar de pedras brutas.

— Eu sabia que você viria, pequena Eduarda — disse a velha, a voz soando como o atrito de pedras. — Mas não esperava que trouxesse o rastro de uma tempestade tão grande com você.

— Viemos ver se a senhora está bem, o riacho subiu muito — explicou Eduarda, entrando na casa enquanto Lúcia ficava na soleira, visivelmente desconfortável.

A velha senhora ignorou a pergunta. Ela caminhou até Eduarda e segurou suas mãos, fechando os olhos.

— Há um homem na casa dos seus avós. Um homem marcado na pele e na alma.

Eduarda estremeceu.

— É o Emanuel. O carro dele quebrou.

— Ele é um colecionador de almas, criança. Ele desenha a dor e a beleza nos outros, mas não sabe o que fazer com a própria sede. Ele quer você — Generosa abriu os olhos, encarando Eduarda com uma intensidade perturbadora. — E você, que é feita de água e lua, acha que pode saciar um fogo que queima há séculos.

— Eu não... eu não sei do que a senhora está falando — gaguejou Eduarda, tentando puxar as mãos, mas a velha tinha uma força surpreendente.

— Cuidado com a loira. Ela não é sua inimiga, mas ela é a âncora dele. Se você entrar nesse barco, terá que aceitar o mar revolto. Ele não vai escolher, Eduarda. Homens como ele não escolhem, eles conquistam e mantêm.

Lúcia interveio, nervosa.

— Duda, vamos embora. A senhora está bem, já vimos. A chuva está apertando.

Dona Generosa soltou as mãos de Eduarda e sorriu, um sorriso sem dentes que parecia carregar séculos de sabedoria.

— Vá, pequena. Mas leve isso.

Ela entregou a Eduarda um pequeno amuleto de madeira entalhada com a figura de uma flor de lótus.

— Para que você não se perca no meio do que não é seu.

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Enquanto isso, na fazenda, a tensão entre Emanuel e Sara atingia um novo patamar. Eles estavam sozinhos na varanda coberta, observando a mata para onde Eduarda havia ido.

— Você está agindo como um adolescente apaixonado, Emanuel — disse Sara, acendendo um cigarro fino, sua expressão relaxada, quase divertida. — É patético.

— Eu me preocupo com as pessoas, Sara. Algo que você deveria tentar fazer de vez em quando — ele retrucou, sem desviar os olhos da trilha.

— Ah, por favor. Eu me preocupo com o que importa. Eu me preocupo com o lucro dos nossos estúdios, com o futuro das nossas filhas e com o fato de que você precisa de uma válvula de escape para esse seu complexo de herói — ela caminhou até ele, parando ao seu lado. — Eu já disse: eu não ligo. Ela é doce, é útil com a Maya e olha para você como se você fosse um deus. Se você quiser tê-la, tenha. Mas não perca a cabeça.

Emanuel virou-se para ela, os olhos em brasa.

— Você fala como se ela fosse um objeto, um novo equipamento de tatuagem que eu quero comprar.

— E para você, ela é o quê? — Sara arqueou a sobrancelha perfeitamente desenhada. — Uma alma gêmea? Emanuel, você é um homem prático. Você gosta do que eu te dou: estabilidade, sexo incrível, inteligência e o controle do seu império. Mas você também é um protetor nato. Eduarda é o projeto perfeito para você. Alguém para salvar, para cuidar, para moldar. Eu aceito dividir o tempo, mas não aceito perder o controle.

Emanuel sentiu uma mistura de asco e admiração pela frieza de Sara. Ela era sua parceira de crime, a mulher que entendia seus instintos mais sombrios. Mas Eduarda... Eduarda era a luz que ele não sabia que desejava. Ele não queria apenas "tê-la". Ele queria protegê-la do mundo, inclusive da influência cínica de Sara.

— Ela está demorando — ele disse, ignorando o discurso da namorada.

— Faz quarenta minutos, Manu. Controle-se.

Nesse momento, dois vultos apareceram na orla da mata. Eduarda e Lúcia vinham apressadas, encharcadas pela chuva que agora caía torrencialmente.

Emanuel não hesitou. Ele saltou da varanda, ignorando a cobertura, e correu ao encontro delas. Sara ficou para trás, soltando a fumaça do cigarro com um sorriso de canto, observando a cena como se assistisse a um filme interessante.

— Eduarda! — ele exclamou, alcançando-a e segurando-a pelos braços. — Você está bem? Por que demoraram?

— Eu estou bem, Emanuel, sério — ela disse, tremendo de frio. A capa de chuva não fora suficiente para impedir que o frio penetrasse em seus ossos.

Ele não disse mais nada. Simplesmente a pegou nos braços, levantando-a do chão como se ela não pesasse nada. Eduarda soltou um pequeno grito de surpresa, envolvendo o pescoço dele com as mãos instintivamente.

— Emanuel, eu posso andar! — ela protestou, o rosto colado ao peito dele, sentindo o calor que emanava de seu corpo musculoso através da camisa molhada.

— Você está gelada — ele rosnou, a voz vibrando contra o peito dela. — Não vou arriscar que você fique doente.

Ele a carregou por todo o caminho até a varanda e para dentro de casa, sob os olhares curiosos dos primos e tios que estavam na sala. Sara abriu a porta para eles, sua expressão de deboche substituída por uma máscara de cortesia administrativa.

— Leve-a para o quarto, Emanuel. Eu vou pedir para Dona Helena preparar um banho quente e um chá — disse Sara, assumindo o comando da situação. — Lúcia, você também, vá se trocar.

No quarto de hóspedes, Emanuel colocou Eduarda no chão com uma relutância visível. Ele pegou uma toalha que estava sobre a cama e começou a secar o rosto dela com uma delicadeza que contrastava com seu tamanho.

— Você me assustou — ele confessou, os olhos fixos nos dela.

— Não precisa se preocupar tanto comigo — ela sussurrou, sentindo a eletricidade entre eles. — Eu sou mais forte do que pareço.

— Eu sei que é. Mas eu não gosto da ideia de você estar em lugares onde eu não possa te alcançar.

Eduarda sentiu o amuleto de madeira em seu bolso, as palavras de Dona Generosa ecoando em sua mente: *“Ele não vai escolher. Ele conquista e mantém.”*

— A senhora Generosa... ela disse coisas estranhas — murmurou Eduarda, quase para si mesma.

— O que ela disse? — Emanuel perguntou, aproximando-se mais, sua mão descendo para o pescoço dela, o polegar acariciando a linha da mandíbula.

— Que você é um homem marcado. Que você quer me levar para o seu mundo.

Emanuel soltou um riso baixo, sombrio.

— Ela é uma mulher sábia, então. Porque é exatamente o que eu pretendo fazer.

Antes que Eduarda pudesse responder, Sara entrou no quarto com uma muda de roupas limpas e um bule de chá.

— Prontinho. Hora de cuidar da nossa pequena tradutora de arte — Sara disse, com uma voz falsamente doce que não escondia sua autoridade. — Emanuel, saia um pouco. Eu ajudo a Eduarda a se trocar. Ela está tremendo tanto que nem vai conseguir desabotoar o vestido.

Emanuel hesitou, olhando de Sara para Eduarda. O contraste era gritante: a loira exuberante e dominante, e a morena delicada e trêmula. Ele sentiu uma onda de possessividade sobre ambas, uma necessidade de manter aquele equilíbrio precário sob seu domínio.

— Estarei lá embaixo — disse ele, dando um beijo na testa de Eduarda e, em seguida, um beijo rápido e firme nos lábios de Sara.

Quando ele saiu, o silêncio no quarto tornou-se denso. Sara começou a ajudar Eduarda a tirar a capa de chuva, seus movimentos rápidos e práticos.

— Ele é intenso, não é? — Sara perguntou, sem olhar para ela. — O Emanuel não faz nada pela metade. Se ele gosta de uma tatuagem, ele a quer na pele para sempre. Se ele gosta de uma mulher... bom, ele dá um jeito de mantê-la por perto.

Eduarda olhou para Sara, sua timidez dando lugar a uma súbita intuição.

— Você não se importa, Sara? Por que você é assim?

Sara parou e olhou nos olhos de Eduarda. Havia uma inteligência fria ali, mas também algo que parecia quase cumplicidade.

— Eu sou uma administradora, Eduarda. Eu administro estúdios, finanças e a vida do homem que eu amo. Eu sei o que ele precisa antes mesmo dele saber. E agora, ele precisa de você. Ele precisa dessa sua doçura para não explodir com o estresse do mundo dele. E eu? Eu preciso dele focado e feliz para que nosso império continue crescendo.

— Mas... e eu? O que eu ganho nisso? — perguntou Eduarda, a voz falhando.

Sara sorriu, tocando o rosto de Eduarda com as unhas perfeitamente feitas.

— Você ganha a proteção do homem mais poderoso que já conheceu. Você ganha o amor de uma bebê que já te escolheu como mãe de alma. E você ganha a mim como aliada. Acredite, querida, é muito melhor ser minha aliada do que minha inimiga.

Eduarda sentiu um calafrio que não vinha do frio da chuva. Ela estava sendo atraída para um mundo de sombras e luzes intensas, um mundo onde as regras eram ditadas por paixão e poder.

Lá fora, a chuva continuava a cair, isolando a fazenda do resto do mundo. A estrada estava bloqueada, mas para Emanuel, o caminho nunca estivera tão claro. Ele tinha Sara ao seu lado para construir seu reino, e agora tinha Eduarda para dar sentido à sua paz.

A "bruxa" estava certa. A tempestade estava apenas começando, e ninguém sairia daquela fazenda da mesma forma que entrou. E no berço, em algum lugar da casa, Maya dormia tranquilamente, como se soubesse que, finalmente, sua família estava completa.