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Sombras na Cabana e Segredos de Lavanda

A noite caiu sobre a fazenda com uma densidade quase palpável. O som da chuva, que antes era um rugido, transformara-se em um tamborilar persistente e rítmico contra as janelas de madeira. Dentro da casa, o ar cheirava a café fresco, lenha queimada e o perfume doce de talco de bebê.

No andar de cima, no quarto amplo que Eduarda dividia com as primas durante as férias, o clima era de conspiração. Seguindo uma tradição que vinha desde a infância, elas haviam arrastado os colchões para o centro do quarto e usado lençóis de linho antigo, presos nos cantos das cômodas e cadeiras, para improvisar uma grande cabana.

— Cuidado para não soltar o nó desse lado, Lúcia! — sussurrou Eduarda, ajeitando uma das pontas do lençol.

— Relaxa, Duda. Essa estrutura aguenta até um furacão — respondeu Lúcia, rindo baixo enquanto espalhava almofadas de crochê pelo chão.

No centro daquela fortaleza de tecido, Maya estava sentada sobre um edredom macio. A bebê de oito meses parecia em transe, os grandes olhos castanhos acompanhando cada movimento das jovens com uma curiosidade silenciosa. Ela não chorava; desde que Eduarda a pegara no colo após o banho, Maya tornara-se uma extensão de sua presença.

— Ela é tão quietinha, né? — comentou Bia, a prima mais nova, de apenas quinze anos. — Nem parece irmã daquela outra, a Ágata. Aquela lá parece que tem um motor ligado no volume máximo.

— A Maya é especial — defendeu Eduarda, sentando-se ao lado da bebê e deixando que ela se apoiasse em suas pernas. — Ela só precisa de um ambiente calmo.

Nesse momento, a porta do quarto se abriu, deixando entrar um feixe de luz do corredor. Emanuel apareceu, sua silhueta alta e imponente preenchendo o batente. Ele já não usava a camisa molhada da tarde; agora vestia uma camiseta preta simples que marcava seus ombros largos e deixava à mostra as tatuagens que subiam pelo pescoço.

— Interrompo algo? — perguntou ele, a voz profunda ecoando no quarto silencioso.

— Estamos montando nossa cabana de histórias, Emanuel — explicou Eduarda, sentindo o rosto esquentar sob o olhar dele. — É uma tradição nossa.

Emanuel entrou no quarto, fechando a porta atrás de si. Ele caminhou até a borda da cabana de lençóis e observou a cena. Viu a filha, Maya, aninhada entre as pernas de Eduarda, e sentiu uma pontada de algo que beirava a possessividade e a gratidão.

— Vim ver se a Maya não estava dando trabalho. Sara está lá embaixo discutindo contratos de arrendamento com o seu avô e o seu pai. Ela disse que, já que estamos presos aqui, pode muito bem ajudar na administração da fazenda.

— Ela não para nunca, não é? — Lúcia perguntou, admirada.

— Nunca — Emanuel respondeu, sentando-se no chão, do lado de fora da cabana, mas perto o suficiente para que seus joelhos quase tocassem o tecido. — Sara é uma força da natureza. Mas a Maya... a Maya precisa de silêncio.

— Ela está ótima aqui — disse Eduarda, ganhando coragem. — Quer entrar?

Emanuel hesitou por um segundo. Ele era um homem rico, dono de um império, acostumado a ambientes luxuosos e reuniões tensas. Mas ali, sob lençóis remendados e luz de lanternas de pilha, havia algo que ele desejava desesperadamente. Ele se abaixou e engatinhou para dentro da cabana. O espaço ficou subitamente menor, preenchido por sua presença física e pelo cheiro de sândalo e chuva que ele carregava.

— Pronto — disse ele, ajeitando-se de forma que Eduarda ficasse entre ele e as primas. — Quais são as regras?

— Histórias de terror — anunciou Bia, com os olhos brilhando. — Cada uma conta uma. E tem que ser de dar medo de verdade.

— Eu começo — disse Lúcia, apagando a luz principal e deixando apenas uma lanterna pequena no centro, virada para cima, criando sombras longas e distorcidas no teto de tecido. — Vocês conhecem a lenda do Cavaleiro sem Rosto que ronda as matas dessa fazenda em noites de tempestade?

As meninas se aproximaram, e até Maya parecia prestar atenção, os olhos fixos na luz da lanterna. Lúcia começou a narrar uma história sobre um antigo tropeiro que se perdera naquelas terras e que, até hoje, buscava abrigo em casas onde houvesse luz acesa, mas que trazia consigo apenas o frio da morte.

Emanuel não prestava atenção na história. Ele observava Eduarda. Ela estava encolhida, os ombros levemente subidos, as mãos acariciando as costas de Maya de forma rítmica. Ele percebeu quando ela estremeceu em um ponto mais tenso da narrativa. Sem pensar, ele estendeu a mão e a colocou sobre o ombro dela, apertando-o levemente.

— É só uma história — sussurrou ele no ouvido de Eduarda.

Ela se inclinou para trás, encostando o peso do corpo no peito dele. Foi um movimento natural, uma busca por proteção que Emanuel acolheu com um prazer sombrio. Ele passou o braço pela cintura dela, puxando-a para mais perto, enquanto a outra mão de Eduarda continuava protegendo Maya.

— Minha vez — disse Bia, com a voz trêmula de empolgação. — Vou contar sobre a Noiva do Riacho. Dizem que ela aparece para homens que viajam sozinhos e os atrai para a água funda...

Enquanto as histórias se sucediam, o clima dentro da cabana tornava-se uma mistura de medo lúdico e uma tensão romântica sufocante entre os dois adultos. Emanuel sentia o calor de Eduarda, a maciez de sua pele e a fragilidade que ela emanava. Ela era o oposto de Sara. Sara era o sol do meio-dia, forte, ofuscante, impossível de ignorar. Eduarda era o luar, suave, misteriosa e reconfortante.

De repente, a porta do quarto se abriu novamente. Sara entrou, trazendo uma bandeja com canecas de chocolate quente. Ela parou, olhando para a cabana de lençóis e para os pés de Emanuel que saíam para fora dela.

— Mas o que é isso? Uma convenção de fantasmas? — Sara riu, sua voz vibrante quebrando instantaneamente a atmosfera de mistério.

Ela se abaixou e olhou para dentro da cabana. Viu Emanuel abraçado a Eduarda, com Maya no meio. Um observador comum veria uma traição, mas Sara apenas arqueou uma sobrancelha, um sorriso irônico brincando em seus lábios perfeitamente pintados de vermelho.

— Vejo que você encontrou seu lugar, Manu — disse ela, colocando a bandeja no chão. — Trouxe chocolate. Achei que as contadoras de histórias precisassem de energia.

— Obrigada, Sara — disse Eduarda, tentando se afastar de Emanuel, mas ele não soltou sua cintura imediatamente, mantendo a posse por mais alguns segundos antes de relaxar o braço.

Sara entrou na cabana também, empurrando Lúcia para o lado com uma elegância desleixada. Ela pegou Ágata, que vinha logo atrás dela, choramingando por atenção.

— Pronto, a família está toda reunida — disse Sara, sentando-se de pernas cruzadas. O decote de seu pijama de seda chamou a atenção de Bia e Lúcia, que olhavam para ela com uma mistura de choque e admiração. — Então, qual é a história agora? Alguma sobre mulheres loiras que perdem a paciência com maridos que se escondem em cabanas?

— Estávamos falando sobre a Noiva do Riacho — disse Lúcia, recuperando a voz.

— Bobagem — Sara descartou com um gesto de mão. — Querem uma história de terror de verdade? Vou contar sobre a vez em que um dos nossos estúdios em Londres foi invadido por uma gangue rival e eu tive que esconder três mil libras em dinheiro dentro de um saco de lixo enquanto o Emanuel resolvia as coisas na base da conversa... e de alguns socos.

As primas de Eduarda ficaram boquiabertas. Aquela não era uma história de fantasmas, era uma história de um mundo real e perigoso que elas não conheciam. Sara narrou a aventura com cores vivas, gesticulando com suas unhas longas, transformando o perigo em algo glamouroso.

Emanuel observava as duas mulheres. Sara, no centro das atenções, brilhando com sua vulgaridade sofisticada e sua competência feroz. E Eduarda, ao seu lado, em silêncio, sendo o porto seguro para sua filha mais sensível.

— Você gosta disso, não gosta? — sussurrou Sara para Emanuel, aproveitando que as meninas estavam discutindo os detalhes da história de Londres. — Ter as duas versões do mundo no mesmo metro quadrado.

— Eu não sei do que você está falando — Emanuel respondeu, embora sua voz o traísse.

— Sabe sim. E eu não te culpo. Ela é uma delícia de menina — Sara olhou para Eduarda, que estava distraída dando um gole no chocolate quente. — Mas lembre-se, Manu: ela é açúcar. E açúcar cansa depois de um tempo. Você sempre volta para o tempero forte.

Emanuel não respondeu. Ele olhou para Maya, que agora havia adormecido com a cabeça no colo de Eduarda. A mão da jovem acariciava os cabelos castanhos da bebê com uma ternura que Emanuel nunca vira em Sara. Sara amava as filhas, ele sabia, mas era um amor prático, de proteção e provisão. O amor de Eduarda era de entrega e alma.

— Eu quero as duas — pensou Emanuel, a clareza daquela percepção atingindo-o como um raio.

Ele não queria abrir mão da inteligência administrativa de Sara, de sua presença marcante e da história que construíram. Mas ele também não podia mais imaginar sua vida sem a doçura de Eduarda, sem o jeito manhoso dela e a forma como ela parecia completar as lacunas emocionais de sua família.

— Duda — chamou Emanuel, sua voz interrompendo a conversa das primas. — Maya dormiu. Eu vou levá-la para o berço.

— Eu levo — disse Eduarda, levantando-se com cuidado para não acordar a pequena.

— Eu ajudo — insistiu ele.

Os dois saíram da cabana, deixando Sara e as primas para trás. No corredor escuro, apenas iluminado por um abajur distante, o silêncio era absoluto. Eles caminharam até o quarto ao lado, onde o berço de Maya fora montado.

Eduarda colocou a bebê no colchão com movimentos lentos e precisos. Ela cobriu Maya com uma manta de lã e ficou ali por um momento, observando a respiração tranquila da criança.

Emanuel parou atrás dela. Ele sentiu a necessidade de tocá-la novamente. Suas mãos desceram para os ombros de Eduarda, e ele a virou lentamente para encará-lo.

— Você tem um dom, Eduarda — disse ele, a voz baixa e rouca. — Você trouxe paz para ela. E para mim.

— Eu só... eu gosto dela, Emanuel. Ela é tão sensível. Eu me vejo nela.

— Eu também vejo — ele sussurrou, encurtando a distância entre eles. — E é por isso que eu não consigo parar de olhar para você.

Eduarda olhou para cima, seus olhos expressivos cheios de uma confusão dolorosa.

— Isso é errado. A Sara está ali no quarto ao lado. Sua família...

— A Sara entende coisas que você ainda não compreende, pequena — ele disse, usando o apelido que a velha Generosa usara. — O que eu sinto por ela não diminui o que estou começando a sentir por você. Eu não sou um homem de meias verdades. Eu quero você na minha vida.

— Como? — ela perguntou, a voz quase sumindo. — Como sua amante? Como uma babá para suas filhas?

Emanuel segurou o rosto dela com as duas mãos, seus polegares acariciando as bochechas quentes.

— Como parte de tudo. Eu cuido do que é meu, Eduarda. E eu decidi que você é minha.

Ele a beijou. Não foi um beijo agressivo, mas foi carregado de uma promessa de posse e proteção. Eduarda tentou resistir por um segundo, suas mãos subindo para o peito dele para empurrá-lo, mas o calor dele e a segurança que ele emanava eram tentadores demais para sua natureza carente. Ela cedeu, soltando um pequeno suspiro contra os lábios dele, suas mãos agarrando a camiseta preta de Emanuel.

Eles se separaram quando ouviram passos no corredor. Era Sara, carregando Ágata no colo, que agora também dormia. Ela parou na porta do quarto de Maya e viu os dois próximos demais, o clima ainda vibrando entre eles.

— O chocolate está esfriando, crianças — disse Sara, com um tom de voz perfeitamente neutro, embora seus olhos brilhassem com uma satisfação calculada. — E as primas da Eduarda querem saber mais sobre as tatuagens do "tio" Emanuel.

Eduarda se afastou rapidamente, o rosto queimando de vergonha. Emanuel, porém, não desviou o olhar. Ele encarou Sara com um desafio silencioso.

— Já estamos indo, Sara — disse ele.

Sara deu um sorriso de lado, aquele sorriso que dizia que ela estava dez passos à frente de todos.

— Ótimo. Porque amanhã a chuva deve parar, e temos muito o que conversar sobre o futuro. Incluindo o que vamos fazer com a nossa nova... assistente.

Eduarda olhou de um para o outro, sentindo que sua vida tranquila de estudante de História da Arte acabara de ser engolida por um turbilhão. Ela olhou para Maya no berço, a bebê que era seu "grudinho", e soube que, não importava o quão perigoso fosse aquele caminho, ela já não conseguia mais voltar atrás.

A cabana de lençóis lá no outro quarto podia ser de brinquedo, mas a estrutura que Emanuel e Sara estavam montando ao redor dela era real, sólida e ineludível. E, pela primeira vez, Eduarda não se sentiu insegura. Sentiu-se, finalmente, capturada.